« Please, call me Brad! »

Photo : KaDDD

As férias da Páscoa estão a chegar ao fim. E que férias! Todos os dias parecem domingos de Inverno, longos e preguiçosos. Para tornar o cenário mais credível a temperatura baixou e a chuva tem-nos feito companhia. E temos tempo! Para contar histórias, jogar ao Cluedo e ao Monopoly, fazer puzzles, ouvir música, dançar na cozinha, ver filmes, comunicar com os amigos e a família, ler um livro com muitas páginas (ou vários livros fininhos), arrumar a casa (nunca esteve tão limpinha!). E, sobretudo, tempo para não fazer nada!

No entanto, nem tudo foi cor-de-rosa, para grande desgosto da Mathilde que fez desta cor o seu talismã . O Sébastien piorou: voltou a ter febre, cefaleias e dores musculares. O Stan ainda não recuperou e há semanas que não temos uma noite descansada. Acorda com febre, tosse, diarreia, náuseas … Há dias que faço compressas com chá de camomila e lemongrass para atenuar a conjuntivite que se veio juntar à festa bacteriológica. Ele não tem vontade de comer porque ainda não recuperou o paladar nem o olfato. E agora comigo na cozinha, ainda menos.

O cozinheiro cá de casa nomeou-me sua substituta durante a convalescença que se espera rápida, para o bem dos nosso estômagos. Declaro aberta a temporada de sopas, saladas e bolos! Dediquei-me aos doces com afinco. Nostalgia dos tempos em família na casa de Alvalade. Eu e a minha filha preparamos madalenas, tarte de maçã, petit gâteau au chocolat, bolo de canela, financiers

Certo fim de tarde, fomos surpreendidas por um fenómeno estranho. A cozinha estava a ser invadida por um exército de formigas e a Mathilde exclamou: “Sou tão boa pasteleira que nem as formigas resistem”. Como se não bastasse, no dia seguinte, ia no corredor com uma taça de chá na mão e escorreguei, esquecendo-me que o chão ainda estava molhado. A queda foi tão aparatosa que fiquei imóvel, sem saber se rir ou chorar. A Mathilde foi a correr chamar o pai. Tinham os três que ajudar a levantar-me porque o hospital estava “infetado pelo coronavírus”.

Eu e o Sébastien fazemos parte dos milhões de Franceses que não podem trabalhar em casa. Recebemos 70% do salário bruto e desconhecemos quando regressaremos à vida ativa. Nem sequer sei se o hotel onde trabalho vai abrir antes do Verão. Talvez tenha de mudar de área profissional, outra vez. Apesar da incerteza, considero que somos uns privilegiados. Não temos reuniões de equipa às 09h00, não estamos todo o dia em frente ao computador e podemos desfrutar da família a tempo inteiro. Os nossos filhos têm sorte por estarmos sempre disponíveis.

Tenho saudades do meu local de trabalho. Adoro os emblemáticos hotéis de luxo. A azáfama, os imprevistos, as exigências das estrelas de cinema, dos políticos, dos cantores e dos PDG de multinacionais. Estive no “front row” de desfiles intermináveis de famosos Portugueses e estrangeiros, de certo modo, iguais a todos nós. Alguns tornaram-se amigos e viram os meus filhos crescer, como M., antigo número 2 de Veolia Internacional. O cantor Mika ofereceu-me um CD autografado e dois bilhetes para o concerto em Paris ainda antes de ser mundialmente conhecido. Fiquei grávida quase ao mesmo tempo que a Carla Bruni e cruzamo-nos várias vezes barrigudas, nos corredores de um hotel parisiense. Ela muito mais glamorosa, claro! A Giulia nasceu duas semanas depois da Mathilde. A sensibilidade de Jane Goodall enterneceu-me e guardo com carinho uma mini “gordita” que me ofereceu o artista Botero.

A vida na cidade Luz proporcionou-me momentos inesquecíveis a nível pessoal e profissional. Foram mais de sete anos de aprendizagem, descobertas, formação, súbidas e trambolhões. As amizades resistem ao tempo, à distância e, até mesmo, ao confinamento. O “Palace” da Rive Gauche era especial, fora do comum. Tão diferente dos outros hotéis chiques da capital Francesa. Mademoiselle Deneuve (a atriz Catherine Deneuve) vinha, todas as semanas, buscar o seu correio. Gerard (estava proíbida de tratá-lo por Monsieur Depardieu!) fazia parte da casa e passava mais tempo connosco que no seu próprio domicílio, ao virar da esquina. Este gigante colossal é ainda mais espetacular ao vivo que nos filmes. Mas são a sua generosidade e simplicidade que nos impressionam. O seu melhor amigo, um aristocrata Italiano dedicado ao teatro e à ópera vivia, durante todo o ano, no último andar do hotel e Gerard visitava-o regularmente.

Tenho que admitir que não foram os ricos judeus americanos, os vencedores dos prémios Nobel, os artistas e as modelos internacionais os que mais me marcaram. O encontro inesquecível ao longo do meu percurso profissional foi, sem dúvida, com o Brad Pitt. (Riam-se à vontade!). Vestido de jeans deslavados, uma t-shirt branca e calçado com ténis (ou terão sido botas?) esfarrapados. Despenteado, com uma barba de três dias e aquele sorriso de eterno miúdo… Eu estava grávida do meu filho, o qual nasceu prematuramente uns dias depois. Talvez da emoção! Na altura, o ator perguntou-me se estava à espera de rapaz ou de rapariga e desejou-me « all the best ». Mas pouco antes soltou a frase que me acariciou como uma brisa num dia de Verão: Please, call me Brad.

A família e os amigos adoram os relatos das histórias dos famosos e agora dou por mim a partilhá-los com os meus filhos. O Stan já me propôs escrever um livro porque seria uma pena não registar estes momentos únicos, sobretudo porque estas histórias são irrepetíveis. Algum dia, quem sabe? O turismo pós Covid-19 não será como antes, mas não penso nisso agora. Até lá, estas anedotas servem para nos esquecermos, por alguns instantes, da pandemia.

Filipa Moreira da Cruz
Abril 2020

Todos em casa

Photo : KaDDD

Saí de Portugal há 20 anos e já vivi em vários países europeus. Desde 2018 a minha casa é Saint-Malo, em França.

Estar longe da família e comunicar através de Skype, Whatsapp e Facetime faz parte do meu quotidiano. Bendita era digital! É o preço a pagar por ter escolhido viver no estrangeiro. Somos quatro irmãos, cada um num país diferente e os meus pais têm um genro italiano e um francês. Nas reuniões familiares falam-se todas as línguas latinas!

Pela primeira vez, somos obrigados a ficar em casa. Para o bem de todos. O mundo virtual sobrepõe-se ao dos afetos. Ter notícias da família e dos amigos torna-se vital. Nunca estivemos tão próximos e, ao mesmo tempo, tão sozinhos.

A quarentena em França foi anunciada no sábado 14 de Março às 22h00 pelo primeiro ministro Edouard Philippe. No dia seguinte, houve eleições municipais e Macron apelou ao voto. Os franceses sentiram-se traídos e confusos sem perceber se o mais importante era votar ou ficar em casa. Resultado: a abstenção ultrapassou os 50% e a segunda volta foi adiada. Ao mesmo tempo, foram apresentadas várias medidas económico-sociais para proteger as pequenas e médias empresas e também as famílias mais desprotegidas.

A quarentena é levada a sério, em teoria. (Porque en teoria tudo corre bem). Apenas as saídas indispensáveis são permitidas e sempre com uma autorização por escrito onde deve constar a data, o motivo e a hora. Para passear o cão, fazer desporto ou simplesmente apanhar ar estamos restritos a um raio de 1Km do domicílio e não mais de 60 minutos. O incumprimento da lei resulta numa multa entre 135€ e 300€. Há deputados que defendem coimas de 3.000€ e prisão para os casos mais graves.

Nem todos se portaram bem. Nos dias seguintes ao anúncio da quarentena foram muitos os habitantes das grandes metrópoles que fugiram para as cidades junto ao mar ou na montanha onde os hospitais não estão preparados para receber um grande número de pacientes. Deauville, La Rochelle, Saint-Malo, La Baule, Annecy viram a sua população duplicar num curto espaço de tempo.

Os franceses estão divididos e esta pandemia veio acentuar as diferenças entre as várias regiões. Há casas que são uma prisão e outras um verdadeiro inferno.

Nós vivemos um dia de cada vez e agradecemos tudo o que temos. Com duas crianças de 8 e 11 anos a criatividade e o pragmatismo são essenciais. Somos professores, enfermeiros, cozinheiros, ilusionistas e acrobatas a tempo inteiro. Acho que o Sébastien nunca fez tantos crepes, madalenas e bolos. E eu já sonho com os problemas de Matemática. Correção: tenho pesadelos!

Tentamos minimizar os efeitos secundários desta clausura que nos foi imposta. Felizmente, não temos canais de televisão e isso ajuda. Hoje, mais do que nunca, estou grata por esta decisão. Cada um tenta manter a saúde mental à sua maneira. Eu envio histórias e poemas escritos em várias línguas, o meu marido experimenta novas receitas, a Joana partilha mensagens positivas que a ajudam a ultrapassar a situação crítica de Itália, o Diogo faz-nos rir com os vídeos divertidos e a Inês apela ao sonho e à imaginação com as histórias que conta.

Os quatro primos comunicam numa linguagem codificada e enviam mensagens vocais, desenhos e fotografias. Para eles não há fronteiras que resistam ao amor da família. Os avós ficam babados ao ver a declamação da poesia em francês ou as artes plásticas dos pequenos artistas.

Já não vejo a minha irmã Joana há dois anos. Deveria ter acontecido, mas não pode ser. A tão desejada viagem a Itália vai ter que esperar. No início de Março, deitei fora o bilhete de avião para Londres por precaução. Troquei a capital britânica por seis dias em Estrasburgo sem saber que seria em Alsace o grande foco de coronavírus em França. A vida prega-nos destas partidas.

Há várias décadas que os mais poderosos do mundo receiam uma terceira guerra mundial. De repente, um maldito vírus mata mais pessoas que qualquer arma nuclear. Portugal é visto em França como um exemplo a seguir. Aprendeu a lição com Espanha e Itália e evitou o pior, por agora.

Há uns dias perguntei aos meus filhos o que querem fazer quando terminar a quarentena. Responderam em coro: ir à escola, claro! Recuperar a vida que tinham antes. Mas nada voltará a ser como antes. Espero que os líderes mundiais tenham percebido que a vida humana não tem preço e que salvar pessoas é mais importante que salvar bancos. 

Por enquanto, continuaremos em casa até 15 de Abril, no mínimo, acreditando que vai correr tudo bem.

Filipa Moreira da Cruz
Março 2020