Portugal – España – France

Reprise

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Nasci em Portugal. Vivi vários anos em Espanha e regressei em 2018 a França. Não me peçam para escolher um dos três países. É impossível! Adoro os três e sinto-me em casa em qualquer um deles.

Saúde

Já ouvi muitas vezes dizer que em Portugal há excelentes médicos. É verdade! No entanto, escasseiam recursos humanos, financeiros e técnicos. Não há camas suficientes e os hospitais estão degradados. Somos o único dos 3 países onde existe a taxa moderadora e aquele onde mais escasseiam médicos de família.
Espanha também dispões de vários centros de sáude e o acesso é rápido e gratuito. As ilhas Canárias têm hospitais modernos com aprelhos de última geração. Infelizmente, alguns exames não se podem realizar por falta de médicos especialistas.
França tem um sistema mais justo e liberal. Não há centros de saúde, podemos escolher o médico que quisermos e somos reembolsados a 100% (entre a segurança social e o seguro de saúde). Quando vivi em Paris tinha direito a dois pares de óculos por ano. Acumulei os modelos mais caros de Dior, Chanel e Prada.

Educação

Em França a educação é obrigatória a partir dos 3 anos e a maioria das escolas são públicas e totalmente grátis (o material é todo fornecido pelas mesmas). O dia começa às 08h30 e termina às 16h30. Em muitas cidades espanholas a escola funciona só de manhã e durante as férias as únicas atividades são privadas e dispendiosas. Ainda assim, é este país que tem o sistema de ensino que mais aprecio: o Amara Berri.
Contrariamente a Portugal, os outros dois países optam por um número reduzido de manuais, por isso, o lobby das editoras escolares é quase inexistente.

Cultura

Deve ser de todos e para todos! Em Portugal, o acesso à cultura é ainda elitista e centralizado. Continuamos a ser o país dos festivais, do futebol e das telenovelas. Mas também somos um dos únicos que se recusa a dobrar séries e filmes. Chapeau! Sou contra tudo o que não seja em VO.
No que diz respeito à cultura geral os portugueses são de longe os que têm um maior conhecimento da atualidade internacional. Poliglotas por natureza, quase todos falam, pelo menos, uma língua estrangeira. Os espanhóis (com exceção dos bascos e dos catalães) não sentem necessidade de ir além-fronteiras e os franceses são bastante seletivos nos temas de discussão.

Religião

Eis um tema delicado! França é um país laico assumido onde todos acham que sabem tudo das três principais religiões do mundo. A festa de L’ Aïd e o Shabbat são práticas comuns e há mais lojas kasher e hallal que católicos a ir à missa. Nunca discutam com um francês sobre burkka, niqab e afins porque eles têm sempre razão.
Penso que os portugueses são os mais inclusivos e tolerantes. Os espanhóis respeitam as outras religiões, mas assumem-se como bons católicos ou não fosse o seu país o berço da opus dei. No país vizinho, quase todas as crianças fazem a primeira comunhão e as crianças aprendem o catecismo nas escolas.

À table!

Mais do que comer aprecio estar à mesa rodeada dos amigos e da família e nos três países estou bem servida. Os franceses consideram a sua gastronomia a melhor do mundo, facto que é discutível. Uma coisa é certa: enquanto na península Ibérica as padarias desapareceram em França são uma instituição. Não sabem o prazer que dá comer pão quente, um croissant ou um pain au chocolat logo de manhã. Em contrapartida, coitados dos que nunca provaram um verdadeiro frango no churrasco ou umas sardinhas assadas com uma salada de pimentos! Estas iguarias que só os portugueses sabem preparar!
Os espanhóis são os reis das tapas que no país Basco são mais conhecidas como pintxos. Há para todos os gostos e a qualquer momento do dia. Sou fã! No país vizinho almoços às quatro da tarde e jantares às onze da noite são prato de cada dia.

Money, money, money…

Os portugueses queixam-se que pagam muitos impostos, mas estão muito enganados! Também aqui os franceses são os campeões do mundo e há taxas para tudo. Em Portugal, os salários são escandalosamente baixos, isso sim! Este país tem os preços mais altos na eletricidade, no gás e na gasolina. E o que dizer das portagens?!
Nasci em Lisboa, a cidade com o maior índice de especulação imobiliária do momento. A mesma que despeja sem dó nem piedade os inquilinos esquecendo-se que, um dia, a bolha explode.
Vivi um ano na terceira cidade mais cara de Espanha e quase oito anos numa das mais caras do planeta. Não exagero quando afirmo que, em Paris, uma família de quatro pessoas necessita, pelo menos, 6.000 euros para viver confortavelmente.

Dia-a-dia

França é o paraíso dos amantes do comércio local e eu faço parte deste, cada vez mais, restrito grupo. Em cada esquina há livrarias, mercados, frutarias, padarias, floristas, peixarias, talhos… Os centros comerciais são bicho raro. Bravo!
Não bebo café, mas em Espanha há para todos os gostos: cortado, largo, con leche, nube… Em contrapartida, o chá é de péssima qualidade! Em Portugal também sofro porque se não for a um salão de chá gourmet só me servem saquinhos Lipton. França cuida muito bem dos amantes desta bebida e em qualquer bistrot sabem preparar as folhas na água quase fervida.

Vida social e familiar

Os espanhóis são especialistas em divertir-se com pouco e acreditem que no país vizinho a vida é uma festa! Os franceses são râleurs por natureza e queixam-se constantemente. Não nos esqueçamos que são os reis das greves, mas também conseguiram a revolução de 1789 e o maio de 68. Em Portugal somos bipolares. Por um lado, adoramos deitar abaixo o nosso país, enaltecendo quase tudo o que vem de fora. Por outro lado, não nos imaginamos longe da nossa terrinha e raramente tentamos mudar a situação em que estamos.
É comum um jovem francês sair de casa aos 17 ou 18 anos e é ainda mais comum que só telefone à família uma vez por mês. Na península Ibérica ainda é aceitável viver em casa dos pais até quase aos 30 anos, e não apenas por razões económicas.
Os franceses são excessivamente formais e ficam quase ofendidos se o bonjour não é seguido de monsieur ou madame. Todos são tratados pelo nome de família e na escola os alunos estão sentados por ordem alfabética de acordo com o apelido. Paradoxalmente, nas relações entre amigos e familiares são mais descontraídos. Os espanhóis são descomplicados e raramente usam o Usted (equivalente ao « você »em português). Ainda me lembro quando o subdiretor de um grande hotel de 5 estrelas me disse « tratame por tú que estamos en España ». Em Portugal mantemos uma mentalidade provinciana e elitista. Somos o país dos doutores e engenheiros, das Suas Excelências e das tias.

Clima

Portugal é abençoado com o maior número de horas de sol e longos verões. Melhor que nós, só mesmos as ilhas Canárias! Ainda assim, passo mais frio em Portugal que em qualquer outra cidade porque as paredes das casas parecem de papelão e os locais públicos não estão aquecidos.

Não há países perfeitos e a minha casa é mesmo onde o meu coracao está mais tranquilo. Sou nómada por escolha e vocação e compreendo Picasso que sentiu necessidade de sair de Málaga para encontrar-se, Hemingway que viveu em Paris, mas foi realmente feliz em Espanha ou Saramago que se apaixonou por Pilar, amou Lanzarote, mas nunca deixou de ser português!

Filipa Moreira da Cruz

Tristeza profunda

Photo : KaDDD

“Os políticos e as fraldas devem ser trocados frequentemente e pela mesma razão.”

Eça de Queiroz

“Por detrás de uma grande fortuna há um crime.”

Honoré de Balzac

« O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons. »

Martin Luther King

Soube, há uns dias, que o maior vigarista de Portugal foi absolvido de quase vinte crimes de corrupção. Roubou à descarada, sem vergonha nem pudor. Abusou da boa fé do povo. Como sempre! O juíz escolhido é seu amigo íntimo.
Nunca pensei que esta situação me afetasse tanto. Deixei Portugal há mais de vinte anos e as notícias são sempre as mesmas: corrupção, jobs for the boys, Troika, fugas ao fisco, Novo Banco, compadrios, palmadinhas nas costas… Pelo meio, lá ganhámos um campeonato de futebol e o festival da Eurovisão, mas o sol foi de pouca dura!
Ao fim de pouco tempo, regressamos à estaca zero. Está-nos no ADN, corre-nos no sangue. Talvez por isso digam que não sou muito Portuguesa. Pela primeira vez, aceito-de de bom grado e assumo-o como um elogio.
Portugal precisa de mudar quase tudo! Chamem-me exagerada, mas apenas uma revolução social pode colocar as coisas no seu devido lugar. E espero que não seja tarde demais. Somos um povo demasiado ordeiro e contemplativo, uns frouxos. Fazemos festivais para homenagear as vítimas de Pedrogão, mais para ficar bem no quadro que por solidariedade. Somos uma fraude como povo! Queremos ficar sempre bem na fotografia e não nos incomoda apartar a mão a Deus e ao Diabo.
Espero que não se zanguem, mas basta de sol, futebol, fado e Fátima.
Os que fizeram o 25 de Abril não merecem uma cambada de passivos.
Amanhã será um melhor dia. Esperemos!

Filipa Moreira da Cruz

Já cheira a Verão!

Painting : Mathilde (7 ans) & Photo : Filipa Moreira da Cru

Boas notícias para todos os que sonham com as tão desejadas férias grandes! Reabertura das fronteiras terrestres e aéreas, praias com socorrista, semáforos, zonas delimitadas e bandeira azul. Esplanadas prontas para receber turistas ávidos de cerveja, tremoços, caracóis, sardinhas e bolas de Berlim. Filas intermináveis nas estradas que serpenteiam o país e gasolina a preços proibitivos. Áreas de serviço limpas e bonitas com sombras que valem ouro na hora do descanso. Sol, mar e areia a perder de vista. Aldeias pitorescas, vilas com encanto e cidades únicas. Povo poliglota, simpático e hospitaleiro. Tudo isto e muito mais no país Lusitano!

O turismo contribui generosamente para o PIB nacional e é uma fonte direta e indireta de emprego. Portugal está à altura da sua reputação e tem vindo a demonstrar ser capaz de fazer-nos esquecer alguns erros graves do passado. Os abomináveis edifícios em betão que se amontoam ao largo da costa estão a ser, progressivamente, substituídos por ofertas sustentáveis e ecológicas que respeitam a paisagem. Finalmente!

O turismo desorganizado e massificado está em vias de extinção e as autarquias empenham-se em dar resposta às novas exigências do turista informado e preocupado com o meio ambiente. Ainda assim, há muito por fazer. A proliferação dos alojamentos locais, essa praga tão nefasta como os percevejos, é um bom exemplo do politicamente aceite, mas extremamente incorreto. Que o digam os habitantes dos centros de Lisboa, Porto, Barcelona, Paris ou Veneza.

O nosso país tem muitos trunfos, mas não está sozinho nesta maratona. O turismo mundial esteve adormecido durante vários meses e vai querer recuperar o tempo perdido. Dos adversários diretos destacam-se a Espanha, a Itália, a França e a Grécia. Os países do sul da Europa são, muitas vezes, apontados do dedo pelos bem comportados habitantes do centro e do norte do velho continente.

Chamam-nos preguiçosos, lentos, vigaristas, corruptos. Não faltam adjetivos para manifestar a aversão à mentalidade dos que vivem onde está sempre calor. Mas férias dignas desse nome só mesmo em Andaluzia, Baleares, Algarve, Sardenha, Creta, Madeira, Canarias, Santorini, Côte d’Azur, Corfu… E quem o diz são os mesmos que não nos poupam críticas. A escolha é vasta e a rivalidade ainda maior.

O país vizinho é, sem dúvida, o peso pesado da lista. De acordo com as estatísticas da OMT (Organização Mundial de Turismo) França continua a ser a nação mais visitada do mundo. No entanto, a Espanha, que ocupa o segundo lugar, é campeã na relação qualidade-preço e na diversidade da oferta. Passar férias em terras de nuestros hermanos é do agrado de quase todos, eu incluída! Alemães, Britânicos, Nórdicos, Franceses e norte Americanos vivem ao ritmo ibérico. Não faltam os almoços às três da tarde nem as sagradas sestas.

Para fazer face à crise que nos acompanhará durante algum tempo os dirigentes concentram-se na retoma económica e o turismo é uma arma poderosa. E que melhor política que incentivar a população a passar férias no próprio país?

Não encaixo nos padrões da emigrante típica. Mudo frequentemente de cidade (até mesmo de país) e raramente vou a Portugal nos meses mais quentes. Os meus filhos viajam sozinhos há vários anos e não dispensam o Verão português. Vamos inverter a onda do “vá para fora cá dentro”. É que se todos os europeus a seguirem, Portugal pode ficar sem pé. Somos bons, mas poucos. Em julho não passaremos férias no país onde vivemos, mas sim naquele que me viu nascer.

Filipa Moreira da Cruz
Julho 2020

Made in Europe

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Vivemos um período doloroso que pode, e deve, ser encarado como uma oportunidade de rever quase tudo. Deitar fora o que já não serve, reciclar o que ainda pode ser utilizado e criar novas oportunidades que correspondam às reais necessidades. De um dia para o outro, tudo mudou e a mudança continua a ser constante e imediata. Cabe ao velho e sábio continente ser capaz de utilizar as ferramentas que tem para travar os monstros que o querem devorar. Uma Europa desunida e fragmentada será uma presa fácil para o gigante chinês e o avassalador norte-americano, governado por um lunático merecedor de uma estadia permanente num asilo psiquiátrico.

A Europa tem vindo a ser vítima e, ao mesmo tempo, causadora de dramáticos incidentes e, se não for capaz de se reinventar, corre o risco de se afundar para sempre. Ainda a recuperar do Brexit, é agora obrigada a lidar com a crise económica e social que já começou. A mais grave desde a Segunda Guerra Mundial. Foi precisamente no pós-guerra que surgiu o primeiro projeto europeu. A CECA nasceu em Paris, em 1951, e teve como principais mentores Robert Schuman e Jean Monnet. O declínio das indústrias do carvão e do aço deu origem à CEE, através do tratado de Roma em 1957.

Em 1992, o tratado de Maastricht decidiu que a Comunidade Europeia deixaria de ser meramente económica e pautou a sua ação através de três pilares fundamentais: Comunidades Europeias, Política Externa e de Segurança Comum e Cooperação Policial e Judiciária em Matéria Penal. A União Europeia emancipou-se e cresceu graças ao tratado de Lisboa, assinado em 2007. Os três pilares do tratado anterior foram substituídos por competências. Passamos a ser uma grande família porque a união faz a força. Tem sido mais ou menos assim até aos dias de hoje.

Mas não é fácil manter o equilíbrio entre 27 países tão diferentes (cultura, língua, religião, tradições, políticas internas). Após a (in)esperada saída do Reino Unido, a aliança franco-alemã faz das tripas coração para que o barco não navegue sem capitão nem rumo. É importante respeitar o que nos distingue e reforçar o que nos une. Qualquer tentativa de nacionalismo exacerbado seria prejudicial. Que o diga a Alemanha que ainda hoje é perseguida por duas guerras que ensombraram o mundo. Certas tragédias jamais poderão ser apagadas da memória coletiva.

O que é nacional é bom? Nem sempre… Marcas de prestígio francesas fabricam roupa e sapatos em Portugal. Em contrapartida, marcas portuguesas com nomes estrangeiros, estrategicamente escolhidos, produzem em países asiáticos. Quando necessitamos contactar o apoio ao cliente de uma companhia de telefone somos imediatamente transferidos por satélite até à Índia ou ao norte de África. A fruta europeia apodrece porque não é vendida, mas os hipermercados são invadidos por produtos hortícolas provenientes de países longínquos. Para o bem da globalização.

Obviamente isto não acontece por falta de meios. A Europa dispõe de tudo, menos de vontade. Para quê inverter a ordem natural das coisas? É tão simples depender do made in China, desmantelar grandes empresas e vendê-las à Ásia e ao Médio Oriente, deslocalizar os serviços, enviar resíduos tóxicos em barcos até ao outro lado do mundo. Investir na mão-de-obra qualificada existente, limitar as importações desnecessárias, criar parcerias entre as várias empresas europeias, promover a educação e a investigação para que os cientistas não fujam… Tudo isto dá muito trabalho! E a solidariedade europeia às vezes não passa de uma miragem. Afinal a inércia parece não ser uma característica exclusiva dos habitantes do sul da Europa.

Filipa Moreira da Cruz
2020

¡Al mal tiempo, buena cara!

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Só quem te conhece mal é que se atreve a concluir, erradamente, que és a nossa irmã gémea. Tu és ímpar, singular, cosmopolita, multicultural. Berço de mil e uma noites, de reis e de rainhas, de uma guerra civil sangrenta e de uma ditadura franquista. Terra de montanhas, serras e mesetas banhada pelos mares mediterrâneo e cantábrico e pelo oceano atlântico. Coberta pela neve dos pirinéus, da sierra nevada e do monte Teide. As águas translucidas de Formentera e as praias de areia dourada da costa de Cadiz fazem de ti única e especial. E que dizer das sete ilhas encantadas que arrebataram o meu coração? Foste a minha casa durante sete anos, repartidos por três lugares: Tenerife, San Sebastian e Fuerteventura e só por isso ser-te-ei eternamente grata.

Muitos consideram-te vaidosa, arrogante, egocêntrica porque os teus sentem orgulho em ti e em tudo o que ofereces. E como se fosse pouco ainda criaram a “marca Espanha” representada, entre outros, por Rafael Nadal, Antonio Banderas, Ana Botín, Pau Gasol, Fernando Alonso. E eu peço-te apenas que partilhes um bocadinho dessa magia com os do meu país que tanto teimam em deitar abaixo tudo o que é nacional.

Falo, leio, escrevo, canto e sonho em Castelhano regularmente. Faço-o por gosto e, acima de tudo, por necessidade. Lo llevo en la sangre. Ou não tivesse eu antepassados nascidos em Santiago de Compostela e Valladolid. Conheço Espanha quase tão bem como Portugal e são poucas as regiões que ainda não visitei. Este amor incondicional por nuestros hermanos já vem de família. Durante anos o aniversário da minha mãe era sempre passado no país vizinho. Mais tarde, empenhei-me em não romper a tradição. Foram muitos os dezembros celebrados em Bilbao, Sevilha, Mérida, Ávila, Girona, Toledo, Corunha…

O curso de Espanhol para estrangeiros na universidade de Málaga e as conferências em Salamanca e Gijón, cidade onde viveu o saudoso Luis Sepulveda, permitiram-me um conhecimento mais sólido deste país tão próximo e, ao mesmo tempo, tão longe do nosso. Mas o êxtase do enamoramento chegou com o novio espanhol. Juntos percorremos a Andaluzia de mota, viajamos por toda a Galiza, dormimos nos Paradores mais emblemáticos, visitamos Madrid vezes sem conta… Recordo com carinho a paella dos domingos de sol onde eu era mais um membro naquela família numerosa e alegre.

O meu amor pelo país continua de boa saúde. Já a Espanha está doente e chora as quase 27.000 vítimas da covid-19. Fechou-se em casa tarde e a más horas, segundo alguns. O que falhou? Onde é que erraram? Teorias não faltam, mas as certezas escasseiam. E agora de nada vale culpar Pedro Sanchez e o seu governo. A instabilidade política tem sido uma constante nos últimos anos e a maioria da população já não acredita em nenhum político.

As medidas aplicadas foram das mais severas do velho continente. Até há pouco tempo, só se podia sair de casa por uma razão válida: trabalho, passear o cão, ida ao supermercado, visita a um familiar que necessite ajuda. Passados quase dois meses, as pessoas estão, finalmente, autorizadas a sair dentre as 06h00 e as 10h00 ou as 20h00 e as 23h00. De acordo com os amigos espalhados um pouco por todo o país os verdadeiros heróis, excluindo todos os que estão na linha da frente no combate à pandemia, são los niños.

As crianças não só demonstraram estar à altura do que lhes foi exigido como se atreveram a superar a prova com êxito, graças à sua incrível resiliência. E eu sei como deve ter sido quase impossível mantê-las em casa! Os espanhóis vivem fora de casa. Faça sol, vento, chuva ou neve, tenham 9 meses ou 90 anos, eles ocupam as esplanadas da plaza mayor, passeiam pelas avenidas, organizam jogos e tertúlias nas ruas pedonais.

O isolamento não é sentido da mesma forma nas diferentes regiões e a apreensão no regresso à tão desejada normalidade também é distinta. Até porque o desconfinamento pode virar descalabro se não for realizado com prudência. Uma amiga de Cáceres disse-me “estou tão habituada a estar em casa que agora o que me dá medo é regressar ao trabalho”.

As zonas mais afetadas pelo vírus (Madrid, país Basco, Catalunha) são também as mais ricas do país e, provavelmente, terão menos problemas em dar a volta por cima. Em contrapartida, há outras regiões que correm o risco de ficar viradas do avesso. Os amigos que vivem na Extremadura e nas ilhas Canárias e Baleares dizem que a crise mais grave não é sanitária, mas sim económica e social. O governo está tão preocupado com a situação na península que se esquece das reais dificuldades insulares. Mas já quase ninguém estranha. Como diz um amigo, “os políticos entram e saem, mas só os reis ficam”.

Está previsto que os grandes hotéis abram as portas somente em novembro, altura em que os voos internacionais também serão autorizados. Até lá, como (sobre)vivem famílias inteiras que dependem do turismo? Por enquanto, graças ao ERTE (regime equivalente ao layoff em Portugal). Mas até quando? Ninguém sabe. Os espanhóis são especialistas em fazer das tripas coração para seguir adelante sem lamentos nem choros porque vivem ao ritmo do flamenco e do reggaeton e não do fado. A vida continua. ¡Al mal tiempo, buena cara!

Filipa Moreira da Cruz
Maio 2020

O vírus com várias cores

Photo : Filipa Moreira da Cruz

No país onde vivo há três assuntos tabu: a política, a religião e o dinheiro. Paradoxalmente, os nativos têm opiniões bem formadas acerca dos três e expõem-nas com facilidade nas redes sociais ou em conversas de café, mas raramente em reuniões familiares. Os franceses adoram comentar a atualidade política e criticam todos os partidos: da extrema esquerda de Mélenchon à extrema direita de Le Pen. Pouco tempo depois de ser eleito, o presidente da República é sistematicamente posto à prova, até mesmo pelos que votaram nele. Faz parte do jogo. Perverso e invasivo.

Contrariando outro dos tabus, são muitos os franceses que se julgam doutorados em Cristianismo, Islamismo e Judaísmo. Curioso, num país que se assume como laico. Ou talvez não. A França deve ser o Estado-membro da União Europeia com mais mesquitas e sinagogas. A liberdade religiosa é tão importante que existe mesmo um artigo na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789. Quanto ao dinheiro… ninguém fala! Não se diz quanto se ganha nem quanto se gasta. Até há pouco tempo, era inapropriado perguntar-se o ordenado na primeira entrevista de trabalho.

A situação que vivemos é única. A realidade superou a ficção. E tudo muda, da noite para o dia. Literalmente. O “normal” passou a ser aberrante e o impensável passou a ser “normal”. E isto também se aplica à triologia dos temas a evitar numa conversa.

Portugal tem sido apontado como um exemplo na gestão da pandemia. Isto deve-se, em parte, à união de todos os partidos políticos para combater a Covid-19, algo que contrasta com o cenário em França e, até mesmo, na vizinha Espanha. São vários os amigos estrangeiros que me dizem que os Portugueses são solidários, unidos e civilizados. Segundo eles, o Governo agiu atempadamente, evitando a catástrofe. Os políticos lusos puseram de lado as divergências para derrotarem juntos o vírus. Talvez não seja exatamente assim, mas quem sou eu para contrariar esta versão romantizada do “milagre” Português!

O Ramadão já começou (jejum praticado pelos muçulmanos que dura entre 29 a 30 dias) e será difícil controlar o isolamento social, sobretudo a partir do pôr do sol. Partilhar a refeição com a família e os amigos é o momento mais esperado do dia. Habitualmente, a última oração é realizada em grupo. Impedir que tal aconteça vai ser um desafio quotidiano. A polémica está lançada e não há consenso. Há autarquias que já avisaram que o controlo será ainda mais apertado, enquanto outras mostram-se mais tolerantes.

A economia está adormecida, mas as despesas dispararam. O rendimento familiar de muitos lares franceses tem-se mostrado elástico perante o aumento do consumo de água, gás e eletricidade. Mas até quando? As idas ao supermercado são frequentes e os preços dos alimentos aumentaram. Fruta, legumes, carne e peixe estão mais caros. As típicas promoções do género “pague 1 e leve 2” escasseiam. Basta comparar a fatura do mesmo sítio antes e depois do confinamento. De nada serve ao Governo insistir que não houve qualquer aumento. A carteira fala mais alto. São cada vez mais as pessoas que não têm condições nem para comer. Reformados, famílias monoparentais, jovens universitários, desempregados fazem fila à porta das instituições francesas que distribuem comida. De repente, falar de dinheiro deixou de ser tabu para passar a ser primordial. Fazem-se contas à vida.

Vida essa que está em suspenso para uns e enterrada para outros. Mas o tempo não para, caprichoso e provocador. As férias da Páscoa terminaram e o 3º período começou em casa, pela primeira vez! Na pequena escola em frente à praia que os meus filhos frequentam as professoras prepararam uma pasta para cada aluno com um dossier, várias fichas, um livro (a Mathilde está desejosa de ler “O rei que não queria reinar”!) e dois cadernos. Tudo oferecido. Do 1º ao 5º ano quase todo o material é fornecido pelas autarquias. Os encarregados de educação só pagam a cantina e o valor da mesma é calculado todos os anos com base na declaração dos impostos.

Desde o início do ano letivo, os meus filhos têm acesso à plataforma digital mon école que é destinada aos alunos do primeiro e do segundo ciclos. Cada um tem o seu código e pode realizar livremente as atividades propostas de acordo com o ano que frequenta. Basta um clique para terem acesso ao jornal junior, à palavra do dia, à visita virtual de um museu, à viagem por um país no mundo, à descoberta de uma obra de arte. E, obviamente, aos exercícios de francês, problemas e jogos de matemática, pesquisas históricas, experiências científicas e vídeos explicativos. A rotina manteve-se praticamente inalterada. No entanto, as professoras passaram a personalizar, na plataforma, as mensagens destinadas a cada aluno, tendo em conta o trabalho realizado por cada um deles. Ambas têm demonstrado um enorme esforço e dedicação. Para além disso, comunicam com frequência por e-mail onde apresentam as correções das fichas e dão explicações sobre as matérias mais difíceis.

O Stan sempre gostou muito das ciências exatas e a matemática é a sua paixão. A Mathilde sai a mim. Gosta muito de escrever, tem um espírito rebelde e criativo. Ou isso pensava eu! Desde que, no ano passado, começou com o “método de Singapura” passou a preferir a matemática, como o irmão. Não me admira! Com esse método até eu deixei de ter medo dessa disciplina. Ainda assim, a minha filha continua a inventar histórias e a escrever no diário que a tia Inês lhe ofereceu no Natal. A sua professora envia, todas as semanas, o “jornal da quarentena” onde partilha os trabalhos realizados pelos alunos (à distância) e as notícias da turma. A Mathilde participa assiduamente com prazer. Inventou a história do “vírus com várias cores”, fez um mini livro com origami, realizou um vídeo na cozinha a fazer madalenas… Tudo é pretexto para passar o tempo e esquecer a razão pela qual somos forçados a ficar em casa. Ou não tivesse ela dito um dia que “deveríamos morrer todos muito velhinhos, durante o sono, sem sofrer”.

Filipa Moreira da Cruz
Abril 2020

Portugal – España – France

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Nasci em Portugal. Vivi vários anos em Espanha e regressei em 2018 a França. Não me peçam para escolher um dos três países. É impossível! Adoro os três e sinto-me em casa em qualquer um deles.

Saúde

Já ouvi muitas vezes dizer que em Portugal há excelentes médicos. É verdade! No entanto, escasseiam recursos humanos, financeiros e técnicos. Não há camas suficientes e os hospitais estão degradados. Somos o único dos 3 países onde existe a taxa moderadora e aquele onde mais escasseiam médicos de família.
Espanha também dispões de vários centros de sáude e o acesso é rápido e gratuito. As ilhas Canárias têm hospitais modernos com aprelhos de última geração. Infelizmente, alguns exames não se podem realizar por falta de médicos especialistas.
França tem um sistema mais justo e liberal. Não há centros de saúde, podemos escolher o médico que quisermos e somos reembolsados a 100% (entre a segurança social e o seguro de saúde). Quando vivi em Paris tinha direito a dois pares de óculos por ano. Acumulei os modelos mais caros de Dior, Chanel e Prada.

Educação

Em França a educação é obrigatória a partir dos 3 anos e a maioria das escolas são públicas e totalmente grátis (o material é todo fornecido pelas mesmas). O dia começa às 08h30 e termina às 16h30. Em muitas cidades espanholas a escola funciona só de manhã e durante as férias as únicas atividades são privadas e dispendiosas. Ainda assim, é este país que tem o sistema de ensino que mais aprecio: o Amara Berri.
Contrariamente a Portugal, os outros dois países optam por um número reduzido de manuais, por isso, o lobby das editoras escolares é quase inexistente.

Cultura

Deve ser de todos e para todos! Em Portugal, o acesso à cultura é ainda elitista e centralizado. Continuamos a ser o país dos festivais, do futebol e das telenovelas. Mas também somos um dos únicos que se recusa a dobrar séries e filmes. Chapeau! Sou contra tudo o que não seja em VO.
No que diz respeito à cultura geral os portugueses são de longe os que têm um maior conhecimento da atualidade internacional. Poliglotas por natureza, quase todos falam, pelo menos, uma língua estrangeira. Os espanhóis (com exceção dos bascos e dos catalães) não sentem necessidade de ir além-fronteiras e os franceses são bastante seletivos nos temas de discussão.

Religião

Eis um tema delicado! França é um país laico assumido onde todos acham que sabem tudo das três principais religiões do mundo. A festa de L’ Aïd e o Shabbat são práticas comuns e há mais lojas kasher e hallal que católicos a ir à missa. Nunca discutam com um francês sobre burkka, niqab e afins porque eles têm sempre razão.
Penso que os portugueses são os mais inclusivos e tolerantes. Os espanhóis respeitam as outras religiões, mas assumem-se como bons católicos ou não fosse o seu país o berço da opus dei. No país vizinho, quase todas as crianças fazem a primeira comunhão e as crianças aprendem o catecismo nas escolas.

À table!

Mais do que comer aprecio estar à mesa rodeada dos amigos e da família e nos três países estou bem servida. Os franceses consideram a sua gastronomia a melhor do mundo, facto que é discutível. Uma coisa é certa: enquanto na península Ibérica as padarias desapareceram em França são uma instituição. Não sabem o prazer que dá comer pão quente, um croissant ou um pain au chocolat logo de manhã. Em contrapartida, coitados dos que nunca provaram um verdadeiro frango no churrasco ou umas sardinhas assadas com uma salada de pimentos! Estas iguarias que só os portugueses sabem preparar!
Os espanhóis são os reis das tapas que no país Basco são mais conhecidas como pintxos. Há para todos os gostos e a qualquer momento do dia. Sou fã! No país vizinho almoços às quatro da tarde e jantares às onze da noite são prato de cada dia.

Money, money, money…

Os portugueses queixam-se que pagam muitos impostos, mas estão muito enganados! Também aqui os franceses são os campeões do mundo e há taxas para tudo. Em Portugal, os salários são escandalosamente baixos, isso sim! Este país tem os preços mais altos na eletricidade, no gás e na gasolina. E o que dizer das portagens?!
Nasci em Lisboa, a cidade com o maior índice de especulação imobiliária do momento. A mesma que despeja sem dó nem piedade os inquilinos esquecendo-se que, um dia, a bolha explode.
Vivi um ano na terceira cidade mais cara de Espanha e quase oito anos numa das mais caras do planeta. Não exagero quando afirmo que, em Paris, uma família de quatro pessoas necessita, pelo menos, 6.000 euros para viver confortavelmente.

Dia-a-dia

França é o paraíso dos amantes do comércio local e eu faço parte deste, cada vez mais, restrito grupo. Em cada esquina há livrarias, mercados, frutarias, padarias, floristas, peixarias, talhos… Os centros comerciais são bicho raro. Bravo!
Não bebo café, mas em Espanha há para todos os gostos: cortado, largo, con leche, nube… Em contrapartida, o chá é de péssima qualidade! Em Portugal também sofro porque se não for a um salão de chá gourmet só me servem saquinhos Lipton. França cuida muito bem dos amantes desta bebida e em qualquer bistrot sabem preparar as folhas na água quase fervida.

Vida social e familiar

Os espanhóis são especialistas em divertir-se com pouco e acreditem que no país vizinho a vida é uma festa! Os franceses são râleurs por natureza e queixam-se constantemente. Não nos esqueçamos que são os reis das greves, mas também conseguiram a revolução de 1789 e o maio de 68. Em Portugal somos bipolares. Por um lado, adoramos deitar abaixo o nosso país, enaltecendo quase tudo o que vem de fora. Por outro lado, não nos imaginamos longe da nossa terrinha e raramente tentamos mudar a situação em que estamos.
É comum um jovem francês sair de casa aos 17 ou 18 anos e é ainda mais comum que só telefone à família uma vez por mês. Na península Ibérica ainda é aceitável viver em casa dos pais até quase aos 30 anos, e não apenas por razões económicas.
Os franceses são excessivamente formais e ficam quase ofendidos se o bonjour não é seguido de monsieur ou madame. Todos são tratados pelo nome de família e na escola os alunos estão sentados por ordem alfabética de acordo com o apelido. Paradoxalmente, nas relações entre amigos e familiares são mais descontraídos. Os espanhóis são descomplicados e raramente usam o Usted (equivalente ao « você »em português). Ainda me lembro quando o subdiretor de um grande hotel de 5 estrelas me disse « tratame por tú que estamos en España ». Em Portugal mantemos uma mentalidade provinciana e elitista. Somos o país dos doutores e engenheiros, das Suas Excelências e das tias.

Clima

Portugal é abençoado com o maior número de horas de sol e longos verões. Melhor que nós, só mesmos as ilhas Canárias! Ainda assim, passo mais frio em Portugal que em qualquer outra cidade porque as paredes das casas parecem de papelão e os locais públicos não estão aquecidos.

Não há países perfeitos e a minha casa é mesmo onde o meu coracao está mais tranquilo. Sou nómada por escolha e vocação e compreendo Picasso que sentiu necessidade de sair de Málaga para encontrar-se, Hemingway que viveu em Paris, mas foi realmente feliz em Espanha ou Saramago que se apaixonou por Pilar, amou Lanzarote, mas nunca deixou de ser português!

Filipa Moreira da Cruz