A minha casa é uma prisão

Reprise

Photo : KaDDD

A minha casa é uma prisão
Bonita, sofisticada, ordenada
Com toalhas de linho, loiça de porcelana e copos de cristal.
Com gente elegante e educada
– As crianças? Não as ouço…
– Não se preocupe, não há alvoroço

A minha casa é uma prisão
Numas águas furtadas com uma vista deslumbrante
E um gato sempre a brincar
16 metros quadrados para dormir, cozinhar, ler, escrever e meditar…
Faço tudo para não pirar!

A minha casa é uma prisão
O meu palacete, quer você dizer!
No cimo de uma colina, na parte antiga da cidade
Tanto espaço só para mim,
A última da minha geração
De repente, sinto-me mal, que aflição!
O que me salva é o meu velho cão

A minha casa é uma prisão
Onde dormimos, comemos e brincamos no chão
Os adultos são a autoridade e têm sempre razão!

A minha casa é uma prisão
Rodeada de areia branca e fina
Adormeço ao som do mar
E acordo com ele a dizer-me:
Larga tudo e vem surfar!

A minha casa é uma prisão
Com jardim, piscina, cave e sótão
Onde todos se cruzam, mas ninguém se vê
Cada um sofre em silêncio, mas porquê?!

A minha casa é uma prisão
Feita de madeira e de pedra
Vivo no meio da floresta
Sem televisão, computador ou telefone
Hoje lamento esta decisão!

A minha casa é uma prisão
Com rodas e duas pequenas janelas
Não posso circular, mas não faz mal
Isto vai passar!

A minha casa é uma prisão
Um quarto onde durmo por empréstimo
Numa cidade fria e cinzenta
E onde a chuva não dá tréguas

A minha casa é uma prisão
E de porto em porto vivo
O meu barco está atracado
Para respeitar o que me foi pedido

A minha casa é uma prisão
Lar nunca tive, sou nómada
E os meus pertences cabem em duas malas
Sou solitário e homem de poucas falas

A minha casa é uma prisão
Sem porta nem janelas,
Sem pessoas nem animais
Todos os dias são domingos
Preguiçosos, comuns, banais.

Filipa Moreira da Cruz

O que têm em comum Omar Sy e Pelé?

Photo : Filipa Moreira da Cruz

A minha filha quis saber a atividade que mais desejo retomar quando este semi-confinamento terminar. Sem hesitar, respondi: ir ao cinema. Reconheço que sou antiquada. Quase ninguém vai ao cinema. Não temos Netflix, nem Amazon Prime em casa. Obviamente, vejo filmes através da internet, sempre em versão original (coisa rara em França!), mas a sensação não é a mesma. Nada substitui a emoção do grande ecrã. Tenho a sorte de viver num país com uma longa história cinematográfica. Ou não fossem os irmãos Lumière conhecidos como « os pais do cinema »!

Neste momento, a escola está fechada para férias e aproveitamos para ver um filme depois do jantar. Um hábito introduzido logo no início do primeiro confinamento. Desta vez, cabia ao meu filho escolher, mas a Mathilde não se deu por vencida. Tinha já um título em mente e persuadiu o irmão a apoiar a sua ideia. « Demain tout commence », pela terceira vez! Um filme com Omar Sy, o ator favorito da minha filha.

No dia seguinte, era eu a decidir. A pedido do meu filho, optei por « Pelé: o nascimento de uma lenda ». Ninguém se opôs. O meu marido achou graça às escolhas, interpretando-as como um sinal. Sem sabermos, reavivamos-lhe a memória. Recordou tempos que parecem fazer parte de outro século. Na altura, não pensei muito no assunto. O serão seria passado no sofá, os quatro, juntinhos, a ver a história de uma lenda do futebol.

Quando estamos de férias, o pequeno-almoço dura uma eternidade. Crepes, batido de fruta, torradas… A primeira refeição do dia parece um brunch. E há tempo para tudo! Até mesmo para ouvir as histórias do pai. Desta vez, contou-nos quando, em 2014, conheceu o Pelé e o Omar Sy, em dias diferentes e em cidades distintas.

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Edson Arantes do Nascimento deslocou-se a Paris na Primavera de 2014, o mesmo ano em que o seu país acolheu o campeonato do mundo de futebol. Pelé veio inaugurar uma exposição dedicada ao desporto rei e ficou alojado num hotel no centro da capital, o mesmo onde o meu marido trabalhava. Mas ele não ficou muito empolgado porque detesta futebol, ao contrário de mim. Ironias da vida! Ainda assim, o reencontro com a estrela brasileira foi emocionante.

O antigo jogador quando soube que a mulher do responsável da equipa era portuguesa falou todo o tempo em português. O meu marido acompanhou-o, o melhor que pode, e quando o Pelé lhe pediu um « cházinho » o Sébastien traduziu, orgulhoso, aos colegas. Se há uma coisa que eu bebo é chá! Depois de uma grande lavagem ao cérebro, consegui convencê-lo a tirar uma fotografia ao lado do Pelé. Ele é totalmente contra estes pedidos. O que uma pessoa faz por amor! Guardo com orgulho a fotografia dos três: O Pelé, o Sébastien e a taça.

No Verão desse mesmo ano, mudámo-nos para San Sebastian, no País Basco. No final de Setembro a cidade acolhe o Festival de Cinema e, em 2014, o filme em destaque era « Samba », dos mesmos realizadores do magnífico « Intouchables » e com a banda sonora a cargo do génio Ludovico Einaudi que também compôs a música do outro filme citado. Omar Sy e Charlotte Gainsbourg ficaram hospedados no hotel mais luxuoso e emblemático de Donostia, o novo local de trabalho do meu marido. Durante três dias, o Sébastien partilhou piadas com o ator francês que ficou encantado por saber que alguém falava a mesma língua que ele. Desta vez, não pedi nenhuma fotografia. Não quis abusar da sorte! Além disso, o meu marido poderia ganhar coragem e perguntar à filha de Gainsbourg se não se importaria de pousar ao seu lado para uma selfie.

Às vezes, tenho saudades desses tempos. A vida era tão ligeira! Restam-me as recordações. Felizmente, não são poucas. Quando for velhinha, contarei aos meus netos os encontros, recheados de anedotas, com as estrelas de cinema, os cantores, os escritores, as figuras políticas internacionais… Será que eles vão querer saber como conheci o Brad Pitt, em 2009? Talvez não. Mas, posso dizer-lhes, que numa outra vida, existiu um grupo francês chamado Daft Punk, cujos dois músicos eletrónicos não reconheci, quando me cruzei com eles, porque não tinham os famosos capacetes, claro! Mas isso fica para a próxima.

Filipa Moreira da Cruz

Triste fim de vida

Photo : KaDDD

Dedico este texto aos idosos, às pessoa de idade, aos velhotes, aos velhinhos. Deixemo-nos de eufemismos e chamemos-lhes simplesmente… velhos! Cada um deve assumir a sua idade sem medo nem pudor. Mais difícil que envelhecer é aceitar que o corpo muda e a cabeça também, embora a ritmos diferentes. O tempo, às vezes, pode ser cruel. Muitos têm dificuldade em ver no velho a criança, o jovem e o adulto de outros tempos. Como se já tivessem nascido com cabelos brancos e rugas.

O mundo ocidental não põe os mais velhos num pedestal, antes pelo contrário. Prefere ignorá-los, fazendo de conta que já não existem. E a situação atípica que vivemos veio degradar a sua já frágil condição de vida. O vírus isolou-os do resto do mundo. Em nome da covid são mantidos prisioneiros em gaiolas douradas (alguns) ou em sítios indecentes (a maioria). Não recebem visitas dos filhos nem dos netos, não vão a almoços de família, não passeiam no parque, não dão comida aos patos, não jogam às cartas. Nem sequer têm direito a certos tratamentos porque as equipas médicas estão mobilizadas noutra frente. Para muitos deles, os cuidados paliativos deixaram de ser uma prioridade. Para quê? Já estão no fim da vida. Resta-lhes ver desfilar os dias, que parecem intermináveis, na antecâmara da morte.

Há velhos que vivem em quartos de luxo trancados à chave para evitar que possam circular no corredor da instituição. São medicados para dormir mais horas do que as necessárias. Imersos num estado vegetativo, entrevêm a luz do dia através de grades e não se podem despedir dos amigos que partiram vítimas da covid ou de outra doença qualquer. Isto acontece, regularmente, em lares que não custam menos de 3.000 euros por mês. E todos somos cúmplices porque é mais fácil ignorar. Cada um já tem o suficiente com os seus problemas.

O contacto intergeracional é vital. Contribui para a construção de uma humanidade mais solidária e resiliente. Os que nunca conhecemos os nossos avós vivemos eternamente com saudades do que nunca foi e sofremos um certo vazio emocional. Que sorte têm aqueles com histórias para contar das tardes passadas a fazer bolos com essa avó doceira, das anedotas do avô bem disposto, das brincadeiras, dos disparates e dos afetos partilhados. Invejo os que teceram uma cumplicidade ímpar com os velhos sábios da família. E todos os outros que iam de férias para a terra dos avós.

A vida normal ficou em suspenso a partir do momento em que os médicos começaram a ter que decidir quem salvam e quem deixam morrer. Os governos atuam em nome dos velhos quando nos impõem o confinamento. Os membros da família recusam abraços e beijos aos avós para evitar o contágio. Mas todos se esqueceram de perguntar-lhes como tencionam passar os últimos anos das suas vidas. Talvez alguns prefiram uns breves instantes de liberdade aos longos meses de solidão. Mas seria eticamente inaceitável não ostracizar os velhos pelo bem da sua saúde. Que sociedade ousaria correr o risco?

Nenhuma medida governamental conseguirá travar o inevitável: os velhos morrem lentamente. Em silêncio e sem incomodar. Uns do vírus e outros de depressão. A tristeza também mata. Muitos recusam comida e água e nem as perfusões os salvam. Afortunados são os que conseguem sobreviver a uma liberdade condicionada e são ainda mestres do seu corpo e da sua mente. Peço a Deus que também eu seja abençoada e possa chegar a velha com saúde.

Filipa Moreira da Cruz

Virados do avesso

Photo : KaDDD

É cão, é gato
É periquito, é peixe encarnado
É gritaria, casa desarrumada
Ficamos de pijama. Festa assegurada!
É roupa amarfanhada, loiça por guardar
De manhã, não há escolha, temos que trabalhar
Estudar em casa é o que está a dar!
Escola fechada, parque vazio
Todos os dias são iguais, mas sem frio
Saudades dos avós, triste realidade
Eles sim gostam de nós de verdade!
Quando isto passar, vou dar beijinhos
Abraços e as mãos apertar
Mas até lá, tenhamos calma
Melhores dias estão por chegar.

Filipa Moreira da Cruz

A minha casa é uma prisão

Photo : KaDDD

A minha casa é uma prisão
Bonita, sofisticada, ordenada.
Com toalhas de linho, loiça de porcelana e copos de cristal.
Com gente elegante e educada.
– As crianças? Não as ouço…
– Não se preocupe, não há alvoroço.

A minha casa é uma prisão
Numas águas furtadas com uma vista deslumbrante
E um gato sempre a brincar.
16 metros quadrados para dormir, cozinhar, ler, escrever e meditar…
Faço tudo para não pirar!

A minha casa é uma prisão.
O meu palacete, quer você dizer!
No cimo de uma colina, na parte antiga da cidade.
Tanto espaço só para mim,
A última da minha geração.
De repente, sinto-me mal, que aflição!
O que me salva é o meu velho cão.

A minha casa é uma prisão
Onde dormimos, comemos e brincamos no chão.
Os adultos são a autoridade e têm sempre razão!

A minha casa é uma prisão.
Rodeada de areia branca e fina.
Adormeço ao som do mar
E acordo com ele a dizer-me:
Larga tudo e vem surfar!

A minha casa é uma prisão
Com jardim, piscina, cave e sótão.
Onde todos se cruzam, mas ninguém se vê.
Cada um sofre em silêncio, mas porquê?!

A minha casa é uma prisão
Feita de madeira e de pedra.
Vivo no meio da floresta
Sem televisão, computador ou telefone.
Hoje lamento esta decisão!

A minha casa é uma prisão
Com rodas e duas pequenas janelas.
Não posso circular, mas não faz mal.
Isto vai passar!

A minha casa é uma prisão
Um quarto onde durmo por empréstimo
Numa cidade fria e cinzenta.
E onde a chuva não dá tréguas.

A minha casa é uma prisão
E de porto em porto vivo.
O meu barco está atracado.
Para respeitar o que me foi pedido.

A minha casa é uma prisão
Lar nunca tive, sou nómada.
E os meus pertences cabem em duas malas.
Sou solitário e homem de poucas falas.

A minha casa é uma prisão
Sem porta nem janelas,
Sem pessoas nem animais.
Todos os dias são domingos
Preguiçosos, comuns, banais.

Filipa Moreira da Cruz

Nervos à flor da pele

Photo : KaDDD

Pandemia, paramédicos, paranóia,
Febre, tosse, exaustão.
Falta o ar, faltam testes, falta tudo.
Dúvidas… muita imaginação.

Clausura, solidariedade, (des)união.
Rebanho sem pastor,
Nenhum país tem a solução.

E quando ninguém se entende
O divino sobrepõe-se à razão.

Ricos, pobres, louros, morenos
Gordos, magros, solteiros, casados.
Do Sul, do Norte, de todo o lado!

Crianças, jovens e velhos.
Contam-se os vivos,
Enterram-se os mortos.
E cada qual é deixado à sua sorte.

Somos todos humanos.
Somos todos iguais?!
Sobreviver é uma vitória.
Pandemia, fim da história.

Filipa Moreira da Cruz

« Estou farta deste vírus! »

Photo : KaDDD

Et voilà, o dia 1 de maio também esteve de quarentena. A “fête du travail” celebra-se no país galo desde 1793 e é quase tão importante como o 14 de julho (dia nacional). Pela primeira vez, não houve festejos nem desfiles da CGT ou da “France Ouvrière”. Neste mesmo dia, celebra-se outra festa: a do muguet (lírio do vale) que remonta ao século XVI. Faz parte da tradição oferecer esta flor como símbolo de felicidade, prosperidade e boas colheitas. Tudo isto em torno de um almoço com a família ou os amigos, regado com bom vinho. O governo proibiu a venda do muguet, apesar da pressão exercida pelos supermercados, floristas, horticultores e outros. Uma premiére mal digerida por muitos que se sentiram nús sem a flor “du bonheur” apenas comparável à tristeza dos sindicatos sem as suas bandeiras na rua.

Certo dia, a Mathilde decretou: «não quero ouvir mais nada da Covid-19. Estou farta deste vírus!». Já nada me estranha por parte da minha filha que, aos 3 anos, me perguntou porque é que eu era “a única gorda da família”. Na altura, fiquei sem resposta e ela rematou com um “gosto muito de ti” sincero e um abraço apertadinho. A Mathilde é assim mesmo, direta, decidida, mas carinhosa. Sai mesmo à titi Jo! O Stan é o oposto; sensível, reservado, ponderado. Talvez por isso, não me tenha surpreendido ao dizer que “os adultos estão tão preocupados com a doença, o trabalho e o dinheiro que se esquecem de viver. Com medo, não avançam”. Parece que se puseram os dois de acordo no boicote ao coronavírus, cada um à sua maneira.

Estive tão concentrada em evitar ler notícias trágicas que perdi o discurso do primeiro-ministro Edouard Philippe na Assembleia Nacional. Não fui a única. E mesmo os que ouviram todas as medidas que serão aplicadas brevemente não perceberam quase nada, deputados incluídos. Sãs muitas as incoerências e poucas as certezas. O estado de emergência sanitária foi prolongado até 24 de julho. No entanto, o início da retoma económica será já a partir de 11 de maio. Resumindo:

  • Abertura dos pequenos comércios, bibliotecas e pequenos museus, com exceção dos que não puderem aplicar as regras de higiene e segurança (cafés e restaurantes não estão incluídos);
  • Abertura de jardins e parques públicos (somente nas regiões autorizadas);
  • Abertura do pré-escolar e do básico com base no voluntariado (?) e máximo de 15 crianças por sala (o secundário e as universidades ainda não têm data marcada);
  • Aumento gradual da circulação dos transportes públicos (sempre com máscara), mas preferível o uso dos transportes individuais (carro, trotinete, bicicleta);
  • Livre circulação sem atestado até 100 km do local de residência;
  • Restrição de convívios a 10 pessoas;
  • Favorecer, ao máximo, o regime de teletrabalho ou aplicar horários alternados nas empresas, a fim de evitar grande número de colaboradores ao mesma tempo.

Com o propósito de gerir da melhor forma possível o início do desconfinamento, o território francês vestiu-se com as cores da bandeira de Portugal. A partir de agora, França está dividida em três zonas: verde, amarela e vermelha. Estas foram atribuídas tendo em conta dois critérios: o número de casos de Covid-19 confirmados e a capacidade de resposta dos hospitais. Após várias polémicas, (ou não estivesse eu a viver num país onde queixar-se faz parte do ADN) o mapa tricolor foi apresentado oficialmente. Por sorte, a Bretanha está pintada com a cor da esperança, tal como, a Normandia, a costa Atlântica, o país Basco e a Côte d’Azur. De amarelo ficaram o centro e os Alpes. Quanto ao norte, à região do grande este e à Île de France foram cobertos pela cor do fogo e do sangue. Os habitantes de Bordéus, Nantes, Marselha ou Nice encontraram o trevo de quatro folhas. Os que vivem em Lyon, Grenoble ou Orléans são mais controlados. Por outro lado, Paris, Estrasburgo ou Lille são os frutos proibidos.

Tal como num jogo decisivo entre o Benfica e o Sporting, ainda está tudo em aberto. Até ao apito final muita coisa pode acontecer. O verde pode virar vermelho e vice-versa. Os franceses sonham com o regresso à vida de antes e queixam-se, cada vez mais, da privação de liberdade individual e coletiva. Ainda assim, o tão ansiado regresso à “normalidade” está em suspenso. Só nos resta esperar.

Filipa Moreira da Cruz
Maio 2020

« Please, call me Brad! »

Photo : KaDDD

As férias da Páscoa estão a chegar ao fim. E que férias! Todos os dias parecem domingos de Inverno, longos e preguiçosos. Para tornar o cenário mais credível a temperatura baixou e a chuva tem-nos feito companhia. E temos tempo! Para contar histórias, jogar ao Cluedo e ao Monopoly, fazer puzzles, ouvir música, dançar na cozinha, ver filmes, comunicar com os amigos e a família, ler um livro com muitas páginas (ou vários livros fininhos), arrumar a casa (nunca esteve tão limpinha!). E, sobretudo, tempo para não fazer nada!

No entanto, nem tudo foi cor-de-rosa, para grande desgosto da Mathilde que fez desta cor o seu talismã . O Sébastien piorou: voltou a ter febre, cefaleias e dores musculares. O Stan ainda não recuperou e há semanas que não temos uma noite descansada. Acorda com febre, tosse, diarreia, náuseas … Há dias que faço compressas com chá de camomila e lemongrass para atenuar a conjuntivite que se veio juntar à festa bacteriológica. Ele não tem vontade de comer porque ainda não recuperou o paladar nem o olfato. E agora comigo na cozinha, ainda menos.

O cozinheiro cá de casa nomeou-me sua substituta durante a convalescença que se espera rápida, para o bem dos nosso estômagos. Declaro aberta a temporada de sopas, saladas e bolos! Dediquei-me aos doces com afinco. Nostalgia dos tempos em família na casa de Alvalade. Eu e a minha filha preparamos madalenas, tarte de maçã, petit gâteau au chocolat, bolo de canela, financiers

Certo fim de tarde, fomos surpreendidas por um fenómeno estranho. A cozinha estava a ser invadida por um exército de formigas e a Mathilde exclamou: “Sou tão boa pasteleira que nem as formigas resistem”. Como se não bastasse, no dia seguinte, ia no corredor com uma taça de chá na mão e escorreguei, esquecendo-me que o chão ainda estava molhado. A queda foi tão aparatosa que fiquei imóvel, sem saber se rir ou chorar. A Mathilde foi a correr chamar o pai. Tinham os três que ajudar a levantar-me porque o hospital estava “infetado pelo coronavírus”.

Eu e o Sébastien fazemos parte dos milhões de Franceses que não podem trabalhar em casa. Recebemos 70% do salário bruto e desconhecemos quando regressaremos à vida ativa. Nem sequer sei se o hotel onde trabalho vai abrir antes do Verão. Talvez tenha de mudar de área profissional, outra vez. Apesar da incerteza, considero que somos uns privilegiados. Não temos reuniões de equipa às 09h00, não estamos todo o dia em frente ao computador e podemos desfrutar da família a tempo inteiro. Os nossos filhos têm sorte por estarmos sempre disponíveis.

Tenho saudades do meu local de trabalho. Adoro os emblemáticos hotéis de luxo. A azáfama, os imprevistos, as exigências das estrelas de cinema, dos políticos, dos cantores e dos PDG de multinacionais. Estive no “front row” de desfiles intermináveis de famosos Portugueses e estrangeiros, de certo modo, iguais a todos nós. Alguns tornaram-se amigos e viram os meus filhos crescer, como M., antigo número 2 de Veolia Internacional. O cantor Mika ofereceu-me um CD autografado e dois bilhetes para o concerto em Paris ainda antes de ser mundialmente conhecido. Fiquei grávida quase ao mesmo tempo que a Carla Bruni e cruzamo-nos várias vezes barrigudas, nos corredores de um hotel parisiense. Ela muito mais glamorosa, claro! A Giulia nasceu duas semanas depois da Mathilde. A sensibilidade de Jane Goodall enterneceu-me e guardo com carinho uma mini “gordita” que me ofereceu o artista Botero.

A vida na cidade Luz proporcionou-me momentos inesquecíveis a nível pessoal e profissional. Foram mais de sete anos de aprendizagem, descobertas, formação, súbidas e trambolhões. As amizades resistem ao tempo, à distância e, até mesmo, ao confinamento. O “Palace” da Rive Gauche era especial, fora do comum. Tão diferente dos outros hotéis chiques da capital Francesa. Mademoiselle Deneuve (a atriz Catherine Deneuve) vinha, todas as semanas, buscar o seu correio. Gerard (estava proíbida de tratá-lo por Monsieur Depardieu!) fazia parte da casa e passava mais tempo connosco que no seu próprio domicílio, ao virar da esquina. Este gigante colossal é ainda mais espetacular ao vivo que nos filmes. Mas são a sua generosidade e simplicidade que nos impressionam. O seu melhor amigo, um aristocrata Italiano dedicado ao teatro e à ópera vivia, durante todo o ano, no último andar do hotel e Gerard visitava-o regularmente.

Tenho que admitir que não foram os ricos judeus americanos, os vencedores dos prémios Nobel, os artistas e as modelos internacionais os que mais me marcaram. O encontro inesquecível ao longo do meu percurso profissional foi, sem dúvida, com o Brad Pitt. (Riam-se à vontade!). Vestido de jeans deslavados, uma t-shirt branca e calçado com ténis (ou terão sido botas?) esfarrapados. Despenteado, com uma barba de três dias e aquele sorriso de eterno miúdo… Eu estava grávida do meu filho, o qual nasceu prematuramente uns dias depois. Talvez da emoção! Na altura, o ator perguntou-me se estava à espera de rapaz ou de rapariga e desejou-me « all the best ». Mas pouco antes soltou a frase que me acariciou como uma brisa num dia de Verão: Please, call me Brad.

A família e os amigos adoram os relatos das histórias dos famosos e agora dou por mim a partilhá-los com os meus filhos. O Stan já me propôs escrever um livro porque seria uma pena não registar estes momentos únicos, sobretudo porque estas histórias são irrepetíveis. Algum dia, quem sabe? O turismo pós Covid-19 não será como antes, mas não penso nisso agora. Até lá, estas anedotas servem para nos esquecermos, por alguns instantes, da pandemia.

Filipa Moreira da Cruz
Abril 2020

RISO

Photo : KaDDD

Macron decretou o prolongamento da quarentena até 11 de Maio. Anunciou que serão realizados testes à população mais exposta, assim como às pessoas que apresentem sintomas (até que enfim!). Haverá novas ajudas financeiras para as famílias mais vulneráveis e o regresso à « normalidade » será progressivo e organizado por fases; não sairemos todos de casa ao mesmo tempo. Nas grandes cidades como Paris, Marseille, Lyon ou Bordeaux alguns habitantes começam a desobedecer às regras da quarentena. O tempo é demasiado longo e o confinamento é cada vez mais difícil. Uma vontade inexplicável de fazer jogging, as constantes saídas com o cão, a imprescindível baguete, vale tudo para abandonar o lar.

Eu e a minha família contrariamos as últimas estatísticas. Após um período de incerteza e de receio passamos a aceitar esta situação com naturalidade e ficamos em casa. Para o nosso bem e o de todos os outros. O meu marido vai às compras uma vez por semana, muito contrariado.

Os meus filhos estão de férias da Páscoa entre 11 e 27 de Abril. O ano letivo em França é mais longo que em Portugal, tendo várias interrupções, as quais estão organizadas por três zonas. Nós pertencemos à zona B. Este período de repouso vem mesmo a calhar! Ainda assim, as professoras enviaram fichas, a fim de evitar que as crianças se aborreçam. A Mathilde recebeu 18 e o Stan teve direito ao jackpot: 45! Obviamente, eu fiz uma pré-seleção e imprimi apenas 5 para cada um. Os meus filhos já estudaram em Portugal, Espanha e França e a obsessão das professoras pelas ditas fichinhas tem sido uma constante. A única exceção foi o País Basco. Bendito Amara Berri! O melhor modelo que conheci até agora.

Que me desculpem as docentes (e as mães 100% cumpridoras), mas falharei. Vou privilegiar a brincadeira às propostas curriculares porque casa não é escola. E férias são férias!

Neste momento, a minha prioridade é apenas uma: a saúde, física e mental. Infelizmente, a primeira escapou-nos, mas cuidarei ao máximo da segunda para o bem de toda a família. Estivemos os quatro doentes. Uns durante sete dias e outros durante mais de três semanas. Os dois médicos consultados são da opinião que foi a Covid-19 que nos provocou febre, tosse constante, perda do paladar, cansaço e dificuldade em respirar. Nunca saberemos porque não realizamos os testes. Não eramos prioritários. A visita do coronavirus ou do seu irmão-gémeo foi longa e dolorosa, sobretudo para os asmáticos cá de casa.

Fiz o que pude para evitar o hospital. Juntos, vencemos. Como a 9 de Fevereiro de 2009 em que mãe e filho fomos reanimados quase ao mesmo tempo. O Stan foi levado para o serviço de neonatologia da maternidade onde permaneceu 21 dias e eu segui de ambulância para o hospital Georges Pompidou, ambos em Paris. A embolia amniótica empurrou-me para os cuidados intensivos e o serviço de pneumologia. Cinco dias e cinco noites. E hoje dou por mim a pensar em todos os seres humanos que dependem de um ventilador.

Felizmente, não temos televisão o que nos evita assistir à contagem em direto do número de mortes provocadas pela pandemia. Ideias para passar o tempo não nos faltam e aplicamos a terapia do RISO quase diariamente.

RIR

Não sei se rir é o melhor remédio, mas ajuda muito! Rimo-nos sobretudo de nós próprios: dos disparates da Mathilde, das histórias do Stan, do meu desenho que parece um cão com bigodes de gato e orelhas de coelho, das partidas do Sébastien, das sessões improvisadas de karaoke. Ao longo do dia, somos invadidos por gargalhadas espontâneas e incontroláveis. Fazer o aerossol ao mesmo tempo que vimos os filmes do Louis de Funès é um bálsamo para o corpo e a alma.

INVENTAR

Acredito que o mundo não será o mesmo quando regressarmos à rua. Mas isso não tem que ser necessariamente mau. Até lá, talvez devêssemos aprender com as crianças a viver agora. Como diz a Mathilde, o presente é tão rápido que já é passado e o futuro vem daqui a pouco. Resiliência, empatia, criatividade e imaginação são as ferramentas. O Sébastien pensa em receitas sem farinha porque esta já esgotou há semanas. Os filhos inventam jogos e brincadeiras e apresentam o noticiário todas as noites para a família através do WhatsApp. Eu vou escrevendo e arranjando maneira de pôr toda a gente a fazer ginástica logo pela manhã. Descobrimos dons até então impensáveis. Arriscamos, falhamos e voltamos a tentar.

SONHAR

Os adultos voltam a ser criança e, todos juntos, ousamos sonhar. Tudo é possível no universo dos sonhos. De repente, aparecem unicórnios, dragões e discos voadores. Fechamos os olhos e estamos todos juntos em Portugal, na casa da avó. Ou então a dar um mergulho na piscina das Canárias. Sonhamos, acima de tudo, com um mundo mais justo, mais unido e mais solidário. E quem disse que os sonhos não se realizam? Basta crer!

ORAR

Agradecemos todos os dias tudo o que temos: saúde, casa, família, amigos, comida, água… Damos valor a qualquer banalidade. Para muitos, a vida está presa por um fio, literalmente. Não temos o calor de Fuerteventura nem a família Portuguesa, mas estamos gratos por não estarmos fechados no pequeno apartamento de Paris. Louvamos o trabalho de todos os que estão lá fora: médicos, enfermeiros, funcionários da limpeza e dos supermercados, agricultores, camionistas e tantos outros. E reconhecemos que temos muita sorte porque nos calhou o menos difícil: ficar em casa.

Filipa Moreira da Cruz
Abril 2020

Todos em casa

Photo : KaDDD

Saí de Portugal há 20 anos e já vivi em vários países europeus. Desde 2018 a minha casa é Saint-Malo, em França.

Estar longe da família e comunicar através de Skype, Whatsapp e Facetime faz parte do meu quotidiano. Bendita era digital! É o preço a pagar por ter escolhido viver no estrangeiro. Somos quatro irmãos, cada um num país diferente e os meus pais têm um genro italiano e um francês. Nas reuniões familiares falam-se todas as línguas latinas!

Pela primeira vez, somos obrigados a ficar em casa. Para o bem de todos. O mundo virtual sobrepõe-se ao dos afetos. Ter notícias da família e dos amigos torna-se vital. Nunca estivemos tão próximos e, ao mesmo tempo, tão sozinhos.

A quarentena em França foi anunciada no sábado 14 de Março às 22h00 pelo primeiro ministro Edouard Philippe. No dia seguinte, houve eleições municipais e Macron apelou ao voto. Os franceses sentiram-se traídos e confusos sem perceber se o mais importante era votar ou ficar em casa. Resultado: a abstenção ultrapassou os 50% e a segunda volta foi adiada. Ao mesmo tempo, foram apresentadas várias medidas económico-sociais para proteger as pequenas e médias empresas e também as famílias mais desprotegidas.

A quarentena é levada a sério, em teoria. (Porque en teoria tudo corre bem). Apenas as saídas indispensáveis são permitidas e sempre com uma autorização por escrito onde deve constar a data, o motivo e a hora. Para passear o cão, fazer desporto ou simplesmente apanhar ar estamos restritos a um raio de 1Km do domicílio e não mais de 60 minutos. O incumprimento da lei resulta numa multa entre 135€ e 300€. Há deputados que defendem coimas de 3.000€ e prisão para os casos mais graves.

Nem todos se portaram bem. Nos dias seguintes ao anúncio da quarentena foram muitos os habitantes das grandes metrópoles que fugiram para as cidades junto ao mar ou na montanha onde os hospitais não estão preparados para receber um grande número de pacientes. Deauville, La Rochelle, Saint-Malo, La Baule, Annecy viram a sua população duplicar num curto espaço de tempo.

Os franceses estão divididos e esta pandemia veio acentuar as diferenças entre as várias regiões. Há casas que são uma prisão e outras um verdadeiro inferno.

Nós vivemos um dia de cada vez e agradecemos tudo o que temos. Com duas crianças de 8 e 11 anos a criatividade e o pragmatismo são essenciais. Somos professores, enfermeiros, cozinheiros, ilusionistas e acrobatas a tempo inteiro. Acho que o Sébastien nunca fez tantos crepes, madalenas e bolos. E eu já sonho com os problemas de Matemática. Correção: tenho pesadelos!

Tentamos minimizar os efeitos secundários desta clausura que nos foi imposta. Felizmente, não temos canais de televisão e isso ajuda. Hoje, mais do que nunca, estou grata por esta decisão. Cada um tenta manter a saúde mental à sua maneira. Eu envio histórias e poemas escritos em várias línguas, o meu marido experimenta novas receitas, a Joana partilha mensagens positivas que a ajudam a ultrapassar a situação crítica de Itália, o Diogo faz-nos rir com os vídeos divertidos e a Inês apela ao sonho e à imaginação com as histórias que conta.

Os quatro primos comunicam numa linguagem codificada e enviam mensagens vocais, desenhos e fotografias. Para eles não há fronteiras que resistam ao amor da família. Os avós ficam babados ao ver a declamação da poesia em francês ou as artes plásticas dos pequenos artistas.

Já não vejo a minha irmã Joana há dois anos. Deveria ter acontecido, mas não pode ser. A tão desejada viagem a Itália vai ter que esperar. No início de Março, deitei fora o bilhete de avião para Londres por precaução. Troquei a capital britânica por seis dias em Estrasburgo sem saber que seria em Alsace o grande foco de coronavírus em França. A vida prega-nos destas partidas.

Há várias décadas que os mais poderosos do mundo receiam uma terceira guerra mundial. De repente, um maldito vírus mata mais pessoas que qualquer arma nuclear. Portugal é visto em França como um exemplo a seguir. Aprendeu a lição com Espanha e Itália e evitou o pior, por agora.

Há uns dias perguntei aos meus filhos o que querem fazer quando terminar a quarentena. Responderam em coro: ir à escola, claro! Recuperar a vida que tinham antes. Mas nada voltará a ser como antes. Espero que os líderes mundiais tenham percebido que a vida humana não tem preço e que salvar pessoas é mais importante que salvar bancos. 

Por enquanto, continuaremos em casa até 15 de Abril, no mínimo, acreditando que vai correr tudo bem.

Filipa Moreira da Cruz
Março 2020