Passeio matinal

Reprise

Uma brisa, um sussurro
Uma ave, um murmuro
Maré cheia, praia inundada
Saio de casa pela calada
O céu cinzento não me assusta
Ainda não chove e estou enxuta
Saint-Malo no seu esplendor
Quando a paisagem muda de cor.

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz

Street art

I see art in everything. Your shoes. That car. This coffee cup. It’s art if you see it as art.

Andy Wharol

Any man who can drive safely while kissing a pretty girl is simply not giving the kiss the attention it deserves. 

Albert Einstein

Paris…sempre!

Reprise

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Desta vez, fui egoísta. Pensei apenas em nós. Há muito tempo que queria agradecer-te publicamente tudo o que me deste. Se estou à espera da melhor ocasião, nunca o farei. Graças a ti, não sou a mesma após os quase 8 anos de vida em comum e as inúmeras visitas relâmpago. Segue-se uma declaração de amor. Em prosa. Porque a vida já é um poema.

Estás suja. Ficas ainda mais cinzenta e triste nos dias de chuva. E isto para não falar na neve! Basta um fino manto branco para que caminhar nos teus passeios se transforme num pesadelo. Abrigas ratos, baratas e pulgas nas tuas catacumbas. As tuas casas são escandalosamente caras e ridículas de tão pequenas. Não tens vergonha?! Parece que estamos no Japão, mas sem a ordem e a higiene imaculadas. E são, precisamente, os habitantes do sol nascente os que mais sofrem com a arrogância dos que em ti vivem e trabalham. Sem tempo, sem paciência, sem vontade.

És a rainha do chique, o apogeu do glamour. Vaidosa, snob e imponente. Única guardiã da torre Eiffel e do Louvre. O relógio do museu d’Orsay deixou há muito de dar a hora certa. Pormenor sem importância. Até porque os comboios já não circulam por esses lados. Os Champs-Elysées resistem ao tempo, mas a sua luz esmoreceu, perdeu o brilho. Tu não te importas e ris-te dos que se ficam pelas artérias que aparecem nos guias turísticos e não conhecem os teus tesouros escondidos. Desafias os mais intrépidos a descobrir o invisível aos olhos dos distraídos: as vilas dentro da cidade.

Chegaste à minha vida tarde, mas és, sem dúvida, a favorita. Antes de ti, Lisboa, Porto, Viana do Castelo, Madrid, Barcelona, Londres, Bolonha, Veneza, Florença, Berlim, Genebra, Nova Iorque, e tantas outras desempenharam, na perfeição, o papel da bem amada. Um amor brando, sem sobressaltos. Contigo foi diferente. Não resisti ao coup de foudre. São poucos os que ficam indiferentes. Uns adoram-te, outros detestam-te. És tudo ou nada. Não fazes as coisas pela metade. Que nem uma mulher fatal disfarçada de senhora da alta burguesia!

Tal como tu, também eu adoro os parisienses. Os genuínos. Aqueles que em ti nasceram e os outros que adotaste como se fossem teus filhos legítimos. Dos que contam as histórias da Lutetia dos romanos, habitada por pescadores que viviam nas margens do Sena. Dos que fogem dos turistas como se fossem a peste. Dos que se perdem nas tuas passagens secretas. Dos que se emocionam com a música barroca nas igrejas. Dos que bebem chá Mariage Frères ou Dammann. Dos que nunca entraram num centro comercial. Dos que alimentam o comércio de bairro.

Como quase todos os que te visitam também gosto de Montmartre, Marais, Saint Germain des Près e do Trocadéro, bairros típicos e incontornáveis. Os passeios nas ruas du Bac, de Rennes, du Commerce, Mouffetard, Bonaparte agasalham-me a alma nos dias mais frios. Ainda me recordo de caminhar até não sentir os pés ao longo da rua Vaugirard (a mais comprida), da Boulevard Raspail ou da avenida Foch (a mais larga). As praças Dauphine, Vosges e Victoire são paragem quase obrigatória cada vez que me escapo dois ou três dias. Percorrer os braços do Sena, perder-me nas ruelas da Île Saint-Louis, começar um livro no jardim Luxemburgo são os caprichos que não dispenso.

Deixei-te há uns anos, mas nunca me abandonaste. É kitsch, eu sei. Mas o amor não conhece tabus. Et moi, je t’aime Paris.

Filipa Moreira da Cruz

A história do Senhor Não

Reprise

Photo : KaDDD

Era uma vez um homem carrancudo, sisudo, mal humorado. Comum, banal, igual a tantos outros. Carrageva o mundo nos ombros e as suas pernas começavam a fraquejar. Vestia-se de preto porque a vida não estava para outras cores. Este homem tinha uma particularidade capaz de o distinguir de todos os outros seres humanos: dizia sempre não.

Não tinha fome, não tinha sede, não tinha frio. Não tinha amigos, não tinha família, não tinha vida. Não tinha sentimentos, não tinha penas, não tinha tristezas. Não tinha amor, não tinha humor, não tinha alegrias. Estava seco e vazio.

Certo dia, adoeceu. Ficou aflito de tão lívido. Assustado, perguntou ao médico:

– É grave doutor? Não tem solução?

– Tem cura. Basta dizer sim!

– Sim?!

– Sim.

Ao chegar a casa cruzou-se com a vizinha nas escadas. E quando esta lhe perguntou:

– Tem tempo para um chá?

Após uma longa hesitação o senhor não respondeu:

– Sim.

No dia seguinte, a vizinha arriscou:

– Está um bonito dia. Apetece-lhe dar um passeio?

Para seu espanto, a resposta foi imediata:

– Sim!

As folhas secas cobriam o chão. O sol era tímido. Mas eles não tremiam. Soltavam gargalhadas, partilhavam castanhas e confidências. O inverno chegou, frio, seco, austero, mas não havia nada a fazer. O senhor Não já tinha sofrido a metamorfose. Deixara de ser lagarta para ser borboleta. Soltou asas e voou. A sua vida ganhou cor.

E ele sentiu-se mais leve e solto. As suas pernas recuperaram força, as costas endireitaram-se, a cabeça ergueu-se e quando o homem olhou para o céu a luz inundou o seu rosto. Se ele soubesse, teria dito sim há mais tempo.

Hoje, velhinho e com cabelos brancos, conta aos seus netos a história do senhor não. E quando termina pergunta-lhes:

– Querem ouvir outra vez?

Os netos respondem em uníssono:

– Sim!

Filipa Moreira da Cruz

Golf du Morbihan

Reprise

Confinados, mas sem amargura
Decidimos partir à aventura
Descobrir outras terras e outras gentes
Sem sair da nossa região
Respeitamos as regras e desafiamos a tradição
Desta vez, não fomos à terrinha
Optamos pela sensatez
Portugal, fica para uma próxima vez.

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz

Vermelhão

Reprise

Vermelho de raiva ou de vergonha
De amor ou de paixão
Vermelho esquivo e incerto
Que desafia o coração
Vermelho solto e livre
De correrias e contratempos
Vermelho ousado e provocador
Que entra na dança sem ser convidado
Vermelho de mágoa e de rancor
Libertino e ousado
Vermelho vivo quando estás zangado
Pintado a tinta ou a lápis
Vermelho que à vida dá cor
E combate a solidão
Vermelho de sangue e de fogo
Derramado em guerras antigas
Vermelho de lágrimas e de choro
Na hora das despedidas
Vermelho, vermelhinho, vermelhão.

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz

Des cendres

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Un ciel sans couleur
rejoint
la mer couleur de cendres.

Ogiwara Seisensui

Conto de Inverno

Photo : KaDDD

Brisa gélida matinal
Que martiriza o corpo inteiro
Mas aquece o coração
Dos que sentem um amor verdadeiro

Fecho os olhos e invento
Um conto íntimo e pessoal
A chuva, a tempestade… o mau tempo
Longe da alma, mas tão real

Passeamos de mãos dadas pela avenida
Repleta de árvores despidas de folhas
Deslizamos pelo manto que cuida das feridas
E alimenta sentimentos de coisas tão boas

Uma taça de chá, um chocolate quente
Um café acabado de fazer
A felicidade é crescente
Ao ritmo da neve que cai suavemente

Frio? Nem diria que o inverno já chegou!
Contigo só sinto cumplicidade e alegria
O mundo à nossa volta é feito de ninharia
E o resto, antes de começar, já terminou.

Filipa Moreira da Cruz

Il était une fois…

Photo : KaDDD

Il était une fois
Une princesse, un prince
Une reine, un roi
Un corbeau, un fromage
Un lion, un rat

Et après, et après?
Je ne sais plus, ne m’en veux pas
L’histoire est déjà finie
Avant même d’être commencée?

Non, on va la raconter ensemble
À notre façon
On a le droit d’inventer?
Bien-sûr!
Donnons de la liberté à notre imagination
C’est encore mieux!

Il y aura tout ce qu’on veut!
Mais pas d’ humains ni d’animaux
Dans notre Histoire la Nature
Est l’unique protagoniste

On va la raconter comme des artistes
Ah, c’est tellement magique!
Les fleuves, les montagnes
La mer, le sable fin
La neige, la pluie, la glace
Le vert, le jaune, le rouge et le bleu

De vrais feux d’artifice
Quoi qu’on en fasse
Les histoires, on en a pleins dans la tête
À chacun de raconter la sienne

Personne ne nous en voudra
Si on exagère un peu ici et par-là
L’univers est vaste
Et un si beau spectacle

Allez, on commence?
Oui! Un, deux, trois
Il était une fois…

Filipa Moreira da Cruz

Château abandonné

La langue partit la première
Puis ce fut au tour des fenêtres
Il n’y eut plus que mort fondée
Sur le silence et sur l’obscurité.

Paul Éluard

Le vent est à la barre
L’horizon vertical
Vers le ciel dans ta main maladroite.

Paul Éluard

Photos : Filipa Moreira da Cruz