Vida no campo

O campo, na verdade, só é agradável com família, e toda a árvore é triste se na sua sombra não brinca uma criança.

Eça de Queirós
Photo : João Janeira

O campo é onde não estamos. Ali, só ali, há sombras verdadeiras e verdadeiro arvoredo.

Como o campo é grande e o amor pequeno!

Fernando Pessoa
Photo : João Janeira

Um dos gestos mais belos e generosos do homem, andando vagarosamente pelo campo lavrado, é o de lançar na terra as sementes.

Clarice Lispector

Verde que te quiero verde. Verde viento. Verdes ramas. El barco sobre la mar y el caballo en la montaña.

Federico García Lorca
Photo : João Janeira

Antigamente o mato, tão vazio de gente, me fazia medo. Pensava, só podia viver nas pessoas, vizinho de gente. Agora, penso o contrário. Já quero voltar no lugar dos bichos. Tenho saudades de ser ninguém.

Mia Couto
Photo : João Janeira

Qualquer pessoa pode ser boa no campo.

Oscar Wilde

P.S. Agradeço ao meu amigo João que me enviou estas fotografias tiradas por ele na sua terra: o Alentejo, em Portugal.

Campo de espigas

Espigas ao vento
Esperança e alento
Campo verde e florido
Amor presente e sentido
Nuvens brancas ou cinzentas
Na paisagem que integras
Andorinhas a voar
Pássaros a cantar
Sol tímido e fugaz
E a chuva que o céu traz
Lembram-nos qua a mãe Natureza
É pura magia e beleza.

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz

Êxodo urbano

Photo : KaDDD

Durante vários séculos, a população trocou o campo pela cidade em busca de melhores condições de vida. Quando a terra deixava de ser fértil, voltavam-se as costas ao verde e abraçava-se o cinzento da metrópole. A tecnologia e a indústria prometiam sucesso e prosperidade. Mas nem todos se deixaram seduzir pela vida urbana e há quem não troque a paz e o sossego do campo pelo bulício da cidade.

Sou uma citadina convicta e assumida. Gosto de cidades grandes. Sinto-me bem em Nova Iorque, Paris, Londres ou Berlim. Aprecio andar de metro, visitar museus, ler nos parques, percorrer largas avenidas. No entanto, fiquei feliz por ter passado os três confinamentos na cidade onde vivo que tem apenas 50.000 habitantes. Entendo o sufoco e a ansiedade dos que ficaram encurralados entre quatro paredes porque sei o que é viver num apartamento de 45 metros quadrados. Quando somos obrigados a partilhar, 24 horas por dia, um espaço tão exíguo, o charme da cidade desaparece, mesmo que tenhamos a sorte (como eu tive!) de viver a dois passos do Arco do Triunfo.

Desde o início da pandemia, 800.000 pessoas saíram de Paris e arredores e muitos ainda não regressaram à capital francesa. Instalaram-se em cidades mais pequenas, vilas e aldeias. Ou até mesmo em casas no meio do nada. Longe do ruído e da poluição. Situação semelhante ocorreu em Londres. No ano passado, 300.000 cidadãos abandonaram a capital inglesa e a procura de casas no campo aumentou 126%.

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Muitas profissões podem ser exercidas à distância e o número de nómadas digitais tem aumentado exponencialmente. Nunca foi tão fácil trabalhar em frente ao mar ou à sombra de uma bananeira. Basta um computador e ligação à Internet! Que o digam Bali, Malta ou as ilhas Canárias. Portugal também faz parte dos destinos mais cobiçados. As empresas foram obrigadas a adaptar-se, rapidamente, à nova realidade e as capitais dos países mais desenvolvidos perderam centenas de habitantes.

Ainda é comum, entre as grandes empresas, enviar os seus quadros superiores a países distantes. Britânicos invadem Hong Kong, franceses apoderam-se do sudeste asiático, portugueses reconquistam o Brasil ou Angola. A aproximação das antigas colónias é algo natural. Os colarinhos brancos europeus (ou americanos) recebem salários chorudos, vivem em casas faustosas e as crianças frequentam colégios privados pagos a peso de ouro.

Photo : Paul Laurent Bressin

Mas este fenómeno pode estar em vias de extinção. Os nómadas digitais estão a revolucionar a realidade laboral. Instalam-se no campo ou na praia e vivem quase como os locais. Entre relatórios e reuniões à distância ainda há tempo para um mergulho no mar, uma sesta ou uma cerveja bem fresca. Relatos contados na primeira pessoa por aqueles que conheço que trocaram o céu cinzento de Paris e de Milão por uma ilha das Canárias onde já vivi e outras duas que conheço bem.

Mas nem tudo são rosas! Os nómadas digitais trazem alguns dissabores. O poder de compra destes trabalhadores estrangeiros é, muitas vezes, superior ao da população dos países que lhes estendem a passadeira vermelha e os recebem de braços abertos. Por um lado, os preços disparam. Para os locais, alugar ou comprar casa torna-se um pesadelo. Encher o carrinho das compras sai mais caro e os restaurantes passam a piscar o olho aos estrangeiros endinheirados. Por outro lado, a tão prezada tranquilidade tem os dias contados. O êxodo urbano mata o silêncio do campo e polui a praia mais paradisíaca.

Filipa Moreira da Cruz

Campo de espigas

Espigas ao vento
Esperança e alento
Campo verde e florido
Amor presente e sentido
Nuvens brancas ou cinzentas
Na paisagem que integras
Andorinhas a voar
Pássaros a cantar
Sol tímido e fugaz
E a chuva que o céu traz
Lembram-nos qua a mãe Natureza
É pura magia e beleza.

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz

Vida no campo

O campo, na verdade, só é agradável com família, e toda a árvore é triste se na sua sombra não brinca uma criança.

Eça de Queirós
Photo : João Janeira

O campo é onde não estamos. Ali, só ali, há sombras verdadeiras e verdadeiro arvoredo.

Como o campo é grande e o amor pequeno!

Fernando Pessoa
Photo : João Janeira

Um dos gestos mais belos e generosos do homem, andando vagarosamente pelo campo lavrado, é o de lançar na terra as sementes.

Clarice Lispector

Verde que te quiero verde. Verde viento. Verdes ramas. El barco sobre la mar y el caballo en la montaña.

Federico García Lorca
Photo : João Janeira

Antigamente o mato, tão vazio de gente, me fazia medo. Pensava, só podia viver nas pessoas, vizinho de gente. Agora, penso o contrário. Já quero voltar no lugar dos bichos. Tenho saudades de ser ninguém.

Mia Couto
Photo : João Janeira

Qualquer pessoa pode ser boa no campo.

Oscar Wilde

P.S. Agradeço ao meu amigo João que me enviou estas fotografias tiradas por ele na sua terra: o Alentejo, em Portugal.

Postais do meu país

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Já tive casa em cinco países diferentes, com línguas, culturas e valores muito próprios. Mas por muitas voltas que dê, o bairro onde passei a minha infância, adolescência e parte da vida adulta continua a ser especial. Como diz uma amiga, “Alvalade ao rubro!”. Sempre! Não sou particularmente bairrista, gosto do meu país por inteiro. No entanto, o que sou hoje devo-o, em parte, a todas as experiências vividas nessa zona da capital.

Vou regularmente a Portugal, mas evito, sempre que posso, o Verão. Gosto de trabalhar quando a maioria está de férias. Prefiro fazer várias escapadas de 4 ou 5 dias ao longo do ano. A última foi ao Porto, cidade que gosto quase tanto ou mais do que aquela onde nasci. Ninguém diria que estávamos em Janeiro. O sol e o céu azul constantes ajudaram-me a libertar-me do vento e das nuvens cinzentas que teimam em invadir a cidade onde vivo habitualmente. Vou ao meu país também pelo clima. Parece ridículo, mas não deixa de ser verdade. Apesar de tudo, a principal motivação são as pessoas.

Que alegria rever a M. ao fim de mais de 15 anos! Conhecemo-nos nas Canárias, onde trabalhamos juntas. Numa das ilhas espanholas, partilhamos fins de tarde na praia, churrascos e festas no chiringuito. Ela decidiu regressar às origens há uns anos e, contrariamente à minha tentativa fracassada, a vida em Portugal corre-lhe bem. Ao longo do jantar na cidade invicta parecia que o tempo não tinha passado. Voltamos a ser as miúdas de sempre e já prometemos rever-nos antes que uma de nós precise de usar andarilho. Aconteceu o mesmo com outras duas amigas num almoço em Santarém há uns anos. E também na reunião de Iscspianas num restaurante em frente à Gulbenkian e noutro no Parque das Nações.

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Lisboa, Óbidos, Batalha, Alcobaça, Tomar, Coimbra, Vila Nova de Milfontes, Porto, Faro, Castelo Branco, Guimarães… Sou nómada por natureza e viajo por gosto e por necessidade. Percorro o país de lés a lés para estar com os que mais importam. Herdei esta mania do meu pai, embora as razões não sejam as mesmas. Ele não conta os quilómetros para comer. É assim desde sempre. Quando éramos pequenos eu e os meus irmãos inventávamos jogos que nos mantinham ocupados durante o tempo passado no carro para o destino do almoço de sábado. A viagem parecia interminável até à mesa do melhor leitão da Bairrada, das bifanas de Vendas Novas, das tais migas de Mora ou dos ovos moles de Aveiro. E o pior era o regresso, de barriga cheia!

Cada vez que tenho um encontro marcado com familiares ou amigos redescubro cidades que me fascinam, vilas encantadas e gente acolhedora. Concentro-me apenas nas coisas boas porque estou de passagem. A minha vida está algures noutro sítio. Portugal deixou de ser a minha casa, mas continua a ser o meu porto seguro. A lista dos lugares que me encantam é longa, mas a cidade que me conquistou há muito tempo e continua a ser a minha preferida é Viana do Castelo. Tenho (quase) a certeza que seria a única do nosso país onde poderia viver. Até porque a vizinha Espanha está tão perto.

2020 é o ano das exceções. A nova normalidade obriga-nos a mudar de planos. Faremos o que for necessário para evitar o reconfinamento. Contrariando a regra, vou passar parte das férias do Verão a Portugal. Algo que já não acontece há tantos anos que nem me recordo da última vez. Chego a Lisboa e regresso do Porto. Dois aeroportos e um leque de possibilidades para desfrutar do melhor do país. Tudo é possível. Venham de lá esses abraços tão esperados. Com máscara, claro!

Filipa Moreira da Cruz
Janeiro 2020