Despojos de uma vida

Photo : KaDDD

Passei por este mundo como tantos
Mas amei como tão poucos
Vivi, sem pressa, sem medo, sem prantos
Fazendo dos dias enfadonhos momentos loucos

Caminhei com os pés bem assentes
Nesta terra que suavemente me acolheu
E me deixou partir livre e sem correntes
Sem me esquecer de tudo o que ela me deu

Finalmente, sou apenas espírito e recordação
E uma imensa saudade do que não vivi
Resta-me esquecer o tempo, essa prisão
Fechar os olhos e pensar em ti

Vês essa estrela, ao longe, no céu
Que brilha no firmamento?
Pequenina e insignificante, assim sou eu
E venho dizer-te que a vida é um breve momento.

Filipa Moreira da Cruz

Jogo cromático

Reprise

Verde é a minha esperança
Num mundo mais justo
Azul são os sonhos infinitos
No céu que abraça as nuvens
Verde é a felicidade de rebolar na relva
Num dia de Primavera
Azul é o desejo de ternura
Como o mar que embala os barcos
Verde é a resiliência necessária
Para seguir em frente
Azul é a alma melancólica
Nos dias de chuva
Verde é o corpo nos dias
Em que espreita o sol.

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz

Pintado de azul

Reprise

Azul intenso, profundo…efémero?
Néctar sublime e adúltero
Espelho grande, imenso, infinito
Que cabe no bolso para estar sempre comigo
Um mar de oportunidades
Um oceano de saudades
Um rio de emoções
Um riacho de sensações
Azul de Norte a Sul, de Este a Oeste
Percorreste o mundo, mas regressaste
Devolveste-me o que perdi
Trouxeste o que te implorei
Do meu universo és rei
E não quero viver sem ti.

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz, KaDDD e Paul Laurent Bressin

O céu (não) pode esperar

A morte parece menos terrível quando se está cansado.

Simone de Beauvoir
Photo : Filipa Moreira da Cruz

Após ter visto uma reportagem, há muito tempo, num quarto de hotel em Estocolmo escrevi:

É bem minha esta cabeça que, um dia, riu, chorou, amou, sonhou. Mas deixou de ser meu este corpo podre e sem vida. Sim, sem vida!
O espírito, já com um pezinho no outro lado, teima em pairar, segredando-me ao ouvido « já é hora ». E eu, como ainda sou pessoa, finjo que não entendo. (Pois claro!) Gostaria tanto de soltar amarras e partir sem perder a minha dignidade.

Filipa Moreira da Cruz

Abençoada loucura

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Loucos são aqueles que ousam ser felizes
E pintam o dia com diferentes matizes
Fazem as pazes com o medo
A vida é um maravilhoso segredo
Prestes a ser desvendado
Esse tesouro tão bem aguardado
Cabe na mão, no peito
Embora de infinito seja feito
Loucos são aqueles que buscam a verdade
Em nome da tal liberdade
Perseguem sonhos
E falam baixinho com anjinhos
Acreditam em fadas
E partilham histórias inventadas
Guiam-nos por labirintos
Dispersos em vários recintos
Louca serei eu também
Por confiar de olhos fechados na minha mãe
Um amor ímpar e verdadeiro
Será sempre o primeiro
A nascer, a crescer, a voar
Libertando-se do céu e do mar
Uma estrela que brilha no firmamento
Solta, num total desprendimento.

Filipa Moreira da Cruz

A queda d’um anjo

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Via o universo do seu pedestal
Alto
Inatingível
Fazia pouco dos outros
Com uma escandalosa arrogância
Coitados!
Tão pequeninos e insignificantes
Sentia-se forte e poderoso
Engolia o mundo
Com avidez e soberba
Certo que do seu posto ninguém o tirava
Até ao dia…
Em que a Terra decidiu girar os pólos
E trocar as voltas a continentes e oceanos
Virados do avesso
Os mortais tocaram o céu
E brincaram com as estrelas
E o todo poderoso que que pretendia ser Deus?
Caiu do cimo da lua
Ajudado pela gravidade
Que sabe pôr cada um no seu lugar.

Filipa Moreira da Cruz

Estrela do mar

Reprise

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Não canta nem assobia
Desliza como a chuva miudinha
E toca-me suavemente
Será uma estrela que caiu do céu?
Perdeu-se das suas irmãs
Chama-me desesperada
Puxa-me pelo cabelo
Procura abrigo e reconforto
Subo ao monte mais alto
Equilibro-me nas pontas dos pés
Segura-a de mansinho
E devolvo-a ao infinito
Ela brilha no firmamento
Para sempre?
Peço um desejo que se cumpre
A estrela desceu à Terra
Emprestada pela lua
Atravessou a via láctea
Pela última vez
Na noite escura é apenas mais uma
Mas para mim, é única.

Filipa Moreira da Cruz

…e fiquei a ouvir as ondas do mar…

Deus ao mar o perigo e o abismo deu, mas nele é que espelhou o céu.

Fernando Pessoa
Photo : Filipa Moreira da Cruz

Sentada numa rocha
Ansiando por liberdade
O cenário é mágico
E eu respiro serenidade

Oiço o bater das ondas
O zumzum das abelhas
O corropio das gaivotas
E o assobio do vento

O sol esconde-se
Entre a fina bruma
E o céu veste-se
De um azul intenso

O meu corpo não existe
Sou leve como a alma
Não choro, não sofro, não resisto
Não acordo nem adormeço

Sinto-me a navegar
Atravesso mares e continentes
Sobrevoo as montanhas
Embalada pelas ondas do mar.

Filipa Moreira da Cruz

Entre o céu e o mar

A liberdade é um dos dons mais preciosos que o céu deu aos homens. Nada a iguala, nem os tesouros que a terra encerra no seu seio, nem os que o mar guarda nos seus abismos. Pela liberdade, tanto quanto pela honra, pode e deve aventurar-se a nossa vida.

Miguel de Cervantes

A vida sem luta é um mar morto no centro do organismo universal.

Machado de Assis

Homem livre, tu sempre gostarás do mar.

Charles Baudelaire

Photos : Filipa Moreira da Cruz

Passeio em família

Reprise

Céu rosa, laranja e violeta
Diapasão nas asas de uma borboleta
Mar imenso e azul
Relva verde mais ao sul
Abraçar uma árvore, respirar fundo
Não penso perder nem um segundo
Um olhar, uma gargalhada
A vida é feita de tudo e de nada.

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz