Talvez…

Photo : Paul Laurent Bressin

Enganar o tempo
Aproveitar este momento
Amarfanhar o futuro
Disparar um tiro no escuro
Ouvir o silêncio
Gritar o que levo dentro
Despistar a sorte
Perder o sul e o norte
Escorregar no fracasso
Dar aquele abraço
Aprender com os erros
Desvendar os segredos
Vaguear pela multidão
Assumir o sim e o não
Enfrentar o medo
Deixar de lado o enredo
Amar o talvez
Uma e outra vez.

Filipa Moreira da Cruz

Moon in a purple sky

Purple sky
Above my head
Violet dreams
Is all I have
White moon
Dancing alone
Pink thoughts
I am on my own.

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz

Carrousel

Janvier est arrivé
Sans aucune invitation
Il s’est installé placidement
Au premier rang du manège
Et il nous nargue.

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz

Hiver III

De l’autre côté du lac
les cents huits coups
de la cloche du Nouvel An.

Takada Masako
Photo : Filipa Moreira da Cruz

L’hiver s’approfondit
comme s’approfondit
l’affection d’un père.

Iida Ryûta
Photo : Filipa Moreira da Cruz

Nuit de givre
en la prenant dans mes bras
je l’entends vibrer.

Ozawa Minoru

Bem devagar

Reprise

Photo : KaDDD

Temos pressa de nascer
De crescer e de ser gente grande
Somos todos escravos
Dessa estúpida ansiedade
De desaprender sem antes errar

De chegar bem alto
Sem nunca ter caído
De ser o primeiro sem tropeçar
De ir sempre mais longe
Sem sequer tentar

Pressa de ter e de gastar
De trabalhar e de espezinhar
E de ganhar, sim de ganhar
Pressa de viver
Será?

E quando a morte chega
De mansinho e sem avisar
Já é tarde para darmo-nos conta
Que afinal podíamos ter vivido
Simplesmente bem devagar.

Filipa Moreira da Cruz

(In)quiétude

Purifier raréfier stériliser détruire
Semer multiplier alimenter détruire.

Paul Éluard

Cette averse est un feu de paille
La chaleur va l’étouffer.

Paul Éluard

Photos : Filipa Moreira da Cruz

Desencontros

Photo : Filipa Moreira da Cruz

– Senta-te Teresa. Vou contar-te uma história. A minha. Por favor, não me interrompas, senão não terei coragem de continuar.
Começou há muitos anos atrás, na aldeia onde nasci e conheci o meu único amor.

Os meus pais trabalhavam na quinta da família mais rica e importante da região. A nossa vida era modesta, mas nunca nos faltou nada.

Todos os dias, a seguir à escola, eu ia ajudar a minha mãe. Limpava, esfregava, arrumava. Com esmero e sem queixume. Antes de regressar a casa, a minha mãe preperava o lanche para os filhos dos patrões e eu estava autorizada a sentar-me à mesa com eles.

O Henrique era o mais velho dos dois. Sério, austero e um pouco prepotente. O António tinha um ano mais do que eu e era o sol nos dias de inverno. Bonito, simpático e cheio de vida. Faziamos tudo juntos: correr pelos corredores da grande casa, jogar às escondidas no jardim, esfolar os joelhos a subir às árvores, pescar trutas no rio. Durante a infância, sempre o considerei como o irmão que os meus pais não me conseguiram dar. O meu melhor amigo.

Na adolescência, percebi que o que sentíamos um pelo outro era mais que amizade. Recordo o nosso primeiro beijo nas traseiras da padaria da vila. As minhas pernas fraquejaram, o meu coração parecia voar. Foi o segundo melhor dia da minha vida. O primeiro foi quando tu nasceste Teresa.

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Prometemos ficar sempre juntos. Mas o destino tinha outros planos. E as nossas famílias também.

O Henrique já estava a estudar Medicina. E o António, que sempre sonhara em ser astronauta, também seria médico como o bisavô, o avô, o pai e o irmão. Casaria com uma rapariga de boa família e viviriam na capital. O seu caminho estava traçado, com régua e esquadro. Não havia espaço para « fantasias de adolescente » .

Quanto a mim, tive que implorar para frequentar as aulas noturnas de datilografia. Os meus pais não entendiam a minha obstinação em estudiar se, de qualquer maneira, iria trabalhar na quinta no dia em que a minha mãe deixasse de ter forças para o fazer. Não tive coragem de dizer-lhes que não era isso que queria para mim. Preferi fazer a mala e fugir para Lisboa para viver com uma tia. No dia seguinte de manhã, tudo o que encontraram foi uma carta em cima da mesa da cozinha.

Em Lisboa, conheci a tão desejada liberdade! As festas, o primeiro cigarro, os namorados. Mas nunca deixei de pensar no António. Sabia que estava noivo de uma rapariga rica, mas ignorava tudo o resto.

Certo dia, vi-o, à saída do cinema Londres com um grupo de amigos. Os nosso olhares cruzaram-se apenas uns segundos, mas foi o suficiente para regressar ao primeiro beijo. A partir daí, encontrávamo-nos às escondidas no seu apartamento perto da faculdade de Medicina. O nosso amor ganhou asas e cresceu. Contra ventos e marés.

Quando o António soube que estava grávida jurou anular o noivado e tomar conta de mim e do bebé, mas ambos sabíamos que tal não aconteceria. Ele vivia com o dinheiro que os pais lhe enviavam. E assim que soubessem o que o filho tinha em mente deixaria de haver mesada.

Photo ; Filipa Moreira da Cruz

Como em muitas histórias de amor, a nossa também não teve um final feliz. Regressei à vila com uma barriga proeminente e o coração aos pedaços. Os meus pais apressaram-se a encontrar-me um rapaz que aceitasse casar com quem carregava o bebé de outro.

Tive sorte. O teu pai era honesto e respeitador. Amou-te mesmo antes de tu nasceres. Foste desejada pelos dois, embora por razões diferentes. Para mim, eras fruto de um grande amor. Para ele, um milagre porque Deus não lhe permitira deixar descendência naturalmente.

Tinha notícias do António, ocasionalmente, mas nunca lhe escrevi nem o voltei a ver. Até há três anos. Ia a travessar a Avenida da Liberdade. Convidou-me para um café e eu aceitei. Falou-me nos dois filhos, os teus irmãos. E na mulher que morreu de cancro. Esta maldita doença não poupa ninguém! Nem mesmo os ricos! Perguntou-me por ti e porque nunca tinha respondido às suas cartas nem aos telefonemas. Limitei-me a responder que o passado não deve ser remexido. Despedimo-nos com a certeza de que esta seria a última vez que nos veríamos. Chorei desalmadamente durante todo o trajeto do metro que me empurrou até à nossa casa.

Sabes que o tempo não está do meu lado Teresa e não queria partir com o peso deste segredo. Espero que, um dia, me possas perdoar.

Teresa envolveu o corpo magro e frágil da mãe e segredou-lhe:

– Gosto tanto de ti!

Maria do Carmo, fechou os olhos e abraçou o sono profundo.

Filipa Moreira da Cruz

Street art

Sábio é quem se contenta com o espectáculo do mundo.

Fernando Pessoa

De tudo o que nós fazemos de sincero e bem intencionado alguma coisa fica.

Florbela Espanca

Photos : Filipa Moreira da Cruz

Life is a rollercoaster

Reprise

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Have a nice day!
Even if it’s pouring down
And you forgot your umbrella
Even if you’re late
And you just missed the bus
Even if that stupid pigeon
Ruined you new suit 

Have a great day!
Even if you are sick
And you have no medicine
Even if you want to leave
But the others force you to stay
Even if you’re craving for a cigarette
But you quit smoking

Have a beautiful day!
Even if you’re vegetarian
And they only serve meat
Even if you pray for peace
But the war has already started
Even if you lost the love your life
For your best friend

Have an awesome day!
Even if you wish to work
But they are all on strike
Even if you judge your neighbour
But your son has a gun
Even if you dream with Champagne
But all you have is cheap wine

Have an extraordinary day!
Even if it’s raining cats and dogs
And you’re completely soaked
Even if you are only 38
But you already feel like 83
Even if you’re getting married
But suddenly, you’re not so excited.

Filipa Moreira da Cruz
     

Rennes I

Les pieds me brûlaient à Paris, je ne pouvais m’habituer au ciel gris et triste de la France, ma patrie; qu’aurais-je donc pensé du ciel de la Bretagne, ma matrie, pour parler grec?

François René de Chateaubriand

Amour d’été n’est pas de longue durée.

Proverbe breton

Et l’on peut dire avec assurance que si la Vendée fit du brigandage une guerre, la Bretagne fit de la guerre un brigandage.

Honoré de Balzac

Photos : Filipa Moreira da Cruz