Diapasão

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Um sopro
Sem fôlego
Uma vontade
Partilhada
Um desejo
Reprimido
Uma aventura
Inacabada
Um sonho
Impossível
Um passeio
Sem rumo
Um mundo
Em guerra
Uma casa
Sem paz
Um minuto
Sem segundo
Uma vida
A minha?
A tua?
Tanto faz!

Filipa Moreira da Cruz

A galinha da vizinha

Reprise

Photo : Filipa Moreira da Cruz

D. Maria tinha uma galinha
Espevitada, traquinas
Rechonchuda e pequenina

Joaquina, a galinha
Vaidosa e convencida
Julagava-se irresistível de tão bem parecida

Tinha tiques e manias
Cacarejava alto e sem pudor
Só lhe faltava falar para ser gente maior

Certo dia, não acordou
D. Maria ficou assustada,
Mas na capoeira não encontrou nada

Joaquina fez as malas
Decidida e aventureira
Cansou-se da sua vida prazenteira

D. Maria viu-a ao longe e pensou
Também eu vou percorrer o mundo
A vida é breve e num suspiro já acabou.

Filipa Moreira da Cruz

Made in USA

Reprise

Photo : Filipa Moreira da Cruz

A primeira vez que fui aos Estados Unidos tinha 14 anos. A minha mãe fez-me a surpresa e levou-me a Nova Iorque, uma metrópole fascinante com quase tantos habitantes que Portugal. Fiquei deslumbrada com a cidade que nunca dorme. Londres já me tinha conquistado, mas Nova Iorque superou todas as minhas expectativa porque consegue ser ainda mais eclética, cosmopolita, efervescente. Regressei várias vezes e já prometi à minha filha uma viagem a duas.

Seguiram-se seis outras estadias que variaram entre três semanas e dois meses. Tive a sorte de ter uma irmã que viveu vários anos por terras do tio Sam. Também aproveitei para ficar em casa de uma família americana o que me permitiu confirmar todos os clichés (ou talvez não). Abraços calorosos em vez de dois beijos, barbecue ao fim-de-semana, jogo de futebol americano com as cheerleaders a animar a equipa da casa, missa ao domingo de manhã, oração antes de cada refeição, coca-cola à descrição, jantar improvisado com sandes de doce de morango e manteiga de amendoim, os magníficos fogos de artifício no dia 4 de Julho, as gigantescas waffles com maple syrup

Este país da América do Norte é capaz de reinventar-se e a realidade supera, quase sempre, a melhor produção made in Hollywood. For better or worse. Ainda me lembro da cara de assombro dos jovens estudantes americanos quando viram Portugal no mapa na altura em que assisti a uma aula de História numa escola secundária perto de Pittsburgh. Coincidência ou não, o professor dedicou uma hora aos descobrimentos portugueses e espanhóis. Os alunos pediram-me para indicar-lhes no planisfério o país luso de onde saíram os navegadores que deram a volta ao mundo. Tal como acontece frequentemente, pensavam que o nosso país era uma região da vizinha Espanha. Mas quantos europeus sabem exatamente onde se situa a Moldávia ou a Letónia? E o que sabem acerca da Noruega ou da Ucrânia?

Photo : KaDDD

Os Estados Unidos não deixam quase ninguém indiferente. Há quem deteste e quem adore. Pertenço à segunda categoria, embora nunca tenha caído na tentação de comprar um bilhete de apenas ida. Talvez por falta de coragem, admito. Gosto de viver na Europa. No entanto, este país com mais de 328 milhões de habitantes deslumbra-me, apesar de só conhecer oito dos seus cinquenta estados, uma minúscula amostra desta enorme nação.

Este amor não é cego. Fico, como muitos, chocada com as evidentes incoerências do país. Apesar de 21 estados terem abolido a pena de morte, Michigan foi o primeiro em 1847, mais de metade do país continua a executar presos que se encontram no corredor da morte. Quase todos os indivíduos têm armas e não são raros os acidentes que envolvem jovens ou crianças. O aborto é outra questão sensível e está longe de conseguir uma unamidade.

Os 244 anos de história são ainda insuficientes para a maturidade sócio-política da nação. São vários os episódios que mancharam a tão sobrevalorizada reputação americana e dois dos lobbies mais poderosos, o das armas e o farmacêutico transformam qualquer presidente num fantoche. O dinheiro fala mais alto. É quase impossível mudar a ordem natural das coisas. Num território onde quem não tem um bom seguro de saúde pode morrer, Obama tentou mudar a lei, em vão.

O número de pessoas mortas por Covid-19 já ultrapassou as 500.000. Mais de meio milhão de seres humanos que perderam a vida desde o início da pandemia. Felizmente, o país livrou-se da tirania e da loucura de Trump e esperemos que o novo presidente tome bem conta dos seus. God bless America.

Filipa Moreira da Cruz

Abençoadas férias!

Não estava previsto irmos de férias este ano.
Quando soube que tinha direito a uma semana, não hesitei!
A vida é um suspiro.
Sou abençoada.
Estou muito agradecida.
Sete dias inteiros a quatro.
Sete dias inteiros longe de casa.
Sete dias inteiros para nos perdermos no meio dos vinhedos.
Sete dias inteiros para visitarmos castelos.
Sete dias inteiros para rir, chorar, sentir, calar.
Sete dias inteiros para falarmos a sério (e a brincar!)
Sete dias inteiros para ouvirmos o silêncio.
Até breve!
Volto em seguida.

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz

Made in USA

Photo : Filipa Moreira da Cruz

A primeira vez que fui aos Estados Unidos tinha 14 anos. A minha mãe fez-me a surpresa e levou-me a Nova Iorque, uma metrópole fascinante com quase tantos habitantes que Portugal. Fiquei deslumbrada com a cidade que nunca dorme. Londres já me tinha conquistado, mas Nova Iorque superou todas as minhas expectativa porque consegue ser ainda mais eclética, cosmopolita, efervescente. Regressei várias vezes e já prometi à minha filha uma viagem a duas.

Seguiram-se seis outras estadias que variaram entre três semanas e dois meses. Tive a sorte de ter uma irmã que viveu vários anos por terras do tio Sam. Também aproveitei para ficar em casa de uma família americana o que me permitiu confirmar todos os clichés (ou talvez não). Abraços calorosos em vez de dois beijos, barbecue ao fim-de-semana, jogo de futebol americano com as cheerleaders a animar a equipa da casa, missa ao domingo de manhã, oração antes de cada refeição, coca-cola à descrição, jantar improvisado com sandes de doce de morango e manteiga de amendoim, os magníficos fogos de artifício no dia 4 de Julho, as gigantescas waffles com maple syrup

Este país da América do Norte é capaz de reinventar-se e a realidade supera, quase sempre, a melhor produção made in Hollywood. For better or worse. Ainda me lembro da cara de assombro dos jovens estudantes americanos quando viram Portugal no mapa na altura em que assisti a uma aula de História numa escola secundária perto de Pittsburgh. Coincidência ou não, o professor dedicou uma hora aos descobrimentos portugueses e espanhóis. Os alunos pediram-me para indicar-lhes no planisfério o país luso de onde saíram os navegadores que deram a volta ao mundo. Tal como acontece frequentemente, pensavam que o nosso país era uma região da vizinha Espanha. Mas quantos europeus sabem exatamente onde se situa a Moldávia ou a Letónia? E o que sabem acerca da Noruega ou da Ucrânia?

Photo : KaDDD

Os Estados Unidos não deixam quase ninguém indiferente. Há quem deteste e quem adore. Pertenço à segunda categoria, embora nunca tenha caído na tentação de comprar um bilhete de apenas ida. Talvez por falta de coragem, admito. Gosto de viver na Europa. No entanto, este país com mais de 328 milhões de habitantes deslumbra-me, apesar de só conhecer oito dos seus cinquenta estados, uma minúscula amostra desta enorme nação.

Este amor não é cego. Fico, como muitos, chocada com as evidentes incoerências do país. Apesar de 21 estados terem abolido a pena de morte, Michigan foi o primeiro em 1847, mais de metade do país continua a executar presos que se encontram no corredor da morte. Quase todos os indivíduos têm armas e não são raros os acidentes que envolvem jovens ou crianças. O aborto é outra questão sensível e está longe de conseguir uma unamidade.

Os 244 anos de história são ainda insuficientes para a maturidade sócio-política da nação. São vários os episódios que mancharam a tão sobrevalorizada reputação americana e dois dos lobbies mais poderosos, o das armas e o farmacêutico transformam qualquer presidente num fantoche. O dinheiro fala mais alto. É quase impossível mudar a ordem natural das coisas. Num território onde quem não tem um bom seguro de saúde pode morrer, Obama tentou mudar a lei, em vão.

O número de pessoas mortas por Covid-19 já ultrapassou as 500.000. Mais de meio milhão de seres humanos que perderam a vida desde o início da pandemia. Felizmente, o país livrou-se da tirania e da loucura de Trump e esperemos que o novo presidente tome bem conta dos seus. God bless America.

Filipa Moreira da Cruz

Viajar

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Viajar! Perder países!

Fernando Pessoa

Viajar! Perder países!
Partir sem rumo
Sozinha ou acompanhada
Seguir o vento
E as ondas do mar
Chegar ao desconhecido
Sem hora marcada

Viajar! Perder países!
Dar um passo
Maior que as pernas
E arriscar
Tudo ou nada
Conhecer terras distantes
Outras gentes
E novas culturas
Sentir-se bem
Em qualquer lado

Viajar! Perder países!
Não ter sono nem fome
Ter a estrelas como companhia
Vestir um trapinho
E saborear
Todos os tipos de gastronomia
Aventura, emoção, alegria
Deixar atuar a magia

Viajar! Perder países!

Filipa Moreira da Cruz


Piña

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Piña colada
Dulce y sabrosa
Con su corona
Venerada y orgullosa
Piña como mi familia
Única y maravillosa
Que no sabe estar tranquila
De tan activa y curiosa
Piña de loco se puso
El que intentó separarnos
Y al final se encontró
Con un grupo de aficionados
Al amor y a la alegría
Juntos, hacemos piña
Porque la vida es más chula
Con una dosis de aventura
Y como se fuera poco
Los más cercanos me llaman
Piña.

Filipa Moreira da Cruz


A galinha da vizinha

Photo : Filipa Moreira da Cruz

D. Maria tinha uma galinha
Espevitada, traquinas
Rechonchuda e pequenina.

Joaquina, a galinha
Vaidosa e convencida
Julagava-se irresistível de tão bem parecida.

Tinha tiques e manias
Cacarejava alto e sem pudor.
Só lhe faltava falar para ser gente maior.

Certo dia, não acordou
D. Maria ficou assustada,
Mas na capoeira não encontrou nada.

Joaquina fez as malas
Decidida e aventureira
Cansou-se da sua vida prazenteira.

D. Maria viu-a ao longe e pensou
Também eu vou percorrer o mundo
A vida é breve e num suspiro já acabou.

Filipa Moreira da Cruz