« Estou farta deste vírus! »

Photo : KaDDD

Et voilà, o dia 1 de maio também esteve de quarentena. A “fête du travail” celebra-se no país galo desde 1793 e é quase tão importante como o 14 de julho (dia nacional). Pela primeira vez, não houve festejos nem desfiles da CGT ou da “France Ouvrière”. Neste mesmo dia, celebra-se outra festa: a do muguet (lírio do vale) que remonta ao século XVI. Faz parte da tradição oferecer esta flor como símbolo de felicidade, prosperidade e boas colheitas. Tudo isto em torno de um almoço com a família ou os amigos, regado com bom vinho. O governo proibiu a venda do muguet, apesar da pressão exercida pelos supermercados, floristas, horticultores e outros. Uma premiére mal digerida por muitos que se sentiram nús sem a flor “du bonheur” apenas comparável à tristeza dos sindicatos sem as suas bandeiras na rua.

Certo dia, a Mathilde decretou: «não quero ouvir mais nada da Covid-19. Estou farta deste vírus!». Já nada me estranha por parte da minha filha que, aos 3 anos, me perguntou porque é que eu era “a única gorda da família”. Na altura, fiquei sem resposta e ela rematou com um “gosto muito de ti” sincero e um abraço apertadinho. A Mathilde é assim mesmo, direta, decidida, mas carinhosa. Sai mesmo à titi Jo! O Stan é o oposto; sensível, reservado, ponderado. Talvez por isso, não me tenha surpreendido ao dizer que “os adultos estão tão preocupados com a doença, o trabalho e o dinheiro que se esquecem de viver. Com medo, não avançam”. Parece que se puseram os dois de acordo no boicote ao coronavírus, cada um à sua maneira.

Estive tão concentrada em evitar ler notícias trágicas que perdi o discurso do primeiro-ministro Edouard Philippe na Assembleia Nacional. Não fui a única. E mesmo os que ouviram todas as medidas que serão aplicadas brevemente não perceberam quase nada, deputados incluídos. Sãs muitas as incoerências e poucas as certezas. O estado de emergência sanitária foi prolongado até 24 de julho. No entanto, o início da retoma económica será já a partir de 11 de maio. Resumindo:

  • Abertura dos pequenos comércios, bibliotecas e pequenos museus, com exceção dos que não puderem aplicar as regras de higiene e segurança (cafés e restaurantes não estão incluídos);
  • Abertura de jardins e parques públicos (somente nas regiões autorizadas);
  • Abertura do pré-escolar e do básico com base no voluntariado (?) e máximo de 15 crianças por sala (o secundário e as universidades ainda não têm data marcada);
  • Aumento gradual da circulação dos transportes públicos (sempre com máscara), mas preferível o uso dos transportes individuais (carro, trotinete, bicicleta);
  • Livre circulação sem atestado até 100 km do local de residência;
  • Restrição de convívios a 10 pessoas;
  • Favorecer, ao máximo, o regime de teletrabalho ou aplicar horários alternados nas empresas, a fim de evitar grande número de colaboradores ao mesma tempo.

Com o propósito de gerir da melhor forma possível o início do desconfinamento, o território francês vestiu-se com as cores da bandeira de Portugal. A partir de agora, França está dividida em três zonas: verde, amarela e vermelha. Estas foram atribuídas tendo em conta dois critérios: o número de casos de Covid-19 confirmados e a capacidade de resposta dos hospitais. Após várias polémicas, (ou não estivesse eu a viver num país onde queixar-se faz parte do ADN) o mapa tricolor foi apresentado oficialmente. Por sorte, a Bretanha está pintada com a cor da esperança, tal como, a Normandia, a costa Atlântica, o país Basco e a Côte d’Azur. De amarelo ficaram o centro e os Alpes. Quanto ao norte, à região do grande este e à Île de France foram cobertos pela cor do fogo e do sangue. Os habitantes de Bordéus, Nantes, Marselha ou Nice encontraram o trevo de quatro folhas. Os que vivem em Lyon, Grenoble ou Orléans são mais controlados. Por outro lado, Paris, Estrasburgo ou Lille são os frutos proibidos.

Tal como num jogo decisivo entre o Benfica e o Sporting, ainda está tudo em aberto. Até ao apito final muita coisa pode acontecer. O verde pode virar vermelho e vice-versa. Os franceses sonham com o regresso à vida de antes e queixam-se, cada vez mais, da privação de liberdade individual e coletiva. Ainda assim, o tão ansiado regresso à “normalidade” está em suspenso. Só nos resta esperar.

Filipa Moreira da Cruz
Maio 2020

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