Triste fim de vida

Photo : KaDDD

Dedico este texto aos idosos, às pessoa de idade, aos velhotes, aos velhinhos. Deixemo-nos de eufemismos e chamemos-lhes simplesmente… velhos! Cada um deve assumir a sua idade sem medo nem pudor. Mais difícil que envelhecer é aceitar que o corpo muda e a cabeça também, embora a ritmos diferentes. O tempo, às vezes, pode ser cruel. Muitos têm dificuldade em ver no velho a criança, o jovem e o adulto de outros tempos. Como se já tivessem nascido com cabelos brancos e rugas.

O mundo ocidental não põe os mais velhos num pedestal, antes pelo contrário. Prefere ignorá-los, fazendo de conta que já não existem. E a situação atípica que vivemos veio degradar a sua já frágil condição de vida. O vírus isolou-os do resto do mundo. Em nome da covid são mantidos prisioneiros em gaiolas douradas (alguns) ou em sítios indecentes (a maioria). Não recebem visitas dos filhos nem dos netos, não vão a almoços de família, não passeiam no parque, não dão comida aos patos, não jogam às cartas. Nem sequer têm direito a certos tratamentos porque as equipas médicas estão mobilizadas noutra frente. Para muitos deles, os cuidados paliativos deixaram de ser uma prioridade. Para quê? Já estão no fim da vida. Resta-lhes ver desfilar os dias, que parecem intermináveis, na antecâmara da morte.

Há velhos que vivem em quartos de luxo trancados à chave para evitar que possam circular no corredor da instituição. São medicados para dormir mais horas do que as necessárias. Imersos num estado vegetativo, entrevêm a luz do dia através de grades e não se podem despedir dos amigos que partiram vítimas da covid ou de outra doença qualquer. Isto acontece, regularmente, em lares que não custam menos de 3.000 euros por mês. E todos somos cúmplices porque é mais fácil ignorar. Cada um já tem o suficiente com os seus problemas.

O contacto intergeracional é vital. Contribui para a construção de uma humanidade mais solidária e resiliente. Os que nunca conhecemos os nossos avós vivemos eternamente com saudades do que nunca foi e sofremos um certo vazio emocional. Que sorte têm aqueles com histórias para contar das tardes passadas a fazer bolos com essa avó doceira, das anedotas do avô bem disposto, das brincadeiras, dos disparates e dos afetos partilhados. Invejo os que teceram uma cumplicidade ímpar com os velhos sábios da família. E todos os outros que iam de férias para a terra dos avós.

A vida normal ficou em suspenso a partir do momento em que os médicos começaram a ter que decidir quem salvam e quem deixam morrer. Os governos atuam em nome dos velhos quando nos impõem o confinamento. Os membros da família recusam abraços e beijos aos avós para evitar o contágio. Mas todos se esqueceram de perguntar-lhes como tencionam passar os últimos anos das suas vidas. Talvez alguns prefiram uns breves instantes de liberdade aos longos meses de solidão. Mas seria eticamente inaceitável não ostracizar os velhos pelo bem da sua saúde. Que sociedade ousaria correr o risco?

Nenhuma medida governamental conseguirá travar o inevitável: os velhos morrem lentamente. Em silêncio e sem incomodar. Uns do vírus e outros de depressão. A tristeza também mata. Muitos recusam comida e água e nem as perfusões os salvam. Afortunados são os que conseguem sobreviver a uma liberdade condicionada e são ainda mestres do seu corpo e da sua mente. Peço a Deus que também eu seja abençoada e possa chegar a velha com saúde.

Filipa Moreira da Cruz

7 commentaires sur « Triste fim de vida »

  1. Concordo em tudo amiga querida,a vida nos traga em um turbilhão… esquecemos de ser mais e mais carinhosos a quem tanto devemos.E agora com a pandemia, ainda mais uma desculpa apareceu… façamos nossa parte,dando o nosso melhor… seja na forma de um mero sorriso no olhar, seja em palavras como as tuas.Gratidao💚🙏

    Aimé par 2 personnes

  2. Tenho um respeito enorme pelas pessoas de idade. Têm tanto para nos contar, desde as suas experiências de vida, seus caminhos, são autênticas histórias de vida, testemunhos. Sempre adorei os ouvir, sentar ao seu lado, partilhar seus momentos e aprender. Guardo no meu coração o tempo que tive com os meus avós, o quanto me ensinaram e partilharam e o amor e carinho.
    É complicado ver nos dias de hoje como tratam as pessoas de idade, infelizmente é um reflexo de como a sociedade, e seus valores e tempos, está a caminhar. Não gosto do rumo, confesso.
    Foi um exelente artigo Filipa, uma reflexão que nos deixa a pensar, precisamos muito disso nos tempos que correm. Dar valor ao que merece valor.
    Um beijinho e uma boa semana.

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    1. Partilho os seus sentimentos Irina! Os mais velhos são fontes de sabedoria e cuidaram dos mais novos ao longo da vida. Não conheci os meus avós e isso deixou-me um grande vazio. Sinto saudades do que não tive. No entanto, aproveitei todos os momentos com a minha bisavó. Um forte abraço e um grande beijo. 🌻🍀

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