Sonhos (im)possíveis

Difícil é saber de frente a tua morte
E não te esperar nunca mais nos espelhos da bruma.

Sophia de Mello Breyner

Ali vimos a veemência do visível
O aparecer total exposto inteiro
E aquilo que nem sequer ousáramos sonhar
Era o verdadeiro.

Sophia de Mello Breyner

Photos : Filipa Moreira da Cruz

Bem devagar

Reprise

Photo : KaDDD

Temos pressa de nascer
De crescer e de ser gente grande
Somos todos escravos
Dessa estúpida ansiedade
De desaprender sem antes errar

De chegar bem alto
Sem nunca ter caído
De ser o primeiro sem tropeçar
De ir sempre mais longe
Sem sequer tentar

Pressa de ter e de gastar
De trabalhar e de espezinhar
E de ganhar, sim de ganhar
Pressa de viver
Será?

E quando a morte chega
De mansinho e sem avisar
Já é tarde para darmo-nos conta
Que afinal podíamos ter vivido
Simplesmente bem devagar.

Filipa Moreira da Cruz

A magia do momento

Ali vimos a veemência do visível
O aparecer total exposto inteiro
E aquilo que nem sequer ousáramos sonhar
Era o verdadeiro.

Sophia de Mello Breyner

Difícil é saber de frente a tua morte
E não te esperar nunca mais nos espelhos da bruma.

Sophia de Mello Breyner

Photos : Filipa Moreira da Cruz

Felicidade

Vou contar-te um segredo
Os homens dão a volta ao mundo
Em busca de fama e poder
E num segundo o ter aniquila o ser
Enfiam uma máscara agridoce
Uns dias sai o sol e noutros chove
De repente, o universo torna-se pequeno
A loucura engole o sereno
A alienação espezinha a razão
Colecionam-se coisas e não recordações
Brisam-se corpos e corações
E esses seres insignificantes
Esquecem-se que a vida são meros instantes
A morte, essa sim, é uma certeza
E a lenda reza
Que ninguém cá ficará
Para contar como acabará
Então, não será melhor começar a viver?
Olha ao teu redor
A felicidade tem cheiro e cor!

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz

Morte certa, mas sem hora marcada

Photo : Filipa Moreira da Cruz

A minha irmã avisou-me e eu pensei estar preparada. Enganei-me. E o choque foi imenso quando vi a minha mãe (ainda jovem e cheia de vida) tão magra e debilitada, deitada na cama do hospital. Parecia uma boneca de porcelana, com a tez esbranquiçada e o corpo mirrado. Ou um copo de cristal que, só de olharmos, temos medo de quebrar em mil pedaços.

Hospitais já esteve em três: o de Tomar, o de Abrantes e o de Torres Novas, onde a fui visitar. Aproveito, em seu nome, para agradecer às equipas de médicos, enfermeiros e auxiliares de saúde pelo esforço, carinho e dedicação, principalmente deste último que conhece melhor. A minha mãe não podia estar em melhores mãos. Confessou-me que só por isso já valeu a pena ter saído de Lisboa, cidade onde viveu até aos 62 anos. No IPO o tratamento é outro, não por falta de vontade (antes pelo contrário!), mas por escassez de meios e excesso de doentes.

Nas fotografias parece composta e mostra sempre um sorriso. Faz um esforço descomunal para fingir que está tudo bem. Os que a conhecemos bem, sabemos que é forte e resiliente. Encara as adversidades sem rodeios. Mas desta vez, é mais grave. Os dois cancros anteriores são uma brincadeira comparados com o que lhe caiu em cima.

As constantes precauções não conseguiram evitar que fosse infetada com a Covid e, como não melhorava, acabou por ser hospitalizada durante três semanas. Os médicos dizem que, por um lado, o vírus acelerou a doença e, por outro, permitiu descobrir as inúmeras metastáses espalhadas pelo corpo.

Photo : KaDDD

Esta « doença prolongada » que corrói o corpo, esvazia a alma e arrasta toda a família tem um nome feio e múltiplos rostos. Porque não há duas pessoas iguais. O cancro aloja-se em qualquer lado e desafia o ser mais perseverante e otimista. Felizmente, muitos são curáveis, mas nem todos têm um final feliz. Quanto aos prognósticos, só mesmo no final do jogo, como dizia o outro. Nenhum médico se atreve a fazer antevisões. Até porque os milagres ocorrem todos os dias.

E o que fazer? Esmorecer até ao derradeiro sopro? Viver em sobressalto com medo do telefonema que nos anuncia o pior? Nem pensar! A única certeza é que só existe o agora, por isso, mais vale aproveitar cada momento, sem dor nem sofrimento. Obviamente, é mais fácil dizer (neste caso, escrever) que fazer. E sei por experiência. Mas quem nos garante que a morte não chega como um raio, disfarçada de um súbito enfarte ou um acidente de carro?

A vida é frágil e efémera. Um dia estamos aqui e no outro… Nascemos e morremos, é uma evidência. Mas isso não significa que tenhamos que contar os segundos para o derradeiro final, mesmo que estejamos num beco sem saída. Os que se apagam devido à tal « doença prolongada » (algo cada vez mais banal) têm o direito de desfrutar do tempo que lhes resta com dignidade.

Para os que acreditam na vida eterna (como a minha mãe), é mais fácil e natural encarar o que se segue. A morte não é um fim, mas o meio para chegar ao outro mundo. O tempo passado na Terra é um breve suspiro, comparado com a Eternidade que nos espera. Oxalá, pudéssemos partir todos em paz.

Filipa Moreira da Cruz

Depende

Photo : KaDDD

Dizem que a água não tem sabor nem cheiro
Depende…
Dizem que os rios vão dar ao mar
Depende…
Dizem que depois da vida só há morte
Depende…
Dizem que quando o sol dorme a lua desperta
Depende…
Dizem que um dia somos crianças e, de repente, chegamos a velhos
Depende…
Dizem que depois da tempestade vem a bonança
Depende…
Dizem que ninguém morre por amor
Depende…
Dizem que dois mais dois são quatro
Depende…
Dizem que a felicidade é uma ilusão
Depende…
Dizem que os sonhos não alimentam a vida
Depende…
Dizem que a arte não mata a fome
Depende…
Dizem que não há mal que dure para sempre
Depende…
Dizem que enquanto há vida, há esperança
Depende…
Dizem tanto e fazem tão pouco
Depende…

Filipa Moreira da Cruz

A morte pode esperar

A vida não corre, voa
E matamos o tempo à toa
Conversa fiada
Gentinha abusada
Pensamentos mesquinhos
Sentimentos reprimidos
Para quê?
O coração sente, mas não vê
E pouco adianta sonhar
Se nunca vamos acreditar
Que melhor é possível
Cada dia é imprevisível
Não basta querer
Temos que fazer acontecer
Viver é aqui e agora
Para a morte não há hora.

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz

Crónica de um país desamparado

Photo : KaDDD

As últimas semanas em França foram tudo menos monótonas. O país começou a desconfinar-se no dia 3 de Maio. Este processo vai decorrer em quatro fases e a vida de antes (que nunca será totalmente igual) só será recuperada a partir de 30 de Junho. Até lá, continuaremos a caminhar a passinhos de bebé e em pézinhos de lã. Mas as diversas notícias que encheram as páginas da imprensa e abriram os jornais televisivos ocorreram ainda durante o confinamento.

Vamos aos factos, por ordem cronológica:

A 14 de Abril ficamos a saber que Kobili Traoré não será julgado pelo assassinato de Sarah Halimi, cidadã judia de 65 anos. O crime ocorreu em Abril de 2017. Nesse dia, o cidadão muçulmano, de 27 anos, espancou e empurrou a vizinha pela janela do terceiro andar, gritando « Allah Akbar » e « eu matei o sheitan (Diabo) ». O juíz decidiu inocentar o assassino alegando que este estava em estado psicótico devido ao consumo de droga. A opinião pública ficou perplexa e revoltada. Foram organizadas manifestações nas principais cidades do país. Muitos perguntam qual teria sido a decisão se tivesse sido um judeu a matar um muçulmano. Uma dúvida legítima num país onde ainda ocorrem crimes antissemitas. A insegurança sentida pela comunidade judaica tem originado uma diáspora massiva. Entre 2000 e 2017 55.049 judeus trocaram França por Israel. Tenho duas amigas que decidiram levar a família para Haifa e Tel-Aviv e não se arrependem.

22 de Abril foi mais ligeiro e divertido. Nesta data, o primeiro-ministro francês, Jean Castex, recebeu 200 cuecas que lhe foram enviadas por 500 comerciantes independentes. Esta iniciativa surgiu através do Facebook e pretendia exigir a abertura imediata do comércio local. O movimento dos « 200 culottes » inspirou-se num outro que ocorreu no início da Revolução Francesa. Em 1789, os « sans-culottes » (sem cuecas) manifestaram-se vestidos de calças compridas e largas, opondo-se às tradicionais calças curtas e justas (culottes) usadas pela aristocracia. Espero que tenham acertado no tamanho das cuecas da mulher do primeiro-ministro. Seria uma pena desperdiçar tanta lingerie!

23 de Abril foi marcado por um acontecimento trágico. Nesse dia, uma funcionária da Polícia de Rambouillet (perto de Paris), foi assassinada por um cidadão tunisino. O modus operandi não é desconhecido das autoridades. Os terroristas não procuram ser originais, mas sim eficazes. Jamel G. serviu-se de uma faca para degolar a vítima, não sem antes gritar « Allah Akbar ». O terrorista, de 36 anos, foi abatido de imediato. A família diz que sofria de depressão. Uma singela forma de justificar a radicalização islamista que o fez passar ao ato monstruoso. Stéphanie M. trabalhava na polícia há 28 anos, tinha 49 anos e dois filhos de 13 e 18 anos. O mais triste é que os ataques terroristas em França são tão frequentes que quase não provocam comoção.

Fecho esta cronologia com uma nota positiva. Na manhã de 23 de Abril, na Florida, o astronauta francês, Thomas Pesquet, embarcou na cápsula Crew Dragon Endeavour para explorar a adaptação do corpo humano no espaço. A missão Alpha vai durar seis meses e Pesquet, que já integrou outras missões, é a coqueluche do país que vê nele o herói capaz de devolver a esperança à nação. A estrela internacional, fortemente elogiada pela NASA, tem um vasto clube de fãs que vão dos 5 aos 101 anos.

Mas enquanto todos estão com a cabeça na lua e a sonhar com Marte, quem é que se preocupa com o sofrimento na Terra?

Filipa Moreira da Cruz

Felicidade

Vou contar-te um segredo
Os homens dão a volta ao mundo
Em busca de fama e de poder
E num segundo o ter aniquila o ser
A humanidade enfia uma máscara agridoce
Uns dias sai o sol e noutros chove
De repente, o universo torna-se pequeno
A loucura engole o sereno
A alienação espezinha a razão
Colecionam-se coisas e não recordações
Brisam-se corpos e corações
E esses seres insignificantes
Esquecem-se que a vida são meros instantes
A morte, essa sim, é uma certeza
E a lenda reza
Que ninguém cá ficará
Para contar como acabará
Então, não será melhor começar a viver?
Olha ao teu redor
A felicidade tem cheiro e cor!

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz

Se não for Covid, pode esperar?!

Photo : KaDDD

Há uns dias ligou-me uma amiga. Finalmente (pensei)! A última vez que falamos ao telefone foi no início do ano. Depois dessa data enviei-lhe várias mensagens, mas nunca obtive nenhuma resposta. Quando atendi o telefone apressou-se a desculpar-se dizendo-me que estava muito ocupada. Com o quê? Não tem filhos e está em layoff desde novembro. Obviamente que estas ilações não foram pronunciadas em voz alta. Tento sempre evitar juízos de valor antes de conhecer a situação. Ainda bem que o fiz.

A Louise soube, em Fevereiro, que tem um cancro do cólon e começou, pouco depois, os tratamentos. Três vezes por semana, a ambulância vai buscá-la a casa para as sessões de radioterapia. O cateter já foi colocado para a quimioterapia que se segue. O médico disse-lhe que foi diagnosticada a tempo, mas lamentou que a paciente não tivesse ido à consulta desde o aparecimento dos primeiros sintomas. A minha amiga relembrou-lhe que o rendez-vous foi adiado três vezes por causa da « crise sanitária ».

Não pude deixar de pensar na minha mãe. Tal como a Louise, também ela não gosta de incomodar os outros com aspetos ligados à saúde e raramente se queixa. Quando me ligou para anunciar-me que tinha um cancro (o primeiro) disse-me: « estou com um probleminha ». Eu perdi o chão, faltou-me o ar. Fiquei sem palavras. Algo que acontece raramente. Na altura, vivia em Paris e estava a ponto de mudar-me, com a família, para a Nova Caledónia. O meu marido acabou por recusar a oferta de trabalho. Estava fora de questão ir viver para o outro lado do mundo.

A situação repetiu-se, mas eu não fui atrás da história da Carochinha. Quando a minha mãe me voltou a anunciar outro probleminha apanhei o avião e conversamos na sala da casa em Alvalade, pouco tempo depois de ter aterrado. Uma das vantagens de ter um aeroporto dentro da cidade. Acompanhei-a ao médico na Avenida de Roma e a uma consulta no IPO, onde fiquei na sala de espera. Desta vez, a minha mãe foi tratada exclusivamente no hospital público, o que a fez respirar de alívio por razões económicas e, sobretudo, humanas. Os serviços privados, muitas vezes, dão-se ares de hotéis de cinco estrelas esquecendo-se que os pacientes não precisam de room service 24 horas ou de um concierge, mas sim de quem cuide deles.

A Louise não tem outro remédio que ser seguida numa clínica privada porque a prioridade dos hospitais públicos ainda é a Covid. Felizmente, ela tem um bom seguro de saúde. Mas e se não fosse o caso? Como se tratam, neste momento, as pessoas que não têm dinheiro? Quantas operações foram adiadas? Quantas cáries não foram tratadas? (Espero que não seja o meu caso porque tenho pânico do dentista!) Quantos cancros não serão diagnosticados a tempo? Deixámos de ter direito a estar doentes. Só somos considerados seres humanos que necessitam assistência médica enquanto tivermos o vírus. Assim que o resultado for negativo deixamos de ser importantes aos olhos da medicina, ignorando-se os sintomas que persistem. Escrevo-o com conhecimento de causa.

Filipa Moreira da Cruz