Talvez…

Reprise

Photo : Paul Laurent Bressin

Enganar o tempo
Aproveitar este momento
Amarfanhar o futuro
Disparar um tiro no escuro
Ouvir o silêncio
Gritar o que levo dentro
Despistar a sorte
Perder o sul e o norte
Escorregar no fracasso
Dar aquele abraço
Aprender com os erros
Desvendar os segredos
Vaguear pela multidão
Assumir o sim e o não
Enfrentar o medo
Deixar de lado o enredo
Amar o talvez
Uma e outra vez.

Filipa Moreira da Cruz

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Sempre em frente

Photo: Filipa Moreira da Cruz

P’ra frente é que é caminho
Acompanhado ou sozinho
Viver intensamente
Cada dia é diferente
E amanhã, como vai ser?
Como, quando, onde, porquê?
Venha o que vier
Estamos prontos
Deixemo-nos de contos
Será como tem que ser
E seja o que Deus quiser.

Filipa Moreira da Cruz

Senhor tempo

Reprise

Quanto tempo tenho para percorrer o mundo?
Quanto tempo tenho para fazer o correto?
Quanto tempo tenho para enganar um segundo?
Quanto tempo tenho para ficar por perto?
Quanto tempo tenho para seguir o meu caminho?
Quanto tempo tenho para estar com as pessoas que me são queridas?
Quanto tempo tenho para ficar sozinho?
Quanto tempo tenho para sarar as feridas?
Quanto tempo tenho para agarrar a felicidade?
Quanto tempo tenho para gozar da liberdade?
Quanto tempo vai durar a saudade?

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz

Uma página em branco

Reprise

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Recomeçar
Recriar
Reciclar
Reiniciar
Reabilitar
Redecorar
Reutilizar
Reajustar
Reabrir
Ressentir
Resumir
Reacender
Reflorescer
Renascer.

Filipa Moreira da Cruz

El principio del fin

Reprise

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Una amplia sonrisa
Un olor familiar
Una carícia escondida
Un paseo a orillas del mar
Un beso fugaz
Amor a fuego lento
Yo me quedo y tu te vás
Un perfecto incompleto
Así soy yo cuando tu no estás
Dos caminos cruzados
No más portazos
¡Jamás!
Nuestros espíritus separados
En el mismo cuerpo
Dos cabezas, cuatro piernas
Estoy agotado, no puedo más
Mi corazón roto, aguenta tus penas
¿Vale la pena vivir así?
¡Dime qué estoy haciendo aquí!
Adiós, sigue tu ruta
Yo seguiré la mia
La pelea ha terminado
Y este cuento se ha acabado.

Filipa Moreira da Cruz







Felicidade

Reprise

Vou contar-te um segredo
Os homens dão a volta ao mundo
Em busca de fama e poder
E num segundo o ter aniquila o ser
Enfiam uma máscara agridoce
Uns dias sai o sol e noutros chove
De repente, o universo torna-se pequeno
A loucura engole o sereno
A alienação espezinha a razão
Colecionam-se coisas e não recordações
Brisam-se corpos e corações
E esses seres insignificantes
Esquecem-se que a vida são meros instantes
A morte, essa sim, é uma certeza
E a lenda reza
Que ninguém cá ficará
Para contar como acabará
Então, não será melhor começar a viver?
Olha ao teu redor
A felicidade tem cheiro e cor!

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz

O tempo

Photo : Filipa Moreira dac Cruz

O tempo é coisa rara
Corre a 100 à hora, nunca para
O tempo não abranda, voa
Como as gaivotas sob as colinas de Lisboa
O tempo galopa, sôfrego
E esse beijo soube-me a pouco
O tempo é o nosso eterno inimigo
O único capaz de não esquecer um sorriso
O tempo é mestre e senhor
Nos momentos de alegria e de dor
O tempo é (im)permeável
Um grito no escuro, louvável
O tempo mete cada um no seu sítio
Desconhecendo se é pobre ou rico
O tempo afaga a alma
E sussurra-lhe « vai com calma ».

Filipa Moreira da Cruz

07/10/2021

Reprise

Hoje não vou escrever nem ler.
Hoje não vou ligar o telefone.
Hoje não vou abrir o WordPress.
Hoje não vou trabalhar.
Hoje não vou passear.
Hoje não vou fazer esforços.
Hoje pode ser o início do resto da minha vida.
Ou talvez não.
Pouco importa!
Hoje estou ainda mais unida à pessoa que mais gosto.
Coincidência ou telepatia.
Longe da vista, mas muito perto do coração.
Sem sofrimento nem pieguices.
Por si. Por mim. Por nós.
Este hoje escrevi-o ontem.
Porque vir aqui já faz parte de mim.
Como uma droga.
Quase uma questão de (sobre)vivência.
Vai correr tudo bem.
Não pode ser de outra maneira.
Até amanhã!

P.S. Um ano depois, correu tudo bem!

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz

Êxodo urbano

Reprise

Photo : KaDDD

Durante vários séculos, a população trocou o campo pela cidade em busca de melhores condições de vida. Quando a terra deixava de ser fértil, voltavam-se as costas ao verde e abraçava-se o cinzento da metrópole. A tecnologia e a indústria prometiam sucesso e prosperidade. Mas nem todos se deixaram seduzir pela vida urbana e há quem não troque a paz e o sossego do campo pelo bulício da cidade.

Sou uma citadina convicta e assumida. Gosto de cidades grandes. Sinto-me bem em Nova Iorque, Paris, Londres ou Berlim. Aprecio andar de metro, visitar museus, ler nos parques, percorrer largas avenidas. No entanto, fiquei feliz por ter passado os três confinamentos na cidade onde vivo que tem apenas 50.000 habitantes. Entendo o sufoco e a ansiedade dos que ficaram encurralados entre quatro paredes porque sei o que é viver num apartamento de 45 metros quadrados. Quando somos obrigados a partilhar, 24 horas por dia, um espaço tão exíguo, o charme da cidade desaparece, mesmo que tenhamos a sorte (como eu tive!) de viver a dois passos do Arco do Triunfo.

Desde o início da pandemia, 800.000 pessoas saíram de Paris e arredores e muitos ainda não regressaram à capital francesa. Instalaram-se em cidades mais pequenas, vilas e aldeias. Ou até mesmo em casas no meio do nada. Longe do ruído e da poluição. Situação semelhante ocorreu em Londres. No ano passado, 300.000 cidadãos abandonaram a capital inglesa e a procura de casas no campo aumentou 126%.

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Muitas profissões podem ser exercidas à distância e o número de nómadas digitais tem aumentado exponencialmente. Nunca foi tão fácil trabalhar em frente ao mar ou à sombra de uma bananeira. Basta um computador e ligação à Internet! Que o digam Bali, Malta ou as ilhas Canárias. Portugal também faz parte dos destinos mais cobiçados. As empresas foram obrigadas a adaptar-se, rapidamente, à nova realidade e as capitais dos países mais desenvolvidos perderam centenas de habitantes.

Ainda é comum, entre as grandes empresas, enviar os seus quadros superiores a países distantes. Britânicos invadem Hong Kong, franceses apoderam-se do sudeste asiático, portugueses reconquistam o Brasil ou Angola. A aproximação das antigas colónias é algo natural. Os colarinhos brancos europeus (ou americanos) recebem salários chorudos, vivem em casas faustosas e as crianças frequentam colégios privados pagos a peso de ouro.

Photo : Paul Laurent Bressin

Mas este fenómeno pode estar em vias de extinção. Os nómadas digitais estão a revolucionar a realidade laboral. Instalam-se no campo ou na praia e vivem quase como os locais. Entre relatórios e reuniões à distância ainda há tempo para um mergulho no mar, uma sesta ou uma cerveja bem fresca. Relatos contados na primeira pessoa por aqueles que conheço que trocaram o céu cinzento de Paris e de Milão por uma ilha das Canárias onde já vivi e outras duas que conheço bem.

Mas nem tudo são rosas! Os nómadas digitais trazem alguns dissabores. O poder de compra destes trabalhadores estrangeiros é, muitas vezes, superior ao da população dos países que lhes estendem a passadeira vermelha e os recebem de braços abertos. Por um lado, os preços disparam. Para os locais, alugar ou comprar casa torna-se um pesadelo. Encher o carrinho das compras sai mais caro e os restaurantes passam a piscar o olho aos estrangeiros endinheirados. Por outro lado, a tão prezada tranquilidade tem os dias contados. O êxodo urbano mata o silêncio do campo e polui a praia mais paradisíaca.

Filipa Moreira da Cruz

« Faz escuro, mas eu canto »

Faz escuro
Mas eu canto
A Terra treme
Mas eu caminho
O céu está coberto de nuvens
Mas eu vejo o sol
Não há barcos
Mas eu navego
Não tenho asas
Mas eu voo
Ninguém toca no coreto
Mas eu danço
A árvore não tem flores
Mas eu sinto a fragrância da Primavera
O pomar não dá frutos
Mas eu estou saciada
Cheira a morte
Mas eu abraço a vida.

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz