carpe diem

Photo : KaDDD

O mês de dezembro foi peculiar e o dia do meu aniversário foi passado entre o apartamento onde vivo e uma excursão a quatro até ao centro de rastreio Covid. Uma semana antes tínhamos estado em casa de dois familiares do meu marido que confirmaram, mais tarde, serem positivos. Confesso que, na altura, ninguém tinha máscara, com exceção do meu filho que raramente se separa dela (tal foi o susto que apanhou com o maldito vírus!). Após este episódio infeliz, a Segurança Social exigiu-nos dois testes, o serológico e o RT-PCR. O primeiro confirmou-nos duas coisas: tivemos o vírus e ainda temos anticorpos. Obviamente que o segundo deu negativo.

Um momento de desatenção provocou uma reviravolta nas nossas rotinas. Os meus filhos não foram à escola durante oito dias e os amigos mais chegados entraram em pânico. Eu estive em teletrabalho e os nove colegas com os quais partilho habitualmente o mesmo espaço foram forçados a fazer o mesmo, por precaução. Felizmente, o meu marido não pode trabalhar à distância, por isso, couberam-lhe a ele as tarefas domésticas, algo que faz com agrado.

Foram vários os Natais que não passei no meu país por razões profissionais. Os meus filhos fazem questão de se reunir com a família portuguesa nesta altura do ano e estão habituados a viajar sozinhos. Prometi-lhes que, em 2020, não trabalharia durante este período e que, estaríamos todos juntos em Portugal. Pude apenas cumprir uma das promessas. Ainda não foi desta que nos voltamos a reunir.

Em França, os restaurantes, cafés, pastelarias e bares estão totalmente fechados desde 30 de outubro e devem permanecer assim, até pelo menos, 20 de janeiro. Cenário idêntico para os cinemas, teatros e salas de espetáculos. É desolador passear pelas ruas pedonais do centro histórico da cidade onde vivo. O recolher obrigatório também continua e agora passou a ser das 20h00 às 06h00. A única exceção é o dia 24 de dezembro. No último dia do ano estarão 100.00 polícias na rua para que a população cumpra o distanciamento social. Liberdade (mais que) condicionada. Tolerância zero.

Apesar do governo ter autorizado seis adultos (as crianças não contam) na ceia de Natal nós decidimos passar a noite de 24 de dezembro só os quatro. A minha filha ficou tão traumatizada com o teste Covid que se recusa a partilhar a casa com outras pessoas que não pertençam ao agregado familiar.

A mesa foi decorada a preceito e cada um tinha um menu personalizado. O chef impressionou-nos com o seu sumptuoso festim. E até houve bacalhau! Jogamos ao Cluedo, ao Trivial Pursuit Junior e quando eu já estava à beira de um ataque de nervos com o interminável Monopoly o meu filho decidiu que estava na hora de abrir os presentes. Aleluia!

Este ano foi assim. Em 2021 logo se verá. Deixei de fazer planos e cada vez tenho menos expectativas. Vivo o momento porque há certas realidades que nos escapam e outras que nunca chegamos a controlar. Carpe diem.

Filipa Moreira da Cruz
Dezembro 2020

Novo mundo

Photo : KaDDD

Bem-vindo à “nova normalidade”! Quer ir dar um mergulho no mar? Não há problema! Basta tirar a senha e esperar pela sua vez! Se preferir, fazer um piquenique no parque ou no jardim do bairro, não há nada mais simples! Coma, beba, converse e vigie as crianças de pé porque os bancos são apenas decorativos e a relva está reservada. Se necessitar comprar um par de óculos não hesite em levar uma máscara da mesma cor do modelo pretendido. Mas se não conseguir, não se preocupe. Deite fora a sua (pode ser mesmo na sarjeta) e vá buscar outra que faça conjunto.

Errar é humano e vale tudo para salvaguardar a aparência. E nas férias, como vai ser? Calma, está tudo controlado! Road trips é o que está a dar! As reservas de petróleo estão à nossa espera e as autoestradas também. Para os mais apressados, há aviões com tripulação e passageiros mascarados e uma rica quarentena no país de chegada. E que tal um café e um bolinho no bistrot ao lado de casa servidos no plástico tão amigo do ambiente? Feito!

2020 começou mal e, por este andar, vai terminar em apoteose. A História tem tendência a repetir-se, mesmo que nada seja exatamente como antes. Séculos depois da Peste Negra, 100 anos após a gripe Espanhola e passadas duas grandes guerras o ser humano vive aterrorizado com a ideia de uma 3ª Guerra Mundial. Entretanto, foi um vírus com várias coroas que virou o mundo do avesso. Parece que no velho continente o pior já passou e a Europa pode, finalmente, celebrar o desconfinamento com pompa e circunstância. E até o Verão antecipado vem ajudar à festa. Uns saem à rua destemidos, a falar alto e de peito erguido, enquanto outros caminham nas pontas dos pés e limitam-se a sussurrar, com medo de despertar a cólera do monstro.

São poucos os que admitem que quase nada será como antes. É mais fácil viver o presente. Até porque tudo pode mudar de um momento para o outro. Escasseiam os que reconhecem que o antigo “normal” já quase não existe. Resistimos a equacionar outro modo de vida porque o desconhecido assusta-nos e obriga-nos a sair da nossa zona de conforto. Preferimos acreditar que o mundo está à nossa espera tal como era, intacto. É importante confiar que vai correr tudo bem. Às vezes um placebo é mais eficaz que um antibiótico. Basta crer. A fé move montanhas.

A pandemia deixou-nos órfãos de afetos, de abraços, de aconchego. Os laços intergeracionais foram bruscamente interrompidos. As crianças ficaram sem escola, sem amigos, sem professores. E pior ainda, sem brincadeira nem recreio. Os doentes crónicos tornaram-se invisíveis e ir ao dentista passou a ser missão (quase) impossível. Já são muitas as pessoas que perderam o emprego e outras serão forçadas a mudar de rumo. Certas profissões deixarão de existir e surgirão novas. O futuro é agora e tudo é efémero.

A vida continua, mas as feridas mais dolorosas permanecem invisíveis e vão demorar tempo a cicatrizar. É mais fácil pedir ajuda para comer que admitir que o nosso espírito está debilitado. Os nervos estão à flor da pele, a paz interior foi abalada e este vírus é o álibi perfeito para todos os males da sociedade contemporânea. A partir de agora, é tudo culpa da covid. Para alguns, dar a volta por cima exige um esforço demasiado elevado. E o mau da fita está mesmo à mão de semear.

Recomeçar, renovar, reinventar, reciclar. A mudança não me assusta. Sou nómada por natureza. E otimista também. Já vivi em tantas casas que perdi a conta. Saint-Malo é apenas mais uma passagem. A cité corsaire, em tempos habitada por piratas reconhecidos pelo próprio rei, é única e autêntica. O seu clima rude forjou personalidades fortes de marinheiros e navegadores. Daqui saiu a primeira expedição à Terra Nova (Canadá) liderada por Jacques Cartier.

Nesta cidade, banhada pela Mancha e onde há quase mais praias que pessoas, aprendi a ouvir o silêncio e a seguir o vento que vem, muitas vezes, do Mont Saint-Michel, esse lugar mágico. Deixei de levar a vida tão a sério há algum tempo e planos só mesmo a curto prazo. Este vírus veio dar-me razão. A vida é feita de imprevistos. E ainda bem. Se for para ficar, ficaremos. Se o nosso destino for soltar amarras e partir, partiremos. Não é por acaso que o meu melhor amigo, que é Alemão, me chama “a malinha pronta”.

Filipa Moreira da Cruz
Maio 2020

En mai, fais ce qu’il te plaît

Photo : KaDDD

Bem vindos à nova normalidade! Maio 2020 já é uma data histórica para muitos habitantes do planeta azul. O mês do desconfinamento, da desclausura, mas sem desobediência nem desenvoltura. Avançamos a passos de bebé, com prudência e sem excessos. Caso contrário, voltaremos para casa antes de saborear a tão ansiada liberdade. Como dizem os franceses, en mai, fais ce qu’il te plaît (em maio, faz o que te apetece). Será? Pela primeira vez, na época contemporânea, uma pandemia virou tudo do avesso . O que era válido e aceite foi posto em questão, modificado e, até mesmo, abolido. Esqueçam (quase) tudo o que viveram até agora. O verdadeiro milénio começa com a era pós covid19.

As novas medidas de distanciamento, as regras de higiene a cumprir, os trabalhos que deixarão de existir e os que surgirão vão ser uma prova de fogo à nossa resiliência, criatividade e capacidade de superação. No início, parece tudo simples porque em teoria corre tudo bem. Mas na prática, as coisas são outras. Os seres humanos não têm comportamentos previsíveis como o cão de Pavlov. A genuína revolução não se escreve a vermelho numa folha de papel, nem se desenha com régua e esquadro. Este vírus tem demonstrado que, de um momento para o outro, tudo muda.

Cientistas, médicos e virologistas não chegam a consenso e o coronavírus não vai de férias tão cedo. Está a dar-lhe um gozo enorme infetar e, por vezes até matar, ricos, pobres, altos, baixos, gordos, magros, solteiros, viúvos, casados, velhos, jovens, migrantes, emigrantes, imigrantes, enfermeiros, doutores e engenheiros. A maldita covid-19 é capaz de derrubar mega potências económicas, provocar um pandemónio diplomático e trancar a quatro chaves quase toda a população sem alaridos nem fogos de artifício. Não foram necessárias as tão temidas armas químicas, nem foi lançado nenhum míssil nuclear. Bastaram o pânico, o medo e a desconfiança. Este inimigo é subtil, traiçoeiro e imprevisível.

Mas vamos ao que interessa! Afinal de contas, a vida continua e os países são unânimes: a retoma económica não pode esperar. Em França, muitos regressaram ao trabalho munidos de máscaras, luvas e viseiras. Não havendo testes para todos aposta-se na prevenção. As pessoas desejam recuperar a vida de antes, mas esta nova realidade transformou hábitos e rotinas. De repente, os donos dos cães mudam de passeio para evitar qualquer contacto, os vizinhos deixam de se cumprimentar com medo que um simples bonjour os possa contaminar, as crianças já não brincam juntas nos parques, as padarias não têm o pão do dia cortado aos bocadinhos para provar. Caminhamos apressadamente e analisamos, de longe, os rostos uns dos outros com um ar desconfiado porque é mais difícil sorrir com os olhos.

Os professores, bem como todos os funcionários do meio escolar, passaram a estar mascarados e só falta a capa para serem autênticos super heróis. A escola reinventou-se, o melhor que pode, para cumprir todas as normas: entrada e saída por portas diferentes, máximo de 15 crianças por sala (finalmente!), marcas no chão, lavagem frequente das mãos, música durante o recreio, aulas de yoga e meditação. Vale tudo para preservar a harmonia entre os mais pequenos. A cantina também se adaptou, passando a acolher apenas metade da capacidade para respeitar a distância exigida.

Os cabeleireiros voltaram a abrir portas e como ninguém pode viver muito tempo sem cortar o cabelo, não têm tido mãos a medir. De tesoura e pente na mão, os profissionais tentam remediar o desastre porque lhes foi impossível evitar o pior, uma vez que isso já tinha sido feito em casa. Para alguns, a carecada foi mesmo a única solução. E que dizer do sexo feminino! É ver desfilar velhas e jovens com cabelos tricolores porque, num devaneio, tiveram a triste ideia de pintar a cabeça de verde, azul ou cor-de-rosa e agora não aguentam a máscara tantas horas seguidas para ser feita uma descoloração em condições. “Fica como ficar”. Estas proezas justificam os novos tarifários e nem os franceses, que são peritos em queixar-se, ousam resmungar. Eles são cordon bleu, especialistas em bricolage, canalizadores improvisados, mecânicos por necessidade, mas cabeleireiros é que não!

Os restaurantes e os cafés ainda não estão operacionais. Isso dá-lhes mais algum tempo para a grande mudança. Ousadia, imaginação e sentido de humor serão os melhores aliados dos profissionais da restauração. Surpreendam-nos, senhores! A nova normalidade talvez seja servida em pratos e talheres biodegradáveis, copos de cartão, cadeiras espaçadas (lá se vai o bistrôt parisien), ementa escrita na velha ardósia ou menus descartáveis. A brigada na cozinha vai ver o chef à distância, por motivos de força maior, claro!

Para muitos empregados será ainda melhor que ganharem o euro milhões. Quanto aos clientes também terão que ser audazes. Esqueçam tudo o que conheceram até agora. Os que tinham em mente um jantar íntimo e romântico, abstenham-se. Em contrapartida, aqueles que contam as calorias e recusam-se a engordar estão cheios de sorte. Munidos de máscara serão incapazes de degustar seja o que for, mas como os olhos também comem… “Vê, paga e cala”!

E os beijos, as carícias, os abraços? Os gestos que nos acalmam e reconfortam voltarão algum dia? Esperemos que sim, para o bem da Humanidade. Nenhuma aplicação virtual substitui os afetos. Até lá, as palavras serão as únicas capazes de aliviar as dores do corpo e da alma.

Filipa Moreira da Cruz
Maio 2020

¡Al mal tiempo, buena cara!

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Só quem te conhece mal é que se atreve a concluir, erradamente, que és a nossa irmã gémea. Tu és ímpar, singular, cosmopolita, multicultural. Berço de mil e uma noites, de reis e de rainhas, de uma guerra civil sangrenta e de uma ditadura franquista. Terra de montanhas, serras e mesetas banhada pelos mares mediterrâneo e cantábrico e pelo oceano atlântico. Coberta pela neve dos pirinéus, da sierra nevada e do monte Teide. As águas translucidas de Formentera e as praias de areia dourada da costa de Cadiz fazem de ti única e especial. E que dizer das sete ilhas encantadas que arrebataram o meu coração? Foste a minha casa durante sete anos, repartidos por três lugares: Tenerife, San Sebastian e Fuerteventura e só por isso ser-te-ei eternamente grata.

Muitos consideram-te vaidosa, arrogante, egocêntrica porque os teus sentem orgulho em ti e em tudo o que ofereces. E como se fosse pouco ainda criaram a “marca Espanha” representada, entre outros, por Rafael Nadal, Antonio Banderas, Ana Botín, Pau Gasol, Fernando Alonso. E eu peço-te apenas que partilhes um bocadinho dessa magia com os do meu país que tanto teimam em deitar abaixo tudo o que é nacional.

Falo, leio, escrevo, canto e sonho em Castelhano regularmente. Faço-o por gosto e, acima de tudo, por necessidade. Lo llevo en la sangre. Ou não tivesse eu antepassados nascidos em Santiago de Compostela e Valladolid. Conheço Espanha quase tão bem como Portugal e são poucas as regiões que ainda não visitei. Este amor incondicional por nuestros hermanos já vem de família. Durante anos o aniversário da minha mãe era sempre passado no país vizinho. Mais tarde, empenhei-me em não romper a tradição. Foram muitos os dezembros celebrados em Bilbao, Sevilha, Mérida, Ávila, Girona, Toledo, Corunha…

O curso de Espanhol para estrangeiros na universidade de Málaga e as conferências em Salamanca e Gijón, cidade onde viveu o saudoso Luis Sepulveda, permitiram-me um conhecimento mais sólido deste país tão próximo e, ao mesmo tempo, tão longe do nosso. Mas o êxtase do enamoramento chegou com o novio espanhol. Juntos percorremos a Andaluzia de mota, viajamos por toda a Galiza, dormimos nos Paradores mais emblemáticos, visitamos Madrid vezes sem conta… Recordo com carinho a paella dos domingos de sol onde eu era mais um membro naquela família numerosa e alegre.

O meu amor pelo país continua de boa saúde. Já a Espanha está doente e chora as quase 27.000 vítimas da covid-19. Fechou-se em casa tarde e a más horas, segundo alguns. O que falhou? Onde é que erraram? Teorias não faltam, mas as certezas escasseiam. E agora de nada vale culpar Pedro Sanchez e o seu governo. A instabilidade política tem sido uma constante nos últimos anos e a maioria da população já não acredita em nenhum político.

As medidas aplicadas foram das mais severas do velho continente. Até há pouco tempo, só se podia sair de casa por uma razão válida: trabalho, passear o cão, ida ao supermercado, visita a um familiar que necessite ajuda. Passados quase dois meses, as pessoas estão, finalmente, autorizadas a sair dentre as 06h00 e as 10h00 ou as 20h00 e as 23h00. De acordo com os amigos espalhados um pouco por todo o país os verdadeiros heróis, excluindo todos os que estão na linha da frente no combate à pandemia, são los niños.

As crianças não só demonstraram estar à altura do que lhes foi exigido como se atreveram a superar a prova com êxito, graças à sua incrível resiliência. E eu sei como deve ter sido quase impossível mantê-las em casa! Os espanhóis vivem fora de casa. Faça sol, vento, chuva ou neve, tenham 9 meses ou 90 anos, eles ocupam as esplanadas da plaza mayor, passeiam pelas avenidas, organizam jogos e tertúlias nas ruas pedonais.

O isolamento não é sentido da mesma forma nas diferentes regiões e a apreensão no regresso à tão desejada normalidade também é distinta. Até porque o desconfinamento pode virar descalabro se não for realizado com prudência. Uma amiga de Cáceres disse-me “estou tão habituada a estar em casa que agora o que me dá medo é regressar ao trabalho”.

As zonas mais afetadas pelo vírus (Madrid, país Basco, Catalunha) são também as mais ricas do país e, provavelmente, terão menos problemas em dar a volta por cima. Em contrapartida, há outras regiões que correm o risco de ficar viradas do avesso. Os amigos que vivem na Extremadura e nas ilhas Canárias e Baleares dizem que a crise mais grave não é sanitária, mas sim económica e social. O governo está tão preocupado com a situação na península que se esquece das reais dificuldades insulares. Mas já quase ninguém estranha. Como diz um amigo, “os políticos entram e saem, mas só os reis ficam”.

Está previsto que os grandes hotéis abram as portas somente em novembro, altura em que os voos internacionais também serão autorizados. Até lá, como (sobre)vivem famílias inteiras que dependem do turismo? Por enquanto, graças ao ERTE (regime equivalente ao layoff em Portugal). Mas até quando? Ninguém sabe. Os espanhóis são especialistas em fazer das tripas coração para seguir adelante sem lamentos nem choros porque vivem ao ritmo do flamenco e do reggaeton e não do fado. A vida continua. ¡Al mal tiempo, buena cara!

Filipa Moreira da Cruz
Maio 2020

« Estou farta deste vírus! »

Photo : KaDDD

Et voilà, o dia 1 de maio também esteve de quarentena. A “fête du travail” celebra-se no país galo desde 1793 e é quase tão importante como o 14 de julho (dia nacional). Pela primeira vez, não houve festejos nem desfiles da CGT ou da “France Ouvrière”. Neste mesmo dia, celebra-se outra festa: a do muguet (lírio do vale) que remonta ao século XVI. Faz parte da tradição oferecer esta flor como símbolo de felicidade, prosperidade e boas colheitas. Tudo isto em torno de um almoço com a família ou os amigos, regado com bom vinho. O governo proibiu a venda do muguet, apesar da pressão exercida pelos supermercados, floristas, horticultores e outros. Uma premiére mal digerida por muitos que se sentiram nús sem a flor “du bonheur” apenas comparável à tristeza dos sindicatos sem as suas bandeiras na rua.

Certo dia, a Mathilde decretou: «não quero ouvir mais nada da Covid-19. Estou farta deste vírus!». Já nada me estranha por parte da minha filha que, aos 3 anos, me perguntou porque é que eu era “a única gorda da família”. Na altura, fiquei sem resposta e ela rematou com um “gosto muito de ti” sincero e um abraço apertadinho. A Mathilde é assim mesmo, direta, decidida, mas carinhosa. Sai mesmo à titi Jo! O Stan é o oposto; sensível, reservado, ponderado. Talvez por isso, não me tenha surpreendido ao dizer que “os adultos estão tão preocupados com a doença, o trabalho e o dinheiro que se esquecem de viver. Com medo, não avançam”. Parece que se puseram os dois de acordo no boicote ao coronavírus, cada um à sua maneira.

Estive tão concentrada em evitar ler notícias trágicas que perdi o discurso do primeiro-ministro Edouard Philippe na Assembleia Nacional. Não fui a única. E mesmo os que ouviram todas as medidas que serão aplicadas brevemente não perceberam quase nada, deputados incluídos. Sãs muitas as incoerências e poucas as certezas. O estado de emergência sanitária foi prolongado até 24 de julho. No entanto, o início da retoma económica será já a partir de 11 de maio. Resumindo:

  • Abertura dos pequenos comércios, bibliotecas e pequenos museus, com exceção dos que não puderem aplicar as regras de higiene e segurança (cafés e restaurantes não estão incluídos);
  • Abertura de jardins e parques públicos (somente nas regiões autorizadas);
  • Abertura do pré-escolar e do básico com base no voluntariado (?) e máximo de 15 crianças por sala (o secundário e as universidades ainda não têm data marcada);
  • Aumento gradual da circulação dos transportes públicos (sempre com máscara), mas preferível o uso dos transportes individuais (carro, trotinete, bicicleta);
  • Livre circulação sem atestado até 100 km do local de residência;
  • Restrição de convívios a 10 pessoas;
  • Favorecer, ao máximo, o regime de teletrabalho ou aplicar horários alternados nas empresas, a fim de evitar grande número de colaboradores ao mesma tempo.

Com o propósito de gerir da melhor forma possível o início do desconfinamento, o território francês vestiu-se com as cores da bandeira de Portugal. A partir de agora, França está dividida em três zonas: verde, amarela e vermelha. Estas foram atribuídas tendo em conta dois critérios: o número de casos de Covid-19 confirmados e a capacidade de resposta dos hospitais. Após várias polémicas, (ou não estivesse eu a viver num país onde queixar-se faz parte do ADN) o mapa tricolor foi apresentado oficialmente. Por sorte, a Bretanha está pintada com a cor da esperança, tal como, a Normandia, a costa Atlântica, o país Basco e a Côte d’Azur. De amarelo ficaram o centro e os Alpes. Quanto ao norte, à região do grande este e à Île de France foram cobertos pela cor do fogo e do sangue. Os habitantes de Bordéus, Nantes, Marselha ou Nice encontraram o trevo de quatro folhas. Os que vivem em Lyon, Grenoble ou Orléans são mais controlados. Por outro lado, Paris, Estrasburgo ou Lille são os frutos proibidos.

Tal como num jogo decisivo entre o Benfica e o Sporting, ainda está tudo em aberto. Até ao apito final muita coisa pode acontecer. O verde pode virar vermelho e vice-versa. Os franceses sonham com o regresso à vida de antes e queixam-se, cada vez mais, da privação de liberdade individual e coletiva. Ainda assim, o tão ansiado regresso à “normalidade” está em suspenso. Só nos resta esperar.

Filipa Moreira da Cruz
Maio 2020

O vírus com várias cores

Photo : Filipa Moreira da Cruz

No país onde vivo há três assuntos tabu: a política, a religião e o dinheiro. Paradoxalmente, os nativos têm opiniões bem formadas acerca dos três e expõem-nas com facilidade nas redes sociais ou em conversas de café, mas raramente em reuniões familiares. Os franceses adoram comentar a atualidade política e criticam todos os partidos: da extrema esquerda de Mélenchon à extrema direita de Le Pen. Pouco tempo depois de ser eleito, o presidente da República é sistematicamente posto à prova, até mesmo pelos que votaram nele. Faz parte do jogo. Perverso e invasivo.

Contrariando outro dos tabus, são muitos os franceses que se julgam doutorados em Cristianismo, Islamismo e Judaísmo. Curioso, num país que se assume como laico. Ou talvez não. A França deve ser o Estado-membro da União Europeia com mais mesquitas e sinagogas. A liberdade religiosa é tão importante que existe mesmo um artigo na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789. Quanto ao dinheiro… ninguém fala! Não se diz quanto se ganha nem quanto se gasta. Até há pouco tempo, era inapropriado perguntar-se o ordenado na primeira entrevista de trabalho.

A situação que vivemos é única. A realidade superou a ficção. E tudo muda, da noite para o dia. Literalmente. O “normal” passou a ser aberrante e o impensável passou a ser “normal”. E isto também se aplica à triologia dos temas a evitar numa conversa.

Portugal tem sido apontado como um exemplo na gestão da pandemia. Isto deve-se, em parte, à união de todos os partidos políticos para combater a Covid-19, algo que contrasta com o cenário em França e, até mesmo, na vizinha Espanha. São vários os amigos estrangeiros que me dizem que os Portugueses são solidários, unidos e civilizados. Segundo eles, o Governo agiu atempadamente, evitando a catástrofe. Os políticos lusos puseram de lado as divergências para derrotarem juntos o vírus. Talvez não seja exatamente assim, mas quem sou eu para contrariar esta versão romantizada do “milagre” Português!

O Ramadão já começou (jejum praticado pelos muçulmanos que dura entre 29 a 30 dias) e será difícil controlar o isolamento social, sobretudo a partir do pôr do sol. Partilhar a refeição com a família e os amigos é o momento mais esperado do dia. Habitualmente, a última oração é realizada em grupo. Impedir que tal aconteça vai ser um desafio quotidiano. A polémica está lançada e não há consenso. Há autarquias que já avisaram que o controlo será ainda mais apertado, enquanto outras mostram-se mais tolerantes.

A economia está adormecida, mas as despesas dispararam. O rendimento familiar de muitos lares franceses tem-se mostrado elástico perante o aumento do consumo de água, gás e eletricidade. Mas até quando? As idas ao supermercado são frequentes e os preços dos alimentos aumentaram. Fruta, legumes, carne e peixe estão mais caros. As típicas promoções do género “pague 1 e leve 2” escasseiam. Basta comparar a fatura do mesmo sítio antes e depois do confinamento. De nada serve ao Governo insistir que não houve qualquer aumento. A carteira fala mais alto. São cada vez mais as pessoas que não têm condições nem para comer. Reformados, famílias monoparentais, jovens universitários, desempregados fazem fila à porta das instituições francesas que distribuem comida. De repente, falar de dinheiro deixou de ser tabu para passar a ser primordial. Fazem-se contas à vida.

Vida essa que está em suspenso para uns e enterrada para outros. Mas o tempo não para, caprichoso e provocador. As férias da Páscoa terminaram e o 3º período começou em casa, pela primeira vez! Na pequena escola em frente à praia que os meus filhos frequentam as professoras prepararam uma pasta para cada aluno com um dossier, várias fichas, um livro (a Mathilde está desejosa de ler “O rei que não queria reinar”!) e dois cadernos. Tudo oferecido. Do 1º ao 5º ano quase todo o material é fornecido pelas autarquias. Os encarregados de educação só pagam a cantina e o valor da mesma é calculado todos os anos com base na declaração dos impostos.

Desde o início do ano letivo, os meus filhos têm acesso à plataforma digital mon école que é destinada aos alunos do primeiro e do segundo ciclos. Cada um tem o seu código e pode realizar livremente as atividades propostas de acordo com o ano que frequenta. Basta um clique para terem acesso ao jornal junior, à palavra do dia, à visita virtual de um museu, à viagem por um país no mundo, à descoberta de uma obra de arte. E, obviamente, aos exercícios de francês, problemas e jogos de matemática, pesquisas históricas, experiências científicas e vídeos explicativos. A rotina manteve-se praticamente inalterada. No entanto, as professoras passaram a personalizar, na plataforma, as mensagens destinadas a cada aluno, tendo em conta o trabalho realizado por cada um deles. Ambas têm demonstrado um enorme esforço e dedicação. Para além disso, comunicam com frequência por e-mail onde apresentam as correções das fichas e dão explicações sobre as matérias mais difíceis.

O Stan sempre gostou muito das ciências exatas e a matemática é a sua paixão. A Mathilde sai a mim. Gosta muito de escrever, tem um espírito rebelde e criativo. Ou isso pensava eu! Desde que, no ano passado, começou com o “método de Singapura” passou a preferir a matemática, como o irmão. Não me admira! Com esse método até eu deixei de ter medo dessa disciplina. Ainda assim, a minha filha continua a inventar histórias e a escrever no diário que a tia Inês lhe ofereceu no Natal. A sua professora envia, todas as semanas, o “jornal da quarentena” onde partilha os trabalhos realizados pelos alunos (à distância) e as notícias da turma. A Mathilde participa assiduamente com prazer. Inventou a história do “vírus com várias cores”, fez um mini livro com origami, realizou um vídeo na cozinha a fazer madalenas… Tudo é pretexto para passar o tempo e esquecer a razão pela qual somos forçados a ficar em casa. Ou não tivesse ela dito um dia que “deveríamos morrer todos muito velhinhos, durante o sono, sem sofrer”.

Filipa Moreira da Cruz
Abril 2020

« Please, call me Brad! »

Photo : KaDDD

As férias da Páscoa estão a chegar ao fim. E que férias! Todos os dias parecem domingos de Inverno, longos e preguiçosos. Para tornar o cenário mais credível a temperatura baixou e a chuva tem-nos feito companhia. E temos tempo! Para contar histórias, jogar ao Cluedo e ao Monopoly, fazer puzzles, ouvir música, dançar na cozinha, ver filmes, comunicar com os amigos e a família, ler um livro com muitas páginas (ou vários livros fininhos), arrumar a casa (nunca esteve tão limpinha!). E, sobretudo, tempo para não fazer nada!

No entanto, nem tudo foi cor-de-rosa, para grande desgosto da Mathilde que fez desta cor o seu talismã . O Sébastien piorou: voltou a ter febre, cefaleias e dores musculares. O Stan ainda não recuperou e há semanas que não temos uma noite descansada. Acorda com febre, tosse, diarreia, náuseas … Há dias que faço compressas com chá de camomila e lemongrass para atenuar a conjuntivite que se veio juntar à festa bacteriológica. Ele não tem vontade de comer porque ainda não recuperou o paladar nem o olfato. E agora comigo na cozinha, ainda menos.

O cozinheiro cá de casa nomeou-me sua substituta durante a convalescença que se espera rápida, para o bem dos nosso estômagos. Declaro aberta a temporada de sopas, saladas e bolos! Dediquei-me aos doces com afinco. Nostalgia dos tempos em família na casa de Alvalade. Eu e a minha filha preparamos madalenas, tarte de maçã, petit gâteau au chocolat, bolo de canela, financiers

Certo fim de tarde, fomos surpreendidas por um fenómeno estranho. A cozinha estava a ser invadida por um exército de formigas e a Mathilde exclamou: “Sou tão boa pasteleira que nem as formigas resistem”. Como se não bastasse, no dia seguinte, ia no corredor com uma taça de chá na mão e escorreguei, esquecendo-me que o chão ainda estava molhado. A queda foi tão aparatosa que fiquei imóvel, sem saber se rir ou chorar. A Mathilde foi a correr chamar o pai. Tinham os três que ajudar a levantar-me porque o hospital estava “infetado pelo coronavírus”.

Eu e o Sébastien fazemos parte dos milhões de Franceses que não podem trabalhar em casa. Recebemos 70% do salário bruto e desconhecemos quando regressaremos à vida ativa. Nem sequer sei se o hotel onde trabalho vai abrir antes do Verão. Talvez tenha de mudar de área profissional, outra vez. Apesar da incerteza, considero que somos uns privilegiados. Não temos reuniões de equipa às 09h00, não estamos todo o dia em frente ao computador e podemos desfrutar da família a tempo inteiro. Os nossos filhos têm sorte por estarmos sempre disponíveis.

Tenho saudades do meu local de trabalho. Adoro os emblemáticos hotéis de luxo. A azáfama, os imprevistos, as exigências das estrelas de cinema, dos políticos, dos cantores e dos PDG de multinacionais. Estive no “front row” de desfiles intermináveis de famosos Portugueses e estrangeiros, de certo modo, iguais a todos nós. Alguns tornaram-se amigos e viram os meus filhos crescer, como M., antigo número 2 de Veolia Internacional. O cantor Mika ofereceu-me um CD autografado e dois bilhetes para o concerto em Paris ainda antes de ser mundialmente conhecido. Fiquei grávida quase ao mesmo tempo que a Carla Bruni e cruzamo-nos várias vezes barrigudas, nos corredores de um hotel parisiense. Ela muito mais glamorosa, claro! A Giulia nasceu duas semanas depois da Mathilde. A sensibilidade de Jane Goodall enterneceu-me e guardo com carinho uma mini “gordita” que me ofereceu o artista Botero.

A vida na cidade Luz proporcionou-me momentos inesquecíveis a nível pessoal e profissional. Foram mais de sete anos de aprendizagem, descobertas, formação, súbidas e trambolhões. As amizades resistem ao tempo, à distância e, até mesmo, ao confinamento. O “Palace” da Rive Gauche era especial, fora do comum. Tão diferente dos outros hotéis chiques da capital Francesa. Mademoiselle Deneuve (a atriz Catherine Deneuve) vinha, todas as semanas, buscar o seu correio. Gerard (estava proíbida de tratá-lo por Monsieur Depardieu!) fazia parte da casa e passava mais tempo connosco que no seu próprio domicílio, ao virar da esquina. Este gigante colossal é ainda mais espetacular ao vivo que nos filmes. Mas são a sua generosidade e simplicidade que nos impressionam. O seu melhor amigo, um aristocrata Italiano dedicado ao teatro e à ópera vivia, durante todo o ano, no último andar do hotel e Gerard visitava-o regularmente.

Tenho que admitir que não foram os ricos judeus americanos, os vencedores dos prémios Nobel, os artistas e as modelos internacionais os que mais me marcaram. O encontro inesquecível ao longo do meu percurso profissional foi, sem dúvida, com o Brad Pitt. (Riam-se à vontade!). Vestido de jeans deslavados, uma t-shirt branca e calçado com ténis (ou terão sido botas?) esfarrapados. Despenteado, com uma barba de três dias e aquele sorriso de eterno miúdo… Eu estava grávida do meu filho, o qual nasceu prematuramente uns dias depois. Talvez da emoção! Na altura, o ator perguntou-me se estava à espera de rapaz ou de rapariga e desejou-me « all the best ». Mas pouco antes soltou a frase que me acariciou como uma brisa num dia de Verão: Please, call me Brad.

A família e os amigos adoram os relatos das histórias dos famosos e agora dou por mim a partilhá-los com os meus filhos. O Stan já me propôs escrever um livro porque seria uma pena não registar estes momentos únicos, sobretudo porque estas histórias são irrepetíveis. Algum dia, quem sabe? O turismo pós Covid-19 não será como antes, mas não penso nisso agora. Até lá, estas anedotas servem para nos esquecermos, por alguns instantes, da pandemia.

Filipa Moreira da Cruz
Abril 2020

RISO

Photo : KaDDD

Macron decretou o prolongamento da quarentena até 11 de Maio. Anunciou que serão realizados testes à população mais exposta, assim como às pessoas que apresentem sintomas (até que enfim!). Haverá novas ajudas financeiras para as famílias mais vulneráveis e o regresso à « normalidade » será progressivo e organizado por fases; não sairemos todos de casa ao mesmo tempo. Nas grandes cidades como Paris, Marseille, Lyon ou Bordeaux alguns habitantes começam a desobedecer às regras da quarentena. O tempo é demasiado longo e o confinamento é cada vez mais difícil. Uma vontade inexplicável de fazer jogging, as constantes saídas com o cão, a imprescindível baguete, vale tudo para abandonar o lar.

Eu e a minha família contrariamos as últimas estatísticas. Após um período de incerteza e de receio passamos a aceitar esta situação com naturalidade e ficamos em casa. Para o nosso bem e o de todos os outros. O meu marido vai às compras uma vez por semana, muito contrariado.

Os meus filhos estão de férias da Páscoa entre 11 e 27 de Abril. O ano letivo em França é mais longo que em Portugal, tendo várias interrupções, as quais estão organizadas por três zonas. Nós pertencemos à zona B. Este período de repouso vem mesmo a calhar! Ainda assim, as professoras enviaram fichas, a fim de evitar que as crianças se aborreçam. A Mathilde recebeu 18 e o Stan teve direito ao jackpot: 45! Obviamente, eu fiz uma pré-seleção e imprimi apenas 5 para cada um. Os meus filhos já estudaram em Portugal, Espanha e França e a obsessão das professoras pelas ditas fichinhas tem sido uma constante. A única exceção foi o País Basco. Bendito Amara Berri! O melhor modelo que conheci até agora.

Que me desculpem as docentes (e as mães 100% cumpridoras), mas falharei. Vou privilegiar a brincadeira às propostas curriculares porque casa não é escola. E férias são férias!

Neste momento, a minha prioridade é apenas uma: a saúde, física e mental. Infelizmente, a primeira escapou-nos, mas cuidarei ao máximo da segunda para o bem de toda a família. Estivemos os quatro doentes. Uns durante sete dias e outros durante mais de três semanas. Os dois médicos consultados são da opinião que foi a Covid-19 que nos provocou febre, tosse constante, perda do paladar, cansaço e dificuldade em respirar. Nunca saberemos porque não realizamos os testes. Não eramos prioritários. A visita do coronavirus ou do seu irmão-gémeo foi longa e dolorosa, sobretudo para os asmáticos cá de casa.

Fiz o que pude para evitar o hospital. Juntos, vencemos. Como a 9 de Fevereiro de 2009 em que mãe e filho fomos reanimados quase ao mesmo tempo. O Stan foi levado para o serviço de neonatologia da maternidade onde permaneceu 21 dias e eu segui de ambulância para o hospital Georges Pompidou, ambos em Paris. A embolia amniótica empurrou-me para os cuidados intensivos e o serviço de pneumologia. Cinco dias e cinco noites. E hoje dou por mim a pensar em todos os seres humanos que dependem de um ventilador.

Felizmente, não temos televisão o que nos evita assistir à contagem em direto do número de mortes provocadas pela pandemia. Ideias para passar o tempo não nos faltam e aplicamos a terapia do RISO quase diariamente.

RIR

Não sei se rir é o melhor remédio, mas ajuda muito! Rimo-nos sobretudo de nós próprios: dos disparates da Mathilde, das histórias do Stan, do meu desenho que parece um cão com bigodes de gato e orelhas de coelho, das partidas do Sébastien, das sessões improvisadas de karaoke. Ao longo do dia, somos invadidos por gargalhadas espontâneas e incontroláveis. Fazer o aerossol ao mesmo tempo que vimos os filmes do Louis de Funès é um bálsamo para o corpo e a alma.

INVENTAR

Acredito que o mundo não será o mesmo quando regressarmos à rua. Mas isso não tem que ser necessariamente mau. Até lá, talvez devêssemos aprender com as crianças a viver agora. Como diz a Mathilde, o presente é tão rápido que já é passado e o futuro vem daqui a pouco. Resiliência, empatia, criatividade e imaginação são as ferramentas. O Sébastien pensa em receitas sem farinha porque esta já esgotou há semanas. Os filhos inventam jogos e brincadeiras e apresentam o noticiário todas as noites para a família através do WhatsApp. Eu vou escrevendo e arranjando maneira de pôr toda a gente a fazer ginástica logo pela manhã. Descobrimos dons até então impensáveis. Arriscamos, falhamos e voltamos a tentar.

SONHAR

Os adultos voltam a ser criança e, todos juntos, ousamos sonhar. Tudo é possível no universo dos sonhos. De repente, aparecem unicórnios, dragões e discos voadores. Fechamos os olhos e estamos todos juntos em Portugal, na casa da avó. Ou então a dar um mergulho na piscina das Canárias. Sonhamos, acima de tudo, com um mundo mais justo, mais unido e mais solidário. E quem disse que os sonhos não se realizam? Basta crer!

ORAR

Agradecemos todos os dias tudo o que temos: saúde, casa, família, amigos, comida, água… Damos valor a qualquer banalidade. Para muitos, a vida está presa por um fio, literalmente. Não temos o calor de Fuerteventura nem a família Portuguesa, mas estamos gratos por não estarmos fechados no pequeno apartamento de Paris. Louvamos o trabalho de todos os que estão lá fora: médicos, enfermeiros, funcionários da limpeza e dos supermercados, agricultores, camionistas e tantos outros. E reconhecemos que temos muita sorte porque nos calhou o menos difícil: ficar em casa.

Filipa Moreira da Cruz
Abril 2020

Todos em casa

Photo : KaDDD

Saí de Portugal há 20 anos e já vivi em vários países europeus. Desde 2018 a minha casa é Saint-Malo, em França.

Estar longe da família e comunicar através de Skype, Whatsapp e Facetime faz parte do meu quotidiano. Bendita era digital! É o preço a pagar por ter escolhido viver no estrangeiro. Somos quatro irmãos, cada um num país diferente e os meus pais têm um genro italiano e um francês. Nas reuniões familiares falam-se todas as línguas latinas!

Pela primeira vez, somos obrigados a ficar em casa. Para o bem de todos. O mundo virtual sobrepõe-se ao dos afetos. Ter notícias da família e dos amigos torna-se vital. Nunca estivemos tão próximos e, ao mesmo tempo, tão sozinhos.

A quarentena em França foi anunciada no sábado 14 de Março às 22h00 pelo primeiro ministro Edouard Philippe. No dia seguinte, houve eleições municipais e Macron apelou ao voto. Os franceses sentiram-se traídos e confusos sem perceber se o mais importante era votar ou ficar em casa. Resultado: a abstenção ultrapassou os 50% e a segunda volta foi adiada. Ao mesmo tempo, foram apresentadas várias medidas económico-sociais para proteger as pequenas e médias empresas e também as famílias mais desprotegidas.

A quarentena é levada a sério, em teoria. (Porque en teoria tudo corre bem). Apenas as saídas indispensáveis são permitidas e sempre com uma autorização por escrito onde deve constar a data, o motivo e a hora. Para passear o cão, fazer desporto ou simplesmente apanhar ar estamos restritos a um raio de 1Km do domicílio e não mais de 60 minutos. O incumprimento da lei resulta numa multa entre 135€ e 300€. Há deputados que defendem coimas de 3.000€ e prisão para os casos mais graves.

Nem todos se portaram bem. Nos dias seguintes ao anúncio da quarentena foram muitos os habitantes das grandes metrópoles que fugiram para as cidades junto ao mar ou na montanha onde os hospitais não estão preparados para receber um grande número de pacientes. Deauville, La Rochelle, Saint-Malo, La Baule, Annecy viram a sua população duplicar num curto espaço de tempo.

Os franceses estão divididos e esta pandemia veio acentuar as diferenças entre as várias regiões. Há casas que são uma prisão e outras um verdadeiro inferno.

Nós vivemos um dia de cada vez e agradecemos tudo o que temos. Com duas crianças de 8 e 11 anos a criatividade e o pragmatismo são essenciais. Somos professores, enfermeiros, cozinheiros, ilusionistas e acrobatas a tempo inteiro. Acho que o Sébastien nunca fez tantos crepes, madalenas e bolos. E eu já sonho com os problemas de Matemática. Correção: tenho pesadelos!

Tentamos minimizar os efeitos secundários desta clausura que nos foi imposta. Felizmente, não temos canais de televisão e isso ajuda. Hoje, mais do que nunca, estou grata por esta decisão. Cada um tenta manter a saúde mental à sua maneira. Eu envio histórias e poemas escritos em várias línguas, o meu marido experimenta novas receitas, a Joana partilha mensagens positivas que a ajudam a ultrapassar a situação crítica de Itália, o Diogo faz-nos rir com os vídeos divertidos e a Inês apela ao sonho e à imaginação com as histórias que conta.

Os quatro primos comunicam numa linguagem codificada e enviam mensagens vocais, desenhos e fotografias. Para eles não há fronteiras que resistam ao amor da família. Os avós ficam babados ao ver a declamação da poesia em francês ou as artes plásticas dos pequenos artistas.

Já não vejo a minha irmã Joana há dois anos. Deveria ter acontecido, mas não pode ser. A tão desejada viagem a Itália vai ter que esperar. No início de Março, deitei fora o bilhete de avião para Londres por precaução. Troquei a capital britânica por seis dias em Estrasburgo sem saber que seria em Alsace o grande foco de coronavírus em França. A vida prega-nos destas partidas.

Há várias décadas que os mais poderosos do mundo receiam uma terceira guerra mundial. De repente, um maldito vírus mata mais pessoas que qualquer arma nuclear. Portugal é visto em França como um exemplo a seguir. Aprendeu a lição com Espanha e Itália e evitou o pior, por agora.

Há uns dias perguntei aos meus filhos o que querem fazer quando terminar a quarentena. Responderam em coro: ir à escola, claro! Recuperar a vida que tinham antes. Mas nada voltará a ser como antes. Espero que os líderes mundiais tenham percebido que a vida humana não tem preço e que salvar pessoas é mais importante que salvar bancos. 

Por enquanto, continuaremos em casa até 15 de Abril, no mínimo, acreditando que vai correr tudo bem.

Filipa Moreira da Cruz
Março 2020

Paris…sempre!

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Desta vez, fui egoísta. Pensei apenas em nós. Há muito tempo que queria agradecer-te publicamente tudo o que me deste. Se estou à espera da melhor ocasião, nunca o farei. Graças a ti, não sou a mesma após os quase 8 anos de vida em comum e as inúmeras visitas relâmpago. Segue-se uma declaração de amor. Em prosa. Porque a vida já é um poema.

Estás suja. Ficas ainda mais cinzenta e triste nos dias de chuva. E isto para não falar na neve! Basta um fino manto branco para que caminhar nos teus passeios se transforme num pesadelo. Abrigas ratos, baratas e pulgas nas tuas catacumbas. As tuas casas são escandalosamente caras e ridículas de tão pequenas. Não tens vergonha?! Parece que estamos no Japão, mas sem a ordem e a higiene imaculadas. E são, precisamente, os habitantes do sol nascente os que mais sofrem com a arrogância dos que em ti vivem e trabalham. Sem tempo, sem paciência, sem vontade.

És a rainha do chique, o apogeu do glamour. Vaidosa, snob e imponente. Única guardiã da torre Eiffel e do Louvre. O relógio do museu d’Orsay deixou há muito de dar a hora certa. Pormenor sem importância. Até porque os comboios já não circulam por esses lados. Os Champs-Elysées resistem ao tempo, mas a sua luz esmoreceu, perdeu o brilho. Tu não te importas e ris-te dos que se ficam pelas artérias que aparecem nos guias turísticos e não conhecem os teus tesouros escondidos. Desafias os mais intrépidos a descobrir o invisível aos olhos dos distraídos: as vilas dentro da cidade.

Chegaste à minha vida tarde, mas és, sem dúvida, a favorita. Antes de ti, Lisboa, Porto, Viana do Castelo, Madrid, Barcelona, Londres, Bolonha, Veneza, Florença, Berlim, Genebra, Nova Iorque, e tantas outras desempenharam, na perfeição, o papel da bem amada. Um amor brando, sem sobressaltos. Contigo foi diferente. Não resisti ao coup de foudre. São poucos os que ficam indiferentes. Uns adoram-te, outros detestam-te. És tudo ou nada. Não fazes as coisas pela metade. Que nem uma mulher fatal disfarçada de senhora da alta burguesia!

Tal como tu, também eu adoro os parisienses. Os genuínos. Aqueles que em ti nasceram e os outros que adotaste como se fossem teus filhos legítimos. Dos que contam as histórias da Lutetia dos romanos, habitada por pescadores que viviam nas margens do Sena. Dos que fogem dos turistas como se fossem a peste. Dos que se perdem nas tuas passagens secretas. Dos que se emocionam com a música barroca nas igrejas. Dos que bebem chá Mariage Frères ou Dammann. Dos que nunca entraram num centro comercial. Dos que alimentam o comércio de bairro.

Como quase todos os que te visitam também gosto de Montmartre, Marais, Saint Germain des Près e do Trocadéro, bairros típicos e incontornáveis. Os passeios nas ruas du Bac, de Rennes, du Commerce, Mouffetard, Bonaparte agasalham-me a alma nos dias mais frios. Ainda me recordo de caminhar até não sentir os pés ao longo da rua Vaugirard (a mais comprida), da Boulevard Raspail ou da avenida Foch (a mais larga). As praças Dauphine, Vosges e Victoire são paragem quase obrigatória cada vez que me escapo dois ou três dias. Percorrer os braços do Sena, perder-me nas ruelas da Île Saint-Louis, começar um livro no jardim Luxemburgo são os caprichos que não dispenso.

Deixei-te há uns anos, mas nunca me abandonaste. É kitsch, eu sei. Mas o amor não conhece tabus. Et moi, je t’aime Paris.

Filipa Moreira da Cruz

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