Dor

Reprise

Photo : KaDDD

De repente, cai a máscara!
Eu já não sou eu… E ainda bem!
Esqueço os medicamentos e as dores,
Atraso o relógio porque ainda não é hora.

Dissimulo a angústia quotidiana,
Retardo os efeitos secundários,
Saboreio cada instante – porque sei
Que este momento pode ser o último.

Volto a ser criança e sou livre!
Para correr, saltar, dançar.
Fazer trinta por uma linha,
Pintar a manta de várias cores.

Ai se eu soubesse parar o tempo!
Para agarrar o que mais amo.
Desfazer-me de ninharias e futilidades
E chorar muito até limpar a alma.

Que sorte tenho de (ainda) estar viva,
De deslizar ao sabor do vento.
Sem pressa, sem medo, sem desespero,
Sou de novo eu! E ainda bem!

Filipa Moreira da Cruz

Ser Criança

Quero ser outra vez criança!
Rebolar na relva e esfarrapar as calças
Comer diretamente do pote e besuntar a boca
Acreditar nas fadas e nos duendes
Ter um amigo especial, invisível e mágico
Para proteger-me dos monstros que me atormentam

Quero ser outra vez criança!
Fazer trinta por uma linha e pintar a manta toda
Desenhar um arco-íris do tamanho do mundo
Abraçar o céu, o sol, o mar e as nuvens
Correr, saltar, rir e brincar
Jogar ao faz-de-conta muito a sério

Quero ser outra vez criança!
Sonhar com os olhos bem abertos
Desfrutar da escola. Hoje e sempre!
Aprender, crescer, renascer, viver
Inventar, criar, imaginar, partilhar
Sem medo, sem preconceitos, sem tabus

Deixem-me ser criança…só mais uma vez!

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz

Dia da Criança

Photo : Arquivo pessoal

Depus a máscara e vi-me ao espelho.
Era a criança de há quantos anos.
Não tinha mudado nada…
É essa a vantagem de saber tirar a máscara.
É-se sempre a criança,
O passado que foi
A criança.
Depus a máscara, e tornei a pô-la.
Assim é melhor,
Assim sem a máscara.
E volto à personalidade como a um términus de linha.

Álvaro de Campos – Heterónimo de Fernando Pessoa

Photo : Arquivo pessoal

A Criança que pensa em fadas e acredita nas fadas
Age como um deus doente, mas como um deus.
Porque embora afirme que existe o que não existe
Sabe como é que as cousas existem, que é existindo,
Sabe que existir existe e não se explica,
Sabe que não há razão nenhuma para nada existir,
Sabe que ser é estar em algum ponto
Só não sabe que o pensamento não é um ponto qualquer.

Alberto Caeiro – Heterónimo de Fernando Pessoa

Há mais de um ano que as nossas vidas ficaram viradas do avesso e o mundo de antes faz parte de um passado que parece longínquo e irrecuperável. As crianças foram das mais prejudicadas porque, de um dia para o outro, ficaram privadas de afetos, escola, contacto físico, brincadeiras e, acima de tudo, de uma vida despreocupada e alegre.

Não são as viagens à lua nem as visitas a Marte que nos permitirão seguir em frente. A nossa Terra é única e insubstituível e nem Elon Musk conseguirá convencer-nos do contrário. Não existe um planeta B. Devemos refletir rapidamente acerca do que queremos deixar às próximas gerações porque o tempo é nosso inimigo.

Filipa Moreira da Cruz

Saudades

Photo : Paul Laurent Bressin

Saudade do Verão
Saudade do cri cri dos grilos
Saudade do reboliço e da confusão
Saudade de comer figos
Saudade do sol e do calor
Saudade de ser criança
Saudade de ignorar a dor
Saudade de não perder a esperança
Saudade de ontem, de hoje e de amanhã
Saudade dos amigos e da família
Saudade de preguiçar de manhã
Saudade de viver sem controlo nem vigília
Saudade da loucura e da imprudência
Saudade de beijos e abraços
Saudade de não pensar em vírus e doença
Saudade de reanudar os laços
Saudade de mim, de ti, de nós
Saudade de fazer a diferença
Saudade de não calar a minha voz.

Filipa Moreira da Cruz

Nó na garganta

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Grito reprimido, palavras não ditas
Sufoco na garganta que asfixia o peito
Mundo virado do avesso, sem eira nem beira
Toxinas à solta que perturbam o sono
E a paz de espírito tão desejada.

Corrida contra o tempo, esse senhor doutorado
Que brinca com a nossa paciência
Ilusão de que as posses fazem de nós seres felizes
Despojos de uma vida incompleta
Que nos reclama ninharias.

Soltar amarras, libertar os pensamentos
Deixar fluir os sonhos
E ouvir a criança que ainda vive em nós
Esquecer doutrinas e preconceitos
Sob pena de ficarmos sós.

Filipa Moreira da Cruz

Ser criança

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Quero ser outra vez criança!
Rebolar na relva e esfarrapar as calças
Comer diretamente do pote e besuntar a boca
Acreditar nas fadas e nos duendes
Ter um amigo especial, invisível e mágico
Para proteger-me dos monstros que me atormentam

Quero ser outra vez criança!
Fazer trinta por uma linha e pintar a manta toda
Desenhar um arco-íris do tamanho do mundo
Abraçar o céu, o sol, o mar e as nuvens
Correr, saltar, rir e brincar
Jogar ao faz-de-conta muito a sério

Quero ser outra vez criança!
Sonhar com os olhos bem abertos
Desfrutar da escola. Hoje e sempre!
Aprender, crescer, renascer, viver
Inventar, criar, imaginar, partilhar
Sem medo, sem preconceitos, sem tabus

Deixem-me ser criança…só mais uma vez!

Filipa Moreira da Cruz

Bichinho de conta

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Bichinho de conta
Conta, conta
E diz-me quem és.

Bichinho de conta
Conta, conta
Uma e outra vez.

Bichinho de conta
Conta, conta
Muito enroladinho.

Bichinho de conta
Conta, conta
Na mão do menino.

Bichinho de conta
Conta, conta
Só mais uma vez.

Bichinho de conta
Conta, conta
E diz-me quem és.

Filipa Moreira da Cruz

Dor

Photo : KaDDD

De repente, cai a máscara!
Eu já não sou eu… E ainda bem!
Esqueço os medicamentos e as dores,
Atraso o relógio porque ainda não é hora.

Dissimulo a angústia quotidiana,
Retardo os efeitos secundários,
Saboreio cada instante – porque sei
Que este momento pode ser o último.

Volto a ser criança e sou livre!
Para correr, saltar, dançar.
Fazer trinta por uma linha,
Pintar a manta de várias cores.

Ai se eu soubesse parar o tempo!
Para agarrar o que mais amo.
Desfazer-me de ninharias e futilidades
E chorar muito até limpar a alma.

Que sorte tenho de (ainda) estar viva,
De deslizar ao sabor do vento.
Sem pressa, sem medo, sem desespero,
Sou de novo eu! E ainda bem!

Filipa Moreira da Cruz