Postais do meu país

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Já tive casa em cinco países diferentes, com línguas, culturas e valores muito próprios. Mas por muitas voltas que dê, o bairro onde passei a minha infância, adolescência e parte da vida adulta continua a ser especial. Como diz uma amiga, “Alvalade ao rubro!”. Sempre! Não sou particularmente bairrista, gosto do meu país por inteiro. No entanto, o que sou hoje devo-o, em parte, a todas as experiências vividas nessa zona da capital.

Vou regularmente a Portugal, mas evito, sempre que posso, o Verão. Gosto de trabalhar quando a maioria está de férias. Prefiro fazer várias escapadas de 4 ou 5 dias ao longo do ano. A última foi ao Porto, cidade que gosto quase tanto ou mais do que aquela onde nasci. Ninguém diria que estávamos em Janeiro. O sol e o céu azul constantes ajudaram-me a libertar-me do vento e das nuvens cinzentas que teimam em invadir a cidade onde vivo habitualmente. Vou ao meu país também pelo clima. Parece ridículo, mas não deixa de ser verdade. Apesar de tudo, a principal motivação são as pessoas.

Que alegria rever a M. ao fim de mais de 15 anos! Conhecemo-nos nas Canárias, onde trabalhamos juntas. Numa das ilhas espanholas, partilhamos fins de tarde na praia, churrascos e festas no chiringuito. Ela decidiu regressar às origens há uns anos e, contrariamente à minha tentativa fracassada, a vida em Portugal corre-lhe bem. Ao longo do jantar na cidade invicta parecia que o tempo não tinha passado. Voltamos a ser as miúdas de sempre e já prometemos rever-nos antes que uma de nós precise de usar andarilho. Aconteceu o mesmo com outras duas amigas num almoço em Santarém há uns anos. E também na reunião de Iscspianas num restaurante em frente à Gulbenkian e noutro no Parque das Nações.

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Lisboa, Óbidos, Batalha, Alcobaça, Tomar, Coimbra, Vila Nova de Milfontes, Porto, Faro, Castelo Branco, Guimarães… Sou nómada por natureza e viajo por gosto e por necessidade. Percorro o país de lés a lés para estar com os que mais importam. Herdei esta mania do meu pai, embora as razões não sejam as mesmas. Ele não conta os quilómetros para comer. É assim desde sempre. Quando éramos pequenos eu e os meus irmãos inventávamos jogos que nos mantinham ocupados durante o tempo passado no carro para o destino do almoço de sábado. A viagem parecia interminável até à mesa do melhor leitão da Bairrada, das bifanas de Vendas Novas, das tais migas de Mora ou dos ovos moles de Aveiro. E o pior era o regresso, de barriga cheia!

Cada vez que tenho um encontro marcado com familiares ou amigos redescubro cidades que me fascinam, vilas encantadas e gente acolhedora. Concentro-me apenas nas coisas boas porque estou de passagem. A minha vida está algures noutro sítio. Portugal deixou de ser a minha casa, mas continua a ser o meu porto seguro. A lista dos lugares que me encantam é longa, mas a cidade que me conquistou há muito tempo e continua a ser a minha preferida é Viana do Castelo. Tenho (quase) a certeza que seria a única do nosso país onde poderia viver. Até porque a vizinha Espanha está tão perto.

2020 é o ano das exceções. A nova normalidade obriga-nos a mudar de planos. Faremos o que for necessário para evitar o reconfinamento. Contrariando a regra, vou passar parte das férias do Verão a Portugal. Algo que já não acontece há tantos anos que nem me recordo da última vez. Chego a Lisboa e regresso do Porto. Dois aeroportos e um leque de possibilidades para desfrutar do melhor do país. Tudo é possível. Venham de lá esses abraços tão esperados. Com máscara, claro!

Filipa Moreira da Cruz
Janeiro 2020

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