Dia da Criança

Photo : Arquivo pessoal

Depus a máscara e vi-me ao espelho.
Era a criança de há quantos anos.
Não tinha mudado nada…
É essa a vantagem de saber tirar a máscara.
É-se sempre a criança,
O passado que foi
A criança.
Depus a máscara, e tornei a pô-la.
Assim é melhor,
Assim sem a máscara.
E volto à personalidade como a um términus de linha.

Álvaro de Campos– Heterónimo de Fernando Pessoa

Photo : Arquivo pessoal

A Criança que pensa em fadas e acredita nas fadas
Age como um deus doente, mas como um deus.
Porque embora afirme que existe o que não existe
Sabe como é que as cousas existem, que é existindo,
Sabe que existir existe e não se explica,
Sabe que não há razão nenhuma para nada existir,
Sabe que ser é estar em algum ponto
Só não sabe que o pensamento não é um ponto qualquer.

Alberto Caeiro – Heterónimo de Fernando Pessoa

Ser Criança

Quero ser outra vez criança!
Rebolar na relva e esfarrapar as calças
Comer diretamente do pote e besuntar a boca
Acreditar nas fadas e nos duendes
Ter um amigo especial, invisível e mágico
Para proteger-me dos monstros que me atormentam

Quero ser outra vez criança!
Fazer trinta por uma linha e pintar a manta toda
Desenhar um arco-íris do tamanho do mundo
Abraçar o céu, o sol, o mar e as nuvens
Correr, saltar, rir e brincar
Jogar ao faz-de-conta muito a sério

Quero ser outra vez criança!
Sonhar com os olhos bem abertos
Desfrutar da escola. Hoje e sempre!
Aprender, crescer, renascer, viver
Inventar, criar, imaginar, partilhar
Sem medo, sem preconceitos, sem tabus

Deixem-me ser criança…só mais uma vez!

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz

Nó na garganta

Reprise

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Grito reprimido, palavras não ditas
Sufoco na garganta que asfixia o peito
Mundo virado do avesso, sem eira nem beira
Toxinas à solta que perturbam o sono
E a paz de espírito tão desejada

Corrida contra o tempo, esse senhor doutorado
Que brinca com a nossa paciência
Ilusão de que as posses fazem de nós seres felizes
Despojos de uma vida incompleta
Que nos reclama ninharias

Soltar amarras, libertar os pensamentos
Deixar fluir os sonhos
E ouvir a criança que ainda vive em nós
Esquecer doutrinas e preconceitos
Sob pena de ficarmos sós.

Filipa Moreira da Cruz

Saudades

Reprise

Photo : Paul Laurent Bressin

Saudade do Verão
Saudade do cri cri dos grilos
Saudade do reboliço e da confusão
Saudade de comer figos
Saudade do sol e do calor
Saudade de ser criança
Saudade de ignorar a dor
Saudade de não perder a esperança
Saudade de ontem, de hoje e de amanhã
Saudade dos amigos e da família
Saudade de preguiçar de manhã
Saudade de viver sem controlo nem vigília
Saudade da loucura e da imprudência
Saudade de beijos e abraços
Saudade de não pensar em vírus e doença
Saudade de reanudar os laços
Saudade de mim, de ti, de nós
Saudade de fazer a diferença
Saudade de não calar a minha voz.

Filipa Moreira da Cruz

Dor

Reprise

Photo : KaDDD

De repente, cai a máscara!
Eu já não sou eu… E ainda bem!
Esqueço os medicamentos e as dores,
Atraso o relógio porque ainda não é hora.

Dissimulo a angústia quotidiana,
Retardo os efeitos secundários,
Saboreio cada instante – porque sei
Que este momento pode ser o último.

Volto a ser criança e sou livre!
Para correr, saltar, dançar.
Fazer trinta por uma linha,
Pintar a manta de várias cores.

Ai se eu soubesse parar o tempo!
Para agarrar o que mais amo.
Desfazer-me de ninharias e futilidades
E chorar muito até limpar a alma.

Que sorte tenho de (ainda) estar viva,
De deslizar ao sabor do vento.
Sem pressa, sem medo, sem desespero,
Sou de novo eu! E ainda bem!

Filipa Moreira da Cruz

Ser Criança

Quero ser outra vez criança!
Rebolar na relva e esfarrapar as calças
Comer diretamente do pote e besuntar a boca
Acreditar nas fadas e nos duendes
Ter um amigo especial, invisível e mágico
Para proteger-me dos monstros que me atormentam

Quero ser outra vez criança!
Fazer trinta por uma linha e pintar a manta toda
Desenhar um arco-íris do tamanho do mundo
Abraçar o céu, o sol, o mar e as nuvens
Correr, saltar, rir e brincar
Jogar ao faz-de-conta muito a sério

Quero ser outra vez criança!
Sonhar com os olhos bem abertos
Desfrutar da escola. Hoje e sempre!
Aprender, crescer, renascer, viver
Inventar, criar, imaginar, partilhar
Sem medo, sem preconceitos, sem tabus

Deixem-me ser criança…só mais uma vez!

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz

Dia da Criança

Photo : Arquivo pessoal

Depus a máscara e vi-me ao espelho.
Era a criança de há quantos anos.
Não tinha mudado nada…
É essa a vantagem de saber tirar a máscara.
É-se sempre a criança,
O passado que foi
A criança.
Depus a máscara, e tornei a pô-la.
Assim é melhor,
Assim sem a máscara.
E volto à personalidade como a um términus de linha.

Álvaro de Campos – Heterónimo de Fernando Pessoa

Photo : Arquivo pessoal

A Criança que pensa em fadas e acredita nas fadas
Age como um deus doente, mas como um deus.
Porque embora afirme que existe o que não existe
Sabe como é que as cousas existem, que é existindo,
Sabe que existir existe e não se explica,
Sabe que não há razão nenhuma para nada existir,
Sabe que ser é estar em algum ponto
Só não sabe que o pensamento não é um ponto qualquer.

Alberto Caeiro – Heterónimo de Fernando Pessoa

Há mais de um ano que as nossas vidas ficaram viradas do avesso e o mundo de antes faz parte de um passado que parece longínquo e irrecuperável. As crianças foram das mais prejudicadas porque, de um dia para o outro, ficaram privadas de afetos, escola, contacto físico, brincadeiras e, acima de tudo, de uma vida despreocupada e alegre.

Não são as viagens à lua nem as visitas a Marte que nos permitirão seguir em frente. A nossa Terra é única e insubstituível e nem Elon Musk conseguirá convencer-nos do contrário. Não existe um planeta B. Devemos refletir rapidamente acerca do que queremos deixar às próximas gerações porque o tempo é nosso inimigo.

Filipa Moreira da Cruz

Saudades

Photo : Paul Laurent Bressin

Saudade do Verão
Saudade do cri cri dos grilos
Saudade do reboliço e da confusão
Saudade de comer figos
Saudade do sol e do calor
Saudade de ser criança
Saudade de ignorar a dor
Saudade de não perder a esperança
Saudade de ontem, de hoje e de amanhã
Saudade dos amigos e da família
Saudade de preguiçar de manhã
Saudade de viver sem controlo nem vigília
Saudade da loucura e da imprudência
Saudade de beijos e abraços
Saudade de não pensar em vírus e doença
Saudade de reanudar os laços
Saudade de mim, de ti, de nós
Saudade de fazer a diferença
Saudade de não calar a minha voz.

Filipa Moreira da Cruz

Nó na garganta

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Grito reprimido, palavras não ditas
Sufoco na garganta que asfixia o peito
Mundo virado do avesso, sem eira nem beira
Toxinas à solta que perturbam o sono
E a paz de espírito tão desejada.

Corrida contra o tempo, esse senhor doutorado
Que brinca com a nossa paciência
Ilusão de que as posses fazem de nós seres felizes
Despojos de uma vida incompleta
Que nos reclama ninharias.

Soltar amarras, libertar os pensamentos
Deixar fluir os sonhos
E ouvir a criança que ainda vive em nós
Esquecer doutrinas e preconceitos
Sob pena de ficarmos sós.

Filipa Moreira da Cruz

Ser criança

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Quero ser outra vez criança!
Rebolar na relva e esfarrapar as calças
Comer diretamente do pote e besuntar a boca
Acreditar nas fadas e nos duendes
Ter um amigo especial, invisível e mágico
Para proteger-me dos monstros que me atormentam

Quero ser outra vez criança!
Fazer trinta por uma linha e pintar a manta toda
Desenhar um arco-íris do tamanho do mundo
Abraçar o céu, o sol, o mar e as nuvens
Correr, saltar, rir e brincar
Jogar ao faz-de-conta muito a sério

Quero ser outra vez criança!
Sonhar com os olhos bem abertos
Desfrutar da escola. Hoje e sempre!
Aprender, crescer, renascer, viver
Inventar, criar, imaginar, partilhar
Sem medo, sem preconceitos, sem tabus

Deixem-me ser criança…só mais uma vez!

Filipa Moreira da Cruz