Gratidão

Reprise

Sou grata pelo que tenho
Agredeço tudo o que a vida me oferece
Vivo o presente porque ontem já não me pertence e não sei o que amanhã me reserva
Obrigada!

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz

Desencontros

Photo : Filipa Moreira da Cruz

– Senta-te Teresa. Vou contar-te uma história. A minha. Por favor, não me interrompas, senão não terei coragem de continuar.
Começou há muitos anos atrás, na aldeia onde nasci e conheci o meu único amor.

Os meus pais trabalhavam na quinta da família mais rica e importante da região. A nossa vida era modesta, mas nunca nos faltou nada.

Todos os dias, a seguir à escola, eu ia ajudar a minha mãe. Limpava, esfregava, arrumava. Com esmero e sem queixume. Antes de regressar a casa, a minha mãe preperava o lanche para os filhos dos patrões e eu estava autorizada a sentar-me à mesa com eles.

O Henrique era o mais velho dos dois. Sério, austero e um pouco prepotente. O António tinha um ano mais do que eu e era o sol nos dias de inverno. Bonito, simpático e cheio de vida. Faziamos tudo juntos: correr pelos corredores da grande casa, jogar às escondidas no jardim, esfolar os joelhos a subir às árvores, pescar trutas no rio. Durante a infância, sempre o considerei como o irmão que os meus pais não me conseguiram dar. O meu melhor amigo.

Na adolescência, percebi que o que sentíamos um pelo outro era mais que amizade. Recordo o nosso primeiro beijo nas traseiras da padaria da vila. As minhas pernas fraquejaram, o meu coração parecia voar. Foi o segundo melhor dia da minha vida. O primeiro foi quando tu nasceste Teresa.

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Prometemos ficar sempre juntos. Mas o destino tinha outros planos. E as nossas famílias também.

O Henrique já estava a estudar Medicina. E o António, que sempre sonhara em ser astronauta, também seria médico como o bisavô, o avô, o pai e o irmão. Casaria com uma rapariga de boa família e viviriam na capital. O seu caminho estava traçado, com régua e esquadro. Não havia espaço para « fantasias de adolescente » .

Quanto a mim, tive que implorar para frequentar as aulas noturnas de datilografia. Os meus pais não entendiam a minha obstinação em estudiar se, de qualquer maneira, iria trabalhar na quinta no dia em que a minha mãe deixasse de ter forças para o fazer. Não tive coragem de dizer-lhes que não era isso que queria para mim. Preferi fazer a mala e fugir para Lisboa para viver com uma tia. No dia seguinte de manhã, tudo o que encontraram foi uma carta em cima da mesa da cozinha.

Em Lisboa, conheci a tão desejada liberdade! As festas, o primeiro cigarro, os namorados. Mas nunca deixei de pensar no António. Sabia que estava noivo de uma rapariga rica, mas ignorava tudo o resto.

Certo dia, vi-o, à saída do cinema Londres com um grupo de amigos. Os nosso olhares cruzaram-se apenas uns segundos, mas foi o suficiente para regressar ao primeiro beijo. A partir daí, encontrávamo-nos às escondidas no seu apartamento perto da faculdade de Medicina. O nosso amor ganhou asas e cresceu. Contra ventos e marés.

Quando o António soube que estava grávida jurou anular o noivado e tomar conta de mim e do bebé, mas ambos sabíamos que tal não aconteceria. Ele vivia com o dinheiro que os pais lhe enviavam. E assim que soubessem o que o filho tinha em mente deixaria de haver mesada.

Photo ; Filipa Moreira da Cruz

Como em muitas histórias de amor, a nossa também não teve um final feliz. Regressei à vila com uma barriga proeminente e o coração aos pedaços. Os meus pais apressaram-se a encontrar-me um rapaz que aceitasse casar com quem carregava o bebé de outro.

Tive sorte. O teu pai era honesto e respeitador. Amou-te mesmo antes de tu nasceres. Foste desejada pelos dois, embora por razões diferentes. Para mim, eras fruto de um grande amor. Para ele, um milagre porque Deus não lhe permitira deixar descendência naturalmente.

Tinha notícias do António, ocasionalmente, mas nunca lhe escrevi nem o voltei a ver. Até há três anos. Ia a travessar a Avenida da Liberdade. Convidou-me para um café e eu aceitei. Falou-me nos dois filhos, os teus irmãos. E na mulher que morreu de cancro. Esta maldita doença não poupa ninguém! Nem mesmo os ricos! Perguntou-me por ti e porque nunca tinha respondido às suas cartas nem aos telefonemas. Limitei-me a responder que o passado não deve ser remexido. Despedimo-nos com a certeza de que esta seria a última vez que nos veríamos. Chorei desalmadamente durante todo o trajeto do metro que me empurrou até à nossa casa.

Sabes que o tempo não está do meu lado Teresa e não queria partir com o peso deste segredo. Espero que, um dia, me possas perdoar.

Teresa envolveu o corpo magro e frágil da mãe e segredou-lhe:

– Gosto tanto de ti!

Maria do Carmo, fechou os olhos e abraçou o sono profundo.

Filipa Moreira da Cruz

La belleza de las cosas sencillas

Siempre he dicho que soy un hombre sencillo que escribe sencillamente.

Miguel Delibes

Saber llorar es la sabiduría de la sencillez.

Miguel de Unamuno

El hombre que ha empezado a vivir seriamente por dentro, empieza a vivir más sencillamente por fuera.

Ernest Hemingway

Mi felicidad consiste en que sé apreciar lo que tengo y no deseo lo que no tengo.

León Tolstói

Photos : Filipa Moreira da Cruz

La solitudine

La soledad es la gran talladora del espíritu. 

Federico García Lorca

A mis soledades voy, de mis soledades vengo, porque para andar conmigo, me bastan mis pensamientos.

Félix Lope De Vega

Ama tu soledad, y soporta el sufrimiento que te cause. 

Rainer Maria Rilke

Quien no sabe poblar su soledad, tampoco sabe estar solo entre una multitud atareada. 

Charles Baudelaire

Photos : Filipa Moreira da Cruz

A magia do momento

Ali vimos a veemência do visível
O aparecer total exposto inteiro
E aquilo que nem sequer ousáramos sonhar
Era o verdadeiro.

Sophia de Mello Breyner

Difícil é saber de frente a tua morte
E não te esperar nunca mais nos espelhos da bruma.

Sophia de Mello Breyner

Photos : Filipa Moreira da Cruz

Despedindo-me do Outono

Repara que o outono é mais estação da alma do que da natureza.

Carlos Drummond de Andrade

Exatamente como a árvore do outono que não sente o perder de suas folhas nem quando a chuva, a geada e o sol lhe resvalam pelo tronco, e a vida se retira para o mais íntimo e recôndito de si mesma. Ela não morre. Espera.

Hermann Hesse

Photos : Filipa Moreira da Cruz

Felicidade

Vou contar-te um segredo
Os homens dão a volta ao mundo
Em busca de fama e poder
E num segundo o ter aniquila o ser
Enfiam uma máscara agridoce
Uns dias sai o sol e noutros chove
De repente, o universo torna-se pequeno
A loucura engole o sereno
A alienação espezinha a razão
Colecionam-se coisas e não recordações
Brisam-se corpos e corações
E esses seres insignificantes
Esquecem-se que a vida são meros instantes
A morte, essa sim, é uma certeza
E a lenda reza
Que ninguém cá ficará
Para contar como acabará
Então, não será melhor começar a viver?
Olha ao teu redor
A felicidade tem cheiro e cor!

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz

Antídoto

Deixa-me rir
E da monotonia fugir
Montada num cavalo de papel
Coberto de flores e mel
Êxtase da doçura!
Céu azul pintado com ternura
Todos os dias são uma brincadeira
Com permissão para fazer asneira
Errar é aprender
Dar é receber
A vida desliza na areia molhada
E nas ondas do mar é enrolada
Medos evaporados
Segredos desvendados
Pudores disfarçados
Obstáculos superados
Aconteça o que acontecer
Seja o que Deus quiser.

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz

Animais à solta

A Natureza está louca
Virada de pernas para o ar
Os animais estão à solta
A rir, a correr, a brincar
No parque ou no jardim
Até os pinguins fugiram do frio
Parecem estátuas a olhar para mim
Pensando que o mar é rio
O urso não baixa a guarda, vigia
O coelho esconde-se do leopardo
O burro cuida da sua cria
E o puma corre como um desalmado
A Natureza comanda
Os animais obedecem
Entram felizes na dança
Que os humanos desconhecem.

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz

Flores

Cuando se abre una flor, es primavera en todo el mundo.

Alejandro Jodorowsky

Si tienes un jardín y una biblioteca, tienes todo lo necesario.

Cicéron

 Siempre hay flores para aquellos que quieren verlas.

Henri Matisse

Photos : Filipa Moreira da Cruz