Depende

Reprise

Photo : KaDDD

Dizem que a água não tem sabor nem cheiro
Depende…
Dizem que os rios vão dar ao mar
Depende…
Dizem que depois da vida só há morte
Depende…
Dizem que quando o sol dorme a lua desperta
Depende…
Dizem que um dia somos crianças e, de repente, chegamos a velhos
Depende…
Dizem que depois da tempestade vem a bonança
Depende…
Dizem que ninguém morre por amor
Depende…
Dizem que dois mais dois são quatro
Depende…
Dizem que a felicidade é uma ilusão
Depende…
Dizem que os sonhos não alimentam a vida
Depende…
Dizem que a arte não mata a fome
Depende…
Dizem que não há mal que dure para sempre
Depende…
Dizem que enquanto há vida, há esperança
Depende…
Dizem tanto e fazem tão pouco
Depende…

Filipa Moreira da Cruz

Felicidade

Reprise

Vou contar-te um segredo
Os homens dão a volta ao mundo
Em busca de fama e de poder
E num segundo o ter aniquila o ser
A humanidade enfia uma máscara agridoce
Uns dias sai o sol e noutros chove
De repente, o universo torna-se pequeno
A loucura engole o sereno
A alienação espezinha a razão
Colecionam-se coisas e não recordações
Brisam-se corpos e corações
E esses seres insignificantes
Esquecem-se que a vida são meros instantes
A morte, essa sim, é uma certeza
E a lenda reza
Que ninguém cá ficará
Para contar como acabará
Então, não será melhor começar a viver?
Olha ao teu redor
A felicidade tem cheiro e cor!

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz

A morte pode esperar

Reprise

A vida não corre, voa
E matamos o tempo à toa
Conversa fiada
Gentinha abusada
Pensamentos mesquinhos
Sentimentos reprimidos
Para quê?
O coração sente, mas não vê
E pouco adianta sonhar
Se nunca vamos acreditar
Que melhor é possível
Cada dia é imprevisível
Não basta querer
Temos que fazer acontecer
Viver é aqui e agora
Para a morte não há hora.

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz

As voltas da vida

Photo : Paul Laurent Bressin

É cão, é gato, é pulga e comichão
É uma casa de loucos onde reina a confusão
É fora, é dentro, é sempre a andar
É amor, é alegria, é crescer e partilhar

Vida emocionante e repleta de aventuras
É a desta criança sempre a fazer travessuras

É calor, é sol, é praia e muitos gelados
É a chuva miudinha a deslizar no telhado
É um corropio, é o fim da picada
É o eterno romântico ao lado da sua amada

Vida apaixonante e cheia de aventuras
É a deste jovem que continua a fazer travessuras

É responsabilidade, é trabalho e dinheiro
É um lugar à sombra num mundo muito feio
É esforço, é suor, é escravidão e dedicação
É a falta de concentração para a meditação

Pseudo-vida carente de aventuras
É a deste homem que não tem tempo para fazer travessuras

É tristeza, é desespero, é recusa e solidão
É falta de gente que lhe encha o coração
É medo da doença com cheiro a morte
É deixar de viver, abandonando-se à sua sorte

Fim de vida triste e sem aventuras
É a deste homem que deixou, há muito, de fazer travessuras.

Filipa Moreira da Cruz



Ser poeta

Dia Mundial da Poesia

Ser Poeta é ser mais alto, é ser maior do que os homens!

Florbela Espanca
Photo : Filipa Moreira da Cruz

Ser poeta é ser um todo
Pleno e infinito
Brilhante como as estrelas
E triste como a noite sem elas

O poeta sonha, sempre
E quando o desejo perturba a mente
Ousa pensar que a lua
É apenas sua

Ser poeta é ser diferente
Fazer das tripas coração
Ter a alma na palma da mão
Desejar viver para sempre

O poeta é dia e noite
Ao mesmo tempo
E o seu espírito
Está em constante movimento

Ser poeta é deixar de ter
Saciar-se no papel
E no deslizar de uma caneta
Resistir para nunca morrer.

Filipa Moreira da Cruz

De passagem

O corpo é apenas um empréstimo para a vida terrestre.
Veste o espírito.
Agasalha a mente.
A alma, essa, é imortal.

Sonhos (im)possíveis

Difícil é saber de frente a tua morte
E não te esperar nunca mais nos espelhos da bruma.

Sophia de Mello Breyner

Ali vimos a veemência do visível
O aparecer total exposto inteiro
E aquilo que nem sequer ousáramos sonhar
Era o verdadeiro.

Sophia de Mello Breyner

Photos : Filipa Moreira da Cruz

Bem devagar

Reprise

Photo : KaDDD

Temos pressa de nascer
De crescer e de ser gente grande
Somos todos escravos
Dessa estúpida ansiedade
De desaprender sem antes errar

De chegar bem alto
Sem nunca ter caído
De ser o primeiro sem tropeçar
De ir sempre mais longe
Sem sequer tentar

Pressa de ter e de gastar
De trabalhar e de espezinhar
E de ganhar, sim de ganhar
Pressa de viver
Será?

E quando a morte chega
De mansinho e sem avisar
Já é tarde para darmo-nos conta
Que afinal podíamos ter vivido
Simplesmente bem devagar.

Filipa Moreira da Cruz

A magia do momento

Ali vimos a veemência do visível
O aparecer total exposto inteiro
E aquilo que nem sequer ousáramos sonhar
Era o verdadeiro.

Sophia de Mello Breyner

Difícil é saber de frente a tua morte
E não te esperar nunca mais nos espelhos da bruma.

Sophia de Mello Breyner

Photos : Filipa Moreira da Cruz

Felicidade

Vou contar-te um segredo
Os homens dão a volta ao mundo
Em busca de fama e poder
E num segundo o ter aniquila o ser
Enfiam uma máscara agridoce
Uns dias sai o sol e noutros chove
De repente, o universo torna-se pequeno
A loucura engole o sereno
A alienação espezinha a razão
Colecionam-se coisas e não recordações
Brisam-se corpos e corações
E esses seres insignificantes
Esquecem-se que a vida são meros instantes
A morte, essa sim, é uma certeza
E a lenda reza
Que ninguém cá ficará
Para contar como acabará
Então, não será melhor começar a viver?
Olha ao teu redor
A felicidade tem cheiro e cor!

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz