Comment ça va?

Photo : Paul Laurent Bressin

Esta questão é-me colocada várias vezes ao longo do dia. Os franceses têm-na na ponta da língua e respondem por automatismo: ça va. E eu não fujo à regra porque ninguém está interessado em ouvir um desabafo, uma apreensão. Ninguém tem tempo para lamurias nem queixas. Ninguém se preocupa com os problemas dos outros nem as vidas alheias. Ninguém quer saber se estamos bem ou mal. Quem nos pergunta comment ça va está à espera de um simples ça va. Com os amigos a história é outra. Felizmente.

E se, de repente, começarmos a dizer… ça va pas?

Já passou um ano desde o primeiro confinamento. O que era impensável até 2020 tornou-se uma realidade. A nova normalidade engoliu os velhos hábitos. O cenário de um filme de ficção científica passou a fazer parte das nossas vidas. As imagens apocalípticas são o nosso quotidiano. O fim deste pesadelo teima em não chegar. Ça va pas!

No ano passado, em França, morreram 111 mulheres vítimas de violência doméstica. O número é mais baixo que o de 2019 (146), mas está longe do ideal 0. É verdade que ocorreram menos mortes, mas a violência doméstica aumentou consideravelmente desde a pandemia. O confinamento só veio piorar a situação de todas aquelas que não vivem num lar, mas sim numa prisão. Ça va pas!

A vacinação avança a passo de caracol. Os ricos contornam o sistema e conseguem doses pagas a preço de ouro. Lotes inteiros de vacinas desaparecem misteriosamente e outros são roubados, à descarada. Por outro lado, há tendas militares vazias, à espera de pessoas que teimam em não vacinar-se. Médicos e enfermeiros deitam frascos fora porque os utentes que estavam inscritos resolveram não aparecer. Ça va pas!

O desemprego na Europa atinge níveis assustadores e para muitos o layoff continua, pelo menos, até ao Verão. As próximas gerações vão herdar uma pesada dívida. Será o seu ADN económico-social. E isto num continente com uma reduzida taxa de natalidade. De acordo com dados apresentados pela Comissão Europeia, em 2018 houve 1,55 nascimentos por mulher. Apesar de tudo, a França continua a ser a campeã dos nascimentos do velho continente, mas os números também têm vindo a baixar. Ça va pas!

Os estudantes universitários são os mais sacrificados desde o início da pandemia. Não têm aulas presenciais há um ano, não têm recursos para comer nem aquecer os minúsculos estúdios que lhes servem de teto. Muitos viram-se obrigados a regressar à casa dos familiares. Outros têm vergonha e preferem sobreviver, mais mal que bem. Há ainda os que desistem da vida, de um dia para o outro. Fecham os olhos para sempre porque se recusam a ver este miserável mundo novo. Em Espanha, 40% dos jovens com menos de 25 anos estão no desemprego. Ça va pas!

Passaram quase 5 anos desde a assinatura do Acordo de Paris e estamos longe de conseguir reduzir os excessos que nos conduzem a uma catástrofe ecológica. O meio ambiente ainda não é uma prioridade para nenhum país. E de nada adianta apontar o dedo ao vizinho quando não limpamos a própria casa. A humanidade esteve em êxtase perante as fotografias das ruas vazias, dos animais que passeavam descontraidamente, dos oceanos que recuperavam a sua cor natural. Foi sol de pouca dura! Agora chocam-nos as máscaras lançadas na sarjeta e a quantidade de embalagens de comida e copinhos de cartão para o café atirados para o chão. Efeitos colaterais do take away. Ça va pas!

Da próxima vez que me perguntarem comment ça va, o melhor será ficar calada para evitar chocar os mais sensíveis ou dar um abanão aos mais distraídos.

Sangue, suor e lágrimas

Photo : KaDDD

Durante os quase 8 anos que vivi em Paris conheci vários libaneses, tendo ficado amiga de alguns. Recordo-me bem do dono da padaria no XVIème arrondissement e nunca me esquecerei do médico que trouxe ao mundo os meus dois filhos. Os libaneses não viram as costas à pátria e têm prazer em partilhar as histórias e tradições do seu país. Todos eles têm um traço em comum: o sentido de humor. Normal, tratando-se de pessoas que nasceram numa terra, há muito, assombrada por desgraças, reconhecem. Rir é mesmo o melhor remédio.

Deliciei-me com Caramel, ri e chorei com Et maintenant, on va où? e não fiquei indiferente à história de Capharnaüm. Três filmes da realizadora libanesa Nadine Labaki que também fazem do humor a arma mais poderosa para enfrentar as adversidades. Bofetada de luva branca aos analfabetos do amor. Uma contracorrente à iliteracia das emoções.

O Líbano tornou-se, oficialmente, independente em 1943, mas as fortes ligações a França mantêm-se até hoje. Conhecido, durante as décadas de 50 e 60, como a “Suíça do Médio-Oriente” devido ao seu desenvolvimento económico, o país viu-se, desde cedo, massacrado pelas tensões sociais que surgiram logo após a criação do Estado de Israel e que teimam em perdurar. Os mais jovens reclamam laicidade, algo difícil num país com 18 religiões reconhecidas oficialmente. 95% da população é árabe, mas 40% não são muçulmanos. Muitas vezes, o culto divide em vez de unir.

A subida drástica da inflação nos últimos anos, a instabilidade política e social e o aumento do desemprego tornam a vida no Líbano numa missão quase impossível. E quando já todos pensavam que pior não podia existir, uma tragédia (evitável) desfigura Beirute. Neste país que vive a ferro e fogo o agora é urgente porque o futuro é mais do que incerto. Nesta terra que parece ter sido esquecida por Deus, como me comentou um amigo, sangue, suor e lágrimas são o pão nosso de cada dia.

Acidente ou ato deliberado? O governo já prometeu investigar as causas das explosões e responsabilizar os culpados. Vários trabalhadores do porto de Beirute estão em prisão domiciliária. Mas todas as panaceias serão insuficientes porque o mal já está feito. Falhou a prevenção, fizeram-se ouvidos moucos às denúncias feitas por peritos. Restam as duas semanas de estado de emergência para enterrar os mortos, cuidar dos feridos, limpar as ruas, enxugar as lágrimas, arregaçar as mangas e renascer. Os libaneses fazem-no desde que são gente. Ou não tivessem no centro da sua bandeira o cedro, símbolo de força, resistência e crescimento.

O resto do mundo assiste horrorizado às imagens partilhadas na internet e alguns pensam que isto só acontece aos outros. Para muitos, o Líbano está longe da vista e, portanto, longe do coração. No entanto, este “acidente” não é um caso isolado. Uma fábrica, em Toulouse, explodiu em 2001 e outra no Texas em 2013, em circunstâncias semelhantes. Convém dizer que o nitrato de amónio que provocou as duas explosões em Beirute é um fertilizante muito utilizado na agricultura e na construção. O porto de Saint-Malo, no noroeste de França, cidade onde vivo atualmente, acolhe entre 40.000 a 60.000 toneladas de nitrato de amónio por ano. Há também quem utilize esta substância para o fabrico de bombas artesanais.

Os países ocidentais enviam ajuda humanitária, medicamentos e víveres. Insistem em divulgar o número de vítimas americanas, francesas, portuguesas, alemãs… Como se certas vidas valessem mais do que outras. Como se embaixadores, médicos, arquitetos ou engenheiros fossem mais importantes que professores, cozinheiros ou mecânicos. No meio do cenário apocalíptico só há uma certeza: a raça humana é o único inimigo.

Filipa Moreira da Cruz
Agosto 2020

Já cheira a Verão!

Painting : Mathilde (7 ans) & Photo : Filipa Moreira da Cru

Boas notícias para todos os que sonham com as tão desejadas férias grandes! Reabertura das fronteiras terrestres e aéreas, praias com socorrista, semáforos, zonas delimitadas e bandeira azul. Esplanadas prontas para receber turistas ávidos de cerveja, tremoços, caracóis, sardinhas e bolas de Berlim. Filas intermináveis nas estradas que serpenteiam o país e gasolina a preços proibitivos. Áreas de serviço limpas e bonitas com sombras que valem ouro na hora do descanso. Sol, mar e areia a perder de vista. Aldeias pitorescas, vilas com encanto e cidades únicas. Povo poliglota, simpático e hospitaleiro. Tudo isto e muito mais no país Lusitano!

O turismo contribui generosamente para o PIB nacional e é uma fonte direta e indireta de emprego. Portugal está à altura da sua reputação e tem vindo a demonstrar ser capaz de fazer-nos esquecer alguns erros graves do passado. Os abomináveis edifícios em betão que se amontoam ao largo da costa estão a ser, progressivamente, substituídos por ofertas sustentáveis e ecológicas que respeitam a paisagem. Finalmente!

O turismo desorganizado e massificado está em vias de extinção e as autarquias empenham-se em dar resposta às novas exigências do turista informado e preocupado com o meio ambiente. Ainda assim, há muito por fazer. A proliferação dos alojamentos locais, essa praga tão nefasta como os percevejos, é um bom exemplo do politicamente aceite, mas extremamente incorreto. Que o digam os habitantes dos centros de Lisboa, Porto, Barcelona, Paris ou Veneza.

O nosso país tem muitos trunfos, mas não está sozinho nesta maratona. O turismo mundial esteve adormecido durante vários meses e vai querer recuperar o tempo perdido. Dos adversários diretos destacam-se a Espanha, a Itália, a França e a Grécia. Os países do sul da Europa são, muitas vezes, apontados do dedo pelos bem comportados habitantes do centro e do norte do velho continente.

Chamam-nos preguiçosos, lentos, vigaristas, corruptos. Não faltam adjetivos para manifestar a aversão à mentalidade dos que vivem onde está sempre calor. Mas férias dignas desse nome só mesmo em Andaluzia, Baleares, Algarve, Sardenha, Creta, Madeira, Canarias, Santorini, Côte d’Azur, Corfu… E quem o diz são os mesmos que não nos poupam críticas. A escolha é vasta e a rivalidade ainda maior.

O país vizinho é, sem dúvida, o peso pesado da lista. De acordo com as estatísticas da OMT (Organização Mundial de Turismo) França continua a ser a nação mais visitada do mundo. No entanto, a Espanha, que ocupa o segundo lugar, é campeã na relação qualidade-preço e na diversidade da oferta. Passar férias em terras de nuestros hermanos é do agrado de quase todos, eu incluída! Alemães, Britânicos, Nórdicos, Franceses e norte Americanos vivem ao ritmo ibérico. Não faltam os almoços às três da tarde nem as sagradas sestas.

Para fazer face à crise que nos acompanhará durante algum tempo os dirigentes concentram-se na retoma económica e o turismo é uma arma poderosa. E que melhor política que incentivar a população a passar férias no próprio país?

Não encaixo nos padrões da emigrante típica. Mudo frequentemente de cidade (até mesmo de país) e raramente vou a Portugal nos meses mais quentes. Os meus filhos viajam sozinhos há vários anos e não dispensam o Verão português. Vamos inverter a onda do “vá para fora cá dentro”. É que se todos os europeus a seguirem, Portugal pode ficar sem pé. Somos bons, mas poucos. Em julho não passaremos férias no país onde vivemos, mas sim naquele que me viu nascer.

Filipa Moreira da Cruz
Julho 2020

Made in Europe

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Vivemos um período doloroso que pode, e deve, ser encarado como uma oportunidade de rever quase tudo. Deitar fora o que já não serve, reciclar o que ainda pode ser utilizado e criar novas oportunidades que correspondam às reais necessidades. De um dia para o outro, tudo mudou e a mudança continua a ser constante e imediata. Cabe ao velho e sábio continente ser capaz de utilizar as ferramentas que tem para travar os monstros que o querem devorar. Uma Europa desunida e fragmentada será uma presa fácil para o gigante chinês e o avassalador norte-americano, governado por um lunático merecedor de uma estadia permanente num asilo psiquiátrico.

A Europa tem vindo a ser vítima e, ao mesmo tempo, causadora de dramáticos incidentes e, se não for capaz de se reinventar, corre o risco de se afundar para sempre. Ainda a recuperar do Brexit, é agora obrigada a lidar com a crise económica e social que já começou. A mais grave desde a Segunda Guerra Mundial. Foi precisamente no pós-guerra que surgiu o primeiro projeto europeu. A CECA nasceu em Paris, em 1951, e teve como principais mentores Robert Schuman e Jean Monnet. O declínio das indústrias do carvão e do aço deu origem à CEE, através do tratado de Roma em 1957.

Em 1992, o tratado de Maastricht decidiu que a Comunidade Europeia deixaria de ser meramente económica e pautou a sua ação através de três pilares fundamentais: Comunidades Europeias, Política Externa e de Segurança Comum e Cooperação Policial e Judiciária em Matéria Penal. A União Europeia emancipou-se e cresceu graças ao tratado de Lisboa, assinado em 2007. Os três pilares do tratado anterior foram substituídos por competências. Passamos a ser uma grande família porque a união faz a força. Tem sido mais ou menos assim até aos dias de hoje.

Mas não é fácil manter o equilíbrio entre 27 países tão diferentes (cultura, língua, religião, tradições, políticas internas). Após a (in)esperada saída do Reino Unido, a aliança franco-alemã faz das tripas coração para que o barco não navegue sem capitão nem rumo. É importante respeitar o que nos distingue e reforçar o que nos une. Qualquer tentativa de nacionalismo exacerbado seria prejudicial. Que o diga a Alemanha que ainda hoje é perseguida por duas guerras que ensombraram o mundo. Certas tragédias jamais poderão ser apagadas da memória coletiva.

O que é nacional é bom? Nem sempre… Marcas de prestígio francesas fabricam roupa e sapatos em Portugal. Em contrapartida, marcas portuguesas com nomes estrangeiros, estrategicamente escolhidos, produzem em países asiáticos. Quando necessitamos contactar o apoio ao cliente de uma companhia de telefone somos imediatamente transferidos por satélite até à Índia ou ao norte de África. A fruta europeia apodrece porque não é vendida, mas os hipermercados são invadidos por produtos hortícolas provenientes de países longínquos. Para o bem da globalização.

Obviamente isto não acontece por falta de meios. A Europa dispõe de tudo, menos de vontade. Para quê inverter a ordem natural das coisas? É tão simples depender do made in China, desmantelar grandes empresas e vendê-las à Ásia e ao Médio Oriente, deslocalizar os serviços, enviar resíduos tóxicos em barcos até ao outro lado do mundo. Investir na mão-de-obra qualificada existente, limitar as importações desnecessárias, criar parcerias entre as várias empresas europeias, promover a educação e a investigação para que os cientistas não fujam… Tudo isto dá muito trabalho! E a solidariedade europeia às vezes não passa de uma miragem. Afinal a inércia parece não ser uma característica exclusiva dos habitantes do sul da Europa.

Filipa Moreira da Cruz
2020