Despojos de uma vida

Photo : KaDDD

Passei por este mundo como tantos
Mas amei como tão poucos
Vivi, sem pressa, sem medo, sem prantos
Fazendo dos dias enfadonhos momentos loucos

Caminhei com os pés bem assentes
Nesta terra que suavemente me acolheu
E me deixou partir livre e sem correntes
Sem me esquecer de tudo o que ela me deu

Finalmente, sou apenas espírito e recordação
E uma imensa saudade do que não vivi
Resta-me esquecer o tempo, essa prisão
Fechar os olhos e pensar em ti

Vês essa estrela, ao longe, no céu
Que brilha no firmamento?
Pequenina e insignificante, assim sou eu
E venho dizer-te que a vida é um breve momento.

Filipa Moreira da Cruz

Una tarde en el parque

Planta tu propio jardín y decora tu alma, en lugar de esperar a que alguien te traiga flores.

Jorge Luis Borges

Siempre hay flores para el que desea verlas.

Henri Matisse

El secreto no es correr detrás de las mariposas… Es cuidar el jardín para que ellas vengan a ti.

Mário Quintana

El arte es el placer de un espíritu que penetra en la naturaleza y descubre que también ésta tiene alma.

Auguste Rodin

Hay siempre un libro abierto para todos los ojos: la naturaleza. 

Jean-Jacques Rousseau 

Photos : Filipa Moreira da Cruz

Jogo cromático

Reprise

Verde é a minha esperança
Num mundo mais justo
Azul são os sonhos infinitos
No céu que abraça as nuvens
Verde é a felicidade de rebolar na relva
Num dia de Primavera
Azul é o desejo de ternura
Como o mar que embala os barcos
Verde é a resiliência necessária
Para seguir em frente
Azul é a alma melancólica
Nos dias de chuva
Verde é o corpo nos dias
Em que espreita o sol.

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz

Serenidade

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Dei rédea solta ao sentimento
Soltei todas as lágrimas
Chorei o que estava guardado
E antecepei o que virá
Lavei a alma vezes sem conta
E vesti a roupa da esperança
De que vale fazer planos?
Para quê traçar um projeto a longo prazo
Se numa questão de dias tudo muda?
O futuro está nas mãos de Deus
E não sabemos de que será feito o amanhã
Apenas o agora nos pertence
Aproveitemos cada dia…sempre!

Filipa Moreira da Cruz

Photo : Filipa Moreira da Cruz

O céu (não) pode esperar

A morte parece menos terrível quando se está cansado.

Simone de Beauvoir
Photo : Filipa Moreira da Cruz

Após ter visto uma reportagem, há muito tempo, num quarto de hotel em Estocolmo escrevi:

É bem minha esta cabeça que, um dia, riu, chorou, amou, sonhou. Mas deixou de ser meu este corpo podre e sem vida. Sim, sem vida!
O espírito, já com um pezinho no outro lado, teima em pairar, segredando-me ao ouvido « já é hora ». E eu, como ainda sou pessoa, finjo que não entendo. (Pois claro!) Gostaria tanto de soltar amarras e partir sem perder a minha dignidade.

Filipa Moreira da Cruz

Asas quebradas

Porque os homens são anjos nascidos sem asas, é o que há de mais bonito, nascer sem asas e fazê-las crescer.

José Saramago

O anjo voa, embora não tenha asas.
Quando a exaustão chega, adormece com a cabeça nas nuvens, ignorando as fortes brasas que lhe queimam os pés.
O seu corpo é um imenso mar azul.
A sua alma é dourada e leve como a areia da praia num dia de Verão.
Não sente calor nem frio.
Desconhece a fome e a sede.
Avista ao longe a cidade, mas prefere ausentar-se do seu bulício.
Todas as noites, visita os que nele acreditam e lhe encomendam doces sonhos.
Atira bem alto os medos alheios e devolve a esperança à Humanidade.

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz


Sorri para mim

Reprise

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Sorri para mim
Mostra os teus olhos envergonhados
Colhe uma flor no jardim
Solta o sorriso desses lábios

Sorri para mim
Liberta a gargalhada contida
Dá cor às tuas doces faces
Que te enchem de vida

Sorri para mim
Junta a alma à vontade
Agarra a brisa que passa
Num dia de tempestade

Sorri para mim
Só uma vez
Sorri para mim
E diz-me quem és.

Filipa Moreira da Cruz

Desfolhada

Reprise

A minha pele tem rugas e fendas
Os meus olhos conhecem segredos
E apenas tu os desvendas
As nossas vidas seguem caminhos
Que parecem labirintos intermináveis
Os sonhos não se perdem
Mas alguns erros são irreparáveis
As minhas mãos apenas pedem
Que as cuides para sempre
Baloiço ao vento
Humor frio, suor quente
Rio e choro ao mesmo tempo
Viajo até à tua mente, mas regresso
De pés descalços e asa quebrada
O mundo está virado do avesso
A minha alma está desfolhada.

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz

Mar adentro

O mar é o habilidoso desenhador de ausências.

Mia Couto
Photo : Filipa Moreira da Cruz

Quando a alma está doente
E a esperança mais ausente
Tranquiliza-me o azul do mar
Sinto-me livre, quase a levitar
Sempre que a saudade me apodera
Mergulho numa quimera
Sou embalada pelas ondas
E esqueço palavras hediondas
Talvez seja o verde esmeralda
Que me tem mantido acordada
Ou será o reflexo na água
Que me devolve a esperança recuperada?
Afortunada sou eu por te ter ao meu lado
Mar adentro, mar abençoado.

Filipa Moreira da Cruz

…e fiquei a ouvir as ondas do mar…

Deus ao mar o perigo e o abismo deu, mas nele é que espelhou o céu.

Fernando Pessoa
Photo : Filipa Moreira da Cruz

Sentada numa rocha
Ansiando por liberdade
O cenário é mágico
E eu respiro serenidade

Oiço o bater das ondas
O zumzum das abelhas
O corropio das gaivotas
E o assobio do vento

O sol esconde-se
Entre a fina bruma
E o céu veste-se
De um azul intenso

O meu corpo não existe
Sou leve como a alma
Não choro, não sofro, não resisto
Não acordo nem adormeço

Sinto-me a navegar
Atravesso mares e continentes
Sobrevoo as montanhas
Embalada pelas ondas do mar.

Filipa Moreira da Cruz