Achtung!

Reprise

Déracinés
Désenchantés
Désorientés
Désintégrés
Dénudés
Démotivés
Déboussolés
Désespérés
Désordonnés
(Dés)armés
Déconnectés
Désemparés
Dérangés
Des…humains.

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz et KaDDD

Déracinés

Reprise

La vérité est plus éloignée de nous que la fiction.

Mark Twain

Les arbres envahissent l’asphalte
Ou bien ce sont les villes qui engoufrent la nature?
Les humains sont-ils maléfiques
Ou de naïves créatures?
Liberté à tout prix
Ou aprivoisement ultime et nécessaire?
Cris de peur et de souffrance
Ou de révolte et de colère?
Les hommes passent
La nature résiste
Quand la réalité nous dépasse
Le monde imaginaire devient une délice.

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Paul Laurent Bressin

Proibido ser (in)feliz

Reprise

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Seja positivo, sorria. Mas não se esqueça de chorar de vez em quando, isso mostra que não é insensível. Liberte-se das pessoas tóxicas, mas não se afaste da família, mesmo que os mais podres sejam aqueles com quem partilha ADN. Faça o que gosta, mas enquanto não aparece o trabalho dos seus sonhos deixe-se ficar no atual porque sem dinheiro ninguém vive. Aprenda a dizer não, mas tenha um sim na ponta da língua. Pratique desporto, mas não seja escravo do seu corpo. Opte por alimentos saudáveis, mas evite ficar obcecado por tudo o que é “bio”. Mude de vida, mas sem dar nas vistas. Seja ousado, mas, acima de tudo, tenha medo. Muito medo.

Vivemos aterrorizados. O pânico controla as nossas vidas. Esta sociedade esquizofrénica e bipolar pensa ter a lição tão bem estudada que se recusa a pedir ajuda. Os problemas da mente não se resolvem no divã, escondem-se. Ou melhor, dissimulam-se nas fotografias publicadas nas redes sociais. E, às vezes, nem mesmo os mais atentos conseguem ver a mágoa por detrás do sorriso forçado. O psiquiatra só fica bem nos filmes de Hollywood. O importante é ter opinião sobre tudo, especialmente acerca do que não se sabe. Falar dos outros é a melhor desculpa para não falarmos de nós.

As mensagens não são descodificadas. Não há tempo. Hoje em dia é tudo rápido e com filtros. Fast food, fast job, fast love, fast life, fast death. Play it again? Game over. Queremos tudo aqui e agora. Somos escravos do tempo, mas esse grande senhor escapa-nos cada vez que ousamos desafiá-lo. Sentimo-nos frustrados quando as coisas não acontecem rapidamente. Ficamos desamparados perante o imprevisto porque não estamos programados para falhar.

Desde a mais tenra idade, somos formatados para o sucesso. Só os mais fortes conseguem vencer as adversidades da vida, dizem-nos. Como se a sensibilidade fosse um bicho raro que transmite um vírus mortal. Quem não encaixa no molde é posto de lado porque não há espaço para a diferença nem margem para as dúvidas. Preocupamo-nos, sobretudo, com a imagem que projetamos nos outros. O ter sobrepõe-se ao ser. Sofremos em silêncio para não incomodar.

São as adversidades da vida que nos fazem crescer. O longo rio tranquilo é demasiado brando para ensinar-nos seja o que for. O melhor capitão de um barco não nasce num mar calmo. Não importa quantas vezes caímos nem quantos erros cometemos. Só os imbecis é que nunca se enganam. Mas e se não soubermos levantar-nos? E se repetirmos os mesmos erros vezes sem conta? Continuaremos a cair e pediremos ajuda para voltarmos a ficar de pé. Trataremos das feridas deixadas pela queda e passaremos a sentir orgulho nas cicatrizes que outrora permaneciam escondidas.

A empatia, a criatividade, a resiliência, o respeito e o perdão não passam de moda, são intemporais. A felicidade é efémera, mas os momentos felizes podem colecionar-se a vida inteira. Basta estar disponível e aceitar-se como um ser extraordinário. Perfeitamente imperfeito. Deveríamos ser capazes de criar um fio invisível que nos une a todos os que valem a pena, desenhar uma bolha protetora contra aqueles que devemos evitar e apagar com uma borracha gigante tudo o que nos faz sofrer.

Mas se assim fosse, a vida não teria graça nenhuma, pois não?! Nem tudo é mau. Podemos criar mecanismos de defesa. Pôr-se a jeito no parapeito da janela e ver desfilar a pobreza de espírito é uma ótima maneira de evitar o confronto desnecessário. Sermos apenas espetadores da estupidez alheia requer treino, mas acreditem que vale a pena! Às vezes o silêncio é a única resposta possível.

Filipa Moreira da Cruz

Nunca mais és mãe!

Reprise

Photo : KaDDD

A maioria das minhas amigas não tem filhos. Nem todas por opção. Mas isso não significa que não gostem de crianças, antes pelo contrário. Perguntam-lhes frequentemente se ainda pretendem ser mãe. As respostas são variadas e algumas até originais: não pensei nisso, não tenho tempo, qualquer dia destes, quando puder, falta-me encontrar a pessoa certa… Houve até quem dissesse NUNCA! E a conversa ficou arrumada para sempre.

O mais curioso é que esta questão cansativa, de tantas vezes repetida, nunca se coloca aos homens. O sexo masculino pode ser progenitor enquanto a pujança ou o Viagra o permitirem. E já quase ninguém estranha ver um pai que tem idade para ser avô! Os relógios biológicos não seguem as mesmas leis. Homens e mulheres dançam uma música a ritmos descompassados. Por outro lado, se um homem não for pai não estranhamos. Qual é o problema?

Admito que já não imagino a minha vida sem os meus filhos. O nascimento de uma criança implica mudar (quase) tudo. De repente, as prioridades são outras. O bebé é tão pequenino, mas ocupa o espaço todo. Isso não é mau, obviamente! Mas nem todas estamos preparadas para esta reviravolta e entendo, cada vez mais, as mulheres que decidem não ter filhos. Não me sentiria incompleta se não tivesse sido mãe.

E o instinto maternal? Sinceramente, creio que a maternidade tem muito pouco de instintivo até porque não somos animais. Nenhuma mulher nasce mãe. É na língua francesa que encontro a expressão com a qual me identifico: on devient mère. São os filhos que nos transformam, ensinam, motivam. Aprendemos a ser mães com eles. E temos o direito de errar porque somos perfeitamente imperfeitas. Não aspiramos ao estereótipo de super mulheres, embora a sociedade insista no contrário. Não temos que ser as melhores cozinheiras, as mais prezadas esposas e as irrepreensíveis fadas do lar. A nossa missão não é criar seres excecionais, mas sim respeitar cada um deles. Também não nos compete a nós evitar as caídas dos nossos filhos. Devemos ser guias e não chefes. Fazemos o melhor que podemos e sabemos. Sempre.

Longe vão os tempos em que cada família tinha uma tia solteirona, frustrada e azeda. As mulheres do segundo milénio têm o direito de ser solteiras, casadas, divorciadas, com seis filhos ou nenhum. Sabem que prazer não tem que rimar com procriação. Foram necessários longos séculos para que o sexo feminino se assumisse naturalmente, sem ter que pedir licença ou justificar-se. No entanto, em muitos países, o caminho ainda é árduo e com espinhos.

Defendo o direito de expressão e a liberdade de escolha. E isto não significa apenas darmos a nossa opinião. Podemos expressar-nos das mais variadas maneiras. Certos atos são mais reivindicativos que palavras. À Gabrielle Chanel bastou-lhe renunciar ao corset. Vestir uma saia ou um par de calças, usar camisa e gravata, pintar os lábios de vermelho. A mulher é a única capaz de saber o que é melhor para ela e recorre a todos os subterfúgios para tal. E se as suas escolhas não forem as mais corretas ela não deverá culpar ninguém. Errar é aprender. E aprender é viver. A vitimização é inimiga da emancipação.

Filha, irmã, amiga, prima, sobrinha, neta. Mulher, amante, companheira, confidente. Somos únicas e inteiras com ou sem descendência. Para todos os feitios e gostos. E para que o futuro se escreva de todas as cores.

Filipa Moreira da Cruz

Fake world

Truth to tell, we are all criminals if we remain silent.

Stefan Zweig

We all know about everything
And if we don’t, we just pretend
The world is in peace
In case you wonder…
The far-right wing doesn’t exist
It’s just your imagination
The global warming is an illusion
A cartoon in motion
No animals are on the way to extinction
And all the ones above are real
Aren’t they?
Oh, we live in such a beautiful world!
So why change it?

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz

Big brother is watching us

Reprise

Photo : KaDDD

Em 1949 o escritor britânico George Orwell publicou o romance « 1984 » no qual relata a vigilância constante e a manipulação levadas a cabo por um Estado totalitário. Nesta metáfora, o Grande Irmão espia, persegue e controla. O partido imaginado por Orwell tem como lema: « Guerra é paz. Liberdade é escravidão. Ignorância é força ». Quanto mais oprimido e ignorante é o povo, mais forte é o Estado. E isto num contexto onde a paz permanente é impossível. Porque nada dura para sempre.

Anos antes, em 1932, um outro escritor britânico escrevia « Admirável Mundo Novo ». Aldous Huxley foi ainda mais longe na premonição das consequências económicas, sociais e políticas da era digital. A história passa-se em Londres, no ano de 2540. E quem diria que parte da ficção se confirmaria oito décadas mais tarde?

Em 2022 atrevemo-nos a pensar que nunca fomos tão livres. Grande ilusão! Criticamos os regimes autoritários, condenamos os atos dos governos opressores, temos opinião sobre tudo. No entanto, ignoramos que somos escravos da tecnologia e dominados por essa grande potência, mais forte do que qualquer Estado : a internet. Os três « w » mudaram o mundo e o regresso ao passado é inconcebível. Desde 1989 que o universo comunica em uníssono, para o bem e para o mal.

Obviamente que os mais céticos recusam qualquer acesso às redes sociais numa tentativa fracassada de salvaguardarem a sua privacidade. Há também os que sentem orgulho na resistência às compras online. Ou ainda os que não saem de casa sem dinheiro na carteira porque não confiam no cartão bancário. Desconheço como estes últimos tiraram a barriga de misérias durante o confinamento.

Photo : KaDDD

Mesmo os mais incrédulos e recatados são obrigados a admitir que a internet é indissociável da sociedade contemporânea. E duvido que exista um indivíduo na Terra que nunca tenha navegado na rede. Excluindo talvez a maioria dos habitantes da Coreia do Norte e algumas pessoas com mais de 80 anos. E ainda assim, tenho dúvidas… A World Wide Web não é o inimigo público a abater. O perigo reside no que podemos fazer com ela. E tudo isto com a aprovação (lícita) de Sua Majestade Facebook (que detém, entre outros Instagram, WhatsApp e Giphy) e do Rei Google, dono e senhor de quase tudo o resto!

Somos 92%, em todo o mundo, a fazer pesquisas através do Google Chrome e talvez haja até quem desconheça que existem outros motores de pesquisa. O gigante de Mountain View é inteligente, perspicaz e talentoso. Antecipa comportamentos, cria necessidades, controla todos os passos e regista as inúmeras ações dos seus utilizadores. Conhece os nossos gostos e as nossas rotinas. Sabe onde vivemos e com quem partilhamos a casa. Nada do que acontece na internet é fruto do azar. Há uma relação causa-efeito. E para que não corramos o risco de tentar recuperar o nosso destino, os cookies estão lá para nos recordar as nossas pesquisas anteriores. Esses bolinhos deliciosos que podemos consumir sem moderação porque não engordam!

Utilizo a internet diariamente e não imagino a minha vida sem esta ferramenta. Comunicar com a família e os amigos que vivem longe nunca foi tão fácil. Isso não significa que não me preocupe com a utilização da informação registada. Antes pelo contrário. Considero essencial a aplicação do direito à privacidade. Mas as leis são lentas. Os algoritmos terão sempre anos de avanço. O Regulamento Geral da Proteção de Dados, elaborado pela União Europeia em 2016, já está obsoleto. E nem os americanos, que se julgam mais espertos que o resto dos mortais, têm a situação controlada. A Federal Trade Commission tenta travar o monopólio dos super poderosos, mas Google, Facebook, Amazon e companhia pagam multas exorbitantes e fica tudo bem.

Este acordo entre cavalheiros tem uma duração limitada, mas para quando o desfecho? Ninguém sabe! Até lá, o melhor é mesmo viver sem pensar muito no assunto. Por muitas voltas que dermos, big brother is (always) watching us!

Filipa Moreira da Cruz

Pirâmide

Reprise

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Os povos construiram pirâmides antes de Jesus nascer.
Fascínio ou obsessão?
Certas coisas na vida acontecem, não se explicam.
Uma realidade tridimensional com uma face oculta pela sombra.
A Terra gira, o sol comanda e os seres humanos obedecem.
Julgamo-nos livres, mas somos escravos das nossas crenças, das nossas ações e, sobretudo do julgamento dos outros.
Aprovação ou condenação?
O tempo coloca cada um no seu devido lugar.
Cada um cuida de si e Deus cuida de todos.
Mas não deveria ser assim.
E se cuidássemos uns dos outros?
E se partilhássemos mais?
E se oferecessemos sem esperar receber algo em troca?
O futuro escreve-se no plural.
A realidade é multimensional.
É urgente conectar com o planeta antes que seja tarde demais.
Se virarmos costas não avançamos.
Cada pedra no caminho é uma oportunidade para aprender.
O crescimento é doloroso, mas necessário.
Cada prova é um desafio que nos obriga a sair da nossa zona de conforto.
Comecemos a viver…agora!

Filipa Moreira da Cruz


Dia Internacional da Mulher

Reprise

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Os homens e as mulheres não são iguais. Não há sexo forte nem sexo fraco. Há dois seres distintos com forças e fragilidades. Precisamos de ambos e, sobretudo, que os dois tenham consciência do que os une e do que os distingue. Talvez por isso prefira a equidade à igualdade. Esta última, implica o mesmo tratamento para todos. Na igualdade não há espaço para a diferença, não se têm em conta as diversidades.

Já a equidade, do latim aequitas, refere-se à capacidade de apreciar e julgar com retidão, imparcialidade e justiça. A equidade aplica as regras existentes a uma situação concreta, de forma justa. Seria como reconhecer que todos necessitam de atenção, mas não necessariamente do mesmo atendimento. Não pretendo ser igual aos homens, mas sim tratada de uma forma justa e imparcial.

Infelizmente, algumas mulheres estão longe de alcançar a equidade social. Ainda há um longo caminho a percorrer. Continuam a existir casamentos arranjados entre raparigas de 10 ou 11 anos com homens que têm idade para serem seus pais ou, até mesmo avós. As vítimas de prostituição e de pedofilia ainda são, maioritariamente, femininas. São mais comuns os casos de violência conjugal sobre a mulher, embora o inverso também ocorra.

Sébastien Sabouret

As condições das mulheres dependem, e muito, do sítio onde nasceram e/ou vivem. Alguns países africanos (e não só) ainda praticam, impunemente, a mutilação genital feminina. Na índia e no Paquistão as violações coletivas são quase diárias e as vítimas são sempre do sexo feminino. No México, na Colômbia, no Chile, no Brasil uma mulher é raptada, violada ou assassinada a cada dois minutos. Durante o confinamento desapareceram 900 raparigas no Perú, 70% das quais menores de idade.

Em muitos países, a escola é reservada aos indivíduos do sexo masculino e as raparigas arriscam a vida para ir estudar. O regime taliban vende, apedreja, viola, massacra, prostitui e abusa das mulheres. A poligamia ainda existe, mas é sempre um único homem com várias mulheres. O infanticídio feminino é muito comum na China e na índia, onde as raparigas são um fardo para a família.

A lista de exemplos de maus tratos às raparigas e mulheres é extensa e ampla. Nenhum país fica de fora e quase todos são cúmplices, direta ou indiretamente. Quando ocorreu o tsunami no sudoeste asiático muitas das vítimas eram europeus ricos que viajaram sozinhos em busca de sexo com carnes frescas, jovens e virgens. O voyeurisme no seu esplendor.

E os homens nisto tudo? São apenas os maus da fita? As mulheres são sempre as vítimas e os homens os carrascos? Obviamente que não! Há mulheres maquiavélicas e vingativas que têm prazer em humilhar e espezinhar os homens, chegando mesmo a cometer crimes passionais. A prostituição masculina também existe. Há homens que sofrem maus tratos e rapazes que são violados, massacrados, assassinados. Mas a verdade é que são uma minoria. Ainda bem para eles.

Filipa Moreira da Cruz

(Un)chained

I have stretched ropes from steeple to steeple; garlands from window to window; golden chains from star to star, and I dance.

Arthur Rimbaud

Those who do not move, do not notice their chains.

Rosa Luxemburg

It is difficult to free fools from the chains they revere.

Voltaire

We forge the chains we wear in life.

Charles Dickens

Photos : Filipa Moreira da Cruz

A importância da língua materna

Reprise

Photo : KaDDD

Todos os anos, a 21 de Fevereiro, celebra-se o Dia Internacional da Língua Materna. Esta data foi aprovada pela Assembleia Nacional das Nações Unidas em 2002, embora tenha sido anunciada, pela primeira vez, em 1999, em homenagem ao Paquistão. Este país foi criado em 1947 e, na altura, o governo decidiu que o urdu seria a língua oficial, sem ter em conta a extensa população que falava bengali. As manifestações foram sangrentas e juntam-se à lista de tantas outras que mancharam de sangue a história do Paquistão. Centenas de pessoas sacrificaram as suas vidas em nome da sua língua materna.

Cabe à Unesco promover e difundir o respeito por todas as línguas. Este organismo defende que a diversidade linguística e cultural não pode ser dissociada da história da nação. A língua materna faz parte da identidade de cada povo e proteger a identidade também é uma questão crucial no âmbito dos direitos humanos. De acordo com relatórios recentes, 40% da população mundial não tem acesso à educação no idioma que fala ou entende melhor.

A língua é muito mais do que um aglomerado de letras que dão origem a palavras que fazem sentido. As frases tomam forma, os relatos ganham vida, até mesmo para aqueles que não sabem ler nem escrever. A língua é viva, acompanha os tempos, ganha asas. E a materna é rica em afetos, tradições, lendas e fábulas. Passa de geração em geração graças à família, aos amigos, aos vizinhos. Tem sido assim desde a pré-história, muito antes do nascimento da escrita.

Sou fluente em cinco idiomas (e consigo expressar-me, minimamente, num outro) por necessidade e, sobretudo, por prazer. Comunicar faz parte do meu ADN e cada vez que mudo de país adapto-me à sua língua materna. Faz parte da integração expressar-se, o melhor possível, na língua do país onde decidimos viver. Confesso que tenho facilidade em passar de um idioma para outro, mas nunca me esqueço que o português é a minha língua materna e penso que nenhuma outra soa tão bem como a nossa.

Photo : KaDDD

Os meus filhos nasceram em Paris e têm nacionalidade francesa, no entanto, as primeiras palavras que disseram foram portuguesas. Optei por falar com eles sempre em português. São bilingues desde que nasceram e, em Espanha, comunicavam em três línguas sem qualquer problema. Na escola aprendem inglês e, no próximo ano letivo, o meu filho vai estudar espanhol. Tem pena que não haja a opção de português.

Fazer um esforço para comunicar numa língua que não é a nossa num país estrangeiro não significa aniquilar a língua materna. Infelizmente, é isso que ainda fazem algumas nações chauvinistas. Muitos portugueses, italianos e espanhóis que emigraram para França deixaram de falar no seu idioma com medo de serem ostracizados. Ainda há pouco tempo um colega de escola da minha filha disse-me, num tom autoritário, que em França fala-se francês. A criança tem 9 anos e não sabe que, durante muito tempo, na região onde vivemos, a Bretanha, muitos comunicavam apenas no dialeto local, recusando-se mesmo a aprender a língua de Molière.

Até agora, foi em Espanha, onde senti um maior respeito pela diversidade linguística. O país adotou o castelhano como idioma oficial, mas várias regiões viram as suas línguas adquirirem o estatuto de co-oficiais, entre as quais, o catalão, o valenciano, o galego e o euskera. Vivi um ano no País Basco e aprendi o idioma local à custa de muito esforço e perseverança. O euskera é uma das línguas mais antigas do mundo e não se assemelha a nenhuma outra. Tem um caráter próprio e os bascos fazem questão de mantê-la viva. Tiro-lhes o chapéu por saberem fazê-lo com arte, maestria e humor.

Respeito todas as línguas e talvez me lance na aprendizagem de uma sétima, por gosto. No entanto, assumo, sem pudor, que em nenhuma outra encontro palavras tão bonitas como mãe e saudade.

Filipa Moreira da Cruz