Made in USA

Photo : Filipa Moreira da Cruz

A primeira vez que fui aos Estados Unidos tinha 14 anos. A minha mãe fez-me a surpresa e levou-me a Nova Iorque, uma metrópole fascinante com quase tantos habitantes que Portugal. Fiquei deslumbrada com a cidade que nunca dorme. Londres já me tinha conquistado, mas Nova Iorque superou todas as minhas expectativa porque consegue ser ainda mais eclética, cosmopolita, efervescente. Regressei várias vezes e já prometi à minha filha uma viagem a duas.

Seguiram-se seis outras estadias que variaram entre três semanas e dois meses. Tive a sorte de ter uma irmã que viveu vários anos por terras do tio Sam. Também aproveitei para ficar em casa de uma família americana o que me permitiu confirmar todos os clichés (ou talvez não). Abraços calorosos em vez de dois beijos, barbecue ao fim-de-semana, jogo de futebol americano com as cheerleaders a animar a equipa da casa, missa ao domingo de manhã, oração antes de cada refeição, coca-cola à descrição, jantar improvisado com sandes de doce de morango e manteiga de amendoim, os magníficos fogos de artifício no dia 4 de Julho, as gigantescas waffles com maple syrup

Este país da América do Norte é capaz de reinventar-se e a realidade supera, quase sempre, a melhor produção made in Hollywood. For better or worse. Ainda me lembro da cara de assombro dos jovens estudantes americanos quando viram Portugal no mapa na altura em que assisti a uma aula de História numa escola secundária perto de Pittsburgh. Coincidência ou não, o professor dedicou uma hora aos descobrimentos portugueses e espanhóis. Os alunos pediram-me para indicar-lhes no planisfério o país luso de onde saíram os navegadores que deram a volta ao mundo. Tal como acontece frequentemente, pensavam que o nosso país era uma região da vizinha Espanha. Mas quantos europeus sabem exatamente onde se situa a Moldávia ou a Letónia? E o que sabem acerca da Noruega ou da Ucrânia?

Photo : KaDDD

Os Estados Unidos não deixam quase ninguém indiferente. Há quem deteste e quem adore. Pertenço à segunda categoria, embora nunca tenha caído na tentação de comprar um bilhete de apenas ida. Talvez por falta de coragem, admito. Gosto de viver na Europa. No entanto, este país com mais de 328 milhões de habitantes deslumbra-me, apesar de só conhecer oito dos seus cinquenta estados, uma minúscula amostra desta enorme nação.

Este amor não é cego. Fico, como muitos, chocada com as evidentes incoerências do país. Apesar de 21 estados terem abolido a pena de morte, Michigan foi o primeiro em 1847, mais de metade do país continua a executar presos que se encontram no corredor da morte. Quase todos os indivíduos têm armas e não são raros os acidentes que envolvem jovens ou crianças. O aborto é outra questão sensível e está longe de conseguir uma unamidade.

Os 244 anos de história são ainda insuficientes para a maturidade sócio-política da nação. São vários os episódios que mancharam a tão sobrevalorizada reputação americana e dois dos lobbies mais poderosos, o das armas e o farmacêutico transformam qualquer presidente num fantoche. O dinheiro fala mais alto. É quase impossível mudar a ordem natural das coisas. Num território onde quem não tem um bom seguro de saúde pode morrer, Obama tentou mudar a lei, em vão.

O número de pessoas mortas por Covid-19 já ultrapassou as 500.000. Mais de meio milhão de seres humanos que perderam a vida desde o início da pandemia. Felizmente, o país livrou-se da tirania e da loucura de Trump e esperemos que o novo presidente tome bem conta dos seus. God bless America.

Filipa Moreira da Cruz

5 commentaires sur « Made in USA »

  1. C’est sûr que c’est une nation assez clivante.
    Quand j’étais jeune je ne vivais que pour le rêve d’aller un jour là bas.
    Le premier voyage a été merveilleux, j’avais 14 ans.
    Le second beaucoup moins, je me suis mieux rendue compte des choses qui ne fonctionnaient pas très bien, et j’ai eu une expérience très négative avec un inconnu dans la rue …
    Depuis je regarde toujours des documentaires sur cette grande nation, mais j’ai un regard beaucoup plus critique sans cesser de laisser planer en moi un léger sentiment d’attraction fatale 😉
    Il faut dire que l’Europe a été tellement biberonnée à la culture américaine, que les américains sont devenus pour nous comme des grands cousins !!
    God bless America 🌹💖
    il faut laisser cela aux USA et à bien d’autres plus petites nations, je n’oublie pas la main tendue pendant les deux grandes guerres, nombre de ces nations ont joué un rôle décisif dans la victoire des alliés.
    Merci Filipa !!

    Aimé par 2 personnes

    1. Corinne, je m’identifie tellement avec vos mots! À chaque fois que j’y retournais, l’enchantement diminuait. Les USA sont un mirage et nous ne pouvons pas reproduire en Europe tout ce qu’il se passe en terres américaines. L’Europe est un continent tellement riche qu’il ne doit jamais se sentir inférieur. Au contraire! 😊

      Aimé par 2 personnes

  2. I love your take. I think you hit the nail on the head. We are a land of inconsistency. Many things to be proud of. Many things to be ashamed of. I am proud that we are am the melting pot nation. The food is delicious and hybrids of clashing cultures are common and interesting. But our ultra capitalism has a devastating effect on a majority of poor and undiagnosed mentally ill. People fall through the cracks of society without a net daily – and many people cannot adjust to societies needs. I think our culture can be much crueler than many modern European countries.
    As always a pleasure to read your thoughts. ☺️

    Aimé par 1 personne

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