Beco sem saída

Reprise

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Estou num beco sem saída
Encurralada entre quatro paredes
Caminho num túnel sem luz
E a solidão é a minha única companhia

Tu crias a tua melodia
Tu voas com as tuas próprias asas
Tu pintas o teu quadro

Certas palavras são carícias para os ouvidos
Outras apenas ruído
Tu escolhes as que queres ouvir

Há gestos que curam as feridas mais profundas
Outros quase matam, de tão bruscos
Tu escolhes os que queres receber

Tu escreves o teu livro
Tu desenhas o teu esboço
Tu traças o teu caminho

Algumas imagens trazem paz
Mas tantas apenas humilham
Tu escolhes as que queres ver

Existem pessoas que iluminam
Outras que só partilham escuridão
Tu escolhes as que queres ter na tua vida

Não estás num beco sem saída
Não caminhas na sombra
Tens o coração sempre contigo.

Filipa Moreira da Cruz

Silêncio

Dia Mundial da Terra

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Tenho que aprender a ficar calada
A abrir a boca e não dizer nada
Preciso de fazer um esforço
Para que o silêncio seja o meu reforço
Chega de fala barato!
A vida não é sempre desacato
Quero ser luz na escuridão
E saber dizer não
Ouvir duas vezes e falar a metade
É essa a verdadeira liberdade
A natureza tem sempre razão
Mas o ser humano julga-se sabichão
A Terra Mãe põe cada um no seu lugar
E Deus está a cargo de vigiar
Quanto a nós, sejamos apenas gente
E cuidemos do mundo que está doente.

Filipa Moreira da Cruz

A história do Senhor Não

Reprise

Photo : KaDDD

Era uma vez um homem carrancudo, sisudo, mal humorado. Comum, banal, igual a tantos outros. Carrageva o mundo nos ombros e as suas pernas começavam a fraquejar. Vestia-se de preto porque a vida não estava para outras cores. Este homem tinha uma particularidade capaz de o distinguir de todos os outros seres humanos: dizia sempre não.

Não tinha fome, não tinha sede, não tinha frio. Não tinha amigos, não tinha família, não tinha vida. Não tinha sentimentos, não tinha penas, não tinha tristezas. Não tinha amor, não tinha humor, não tinha alegrias. Estava seco e vazio.

Certo dia, adoeceu. Ficou aflito de tão lívido. Assustado, perguntou ao médico:

– É grave doutor? Não tem solução?

– Tem cura. Basta dizer sim!

– Sim?!

– Sim.

Ao chegar a casa cruzou-se com a vizinha nas escadas. E quando esta lhe perguntou:

– Tem tempo para um chá?

Após uma longa hesitação o senhor não respondeu:

– Sim.

No dia seguinte, a vizinha arriscou:

– Está um bonito dia. Apetece-lhe dar um passeio?

Para seu espanto, a resposta foi imediata:

– Sim!

As folhas secas cobriam o chão. O sol era tímido. Mas eles não tremiam. Soltavam gargalhadas, partilhavam castanhas e confidências. O inverno chegou, frio, seco, austero, mas não havia nada a fazer. O senhor Não já tinha sofrido a metamorfose. Deixara de ser lagarta para ser borboleta. Soltou asas e voou. A sua vida ganhou cor.

E ele sentiu-se mais leve e solto. As suas pernas recuperaram força, as costas endireitaram-se, a cabeça ergueu-se e quando o homem olhou para o céu a luz inundou o seu rosto. Se ele soubesse, teria dito sim há mais tempo.

Hoje, velhinho e com cabelos brancos, conta aos seus netos a história do senhor não. E quando termina pergunta-lhes:

– Querem ouvir outra vez?

Os netos respondem em uníssono:

– Sim!

Filipa Moreira da Cruz

Silêncio

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Tenho que aprender a ficar calada
A abrir a boca e não dizer nada
Preciso de fazer um esforço
Para que o silêncio seja o meu reforço
Chega de fala barato!
A vida não é sempre desacato
Quero ser luz na escuridão
E saber dizer não
Ouvir duas vezes e falar a metade
É essa a verdadeira liberdade
A natureza tem sempre razão
Mas o ser humano julga-se sabichão
A Terra Mãe põe cada um no seu lugar
E Deus está a cargo de vigiar
Quanto a nós, sejamos apenas gente
E cuidemos do mundo que está doente.

Filipa Moreira da Cruz

Beco sem saída

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Estou num beco sem saída
Encurralada entre quatro paredes
Caminho num túnel sem luz
E a solidão é a minha única companhia

Tu crias a tua melodia
Tu voas com as tuas próprias asas
Tu pintas o teu quadro

Certas palavras são carícias para os ouvidos
Outras apenas ruído
Tu escolhes as que queres ouvir

Há gestos que curam as feridas mais profundas
Outros quase matam, de tão bruscos
Tu escolhes os que queres receber

Tu escreves o teu livro
Tu desenhas o teu esboço
Tu traças o teu caminho

Algumas imagens trazem paz
Mas tantas apenas humilham
Tu escolhes as que queres ver

Existem pessoas que iluminam
Outras que só partilham escuridão
Tu escolhes as que queres ter na tua vida

Não estás num beco sem saída
Não caminhas na sombra
Tens o coração sempre contigo.

Filipa Moreira da Cruz

A história do Senhor Não

Photo : KaDDD

Era uma vez um homem carrancudo, sisudo, mal humorado. Comum, banal, igual a tantos outros. Carrageva o mundo nos ombros e as suas pernas começavam a fraquejar. Vestia-se de preto porque a vida não estava para outras cores. Este homem tinha uma particularidade capaz de o distinguir de todos os outros seres humanos: dizia sempre não.

Não tinha fome, não tinha sede, não tinha frio. Não tinha amigos, não tinha família, não tinha vida. Não tinha sentimentos, não tinha penas, não tinha tristezas. Não tinha amor, não tinha humor, não tinha alegrias. Estava seco e vazio.

Certo dia, adoeceu. Ficou aflito de tão lívido. Assustado, perguntou ao médico:

– É grave doutor? Não tem solução?

– Tem cura. Basta dizer sim!

– Sim?!

– Sim.

Ao chegar a casa cruzou-se com a vizinha nas escadas. E quando esta lhe perguntou:

– Tem tempo para um chá?

Após uma longa hesitação o senhor não respondeu:

– Sim.

No dia seguinte, a vizinha arriscou:

– Está um bonito dia. Apetece-lhe dar um passeio?

Para seu espanto, a resposta foi imediata:

– Sim!

As folhas secas cobriam o chão. O sol era tímido. Mas eles não tremiam. Soltavam gargalhadas, partilhavam castanhas e confidências. O inverno chegou, frio, seco, austero, mas não havia nada a fazer. O senhor Não já tinha sofrido a metamorfose. Deixara de ser lagarta para ser borboleta. Soltou asas e voou. A sua vida ganhou cor.

E ele sentiu-se mais leve e solto. As suas pernas recuperaram força, as costas endireitaram-se, a cabeça ergueu-se e quando o homem olhou para o céu a luz inundou o seu rosto. Se ele soubesse, teria dito sim há mais tempo.

Hoje, velhinho e com cabelos brancos, conta aos seus netos a história do senhor não. E quando termina pergunta-lhes:

– Querem ouvir outra vez?

Os netos respondem em uníssono:

– Sim!

Filipa Moreira da Cruz