Grito do Ipiranga

O homem nasceu livre e por toda a parte vive acorrentado.

Jean-Jacques Rousseau
Photo : Paul Laurent Bressin

Sonho em prosa
Escrevo em verso
A vida nem sempre é rosa
E o cérebro é perverso
Misturo línguas
Confundo expressões
Os nervos à flor da pele
Contrariam as minhas emoções
Cansei-me de pedir licença para existir
Fartei-me de caminhar nas pontas dos pés
Sapatinhos de lã invisíveis
Já não quero falar baixinho com medo de ferir
As orelhas dos mais sensíveis
A minha voz não vou calar
Abraço as situações imprevisíveis
Com audácia e sem medo
Engulo em seco o pudor
A vida deixou de ser um segredo
Confio na boa esperança
Seja o que for
Oiço o vento da mudança
Vai correr tudo bem
Não perco a fé nem a perseverança
Vai dar certo
Se Deus quiser.


Filipa Moreira da Cruz

Mudança

Photo : Paul Laurent Bressin

Cidade perdida no meio de um continente
Gente apressada, sol quente
Vento ofegante
Humor inconstante
País que vive contra a corrente
Esperança perdida para sempre
Mente ausente
Receio permanente
Pensamentos arbitrários
Donos do mundo autoritários
Inseguranças, devaneios
Esquemas alheios
Labirinto de questões
Múltiplas opções
Ficar não é solução
Partir é fruto da imaginação
Sonhos encurralados
Destroçados, espezinhados
Que fazer?
Basta querer!
Mudar tudo!
A vida morre num segundo.

Filipa Moreira da Cruz

Quando a Primavera chegar

É difícil ter certezas quando se fala das razões do coração.

Antonio Tabucchi
Photo : Paul Laurent Bressin

Quando a Primavera chegar
Eu sei que vou aqui estar
Quando a Primavera chegar
Eu sei que vou ser capaz de perdoar
Quando a Primavera chegar
Eu sei que estarei pronta para amar
Quando a Primavera chegar
Eu sei que vou querer desfrutar
Quando a Primavera chegar
Eu sei que vou acreditar
Quando a Primavera chegar
Eu sei que vou mudar
Quando a Primavera chegar
Eu sei que dos outros vou cuidar
Se a Primavera não chegar
Talvez eu queira migrar.

Filipa Moreira da Cruz

Manto branco

Reprise

Um fino véu branco cobriu o mundo
Enquanto dormiamos um sono profundo
Ruas, vilas, prédios, objetos, casas
Planícies, montanhas, rios, estradas
Todas as outras cores são uma ilusão
Existem apenas na nossa imaginação
Branca é a vida e a esperança
De branca se veste a confiança
Num planeta mais humano
Onde o divino beija o profano
Brancas são também as questões
Fruto das nossas constantes reflexões
E brancas serão talvez as propostas
Se não nos empenharmos em encontrar respostas.

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz, KaDDD e Paul Laurent Bressin

A história do Senhor Não

Reprise

Photo : KaDDD

Era uma vez um homem carrancudo, sisudo, mal humorado. Comum, banal, igual a tantos outros. Carrageva o mundo nos ombros e as suas pernas começavam a fraquejar. Vestia-se de preto porque a vida não estava para outras cores. Este homem tinha uma particularidade capaz de o distinguir de todos os outros seres humanos: dizia sempre não.

Não tinha fome, não tinha sede, não tinha frio. Não tinha amigos, não tinha família, não tinha vida. Não tinha sentimentos, não tinha penas, não tinha tristezas. Não tinha amor, não tinha humor, não tinha alegrias. Estava seco e vazio.

Certo dia, adoeceu. Ficou aflito de tão lívido. Assustado, perguntou ao médico:

– É grave doutor? Não tem solução?

– Tem cura. Basta dizer sim!

– Sim?!

– Sim.

Ao chegar a casa cruzou-se com a vizinha nas escadas. E quando esta lhe perguntou:

– Tem tempo para um chá?

Após uma longa hesitação o senhor não respondeu:

– Sim.

No dia seguinte, a vizinha arriscou:

– Está um bonito dia. Apetece-lhe dar um passeio?

Para seu espanto, a resposta foi imediata:

– Sim!

As folhas secas cobriam o chão. O sol era tímido. Mas eles não tremiam. Soltavam gargalhadas, partilhavam castanhas e confidências. O inverno chegou, frio, seco, austero, mas não havia nada a fazer. O senhor Não já tinha sofrido a metamorfose. Deixara de ser lagarta para ser borboleta. Soltou asas e voou. A sua vida ganhou cor.

E ele sentiu-se mais leve e solto. As suas pernas recuperaram força, as costas endireitaram-se, a cabeça ergueu-se e quando o homem olhou para o céu a luz inundou o seu rosto. Se ele soubesse, teria dito sim há mais tempo.

Hoje, velhinho e com cabelos brancos, conta aos seus netos a história do senhor não. E quando termina pergunta-lhes:

– Querem ouvir outra vez?

Os netos respondem em uníssono:

– Sim!

Filipa Moreira da Cruz

Para si mãe

Photo : Margarida Moreira da Cruz

Querida mãe,
Enviou-me esta fotografia da terra que a acolheu
E eu recebo-a com o carinho que sempre me deu
Estes versos são insignificantes
Mas sabe que o amor, esse, é eterno e constante
Regado diariamente com alegria e resiliência
Alheio a futilidades e prepotência
O castelo vigia, do alto da colina
A cidade que é sua e quase minha
E a adorada calçada portuguesa
Tão nossa e cheia de beleza
Traz-me de volta a casa
Sou afortunada!
A água do Nabão corre sem pudor
Dizendo-nos « seja o que for »
As saudades, companheiras eternas
São dolorosas e, ao mesmo tempo, fraternas
Dão-me força e esperança
Vivamos o agora sem medo da mudança.

Filipa Moreira da Cruz

Sentir a vida

Tem cor a tristeza?
Tem cheiro a solidão?
Tem sabor a beleza?
Tem melodia a gratidão?
Tem princípio a mudança?
Tem fim a saudade?
Tem sentido a vingança?
Tem mérito a realidade?
Tem saída o labirinto?
Tem janela o coração?
Tem importância o que sinto?
Tem brisa o dia de Verão?
Tem alma a dor?
Tem asas a vitória?
Tem corpo o pudor?
Tem lógica esta história?

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz

Mudança

Photo : Paul Laurent Bressin

Cidade perdida no meio de um continente
Gente apressada, sol quente
Vento ofegante
Humor inconstante
País que vive contra a corrente
Esperança perdida para sempre
Mente ausente
Receio permanente
Pensamentos arbitrários
Donos do mundo autoritários
Inseguranças, devaneios
Esquemas alheios
Labirinto de questões
Múltiplas opções
Ficar não é solução
Partir é fruto da imaginação
Sonhos encurralados
Destroçados, espezinhados
Que fazer?
Basta querer!
Mudar tudo!
A vida morre num segundo.

Filipa Moreira da Cruz

Grito do Ipiranga

Photo : Paul Laurent Bressin

O homem nasceu livre e por toda a parte vive acorrentado.

Jean-Jacques Rousseau

Sonho em prosa
Escrevo em verso
A vida nem sempre é rosa
E o cérebro é perverso
Misturo línguas
Confundo expressões
Os nervos à flor da pele
Contrariam as minhas emoções
Cansei-me de pedir licença para existir
Fartei-me de caminhar nas pontas dos pés
Sapatinhos de lã invisíveis
Já não quero falar baixinho com medo de ferir
As orelhas dos mais sensíveis
A minha voz não vou calar
Abraço as situações imprevisíveis
Com audácia e sem medo
Engulo em seco o pudor
A vida deixou de ser um segredo
Confio na boa esperança
Seja o que for
Oiço o vento da mudança
Vai correr tudo bem
Não perco a fé nem a perseverança
Vai dar certo
Se Deus quiser.


Filipa Moreira da Cruz

Manto branco

Um fino véu branco cobriu o mundo
Enquanto dormiamos um sono profundo
Ruas, vilas, prédios, objetos, casas
Planícies, montanhas, rios, estradas
Todas as outras cores são uma ilusão
Existem apenas na nossa imaginação
Branca é a vida e a esperança
De branca se veste a confiança
Num planeta mais humano
Onde o divino beija o profano
Brancas são também as questões
Fruto das nossas constantes reflexões
E brancas serão talvez as propostas
Se não nos empenharmos em encontrar respostas.

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz, KaDDD et Paul Laurent Bressin