Talvez…

Photo : Paul Laurent Bressin

Enganar o tempo
Aproveitar este momento
Amarfanhar o futuro
Disparar um tiro no escuro
Ouvir o silêncio
Gritar o que levo dentro
Despistar a sorte
Perder o sul e o norte
Escorregar no fracasso
Dar aquele abraço
Aprender com os erros
Desvendar os segredos
Vaguear pela multidão
Assumir o sim e o não
Enfrentar o medo
Deixar de lado o enredo
Amar o talvez
Uma e outra vez.

Filipa Moreira da Cruz

Felicidade

Vou contar-te um segredo
Os homens dão a volta ao mundo
Em busca de fama e poder
E num segundo o ter aniquila o ser
Enfiam uma máscara agridoce
Uns dias sai o sol e noutros chove
De repente, o universo torna-se pequeno
A loucura engole o sereno
A alienação espezinha a razão
Colecionam-se coisas e não recordações
Brisam-se corpos e corações
E esses seres insignificantes
Esquecem-se que a vida são meros instantes
A morte, essa sim, é uma certeza
E a lenda reza
Que ninguém cá ficará
Para contar como acabará
Então, não será melhor começar a viver?
Olha ao teu redor
A felicidade tem cheiro e cor!

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz

07/10/2021

Hoje não vou escrever nem ler.
Hoje não vou ligar o telefone.
Hoje não vou abrir o WordPress.
Hoje não vou trabalhar.
Hoje não vou passear.
Hoje não vou fazer esforços.
Hoje pode ser o início do resto da minha vida.
Ou talvez não.
Pouco importa!
Hoje estou ainda mais unida à pessoa que mais gosto.
Coincidência ou telepatia.
Longe da vista, mas muito perto do coração.
Sem sofrimento nem pieguices.
Por si. Por mim. Por nós.
Este hoje escrevi-o ontem.
Porque vir aqui já faz parte de mim.
Como uma droga.
Quase uma questão de (sobre)vivência.
Vai correr tudo bem.
Não pode ser de outra maneira.
Até amanhã!

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz

Senhor tempo

Quanto tempo tenho para percorrer o mundo?
Quanto tempo tenho para fazer o correto?
Quanto tempo tenho para enganar um segundo?
Quanto tempo tenho para ficar por perto?
Quanto tempo tenho para seguir o meu caminho?
Quanto tempo tenho para estar com as pessoas que me são queridas?
Quanto tempo tenho para ficar sozinho?
Quanto tempo tenho para sarar as feridas?
Quanto tempo tenho para agarrar a felicidade?
Quanto tempo tenho para gozar da liberdade?
Quanto tempo vai durar a saudade?

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz

Uma página em branco

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Recomeçar
Recriar
Reciclar
Reiniciar
Reabilitar
Redecorar
Reutilizar
Reajustar
Reabrir
Ressentir
Resumir
Reacender
Reflorescer
Renascer.

Filipa Moreira da Cruz

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Nostalgia do futuro

Photo : KaDDD

Ai se eu soubesse
Ser sol e lua
Céu e mar
Ai se eu soubesse
Fazer tudo sem pressa
Bem devagar
Ai se eu soubesse
Apagar as chamas do mundo
Com garra e genica
Ai se eu soubesse
Transformar o planeta azul num segundo
No doce lar que nos abriga
Ai se eu soubesse
Lidar com as saudades
Sem dor nem tristeza
Ai se eu soubesse
Dar a volta às dificuldades
Com harmonia e ligeireza
Ai se eu soubesse
O que aí vem
Num abrir e fechar de olhos
Ai se eu soubesse
Apreciar tudo o que me oferece
A Terra-Mãe
Ai se eu soubesse
Evitar a conversa fiada
Para dedicar-me à minha prece.

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz

Êxodo urbano

Photo : KaDDD

Durante vários séculos, a população trocou o campo pela cidade em busca de melhores condições de vida. Quando a terra deixava de ser fértil, voltavam-se as costas ao verde e abraçava-se o cinzento da metrópole. A tecnologia e a indústria prometiam sucesso e prosperidade. Mas nem todos se deixaram seduzir pela vida urbana e há quem não troque a paz e o sossego do campo pelo bulício da cidade.

Sou uma citadina convicta e assumida. Gosto de cidades grandes. Sinto-me bem em Nova Iorque, Paris, Londres ou Berlim. Aprecio andar de metro, visitar museus, ler nos parques, percorrer largas avenidas. No entanto, fiquei feliz por ter passado os três confinamentos na cidade onde vivo que tem apenas 50.000 habitantes. Entendo o sufoco e a ansiedade dos que ficaram encurralados entre quatro paredes porque sei o que é viver num apartamento de 45 metros quadrados. Quando somos obrigados a partilhar, 24 horas por dia, um espaço tão exíguo, o charme da cidade desaparece, mesmo que tenhamos a sorte (como eu tive!) de viver a dois passos do Arco do Triunfo.

Desde o início da pandemia, 800.000 pessoas saíram de Paris e arredores e muitos ainda não regressaram à capital francesa. Instalaram-se em cidades mais pequenas, vilas e aldeias. Ou até mesmo em casas no meio do nada. Longe do ruído e da poluição. Situação semelhante ocorreu em Londres. No ano passado, 300.000 cidadãos abandonaram a capital inglesa e a procura de casas no campo aumentou 126%.

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Muitas profissões podem ser exercidas à distância e o número de nómadas digitais tem aumentado exponencialmente. Nunca foi tão fácil trabalhar em frente ao mar ou à sombra de uma bananeira. Basta um computador e ligação à Internet! Que o digam Bali, Malta ou as ilhas Canárias. Portugal também faz parte dos destinos mais cobiçados. As empresas foram obrigadas a adaptar-se, rapidamente, à nova realidade e as capitais dos países mais desenvolvidos perderam centenas de habitantes.

Ainda é comum, entre as grandes empresas, enviar os seus quadros superiores a países distantes. Britânicos invadem Hong Kong, franceses apoderam-se do sudeste asiático, portugueses reconquistam o Brasil ou Angola. A aproximação das antigas colónias é algo natural. Os colarinhos brancos europeus (ou americanos) recebem salários chorudos, vivem em casas faustosas e as crianças frequentam colégios privados pagos a peso de ouro.

Photo : Paul Laurent Bressin

Mas este fenómeno pode estar em vias de extinção. Os nómadas digitais estão a revolucionar a realidade laboral. Instalam-se no campo ou na praia e vivem quase como os locais. Entre relatórios e reuniões à distância ainda há tempo para um mergulho no mar, uma sesta ou uma cerveja bem fresca. Relatos contados na primeira pessoa por aqueles que conheço que trocaram o céu cinzento de Paris e de Milão por uma ilha das Canárias onde já vivi e outras duas que conheço bem.

Mas nem tudo são rosas! Os nómadas digitais trazem alguns dissabores. O poder de compra destes trabalhadores estrangeiros é, muitas vezes, superior ao da população dos países que lhes estendem a passadeira vermelha e os recebem de braços abertos. Por um lado, os preços disparam. Para os locais, alugar ou comprar casa torna-se um pesadelo. Encher o carrinho das compras sai mais caro e os restaurantes passam a piscar o olho aos estrangeiros endinheirados. Por outro lado, a tão prezada tranquilidade tem os dias contados. O êxodo urbano mata o silêncio do campo e polui a praia mais paradisíaca.

Filipa Moreira da Cruz

Cheira a vida!

A que cheira o mar?
A que cheira a fruta do pomar?
A que cheira a terra molhada?
A que cheira a rosa mais perfumada?
A que cheira o bosque?
A que cheira o gelado comprado no quiosque?
A que cheira o fogo das chamas?
A que cheira o bebé que tanto amas?
A que cheira o carvão?
A que cheira o sangue que escorre pela mão?
A que cheira o ontem, o hoje e o amanhã?
Se eu soubesse, não perguntaria
E mesmo que tentasse adivinhar, não conseguiria.

P.S. Devido a um traumatismo cerebral perdi o olfato (e 90% da visão do olho direito) quando era bebé.

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz

Sin miedo

La vida no es un problema a ser resuelto, es una realidad a experimentar.

Soren Kierkegaard

El sol se duerme… despacio
Otro día que termina
Y nosostros seguimos vivos
¿Qué vendrá mañana?
¡Ni idea!
La vida es una aventura
Y yo estoy lista para abrazarla.

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz

Pangeia

E se não existissem fronteiras
Marítimas, terrestres ou aéreas?
E se houvesse uma única bandeira
De várias cores e tamanhos?
E se navegássemos todos
No imenso mar?
E se comunicássemos
Na mesma língua?
E se fossemos apenas
Seres humanos e imperfeitos?
E se cuidássemos do nosso planeta
Como se fosse a nossa última morada?
E se deixássemos de ter
Para nos concentrarmos na essência do ser?

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Paul Laurent Bressin