A queda d’um anjo

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Via o universo do seu pedestal
Alto
Inatingível
Fazia pouco dos outros
Com uma escandalosa arrogância
Coitados!
Tão pequeninos e insignificantes
Sentia-se forte e poderoso
Engolia o mundo
Com avidez e soberba
Certo que do seu posto ninguém o tirava
Até ao dia…
Em que a Terra decidiu girar os pólos
E trocar as voltas a continentes e oceanos
Virados do avesso
Os mortais tocaram o céu
E brincaram com as estrelas
E o todo poderoso que que pretendia ser Deus?
Caiu do cimo da lua
Ajudado pela gravidade
Que sabe pôr cada um no seu lugar.

Filipa Moreira da Cruz

Coração violeta

Ama-se quem se ama e não quem se quer amar.

Florbela Espanca

Em vez da felicidade, eu acredito na harmonia, penso que o amor é o encontro da harmonia com o outro.

José Saramago

Amar alguém ou alguma coisa é primacialmente instalá-lo num clima de plena liberdade, com todos os riscos que a liberdade comporta: desejar é limitar na liberdade; a nós e aos outros.

Agostinho da Silva

Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca.

Clarice Lispector

Photos : Filipa Moreira dac Cruz

Sem medo

Reprise

Photo : KaDDD

Quem tem medo não ama
Quem tem medo desanda
Quem tem medo esquece
Quem tem medo esmorece
Quem tem medo congela
Quem tem medo tagarela
Quem tem medo exclui
Quem tem medo não evolui
Quem tem medo condena
Quem tem medo ordena
Quem tem medo envelhece
Quem tem medo não esquece
Quem tem medo julga
Quem tem medo vira pulga
Quem tem medo agride
Quem tem medo não progride
Quem tem medo desespera
Quem tem medo não supera
Quem tem medo resiste
Quem tem medo apenas existe
Quem tem medo devora
Quem tem medo não chora
Quem tem medo refila
Quem tem medo exila
Quem tem medo desiste
Quem tem medo joga ao despiste
Quem tem medo balança
Quem tem medo não avança
Quem tem medo recusa-se a viver
Porque está sempre a sofrer.

Filipa Moreira da Cruz

Ciclo de lavagem

Reprise

Programa curto, médio ou longo
Centrifugação ou não
A vida muda num segundo
Peças sintéticas ou de algodão
Roupa suave ou delicada
Colorida, branca ou escura
Estou certa ou errada?
A água remove a nódoa ou ela perdura?
Ciclo aberto ou fechado
Pouco importa!
O mundo é um achado
E Deus escreve certo numa linha torta.

Nota: Este « poema » surgiu depois de uma avaria da minha máquina de lavar roupa, não sem antes inundar o chão. Caso contrário, não teria graça! Escolhi estas fotografias porque adoro conchas e não queria concentrar-me apenas na minha contrariedade. Tento sempre ver um lado positivo em tudo.

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz

A minha casa é uma prisão

Reprise

Photo : KaDDD

A minha casa é uma prisão
Bonita, sofisticada, ordenada
Com toalhas de linho, loiça de porcelana e copos de cristal.
Com gente elegante e educada
– As crianças? Não as ouço…
– Não se preocupe, não há alvoroço

A minha casa é uma prisão
Numas águas furtadas com uma vista deslumbrante
E um gato sempre a brincar
16 metros quadrados para dormir, cozinhar, ler, escrever e meditar…
Faço tudo para não pirar!

A minha casa é uma prisão
O meu palacete, quer você dizer!
No cimo de uma colina, na parte antiga da cidade
Tanto espaço só para mim,
A última da minha geração
De repente, sinto-me mal, que aflição!
O que me salva é o meu velho cão

A minha casa é uma prisão
Onde dormimos, comemos e brincamos no chão
Os adultos são a autoridade e têm sempre razão!

A minha casa é uma prisão
Rodeada de areia branca e fina
Adormeço ao som do mar
E acordo com ele a dizer-me:
Larga tudo e vem surfar!

A minha casa é uma prisão
Com jardim, piscina, cave e sótão
Onde todos se cruzam, mas ninguém se vê
Cada um sofre em silêncio, mas porquê?!

A minha casa é uma prisão
Feita de madeira e de pedra
Vivo no meio da floresta
Sem televisão, computador ou telefone
Hoje lamento esta decisão!

A minha casa é uma prisão
Com rodas e duas pequenas janelas
Não posso circular, mas não faz mal
Isto vai passar!

A minha casa é uma prisão
Um quarto onde durmo por empréstimo
Numa cidade fria e cinzenta
E onde a chuva não dá tréguas

A minha casa é uma prisão
E de porto em porto vivo
O meu barco está atracado
Para respeitar o que me foi pedido

A minha casa é uma prisão
Lar nunca tive, sou nómada
E os meus pertences cabem em duas malas
Sou solitário e homem de poucas falas

A minha casa é uma prisão
Sem porta nem janelas,
Sem pessoas nem animais
Todos os dias são domingos
Preguiçosos, comuns, banais.

Filipa Moreira da Cruz

Abençoada família esta onde nasci!

Dia Internacional da Família

Deveria terminar um trabalho escrito, mas não tenho vontade… O meu amigo Fernando enviou-me um link para um exclente albúm e eu já estou noutra dimensão! Bem longe…!
Voltei a ter 13 ou 14 anos. Revejo-me sentada na salinha cor de rosa preparada para ficar horas a fio a ouvir música e a escrever para aliviar a alma. Só vou descansar o corpo quando o meu pai me forçar. Ele ralha-me porque forço demasiado os olhos (o olho esquerdo e os 10% do que resta ao direito).
Regressei à casa da minha infância, adolescência e início da vida adulta, em Lisboa, onde cresci e fui tão feliz! Uma família de seis é sinónimo de barulho, briga, confusão, mas acima de tudo, amor, partilha, união e força. Os meus pais nunca pensaram que os quatro filhos iriam viver em quatro países diferentes. As viagens de avião, carro e comboio foram e serão muitas. Detalhe insignificante quando queremos estar perto dos que mais contam.
Dois genros estrangeiros que receberam de braços abertos e quatro línguas faladas nas reuniões familiares. Os meus pais aceitam tudo! Férias coletivas, natais em Lisboa, Paris, Londres.
Ai tempo, volta para trás! Deixa-me abraçar ainda mais forte e durante mais tempo aqueles que me deram a vida. Peço-te coragem para dizer-lhes o quanto gosto deles e como encolhe o meu coração quando sofrem e não estou por perto.
A minha mãe, excelente contadora de histórias, mulher de armas e fonte de amor e tolerância conseguiu uma proeza: a cumplicidade entre os filhos. Parece simples, mas nem sempre acontece. A distância não consegue afastar-nos porque nós somos mais resilientes.
O meu filho disse-me, um dia, que o melhor presente que eu e o pai lhe oferecemos foi a irmã. Quando ouvi esta frase senti que parte do meu dever de mãe estava cumprido. Mas o caminho é interminável e os desafios são bastantes. Enquanto há vida, há família. E eu não trocaria a minha nem por um 1.000.000.000.000……..

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz

Lost and Found

Reprise

When my soul was in the lost and found you came along and clame it.

Carole King
Photo : Filipa Moreira da Cruz

My life was predictable
Every day was a long peaceful river
Without mistakes or surprises
No saturday fever
No layz Sundays
No hussle, no fights
Each step was calculated
Each word was measured
Suddenly…
You came along
And everything changed
In a blink of an eye
I felt desire under my deep skin
I saw the sun through your smile
The stars and the moon were on my side
Then, I realised
Before meeting you
I was already dead
Burying myself alive
You saved me
I love you
Two souls, one destiny
May we be bonded
Until eternity.

Filipa Moreira da Cruz

Tu y yo

Desechad tristezas y melancolías. La vida es amable, tiene pocos días y tan sólo ahora la hemos de gozar.

Federico García Lorca
Photo : Filipa Moreira da Cruz

Encuentros y desencuentros
Miedos, mentiras y trucos
Estar contigo me sabe a poco
Y para escaparte me hago el muerto
Ya no me basta tu amor acaparador
Necesito estar a solas, es mejor
Cierro los ojos y vuelo
Lejos busco mi consuelo
Te has perdido la oportunidad
De abrazarme hasta la eternidad
¿Y ahora, que va a pasar?
Nada. La vida sigue y pone cada uno en su lugar.

Filipa Moreira da Cruz

Keep the faith

Photo : Filipa Moreira da Cruz

For the past twenty years I missed births, engagements, weddings, birthdays…
That’s part of the package of living away from our own country.
I don’t regret my choices.
Wandering around the world has given me so much!
And I love all the countries where I’ve lived so far.
Little did I know that the worst was yet to come.
2020 was a dreadful year for many different reasons.
Unfortunately, 2021 has been a tough one too.
And what can I say about 2022?
When we all thought that the nightmare was behind us this cruel war broke out.
It’s all a matter of seconds.
Oil, gas and cereals too.
While this mad man tries to regain the lost(?) empire
The rest of the world is obsessed with the rise of the prices for essential goods.
As if money were more important than a human life.
I think God is challenging us.
Everything happens for a reason.
So they say…
I often miss my family and friends but now is different.
The guilt keeps chasing me.
I should be there.
Lately, my life is a frame of suppositions.
A puzzle of missing pieces.
And time is my most feared enemy.
I’ll get there, eventually.


Filipa Moreira da Cruz

Tourbillon

Reprise

Il me nargue avec son insolente tranquilité
Affichant un franc sourire empreint de sérénité
Son regard dégage des promesses
Mais ses gestes frottent la maladresse
Son corps remplit de moments envoûtants
Me laisse croire à un amour sans lendemain
Pourquoi s’encombrer de problèmes?
Inventer des histoires, des complots et des théorèmes?
En ce moment, les oiseaux s’envolent au dessus de ma tête
On annonce de la tempête?
Ils sont si proches que je pourrais les caresser
Je me sens envahie, agressée
Il faut que je récupère mon energie
Car je risque de négliger un simple trésor…la vie!

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz