Portas

Porta aberta
Porta fechada
Porta castanha
Porta encarnada
Porta moderna
Porta antiquada
Porta velha
Porta envernizada
Porta orgulhosa
Porta desprendida
Porta vaidosa
Porta ferida
Porta do fundo
Porta de entrada
Porta para o mundo
Porta para a vida.

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz

Jogo cromático

Reprise

Verde é a minha esperança
Num mundo mais justo
Azul são os sonhos infinitos
No céu que abraça as nuvens
Verde é a felicidade de rebolar na relva
Num dia de Primavera
Azul é o desejo de ternura
Como o mar que embala os barcos
Verde é a resiliência necessária
Para seguir em frente
Azul é a alma melancólica
Nos dias de chuva
Verde é o corpo nos dias
Em que espreita o sol.

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz

Depende

Reprise

Photo : KaDDD

Dizem que a água não tem sabor nem cheiro
Depende…
Dizem que os rios vão dar ao mar
Depende…
Dizem que depois da vida só há morte
Depende…
Dizem que quando o sol dorme a lua desperta
Depende…
Dizem que um dia somos crianças e, de repente, chegamos a velhos
Depende…
Dizem que depois da tempestade vem a bonança
Depende…
Dizem que ninguém morre por amor
Depende…
Dizem que dois mais dois são quatro
Depende…
Dizem que a felicidade é uma ilusão
Depende…
Dizem que os sonhos não alimentam a vida
Depende…
Dizem que a arte não mata a fome
Depende…
Dizem que não há mal que dure para sempre
Depende…
Dizem que enquanto há vida, há esperança
Depende…
Dizem tanto e fazem tão pouco
Depende…

Filipa Moreira da Cruz

Um dia…

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Certo dia, a menina perguntou ao pai:
– Quando vou ver o mar?
O pai, distraído, respondeu:
– Um dia…
A menina não desistiu. E no dia seguinte perguntou:
– Quando vamos passear juntos?
A resposta do pai foi a mesma:
– Um dia…
A menina cresceu e continuou a questionar-se quando iria andar de comboio, quando teria um bolo de aniversário, quando brincaria com o pai.
O progenitor, demasiado ocupado, adiava os momentos a dois.
Os anos voaram, o pai envelheceu e morreu. A menina foi mãe e, certo dia, o seu filho começou:
– Mãe, quando…?
A menina de outrora, sem sequer ouvir a pergunta, respondeu de imediato:
– Hoje!

Filipa Moreira da Cruz

Serenidade

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Dei rédea solta ao sentimento
Soltei todas as lágrimas
Chorei o que estava guardado
E antecepei o que virá
Lavei a alma vezes sem conta
E vesti a roupa da esperança
De que vale fazer planos?
Para quê traçar um projeto a longo prazo
Se numa questão de dias tudo muda?
O futuro está nas mãos de Deus
E não sabemos de que será feito o amanhã
Apenas o agora nos pertence
Aproveitemos cada dia…sempre!

Filipa Moreira da Cruz

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Asas quebradas

Porque os homens são anjos nascidos sem asas, é o que há de mais bonito, nascer sem asas e fazê-las crescer.

José Saramago

O anjo voa, embora não tenha asas.
Quando a exaustão chega, adormece com a cabeça nas nuvens, ignorando as fortes brasas que lhe queimam os pés.
O seu corpo é um imenso mar azul.
A sua alma é dourada e leve como a areia da praia num dia de Verão.
Não sente calor nem frio.
Desconhece a fome e a sede.
Avista ao longe a cidade, mas prefere ausentar-se do seu bulício.
Todas as noites, visita os que nele acreditam e lhe encomendam doces sonhos.
Atira bem alto os medos alheios e devolve a esperança à Humanidade.

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz


Dia da Criança

Photo : Arquivo pessoal

Depus a máscara e vi-me ao espelho.
Era a criança de há quantos anos.
Não tinha mudado nada…
É essa a vantagem de saber tirar a máscara.
É-se sempre a criança,
O passado que foi
A criança.
Depus a máscara, e tornei a pô-la.
Assim é melhor,
Assim sem a máscara.
E volto à personalidade como a um términus de linha.

Álvaro de Campos– Heterónimo de Fernando Pessoa

Photo : Arquivo pessoal

A Criança que pensa em fadas e acredita nas fadas
Age como um deus doente, mas como um deus.
Porque embora afirme que existe o que não existe
Sabe como é que as cousas existem, que é existindo,
Sabe que existir existe e não se explica,
Sabe que não há razão nenhuma para nada existir,
Sabe que ser é estar em algum ponto
Só não sabe que o pensamento não é um ponto qualquer.

Alberto Caeiro – Heterónimo de Fernando Pessoa

Desfolhada

Reprise

A minha pele tem rugas e fendas
Os meus olhos conhecem segredos
E apenas tu os desvendas
As nossas vidas seguem caminhos
Que parecem labirintos intermináveis
Os sonhos não se perdem
Mas alguns erros são irreparáveis
As minhas mãos apenas pedem
Que as cuides para sempre
Baloiço ao vento
Humor frio, suor quente
Rio e choro ao mesmo tempo
Viajo até à tua mente, mas regresso
De pés descalços e asa quebrada
O mundo está virado do avesso
A minha alma está desfolhada.

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz

Abençoada loucura

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Loucos são aqueles que ousam ser felizes
E pintam o dia com diferentes matizes
Fazem as pazes com o medo
A vida é um maravilhoso segredo
Prestes a ser desvendado
Esse tesouro tão bem aguardado
Cabe na mão, no peito
Embora de infinito seja feito
Loucos são aqueles que buscam a verdade
Em nome da tal liberdade
Perseguem sonhos
E falam baixinho com anjinhos
Acreditam em fadas
E partilham histórias inventadas
Guiam-nos por labirintos
Dispersos em vários recintos
Louca serei eu também
Por confiar de olhos fechados na minha mãe
Um amor ímpar e verdadeiro
Será sempre o primeiro
A nascer, a crescer, a voar
Libertando-se do céu e do mar
Uma estrela que brilha no firmamento
Solta, num total desprendimento.

Filipa Moreira da Cruz

Verde é esperança

Reprise

Visto-me de verde da cabeça aos pés
Fecho os olhos e conto até três
Paz, serenidade, perseverança
Empatia, solidariedade, confiança
Cair 100 vezes e levantar-se 101
Ter uma mão cheia de nada
E outra de coisa nenhuma
A vida é uma festa, um milagre, uma surpresa
Começa por acaso e acaba depressa.

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz, KaDDD e Paul Laurent Bressin