Asas quebradas

Porque os homens são anjos nascidos sem asas, é o que há de mais bonito, nascer sem asas e fazê-las crescer.

José Saramago

O anjo voa, embora não tenha asas.
Quando a exaustão chega, adormece com a cabeça nas nuvens, ignorando as fortes brasas que lhe queimam os pés.
O seu corpo é um imenso mar azul.
A sua alma é dourada e leve como a areia da praia num dia de Verão.
Não sente calor nem frio.
Desconhece a fome e a sede.
Avista ao longe a cidade, mas prefere ausentar-se do seu bulício.
Todas as noites, visita os que nele acreditam e lhe encomendam doces sonhos.
Atira bem alto os medos alheios e devolve a esperança à Humanidade.

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz


Sem medo

Reprise

Photo : KaDDD

Quem tem medo não ama
Quem tem medo desanda
Quem tem medo esquece
Quem tem medo esmorece
Quem tem medo congela
Quem tem medo tagarela
Quem tem medo exclui
Quem tem medo não evolui
Quem tem medo condena
Quem tem medo ordena
Quem tem medo envelhece
Quem tem medo não esquece
Quem tem medo julga
Quem tem medo vira pulga
Quem tem medo agride
Quem tem medo não progride
Quem tem medo desespera
Quem tem medo não supera
Quem tem medo resiste
Quem tem medo apenas existe
Quem tem medo devora
Quem tem medo não chora
Quem tem medo refila
Quem tem medo exila
Quem tem medo desiste
Quem tem medo joga ao despiste
Quem tem medo balança
Quem tem medo não avança
Quem tem medo recusa-se a viver
Porque está sempre a sofrer.

Filipa Moreira da Cruz

Superstição

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Tenho um segredo
A sete chaves fechado
Numa gaveta sem fundo
Para sempre guardado
Sete dias da semana
Sete cores do arco íris
Sete notas musicais
E que mais?

Não tem importância
A vida é uma inconstância
E de nada serve
Fazer uma tempestade
Num copo de água
Um dia temos tudo
E no dia seguinte
Não temos nada

Tenho medo de gatos pretos
Não passo debaixo de escadas
Fujo do número treze
Não vá o diabo tecê-las
A quem?
Às dúvidas que pairam
Aos meus medos
Às minhas superstições.

Filipa Moreira da Cruz

Grito do Ipiranga

O homem nasceu livre e por toda a parte vive acorrentado.

Jean-Jacques Rousseau
Photo : Paul Laurent Bressin

Sonho em prosa
Escrevo em verso
A vida nem sempre é rosa
E o cérebro é perverso
Misturo línguas
Confundo expressões
Os nervos à flor da pele
Contrariam as minhas emoções
Cansei-me de pedir licença para existir
Fartei-me de caminhar nas pontas dos pés
Sapatinhos de lã invisíveis
Já não quero falar baixinho com medo de ferir
As orelhas dos mais sensíveis
A minha voz não vou calar
Abraço as situações imprevisíveis
Com audácia e sem medo
Engulo em seco o pudor
A vida deixou de ser um segredo
Confio na boa esperança
Seja o que for
Oiço o vento da mudança
Vai correr tudo bem
Não perco a fé nem a perseverança
Vai dar certo
Se Deus quiser.


Filipa Moreira da Cruz

Lado lunar

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Tu és sol, alegria, vida
A minha luz, o meu guia
Conheço o teu riso
Adoro as tuas gargalhadas
O teu humor, as tuas charadas
Está na hora de partilhares os teus medos
Quero perder-me nos teus segredos
Mais íntimos e profundos
Sejamos apenas um
Não tenhas receio
O amor também é feito
De dúvidas e incertezas
São elas que nos dão forças
Para continuar o caminho
Comigo nunca estarás sozinho
Apaixonei-me pelo teu lado solar
Mas prefiro enamorar-me do teu lado lunar.

Filipa Moreira da Cruz



Antídoto

Deixa-me rir
E da monotonia fugir
Montada num cavalo de papel
Coberto de flores e mel
Êxtase da doçura!
Céu azul pintado com ternura
Todos os dias são uma brincadeira
Com permissão para fazer asneira
Errar é aprender
Dar é receber
A vida desliza na areia molhada
E nas ondas do mar é enrolada
Medos evaporados
Segredos desvendados
Pudores disfarçados
Obstáculos superados
Aconteça o que acontecer
Seja o que Deus quiser.

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz

Casa

Lugar de aconchego
De festa e de desassossego
Lar doce lar
Onde podemos ser e estar
De pedra ou de madeira
Por uns dias ou para a vida inteira
Para dois, três, quatro, cinco ou seis
Para pobres que se sentem como reis
Ou ricos que mais parecem mendigos
De tão mal agradecidos
Azul, verde, ou branca
Aquecida pelo sol ou pela chama
De uma lareira onde nos sentamos a ler
E a contar histórias até escurecer
Guarda memórias e segredos
Abriga ilusões e medos
Oferece paz e serenidade
Seja ela no campo ou na cidade
Serve para acolher familiares e amigos
Os mais recentes e os antigos.

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz

Asas quebradas

O anjo voa, embora não tenha asas.
Quando a exaustão chega, adormece com a cabeça nas nuvens, ignorando as fortes brasas que lhe queimam os pés.
O seu corpo é um imenso mar azul.
A sua alma é dourada e leve como a areia da praia num dia de Verão.
Não sente calor nem frio.
Desconhece a fome e a sede.
Avista ao longe a cidade, mas prefere ausentar-se do seu bulício.
Todas as noites, visita os que nele acreditam e lhe encomendam doces sonhos.
Atira bem alto os medos alheios e devolve a esperança à Humanidade.

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz


Grito do Ipiranga

Photo : Paul Laurent Bressin

O homem nasceu livre e por toda a parte vive acorrentado.

Jean-Jacques Rousseau

Sonho em prosa
Escrevo em verso
A vida nem sempre é rosa
E o cérebro é perverso
Misturo línguas
Confundo expressões
Os nervos à flor da pele
Contrariam as minhas emoções
Cansei-me de pedir licença para existir
Fartei-me de caminhar nas pontas dos pés
Sapatinhos de lã invisíveis
Já não quero falar baixinho com medo de ferir
As orelhas dos mais sensíveis
A minha voz não vou calar
Abraço as situações imprevisíveis
Com audácia e sem medo
Engulo em seco o pudor
A vida deixou de ser um segredo
Confio na boa esperança
Seja o que for
Oiço o vento da mudança
Vai correr tudo bem
Não perco a fé nem a perseverança
Vai dar certo
Se Deus quiser.


Filipa Moreira da Cruz

Sem medo

Photo : KaDDD

Quem tem medo não ama
Quem tem medo desanda
Quem tem medo esquece
Quem tem medo esmorece
Quem tem medo congela
Quem tem medo tagarela
Quem tem medo exclui
Quem tem medo não evolui
Quem tem medo condena
Quem tem medo ordena
Quem tem medo envelhece
Quem tem medo não esquece
Quem tem medo julga
Quem tem medo vira pulga
Quem tem medo agride
Quem tem medo não progride
Quem tem medo desespera
Quem tem medo não supera
Quem tem medo resiste
Quem tem medo apenas existe
Quem tem medo devora
Quem tem medo não chora
Quem tem medo refila
Quem tem medo exila
Quem tem medo desiste
Quem tem medo joga ao despiste
Quem tem medo balança
Quem tem medo não avança
Quem tem medo recusa-se a viver
Porque está sempre a sofrer.

Filipa Moreira da Cruz