Manhã de Inverno

Photo : Paul Laurent Bressin

Beijo fugaz num banco do jardim
Frio glacial que se apodera de mim
Uma criança brinca e sorri
Sabe que a vida é agora e aqui
Neste minuto, neste instante
Uma valsa efémera e estonteante
Deixamos de ser dois, somos apenas um
Dançamos neste mundo igual a mais nenhum
Esquecemos o Inverno e as feridas
Curamos as mãos doridas
Levantamos voo, bem alto
Viajamos no tempo sem sobressalto
Desviamos o olhar do horizonte sem fim
Queremos ficar para sempre no banco do jardim.

Filipa Moreira da Cruz

Ares de Primavera

Pelo caminho não estou sozinho
Vejo flores de todas as cores
Na relva, no chão, no parapeito
E até mesmo no empedrado desfeito
Já chegou a Primavera?
Quem me dera!

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz

No man’s land

They spend their lives running away
Escaping war, starvation, floods, diseases
They leave their family and friends behind
No time for tears or goodbyes
We call them foreigners, refugees, migrants
But we tend to forget that we are not so different
They are just human beings trying to survive.

Filipa Moreira da Cruz

Photos : KaDDD

Be the light

Photo : KaDDD

Fly light
Eat light
Live light
Travel light
Trust the light
Follow the light
Dream of the light
Walk through the light
No matter what happens
Be your own light. Forever.

Filipa Moreira da Cruz

Why…

Photo : KaDDD

Why does the sea water taste like salt?
Because that’s where the tears from the clouds land.

Why is the sun so hot?
To keep us warm when we are sad.

Why does it rain over our heads?
To wash the bad feelings away.

Why is the grass green?
To make us happy when days are grey.

Why do the stars shine?
To show us the path.

Why is the moon so big and bright?
To take care of Mother Earth.

Why do numbers never end?
So we count them again and again.

Why do some people fight?
They can no longer see the difference between wrong and right.

Why is love so important?
Because without it, we would already be dead.

Filipa Moreira da Cruz


Saudade

Photo : Filipa Moreira da Cruz

E, de repente, sou invadida por uma enorme saudade
Daquelas que nos matam os afetos e nos tiram a liberdade
Das que nos queimam por dentro devagarinho
Removendo tudo como um bichinho.

Esta frustrante saudade invisível e pessoal
Mostra-me apenas que sou um ser banal
Desses que riem, choram, gritam e calam
Dos que tentam tudo para acalmar a alma.

Palavra só nossa, sem tradução
Fado, destino ou mera ilusão
Sinto um enorme aperto no coração
Ultrapasso as fronteiras e perco a razão.

Devora-me essa saudade palpitante e crescente
Do passado, do futuro e do presente
Do que fui, do que sou e do que não chegarei a ser?
Do que tive e perdi, do que tenho e do que penso vir a ter.

Filipa Moreira da Cruz

Golden sand

Take me to the place where the sun never sleeps
Forget everything, except your dreams
Let’s sail away. Shall we?
I want to feel the golden sand under my bare feet.

We will live in the summerland
Trust me and hold my hand
You won’t need any luggage
Your belongings are just a mirage.

Pick up the shells on your path
Release your soul from the past.
A new day is waiting for you
Make a wish, it will come true.

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz


De Portugal para o mundo

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Intrépidos, destemidos, aventureiros e ousados. Assim são alguns lusitanos. Não importa a razão, apenas o impulso de procurar aqui fora o que não se encontra lá dentro. Admiro os que saem da sua zona de conforto e correm riscos. Os que sabem que, mesmo que regressem, nunca serão os mesmos. Aconteceu-me a mim (mas isso é irrelevante) e, sobretudo aos cinco portugueses que se seguem.

Nasceu na Póvoa do Varzim, assistiu à inauguração do canal de Suez, visitou a Palestina e foi cônsul de Portugal em Havana, Newcastle, Bristol e Paris. Viveu 12 anos na capital francesa e morreu em Neuilly sur Seine em 1900. Os franceses chamam-lhe o Balzac ou o Flaubert português. Mas Eça de Queiroz era um caso à parte. Único na sua escrita, mestre de uma prosa elegante, idiomática e internacional. Integrou a Geração de 70, numa ânsia de modernizar o Portugal agrário. Foi percursor do realismo e as suas obras são, ainda hoje, extremamente pertinentes e atuais.

Nasceu em Lisboa, no dia 13 de Junho, mas os seus primeiros versos foram escritos em inglês. Durante muito tempo foi nesta língua que manifestou o seu caráter pouco convencional e a sua melancolia. Fernando Pessoa viveu na África do Sul e foi estrangeiro no seu próprio país. Refugiou-se no álcool e morreu antes de cumprir os 50, vítima dos seus excessos. Admiro o escritor, o tradutor exaustivo, o homem inconformado, o poeta. E revejo-me quando afirmou que « nunca um verdadeiro português foi português: foi sempre tudo ».

Maria Helena Vieira da Silva nasceu no mesmo dia que Pessoa e ambos partilham a data com o mais internacional santo português. Viveu na Suíça, no Brasil e em França. Foi em Paris que passou a maior parte da sua vida, juntamente com o seu marido Árpád Szenes. Mas nem tudo foram rosas na trajetória pessoal da pintora. Por duas vezes o Estado português recusou a nacionalidade portuguesa a ambos os artistas. Apátridas e exilados no Rio de Janeiro, só em 1956 obtiveram a nacionalidade… francesa! Foram condecorados em França em 1960 e o reconhecimento em Portugal só chegou após a revolução de abril. A artista nasceu portuguesa e morreu francesa, em Paris.

Casou com uma jornalista espanhola, ganhou o prémio nobel da literatura e viveu numa ilha europeia mais perto de África que do velho continente. Não escolheu Lanzarote por acaso. Decidiu isolar-se porque estava zangado com o mundo. Quando vivi nas Canárias visitei a sua casa e senti bem firme a presença do escritor português que recusou várias vezes a nacionalidade espanhola. Crítico da sociedade capitalista e atento às injustiças sociais, Saramago usou a palavra para condenar o abuso do poder e dar voz aos invisíveis.

« O mundo real começa quando saímos da nossa casa para encontrar os outros ». A frase é de Eduardo Lourenço, um dos últimos livres pensadores do nosso país. Viveu na Alemanha, em Itália e em França. Casou-se com uma bretonne em Dinard (cidade que adoro e que é vizinha daquela onde vivo atualmente). Aposto que Annie Salamon era uma mulher com muito caráter, como quase todos os habitantes da Bretanha. O casal rumou ao sul do país onde permaneceu até 1988, ano que marcou o regresso a Portugal. O filósofo teve uma vida longa e intensa. E nunca virou as costas à nação que o viu nascer.

A ministra da cultura, Graça Fonseca, disse que Portugal está em dívida com Eduardo Lourenço. Atrevo-me a dizer que o ensaísta talvez não tenha sido o mais mal tratado. Muitas vezes, os homens políticos, arrogantes e obstinados com o poder, esquecem-se das personalidades ímpares que puseram Portugal no mundo. Sabem que a vida é efémera, mas ignoram que a obra dos esquecidos é imortal.

Filipa Moreira da Cruz

After work

While a few take the subway
I stroll along the sea
Big cities have skyscrapers
Mine has a castle
Pigeons are everywhere
Except here!
You’ll only come across seagulls and birds
Some children play in the shopping centers
Ours have the beach as their playground
I am blessed and grateful for living in such a beautiful place.

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz

Virados do avesso

Photo : KaDDD

É cão, é gato
É periquito, é peixe encarnado
É gritaria, casa desarrumada
Ficamos de pijama. Festa assegurada!
É roupa amarfanhada, loiça por guardar
De manhã, não há escolha, temos que trabalhar
Estudar em casa é o que está a dar!
Escola fechada, parque vazio
Todos os dias são iguais, mas sem frio
Saudades dos avós, triste realidade
Eles sim gostam de nós de verdade!
Quando isto passar, vou dar beijinhos
Abraços e as mãos apertar
Mas até lá, tenhamos calma
Melhores dias estão por chegar.

Filipa Moreira da Cruz

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