Estrela do mar

Reprise

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Não canta nem assobia
Desliza como a chuva miudinha
E toca-me suavemente
Será uma estrela que caiu do céu?
Perdeu-se das suas irmãs
Chama-me desesperada
Puxa-me pelo cabelo
Procura abrigo e reconforto
Subo ao monte mais alto
Equilibro-me nas pontas dos pés
Segura-a de mansinho
E devolvo-a ao infinito
Ela brilha no firmamento
Para sempre?
Peço um desejo que se cumpre
A estrela desceu à Terra
Emprestada pela lua
Atravessou a via láctea
Pela última vez
Na noite escura é apenas mais uma
Mas para mim, é única.

Filipa Moreira da Cruz

Bruma matinal

Photo : Paul Laurent Bressin

Realidade destorcida
Feridas abertas
Esperança agradecida
Promessas incertas
Silêncios desfeitos
Alma ausente
Sonhos insatisfeitos
Coração doente
Nevoeiro mentiroso
Olhar esquivo
Beijo guloso
Gesto impulsivo
Bruma caprichosa
Futuro incerto
Mão carinhosa
Fim do desacerto.

Filipa Moreira da Cruz

Ao som do vento

Ninguém se deve envergonhar de ser feliz.

Luís Sepulveda
Photo : Filipa Moreira da Cruz

É um amigo que me chama
Que me assobia de vez em quando
Invisível e impenetrável
Acompanha-me por onde ando
Traz um cheiro a natureza
É a brisa que me envolve
Nos dias de menos leveza

São os pássaros seus apaixonados
As flores suas fieis donzelas
Ouve-se a melodia nos quatro costados
Sem deixar marcas nem sequelas
E eu o resisto ao engano
Que alimenta este vício
De o sentir em primeiro plano.

Filipa Moreira da Cruz

Ai, o amor!

Reprise

Duvida da luz dos astros,
De que o sol tenha calor,
Duvida até da verdade,
Mas confia no meu amor.

William Shakespeare
Photo : KaDDD

Não me odeies, não me censures
Tudo o que faço é por amor
Ofereço-te o que tenho
E o que não possedo invento
Para ver-te sempre feliz

A tua alma implora mais
Deseja algo fora do meu alcance
Eu apenas peço um sorriso
Como prova de gratidão

Lanço os meus braços nus
Em busca de reconforto
Cubro os olhos com as mãos
Enfeitiçadas pelos teus lábios

Sonho com esse beijo prometido
Escondo a teimosa melancolia
Saboreio as alegrias dos outros
Vivo na esperança de te rever

Não descansarei sem a certeza
De que um dia seremos dois
Abraço esse devaneio
Com a alma em pedaços

Mais não peço
E mais não posso dar
Morro de amor por ti
E por ti sobrevivo…assim.

Filipa Moreira da Cruz

Amizade improvável

Photo : KaDDD

O leão diz à formiga
És tão pequenina!
A formiga responde
Não imaginas a minha sorte!
Posso fazer mais do que tu que és tão forte
Quando chove, abrigo-me debaixo de uma folha
Sempre que há festa, voo em cima de uma rolha
Nos dias de sol abrasador
Uma simples pedrinha protege-me do calor
E quando estou chateada com o mundo
Basta-me respirar fundo
E tu gigante leão
Diz-me o que fazes então?
Onde é que te escondes
Quando não queres que ninguém te encontre?
O que fazes para ter paz e sossego?
Será que esse corpo enorme te dá aconchego?
Queres ser meu amigo?
Eu…a passear contigo?!
Se quiseres posso fazer-te cócegas
Quando tiveres comichão nas costas
E vais adorar fingir que falas sozinho
Os outros vão pensar que estás louco
Não lhes dês troco
Juntos seguiremos o nosso caminho
Por que não!?
Já estou cansado da solidão
Vai fazer-me bem um pouco de distração
E quem sabe…
Talvez seja o início de uma bonita amizade.

Filipa Moreira da Cruz

Pés no chão, cabeça nas nuvens

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Admiro essa tua capacidade
Para enfrentar a verdade
A qualquer preço
Com zelo e sem adereço

Quando perco o chão
Dás-me um abanão
Colocas-me de pé
Devolves-me a fé

O meu corpo habita o teu planeta
Mas os meus sonhos vivem noutro cometa
A minha razão une-se à tua
O espírito é teimoso e vive na lua

Tu és paciente
Vives o instante presente
Eu sou lunática
E nervosamente pragmática

Juntos, percorremos o mundo
Ah, grande momento de felicidade!
E o que parece uma eternidade
Não passa de um breve segundo.

Filipa Moreira da Cruz

Paris, mon amour

Reprise

Cidade luz, capital do amor e do sublime
Nem sei por onde começar porque não quero que termine
Foste casa, brindaste-me com amigos
Ah e viste nascer os meus filhos!
Sempre que penso em ti fico desamparada
Este namoro dura há anos e eu sem ti sou quase nada.

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz

Lado lunar

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Tu és sol, alegria, vida
A minha luz, o meu guia
Conheço o teu riso
Adoro as tuas gargalhadas
O teu humor, as tuas charadas
Está na hora de partilhares os teus medos
Quero perder-me nos teus segredos
Mais íntimos e profundos
Sejamos apenas um
Não tenhas receio
O amor também é feito
De dúvidas e incertezas
São elas que nos dão forças
Para continuar o caminho
Comigo nunca estarás sozinho
Apaixonei-me pelo teu lado solar
Mas prefiro enamorar-me do teu lado lunar.

Filipa Moreira da Cruz



Hino ao amor

Photo : KaDDD

Quem ama acontece
Quem não ama esmorece

Quem ama reside
Quem não ama agride

Quem ama alcança
Quem não ama balança

Quem ama inventa
Quem não ama rebenta

Quem ama dança
Quem não ama desanda

Quem ama aceita
Quem não ama suspeita

Quem ama recolhe
Quem não ama nada colhe

Quem ama é um todo
Quem não ama é apenas eu

Quem ama tem a lua
Quem não ama pede o céu

Quem ama ri
Quem não ama apenas sorri

Quem ama liberta
Quem não ama aperta

Quem ama constrói
Quem não ama destrói

Quem ama arrisca
Quem não ama nunca petisca

Quem ama oferece
Quem não ama tudo quer

Quem ama vive
Quem não ama já está a morrer.

Filipa Moreira da Cruz

Inverno que parece Outono

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Caminhamos descalços e de mãos entrelaçadas
Num ritmo lento e desenfadado
Marcamos passo nesse chão suave
Sob um manto de folhas secas

Sem pressa, desacelaramos o tempo
E pedimos ao coração que abrande
Mais um sorriso, um beijo, um abraço
Uma carícia, um aconchego, um olhar

E o silêncio
Profundo e inquietante
Atormenta os que não sabem escutar
O mar, as núvens, a terra e as folhas secas.

Filipa Moreira da Cruz