Estará o trabalho tradicional em vias de extinção?

Photo : KaDDD

Quando o meu filho tinha nove anos a professora pediu para responder à pergunta da praxe: o que é que queres ser quando fores grande? O meu filho escreveu « não sei o que vou ser quando for grande porque a minha profissão ainda não existe e penso que não terei apenas uma profissão, mas várias. » Obviamente, a professora não ficou satisfeita com o TPC. Mal sabe a docente que o meu filho não tinha escrito nenhum disparate. Certas profissões estão em vias de extinção e outras (inimagináveis até há pouco tempo) crescem exponencialmente.

A partir do momento em que entramos na escola somos formatados, temos que entrar no molde, preencher uma casa pré-definida. E isto ocorre ao longo de toda a nossa vida. Ser diferente paga-se caro! Ainda hoje, numa entrevista de trabalho, nos perguntam « o que pensa fazer daqui a 5 anos? » esquecendo-se que, bastou um vírus para dar uma reviravolta às nossas rotinas. Por muitos planos que façamos, a médio ou longo prazo, devemos estar preparados para o efeito surpresa.

A era digital revolucionou as nossas vidas, mas ainda não somos capazes de acompanhar o vertiginoso ritmo das novas tecnologias. Os seres humanos têm medo da mudança, alguns sentem-se perdidos quando saem da zona de conforto. Ainda não percebemos que o futuro é agora!

A pandemia impôs-nos uma nova forma de trabalhar, as prioridades foram alteradas. O teletrabalho passou a estar na ordem do dia. As reuniões à distância, as vídeo conferências e a autonomia são as forças da nova era pós-Covid. Para os países anglo saxónicos, da Europa do Norte e alguns asiáticos a transição fez-se quase naturalmente porque a nova realidade já fazia parte da sua cultura laboral. No entanto, para a maioria, a adaptação foi brusca e dolorosa.

Photo : KaDDD

De acordo com dados da OCDE e do Banco Mundial, nos dias de hoje, uma em cada duas pessoas não trabalha. Podemos deduzir que metade da população vive graças ao que a outra metade produz. Se quisermos ir mais longe verificamos que os seres humanos já não vivem para trabalhar e o trabalho deixou de ser a única fonte de rendimento. Nos países mais desenvolvidos, os indivíduos passam cada vez menos tempo numa atividade laboral porque têm coisas (máquinas) ou alguém (os mais pobres) a trabalhar para eles.

Durante muito tempo, a base da sociedade era o trabalho e os que não exerciam uma atividade profissional eram socialmente excluídos. Mas isso era dantes! Atualmente, no mundo ocidental, a força tecnológica gera 90% da riqueza o que significa que o trabalho humano não corresponde a mais de 10%. Segundo alguns economistas, cada indivíduo do Ocidente tem 500 escravos energéticos.

Até que ponto os robots e a inteligência artificial controlam o mundo? Cabe ao Homem impor limites para não ser ultrapassado pelas máquinas. A tecnologia deve ser utilizada para preencher as necessidades da sociedade, mas não devemos cair na armadilha de depender exclusivamente dela. O ser humano deve reinventar-se constantemente. Talvez o meu filho tenha razão e daqui a 10 ou 15 anos, exerça uma profissão que ainda não existe. Ou então irá resgatar um antigo ofício do desaparecido século XX. Um regresso ao passado com uma pincelada do mundo do futuro. Tudo é possível!

Filipa Moreira da Cruz

20 commentaires sur « Estará o trabalho tradicional em vias de extinção? »

  1. Uma criança de nove anos que dá essa resposta compreendeu demasiado bem o mundo onde vive e vivemos. Um tempo de mudanças rápidas, do efémero e da volatilidade.
    Eu, pelo contrário, com as mais de seis décadas de vida que tenho, não estou bem preparada para isso e por vezes incomoda-me bastante esta rapidez que me transcende… este é que deixa logo de ser….esta vontade de futuro e pouca de presente….
    Mas os jovens como o seu filho ou o meu neto que ainda não tem um ano, estarão bem preparados e por isso o mundo será deles. Talvez a mil à hora, com a electronica já nos genes e nos dedos, com os 5G, os 6G e afins…
    Ou talvez como bem refere, se volte ao passado e a ofícios do passado, mas numa outra perspectiva. Tudo vai e volta como a moda…
    Por vezes penso/sinto que este mundo já não é o meu, mas vou-me adaptando a ele tanto quanto possível…. desde que a Mãe-natureza esteja presente no meu olhar e respirar!

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    1. Ai Dulce as suas palavras emocionaram-me. Espero não ofendê-la se disser que, a minha mãe, teve um discurso quase igual ao seu quando leu este meu texto. Ela vai fazer 67 anos no dia 20 de Junho. Foi professora do ensino básico e diretora. Está em fase terminal de um cancro que voltou e se generalizou. Não perde a lucidez nem a a alegria de viver. Obrigada pelo seu valioso comentário. Um grande abraço.

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  2. Your son is very wise. And being different does pay dearly! But that’s how changes happen, by those who are ahead of their time. And yes, we definitely can’t all keep pace with the advancement of technology; at most eateries and cafes you have to pay and order via a phone app before the waiter even comes to your table. What if you have no idea how to do this? You have to catch up with the times or go somewhere else. It will be interesting to see which jobs develop from these advancements and which will become defunct.

    Still, we all have such nostalgia for the past that we will keep certain professions alive, I think! (I can’t think think of any examples right now though! :-D) And some jobs cannot really be replaced by robots, like Teachers, Writers, Judges and Athletes.

    Fascinating post, Filipa! ❤

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    1. You’re absolutely right Nina! Things change so fast that it’s hard to catch them up. Some people feel already obsolete because they don’t understand the « new » world. But I’m optimistic and I know some professions will never die (I hope!) and humans will be humans. Take care amiga! 💖

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  3. Eis algo que não me afetou ao longo do tempo. Desde cedo compreendi que há um processo constante de transformação e desumanização de um modo geral. A naturalização disso, em parte, do processo educacional de pouco senso crítico, de uma mídia que mistura notícias, fazendo com que o pensamento também se misture, a não priorização da cultura, etc. a velocidade da vida ganhou outra rotação e somos seres humanos, precisamos de afeto, do toque, do trabalho manual e humanizado…talvez por estar em um estágio também de batalha contra o câncer sinto que o tempo passado é (prefiro escrever como se fosse presente) algo que parece um sonho embora para tantos apenas uma exclamação do tipo “como se vivia assim”. O tempo passa, a evolução é necessária todavia jamais perder o sentido de humanidade nem de afastar os ofícios. Seguimos….(para tua mãe, todo o meu pensamento e força, sou alguns meses mais velho, e acolho em meu coração o seu espírito de nunca desistir.) um beijo querida Filipa.

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