Secret place

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Take me there
Whenever I’m sad
Leave me alone
If my pain is too heavy
And then, in my bank
I’ll just listen to the wind
That blows my hair
The sea has the power
To heal my wounds
The fresh grass
Gives me ground
Don’t worry if I’m lost
One day, I will be found.

Filipa Moreira da Cruz

Paradoxo

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Às vezes, julgo-me fútil
Outras, nem por isso
Por vezes, imagino-me imortal
Outras, apetece-me fechar os olhos
E partir… para bem longe
Algumas vezes, pretendo alcançar tudo
Outras, limito-me a agarrar
O que está aqui ao lado
Poucas vezes, penso em mim
Outras, não há espaço para ti
Raras vezes, resisto à tentação
Outras, impeço-te de ser feliz
Às vezes, penso que sou especial
Outras, apercebo-me que valho pouco
Por vezes, flutuo entre o ontem e o amanhã
Outras, aproveito apenas o presente
Algumas vezes, sonho em voz alta
Outras, abafo os meus desejos
Poucas vezes, peço ajuda
Outras, reclamo atenção
Raras vezes, gosto de mim
Quase sempre, mudo de opinião.

Filipa Moreira da Cruz

A importância da língua materna

Photo : KaDDD

Todos os anos, a 21 de Fevereiro, celebra-se o Dia Internacional da Língua Materna. Esta data foi aprovada pela Assembleia Nacional das Nações Unidas em 2002, embora tenha sido anunciada, pela primeira vez, em 1999, em homenagem ao Paquistão. Este país foi criado em 1947 e, na altura, o governo decidiu que o urdu seria a língua oficial, sem ter em conta a extensa população que falava bengali. As manifestações foram sangrentas e juntam-se à lista de tantas outras que mancharam de sangue a história do Paquistão. Centenas de pessoas sacrificaram as suas vidas em nome da sua língua materna.

Cabe à Unesco promover e difundir o respeito por todas as línguas. Este organismo defende que a diversidade linguística e cultural não pode ser dissociada da história da nação. A língua materna faz parte da identidade de cada povo e proteger a identidade também é uma questão crucial no âmbito dos direitos humanos. De acordo com relatórios recentes, 40% da população mundial não tem acesso à educação no idioma que fala ou entende melhor.

A língua é muito mais do que um aglomerado de letras que dão origem a palavras que fazem sentido. As frases tomam forma, os relatos ganham vida, até mesmo para aqueles que não sabem ler nem escrever. A língua é viva, acompanha os tempos, ganha asas. E a materna é rica em afetos, tradições, lendas e fábulas. Passa de geração em geração graças à família, aos amigos, aos vizinhos. Tem sido assim desde a pré-história, muito antes do nascimento da escrita.

Sou fluente em cinco idiomas (e consigo expressar-me, minimamente, num outro) por necessidade e, sobretudo, por prazer. Comunicar faz parte do meu ADN e cada vez que mudo de país adapto-me à sua língua materna. Faz parte da integração expressar-se, o melhor possível, na língua do país onde decidimos viver. Confesso que tenho facilidade em passar de um idioma para outro, mas nunca me esqueço que o português é a minha língua materna e penso que nenhuma outra soa tão bem como a nossa.

Photo : KaDDD

Os meus filhos nasceram em Paris e têm nacionalidade francesa, no entanto, as primeiras palavras que disseram foram portuguesas. Optei por falar com eles sempre em português. São bilingues desde que nasceram e, em Espanha, comunicavam em três línguas sem qualquer problema. Na escola aprendem inglês e, no próximo ano letivo, o meu filho vai estudar espanhol. Tem pena que não haja a opção de português.

Fazer um esforço para comunicar numa língua que não é a nossa num país estrangeiro não significa aniquilar a língua materna. Infelizmente, é isso que ainda fazem algumas nações chauvinistas. Muitos portugueses, italianos e espanhóis que emigraram para França deixaram de falar no seu idioma com medo de serem ostracizados. Ainda há pouco tempo um colega de escola da minha filha disse-me, num tom autoritário, que em França fala-se francês. A criança tem 9 anos e não sabe que, durante muito tempo, na região onde vivemos, a Bretanha, muitos comunicavam apenas no dialeto local, recusando-se mesmo a aprender a língua de Molière.

Até agora, foi em Espanha, onde senti um maior respeito pela diversidade linguística. O país adotou o castelhano como idioma oficial, mas várias regiões viram as suas línguas adquirirem o estatuto de co-oficiais, entre as quais, o catalão, o valenciano, o galego e o euskera. Vivi um ano no País Basco e aprendi o idioma local à custa de muito esforço e perseverança. O euskera é uma das línguas mais antigas do mundo e não se assemelha a nenhuma outra. Tem um caráter próprio e os bascos fazem questão de mantê-la viva. Tiro-lhes o chapéu por saberem fazê-lo com arte, maestria e humor.

Respeito todas as línguas e talvez me lance na aprendizagem de uma sétima, por gosto. No entanto, assumo, sem pudor, que em nenhuma outra encontro palavras tão bonitas como mãe e saudade.

Filipa Moreira da Cruz

Mon éloge à la France

Photo : Filipa Moreira da Cruz

République déguisée de pays
Vêtue de trois nobles couleurs
Terre de chrétiens, de musulmans et de juifs
Qui se dit encore laïque

Demoiselle éternelle et remplie de passions
Patronne de la Marseillaise si peu (en)chantée
Mère de la Révolution et jadis orpheline
De tant de guerres et d’invasions

La France accueille, libère, souffre et apaise
Nation grande et bienveillante, parfois en détresse
Elle vit au bout de ses peines, pas facile…
D’être toujours celle qu’on admire et copie

Mais enfin, c’est tout cela et bien plus la France
Cette nation d’art, d’histoire et de savoirs?
Hélas, je ne suis pas certaine, mais peu importe
Je la remercie et je l’aime de toutes mes forces.

Filipa Moreira da Cruz

A vida é uma festa!

Photo : KaDDD

A vida é uma festa com balões coloridos, foguetes e confetti. Somos nós os anfitriões. Uns usam máscara porque recusam-se a revelar o que lhes vai na alma. Outros preferem um colete à prova de balas, sabendo que os seus manifestos serão alvo de críticas atrozes. Ato de coragem ou estupidez?

A vida é um palco onde os atores sabem o seu papel de cor. Todos eles representam sem sentimento nem emoção. Fobias confundem-se com alegrias e o medo dança, de mãos dadas, com a esperança. Não há limite entre o lógico e o imaginário. Não existem fronteiras entre o que foi, o que virá a ser e o que nunca será.

A vida é uma floresta encantada, habitada por fadas e duendes. Os mais velhos dão-lhe ritmo através de lendas, fábulas e contos. O facilmente adquirido deixa de ter graça e corremos atrás do inatingível. Desafiamos o tempo com arrogância, embora saibamos que nunca conseguiremos recuparar o passado. E é aí que a saudade nos invade, violentamente.

A vida é uma catedral, onde os milagres acontecem, todos os dias. A vida é uma aventura na Amazónia, um desafio nom voo intrépido, uma descoberta singular.

A vida é aqui a agora. Estás pronto para esta viagem?

Filipa Moreira da Cruz

Unrooted

Photo : Filipa Moreira da Cruz

I have traveled all over the world
Always free as a bird
No house, no family, no friends
What for?
I don’t need them anymore
So I thought…
I just listened to my ego
How selfish I was!
I have been everywhere
But I don’t have a place to call home
I have lost my faith and my balance
I feel foreign in my own country
I don’t belong to anyone
Not even to myself
My wings are heavy
My soul is empty
My eyes are dull
My body is sore
Without you
I’m unrooted.

Filipa Moreira da Cruz

On my way to nowhere

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Where are you going?
Truth be told
I don’t have a clue
The only thing I am sure
Is that I miss you
So I keep walking
As long as my feet
Are not sore
As long as my back
Can take me as a whole

You may cross all the rivers
And all the seas
Having the stars as guides
You may climb
The highest mountains
Erasing borders
Even run or fly
At the end, we both know
There are certain things
You cannot defy

I left this world
And in peace I rest
It’s my game over
Don’t you worry
My dear friend
You should rather
Enjoy your life
Until the end
I shall wait
And so will paradise.

Filipa Moreira da Cruz

Diz-me o que vês

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Diz-me o que vês
Não, não digas

Esses teus olhos não mentem
São puros e transparentes
Deixa-me sonhar, entrar dentro de ti
Trespassar a tua alma sem fim
Dois corpos, um único espírito

Diz-me o que vês
Não, não digas

Sozinha, caminho
Por entre as trevas do passado
Percorro trilhos perdidos
Até atingir a felicidade
Ah, grande momento este!

Diz-me o que vês
Não, não digas

Neste mundo cruel e medonho
Atrevo-me a admirar
Esses teus doces olhos
Que as histórias da vida
Hão-de contar

Diz-me o que vês
Não, não digas

Filipa Moreira da Cruz

Solitude

Photo : Filipa Moreira da Cruz

J’attends un geste
Qui me réconfort
Et me donne le frisson
Hélas, tu recules
Devant cette ilusion
Je rêve d’une nuit d’amour
De plaisir, de désir
De l’extase à l’état pur
Je cours après une chimère
Qui ne voit jamais le jour
Mon esprit se rétrécit
Mon corps devient petit
Je perds ma voix
Je n’ai plus de forces ni de joie
J’erre au long du chemin
Sans espoir pour le lendemain.

Filipa Moreira da Cruz

Superstição

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Tenho um segredo
A sete chaves fechado
Numa gaveta sem fundo
Para sempre guardado
Sete dias da semana
Sete cores do arco íris
Sete notas musicais
E que mais?

Não tem importância
A vida é uma inconstância
E de nada serve
Fazer uma tempestade
Num copo de água
Um dia temos tudo
E no dia seguinte
Não temos nada

Tenho medo de gatos pretos
Não passo debaixo de escadas
Fujo do número treze
Não vá o diabo tecê-las
A quem?
Às dúvidas que pairam
Aos meus medos
Às minhas superstições.

Filipa Moreira da Cruz