Para si mãe

Photo : Margarida Moreira da Cruz

Querida mãe,
Enviou-me esta fotografia da terra que a acolheu
E eu recebo-a com o carinho que sempre me deu
Estes versos são insignificantes
Mas sabe que o amor, esse, é eterno e constante
Regado diariamente com alegria e resiliência
Alheio a futilidades e prepotência
O castelo vigia, do alto da colina
A cidade que é sua e quase minha
E a adorada calçada portuguesa
Tão nossa e cheia de beleza
Traz-me de volta a casa
Sou afortunada!
A água do Nabão corre sem pudor
Dizendo-nos « seja o que for »
As saudades, companheiras eternas
São dolorosas e, ao mesmo tempo, fraternas
Dão-me força e esperança
Vivamos o agora sem medo da mudança.

Filipa Moreira da Cruz

Margarida

M ãe carinhosa e presente
A vó amada
R iso solto e contagiante
G ratidão, sou abençoada!
A legria de viver a deste ser humano especial
R etribui em triplo o que recebe
I rreverente e original
D á o que tem e ainda agradece
A mor incondicional.

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz


A importância da língua materna

Photo : KaDDD

Todos os anos, a 21 de Fevereiro, celebra-se o Dia Internacional da Língua Materna. Esta data foi aprovada pela Assembleia Nacional das Nações Unidas em 2002, embora tenha sido anunciada, pela primeira vez, em 1999, em homenagem ao Paquistão. Este país foi criado em 1947 e, na altura, o governo decidiu que o urdu seria a língua oficial, sem ter em conta a extensa população que falava bengali. As manifestações foram sangrentas e juntam-se à lista de tantas outras que mancharam de sangue a história do Paquistão. Centenas de pessoas sacrificaram as suas vidas em nome da sua língua materna.

Cabe à Unesco promover e difundir o respeito por todas as línguas. Este organismo defende que a diversidade linguística e cultural não pode ser dissociada da história da nação. A língua materna faz parte da identidade de cada povo e proteger a identidade também é uma questão crucial no âmbito dos direitos humanos. De acordo com relatórios recentes, 40% da população mundial não tem acesso à educação no idioma que fala ou entende melhor.

A língua é muito mais do que um aglomerado de letras que dão origem a palavras que fazem sentido. As frases tomam forma, os relatos ganham vida, mesmo até para aqueles que não sabem ler nem escrever. A língua é viva, acompanha os tempos, ganha asas. E a materna é rica em afetos, tradições, lendas e fábulas. Passa de geração em geração graças à família, aos amigos, aos vizinhos. Tem sido assim desde a pré-história, muito antes do nascimento da escrita.

Sou fluente em cinco idiomas (e consigo expressar-me, minimamente, num sexto) por necessidade e, sobretudo, por prazer. Comunicar faz parte do meu ADN e cada vez que mudo de país adapto-me à sua língua materna. Faz parte da integração expressar-se, o melhor possível, na língua do país onde decidimos viver. Confesso que tenho facilidade em passar de um idioma para outro, mas nunca me esqueço que o português é a minha língua materna e penso que nenhuma outra soa tão bem como a nossa.

Os meus filhos nasceram em Paris e têm nacionalidade francesa, no entanto, as primeiras palavras que disseram foram portuguesas. Optei por falar com eles sempre em português. São bilingues desde que nasceram e, em Espanha, comunicavam em três línguas sem qualquer problema. Na escola aprendem inglês e, no próximo ano letivo, o meu filho vai estudar espanhol. Tem pena que não haja a opção de português.

Fazer um esforço para comunicar numa língua que não é a nossa num país estrangeiro não significa aniquilar a língua materna. Infelizmente, é isso que ainda fazem algumas nações chauvinistas. Muitos portugueses, italianos e espanhóis que emigraram para França deixaram de falar no seu idioma com medo de serem ostracizados. Ainda há pouco tempo um colega de escola da minha filha disse-me, num tom autoritário, que em França fala-se francês. A criança tem 9 anos e não sabe que, durante muito tempo, na região onde vivemos, a Bretanha, muitos comunicavam apenas no dialeto local, recusando-se mesmo a aprender a língua de Molière.

Até agora, foi em Espanha, onde senti um maior respeito pela diversidade linguística. O país adotou o castelhano como idioma oficial, mas várias regiões viram as suas línguas adquirirem o estatuto de co-oficiais, entre as quais, o catalão, o valenciano, o galego e o euskera. Vivi um ano no País Basco e aprendi o idioma local à custa de muito esforço e perseverança. O euskera é uma das línguas mais antigas do mundo e não se assemelha a nenhuma outra. Tem um caráter próprio e os bascos fazem questão de mantê-la viva. Tiro-lhes o chapéu por saberem fazê-lo com arte, maestria e humor.

Respeito todas as línguas e talvez me lance na aprendizagem de uma sétima, por gosto. No entanto, assumo, sem pudor, que em nenhuma outra encontro palavras tão bonitas como mãe e saudade.

Filipa Moreira da Cruz

Bruma matinal

Photo : Paul Laurent Bressin

Realidade destorcida
Feridas abertas
Esperança agradecida
Promessas incertas
Silêncios desfeitos
Alma ausente
Sonhos insatisfeitos
Coração doente
Nevoeiro mentiroso
Olhar esquivo
Beijo guloso
Gesto impulsivo
Bruma caprichosa
Futuro incerto
Mão carinhosa
Fim do desacerto.

Filipa Moreira da Cruz

Estrela do mar

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Não canta nem assobia
Desliza como a chuva miudinha
E toca-me suavemente
Será uma estrela que caiu do céu?
Perdeu-se das suas irmãs
Chama-me desesperada
Puxa-me pelo cabelo
Procura abrigo e reconforto
Subo ao monte mais alto
Equilibro-me nas pontas dos pés
Segura-a de mansinho
E devolvo-a ao infinito
Ela brilha no firmamento
Para sempre?
Peço um desejo que se cumpre
A estrela desceu à Terra
Emprestada pela lua
Atravessou a via láctea
Pela última vez
Na noite escura é apenas mais uma
Mas para mim, é única.

Pés no chão, cabeça nas nuvens

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Admiro essa tua capacidade
Para enfrentar a verdade
A qualquer preço
Com zelo e sem adereço

Quando perco o chão
Dás-me um abanão
Colocas-me de pé
Devolves-me a fé

O meu corpo habita o teu planeta
Mas os meus sonhos vivem noutro cometa
A minha razão une-se à tua
O espírito é teimoso e vive na lua

Tu és paciente
Vives o instante presente
Eu sou lunática
E nervosamente pragmática

Juntos, percorremos o mundo
Ah, grande momento de felicidade!
E o que parece uma eternidade
Não passa de um breve segundo.

Filipa Moreira da Cruz

Ai, o amor!

Photo : KaDDD

Duvida da luz dos astros,
De que o sol tenha calor,
Duvida até da verdade,
Mas confia no meu amor.

William Shakespeare

Não me odeies, não me censures
Tudo o que faço é por amor
Ofereço-te o que tenho
E o que não possedo invento
Para ver-te sempre feliz

A tua alma implora mais
Deseja algo fora do meu alcance
Eu apenas peço um sorriso
Como prova de gratidão

Lanço os meus braços nus
Em busca de reconforto
Cubro os olhos com as mãos
Enfeitiçadas pelos teus lábios

Sonho com esse beijo prometido
Escondo a teimosa melancolia
Saboreio as alegrias dos outros
Vivo na esperança de te rever

Não descansarei sem a certeza
De que um dia seremos dois
Abraço esse devaneio
Com a alma em pedaços

Mais não peço
E mais não posso dar
Morro de amor por ti
E por ti sobrevivo…assim.

Filipa Moreira da Cruz

Ao som do vento

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Ninguém se deve envergonhar de ser feliz.

Luís Sepulveda

É um amigo que me chama
Que me assobia de vez em quando
Invisível e impenetrável
Acompanha-me por onde ando
Traz um cheiro a natureza
É a brisa que me envolve
Nos dias de menos leveza

São os pássaros seus apaixonados
As flores suas fieis donzelas
Ouve-se a melodia nos quatro costados
Sem deixar marcas nem sequelas
E eu o resisto ao engano
Que alimenta este vício
De o sentir em primeiro plano.

Filipa Moreira da Cruz

Amizade improvável

Photo : KaDDD

O leão diz à formiga
És tão pequenina!
A formiga responde
Não imaginas a minha sorte!
Posso fazer mais do que tu que és tão forte
Quando chove, abrigo-me debaixo de uma folha
Sempre que há festa, voo em cima de uma rolha
Nos dias de sol abrasador
Uma simples pedrinha protege-me do calor
E quando estou chateada com o mundo
Basta-me respirar fundo
E tu gigante leão
Diz-me o que fazes então?
Onde é que te escondes
Quando não queres que ninguém te encontre?
O que fazes para ter paz e sossego?
Será que esse corpo enorme te dá aconchego?
Queres ser meu amigo?
Eu…a passear contigo?!
Se quiseres posso fazer-te cócegas
Quando tiveres comichão nas costas
E vais adorar fingir que falas sozinho
Os outros vão pensar que estás louco
Não lhes dês troco
Juntos seguiremos o nosso caminho
Por que não!?
Já estou cansado da solidão
Vai fazer-me bem um pouco de distração
E quem sabe…
Talvez seja o início de uma bonita amizade.

Filipa Moreira da Cruz

Lado lunar

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Tu és sol, alegria, vida
A minha luz, o meu guia
Conheço o teu riso
Adoro as tuas gargalhadas
O teu humor, as tuas charadas
Está na hora de partilhares os teus medos
Quero perder-me nos teus segredos
Mais íntimos e profundos
Sejamos apenas um
Não tenhas receio
O amor também é feito
De dúvidas e incertezas
São elas que nos dão forças
Para continuar o caminho
Comigo nunca estarás sozinho
Apaixonei-me pelo teu lado solar
Mas prefiro enamorar-me do teu lado lunar.

Filipa Moreira da Cruz