Êxodo urbano

Photo : KaDDD

Durante vários séculos, a população trocou o campo pela cidade em busca de melhores condições de vida. Quando a terra deixava de ser fértil, voltavam-se as costas ao verde e abraçava-se o cinzento da metrópole. A tecnologia e a indústria prometiam sucesso e prosperidade. Mas nem todos se deixaram seduzir pela vida urbana e há quem não troque a paz e o sossego do campo pelo bulício da cidade.

Sou uma citadina convicta e assumida. Gosto de cidades grandes. Sinto-me bem em Nova Iorque, Paris, Londres ou Berlim. Aprecio andar de metro, visitar museus, ler nos parques, percorrer largas avenidas. No entanto, fiquei feliz por ter passado os três confinamentos na cidade onde vivo que tem apenas 50.000 habitantes. Entendo o sufoco e a ansiedade dos que ficaram encurralados entre quatro paredes porque sei o que é viver num apartamento de 45 metros quadrados. Quando somos obrigados a partilhar, 24 horas por dia, um espaço tão exíguo, o charme da cidade desaparece, mesmo que tenhamos a sorte (como eu tive!) de viver a dois passos do Arco do Triunfo.

Desde o início da pandemia, 800.000 pessoas saíram de Paris e arredores e muitos ainda não regressaram à capital francesa. Instalaram-se em cidades mais pequenas, vilas e aldeias. Ou até mesmo em casas no meio do nada. Longe do ruído e da poluição. Situação semelhante ocorreu em Londres. No ano passado, 300.000 cidadãos abandonaram a capital inglesa e a procura de casas no campo aumentou 126%.

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Muitas profissões podem ser exercidas à distância e o número de nómadas digitais tem aumentado exponencialmente. Nunca foi tão fácil trabalhar em frente ao mar ou à sombra de uma bananeira. Basta um computador e ligação à Internet! Que o digam Bali, Malta ou as ilhas Canárias. Portugal também faz parte dos destinos mais cobiçados. As empresas foram obrigadas a adaptar-se, rapidamente, à nova realidade e as capitais dos países mais desenvolvidos perderam centenas de habitantes.

Ainda é comum, entre as grandes empresas, enviar os seus quadros superiores a países distantes. Britânicos invadem Hong Kong, franceses apoderam-se do sudeste asiático, portugueses reconquistam o Brasil ou Angola. A aproximação das antigas colónias é algo natural. Os colarinhos brancos europeus (ou americanos) recebem salários chorudos, vivem em casas faustosas e as crianças frequentam colégios privados pagos a peso de ouro.

Photo : Paul Laurent Bressin

Mas este fenómeno pode estar em vias de extinção. Os nómadas digitais estão a revolucionar a realidade laboral. Instalam-se no campo ou na praia e vivem quase como os locais. Entre relatórios e reuniões à distância ainda há tempo para um mergulho no mar, uma sesta ou uma cerveja bem fresca. Relatos contados na primeira pessoa por aqueles que conheço que trocaram o céu cinzento de Paris e de Milão por uma ilha das Canárias onde já vivi e outras duas que conheço bem.

Mas nem tudo são rosas! Os nómadas digitais trazem alguns dissabores. O poder de compra destes trabalhadores estrangeiros é, muitas vezes, superior ao da população dos países que lhes estendem a passadeira vermelha e os recebem de braços abertos. Por um lado, os preços disparam. Para os locais, alugar ou comprar casa torna-se um pesadelo. Encher o carrinho das compras sai mais caro e os restaurantes passam a piscar o olho aos estrangeiros endinheirados. Por outro lado, a tão prezada tranquilidade tem os dias contados. O êxodo urbano mata o silêncio do campo e polui a praia mais paradisíaca.

Filipa Moreira da Cruz

Crónica de um país desamparado

Photo : KaDDD

As últimas semanas em França foram tudo menos monótonas. O país começou a desconfinar-se no dia 3 de Maio. Este processo vai decorrer em quatro fases e a vida de antes (que nunca será totalmente igual) só será recuperada a partir de 30 de Junho. Até lá, continuaremos a caminhar a passinhos de bebé e em pézinhos de lã. Mas as diversas notícias que encheram as páginas da imprensa e abriram os jornais televisivos ocorreram ainda durante o confinamento.

Vamos aos factos, por ordem cronológica:

A 14 de Abril ficamos a saber que Kobili Traoré não será julgado pelo assassinato de Sarah Halimi, cidadã judia de 65 anos. O crime ocorreu em Abril de 2017. Nesse dia, o cidadão muçulmano, de 27 anos, espancou e empurrou a vizinha pela janela do terceiro andar, gritando « Allah Akbar » e « eu matei o sheitan (Diabo) ». O juíz decidiu inocentar o assassino alegando que este estava em estado psicótico devido ao consumo de droga. A opinião pública ficou perplexa e revoltada. Foram organizadas manifestações nas principais cidades do país. Muitos perguntam qual teria sido a decisão se tivesse sido um judeu a matar um muçulmano. Uma dúvida legítima num país onde ainda ocorrem crimes antissemitas. A insegurança sentida pela comunidade judaica tem originado uma diáspora massiva. Entre 2000 e 2017 55.049 judeus trocaram França por Israel. Tenho duas amigas que decidiram levar a família para Haifa e Tel-Aviv e não se arrependem.

22 de Abril foi mais ligeiro e divertido. Nesta data, o primeiro-ministro francês, Jean Castex, recebeu 200 cuecas que lhe foram enviadas por 500 comerciantes independentes. Esta iniciativa surgiu através do Facebook e pretendia exigir a abertura imediata do comércio local. O movimento dos « 200 culottes » inspirou-se num outro que ocorreu no início da Revolução Francesa. Em 1789, os « sans-culottes » (sem cuecas) manifestaram-se vestidos de calças compridas e largas, opondo-se às tradicionais calças curtas e justas (culottes) usadas pela aristocracia. Espero que tenham acertado no tamanho das cuecas da mulher do primeiro-ministro. Seria uma pena desperdiçar tanta lingerie!

23 de Abril foi marcado por um acontecimento trágico. Nesse dia, uma funcionária da Polícia de Rambouillet (perto de Paris), foi assassinada por um cidadão tunisino. O modus operandi não é desconhecido das autoridades. Os terroristas não procuram ser originais, mas sim eficazes. Jamel G. serviu-se de uma faca para degolar a vítima, não sem antes gritar « Allah Akbar ». O terrorista, de 36 anos, foi abatido de imediato. A família diz que sofria de depressão. Uma singela forma de justificar a radicalização islamista que o fez passar ao ato monstruoso. Stéphanie M. trabalhava na polícia há 28 anos, tinha 49 anos e dois filhos de 13 e 18 anos. O mais triste é que os ataques terroristas em França são tão frequentes que quase não provocam comoção.

Fecho esta cronologia com uma nota positiva. Na manhã de 23 de Abril, na Florida, o astronauta francês, Thomas Pesquet, embarcou na cápsula Crew Dragon Endeavour para explorar a adaptação do corpo humano no espaço. A missão Alpha vai durar seis meses e Pesquet, que já integrou outras missões, é a coqueluche do país que vê nele o herói capaz de devolver a esperança à nação. A estrela internacional, fortemente elogiada pela NASA, tem um vasto clube de fãs que vão dos 5 aos 101 anos.

Mas enquanto todos estão com a cabeça na lua e a sonhar com Marte, quem é que se preocupa com o sofrimento na Terra?

Filipa Moreira da Cruz

Comment ça va?

Photo : Paul Laurent Bressin

Esta questão é-me colocada várias vezes ao longo do dia. Os franceses têm-na na ponta da língua e respondem por automatismo: ça va. E eu não fujo à regra porque ninguém está interessado em ouvir um desabafo, uma apreensão. Ninguém tem tempo para lamurias nem queixas. Ninguém se preocupa com os problemas dos outros nem as vidas alheias. Ninguém quer saber se estamos bem ou mal. Quem nos pergunta comment ça va está à espera de um simples ça va. Com os amigos a história é outra. Felizmente.

E se, de repente, começarmos a dizer… ça va pas?

Já passou um ano desde o primeiro confinamento. O que era impensável até 2020 tornou-se uma realidade. A nova normalidade engoliu os velhos hábitos. O cenário de um filme de ficção científica passou a fazer parte das nossas vidas. As imagens apocalípticas são o nosso quotidiano. O fim deste pesadelo teima em não chegar. Ça va pas!

No ano passado, em França, morreram 111 mulheres vítimas de violência doméstica. O número é mais baixo que o de 2019 (146), mas está longe do ideal 0. É verdade que ocorreram menos mortes, mas a violência doméstica aumentou consideravelmente desde a pandemia. O confinamento só veio piorar a situação de todas aquelas que não vivem num lar, mas sim numa prisão. Ça va pas!

A vacinação avança a passo de caracol. Os ricos contornam o sistema e conseguem doses pagas a preço de ouro. Lotes inteiros de vacinas desaparecem misteriosamente e outros são roubados, à descarada. Por outro lado, há tendas militares vazias, à espera de pessoas que teimam em não vacinar-se. Médicos e enfermeiros deitam frascos fora porque os utentes que estavam inscritos resolveram não aparecer. Ça va pas!

O desemprego na Europa atinge níveis assustadores e para muitos o layoff continua, pelo menos, até ao Verão. As próximas gerações vão herdar uma pesada dívida. Será o seu ADN económico-social. E isto num continente com uma reduzida taxa de natalidade. De acordo com dados apresentados pela Comissão Europeia, em 2018 houve 1,55 nascimentos por mulher. Apesar de tudo, a França continua a ser a campeã dos nascimentos do velho continente, mas os números também têm vindo a baixar. Ça va pas!

Os estudantes universitários são os mais sacrificados desde o início da pandemia. Não têm aulas presenciais há um ano, não têm recursos para comer nem aquecer os minúsculos estúdios que lhes servem de teto. Muitos viram-se obrigados a regressar à casa dos familiares. Outros têm vergonha e preferem sobreviver, mais mal que bem. Há ainda os que desistem da vida, de um dia para o outro. Fecham os olhos para sempre porque se recusam a ver este miserável mundo novo. Em Espanha, 40% dos jovens com menos de 25 anos estão no desemprego. Ça va pas!

Passaram quase 5 anos desde a assinatura do Acordo de Paris e estamos longe de conseguir reduzir os excessos que nos conduzem a uma catástrofe ecológica. O meio ambiente ainda não é uma prioridade para nenhum país. E de nada adianta apontar o dedo ao vizinho quando não limpamos a própria casa. A humanidade esteve em êxtase perante as fotografias das ruas vazias, dos animais que passeavam descontraidamente, dos oceanos que recuperavam a sua cor natural. Foi sol de pouca dura! Agora chocam-nos as máscaras lançadas na sarjeta e a quantidade de embalagens de comida e copinhos de cartão para o café atirados para o chão. Efeitos colaterais do take away. Ça va pas!

Da próxima vez que me perguntarem comment ça va, o melhor será ficar calada para evitar chocar os mais sensíveis ou dar um abanão aos mais distraídos.

Se não for Covid, pode esperar?!

Photo : KaDDD

Há uns dias ligou-me uma amiga. Finalmente (pensei)! A última vez que falamos ao telefone foi no início do ano. Depois dessa data enviei-lhe várias mensagens, mas nunca obtive nenhuma resposta. Quando atendi o telefone apressou-se a desculpar-se dizendo-me que estava muito ocupada. Com o quê? Não tem filhos e está em layoff desde novembro. Obviamente que estas ilações não foram pronunciadas em voz alta. Tento sempre evitar juízos de valor antes de conhecer a situação. Ainda bem que o fiz.

A Louise soube, em Fevereiro, que tem um cancro do cólon e começou, pouco depois, os tratamentos. Três vezes por semana, a ambulância vai buscá-la a casa para as sessões de radioterapia. O cateter já foi colocado para a quimioterapia que se segue. O médico disse-lhe que foi diagnosticada a tempo, mas lamentou que a paciente não tivesse ido à consulta desde o aparecimento dos primeiros sintomas. A minha amiga relembrou-lhe que o rendez-vous foi adiado três vezes por causa da « crise sanitária ».

Não pude deixar de pensar na minha mãe. Tal como a Louise, também ela não gosta de incomodar os outros com aspetos ligados à saúde e raramente se queixa. Quando me ligou para anunciar-me que tinha um cancro (o primeiro) disse-me: « estou com um probleminha ». Eu perdi o chão, faltou-me o ar. Fiquei sem palavras. Algo que acontece raramente. Na altura, vivia em Paris e estava a ponto de mudar-me, com a família, para a Nova Caledónia. O meu marido acabou por recusar a oferta de trabalho. Estava fora de questão ir viver para o outro lado do mundo.

A situação repetiu-se, mas eu não fui atrás da história da Carochinha. Quando a minha mãe me voltou a anunciar outro probleminha apanhei o avião e conversamos na sala da casa em Alvalade, pouco tempo depois de ter aterrado. Uma das vantagens de ter um aeroporto dentro da cidade. Acompanhei-a ao médico na Avenida de Roma e a uma consulta no IPO, onde fiquei na sala de espera. Desta vez, a minha mãe foi tratada exclusivamente no hospital público, o que a fez respirar de alívio por razões económicas e, sobretudo, humanas. Os serviços privados, muitas vezes, dão-se ares de hotéis de cinco estrelas esquecendo-se que os pacientes não precisam de room service 24 horas ou de um concierge, mas sim de quem cuide deles.

A Louise não tem outro remédio que ser seguida numa clínica privada porque a prioridade dos hospitais públicos ainda é a Covid. Felizmente, ela tem um bom seguro de saúde. Mas e se não fosse o caso? Como se tratam, neste momento, as pessoas que não têm dinheiro? Quantas operações foram adiadas? Quantas cáries não foram tratadas? (Espero que não seja o meu caso porque tenho pânico do dentista!) Quantos cancros não serão diagnosticados a tempo? Deixámos de ter direito a estar doentes. Só somos considerados seres humanos que necessitam assistência médica enquanto tivermos o vírus. Assim que o resultado for negativo deixamos de ser importantes aos olhos da medicina, ignorando-se os sintomas que persistem. Escrevo-o com conhecimento de causa.

Filipa Moreira da Cruz

Saudades

Photo : Paul Laurent Bressin

Saudade do Verão
Saudade do cri cri dos grilos
Saudade do reboliço e da confusão
Saudade de comer figos
Saudade do sol e do calor
Saudade de ser criança
Saudade de ignorar a dor
Saudade de não perder a esperança
Saudade de ontem, de hoje e de amanhã
Saudade dos amigos e da família
Saudade de preguiçar de manhã
Saudade de viver sem controlo nem vigília
Saudade da loucura e da imprudência
Saudade de beijos e abraços
Saudade de não pensar em vírus e doença
Saudade de reanudar os laços
Saudade de mim, de ti, de nós
Saudade de fazer a diferença
Saudade de não calar a minha voz.

Filipa Moreira da Cruz

Made in USA

Photo : Filipa Moreira da Cruz

A primeira vez que fui aos Estados Unidos tinha 14 anos. A minha mãe fez-me a surpresa e levou-me a Nova Iorque, uma metrópole fascinante com quase tantos habitantes que Portugal. Fiquei deslumbrada com a cidade que nunca dorme. Londres já me tinha conquistado, mas Nova Iorque superou todas as minhas expectativa porque consegue ser ainda mais eclética, cosmopolita, efervescente. Regressei várias vezes e já prometi à minha filha uma viagem a duas.

Seguiram-se seis outras estadias que variaram entre três semanas e dois meses. Tive a sorte de ter uma irmã que viveu vários anos por terras do tio Sam. Também aproveitei para ficar em casa de uma família americana o que me permitiu confirmar todos os clichés (ou talvez não). Abraços calorosos em vez de dois beijos, barbecue ao fim-de-semana, jogo de futebol americano com as cheerleaders a animar a equipa da casa, missa ao domingo de manhã, oração antes de cada refeição, coca-cola à descrição, jantar improvisado com sandes de doce de morango e manteiga de amendoim, os magníficos fogos de artifício no dia 4 de Julho, as gigantescas waffles com maple syrup

Este país da América do Norte é capaz de reinventar-se e a realidade supera, quase sempre, a melhor produção made in Hollywood. For better or worse. Ainda me lembro da cara de assombro dos jovens estudantes americanos quando viram Portugal no mapa na altura em que assisti a uma aula de História numa escola secundária perto de Pittsburgh. Coincidência ou não, o professor dedicou uma hora aos descobrimentos portugueses e espanhóis. Os alunos pediram-me para indicar-lhes no planisfério o país luso de onde saíram os navegadores que deram a volta ao mundo. Tal como acontece frequentemente, pensavam que o nosso país era uma região da vizinha Espanha. Mas quantos europeus sabem exatamente onde se situa a Moldávia ou a Letónia? E o que sabem acerca da Noruega ou da Ucrânia?

Photo : KaDDD

Os Estados Unidos não deixam quase ninguém indiferente. Há quem deteste e quem adore. Pertenço à segunda categoria, embora nunca tenha caído na tentação de comprar um bilhete de apenas ida. Talvez por falta de coragem, admito. Gosto de viver na Europa. No entanto, este país com mais de 328 milhões de habitantes deslumbra-me, apesar de só conhecer oito dos seus cinquenta estados, uma minúscula amostra desta enorme nação.

Este amor não é cego. Fico, como muitos, chocada com as evidentes incoerências do país. Apesar de 21 estados terem abolido a pena de morte, Michigan foi o primeiro em 1847, mais de metade do país continua a executar presos que se encontram no corredor da morte. Quase todos os indivíduos têm armas e não são raros os acidentes que envolvem jovens ou crianças. O aborto é outra questão sensível e está longe de conseguir uma unamidade.

Os 244 anos de história são ainda insuficientes para a maturidade sócio-política da nação. São vários os episódios que mancharam a tão sobrevalorizada reputação americana e dois dos lobbies mais poderosos, o das armas e o farmacêutico transformam qualquer presidente num fantoche. O dinheiro fala mais alto. É quase impossível mudar a ordem natural das coisas. Num território onde quem não tem um bom seguro de saúde pode morrer, Obama tentou mudar a lei, em vão.

O número de pessoas mortas por Covid-19 já ultrapassou as 500.000. Mais de meio milhão de seres humanos que perderam a vida desde o início da pandemia. Felizmente, o país livrou-se da tirania e da loucura de Trump e esperemos que o novo presidente tome bem conta dos seus. God bless America.

Filipa Moreira da Cruz

Triste fim de vida

Photo : KaDDD

Dedico este texto aos idosos, às pessoa de idade, aos velhotes, aos velhinhos. Deixemo-nos de eufemismos e chamemos-lhes simplesmente… velhos! Cada um deve assumir a sua idade sem medo nem pudor. Mais difícil que envelhecer é aceitar que o corpo muda e a cabeça também, embora a ritmos diferentes. O tempo, às vezes, pode ser cruel. Muitos têm dificuldade em ver no velho a criança, o jovem e o adulto de outros tempos. Como se já tivessem nascido com cabelos brancos e rugas.

O mundo ocidental não põe os mais velhos num pedestal, antes pelo contrário. Prefere ignorá-los, fazendo de conta que já não existem. E a situação atípica que vivemos veio degradar a sua já frágil condição de vida. O vírus isolou-os do resto do mundo. Em nome da covid são mantidos prisioneiros em gaiolas douradas (alguns) ou em sítios indecentes (a maioria). Não recebem visitas dos filhos nem dos netos, não vão a almoços de família, não passeiam no parque, não dão comida aos patos, não jogam às cartas. Nem sequer têm direito a certos tratamentos porque as equipas médicas estão mobilizadas noutra frente. Para muitos deles, os cuidados paliativos deixaram de ser uma prioridade. Para quê? Já estão no fim da vida. Resta-lhes ver desfilar os dias, que parecem intermináveis, na antecâmara da morte.

Há velhos que vivem em quartos de luxo trancados à chave para evitar que possam circular no corredor da instituição. São medicados para dormir mais horas do que as necessárias. Imersos num estado vegetativo, entrevêm a luz do dia através de grades e não se podem despedir dos amigos que partiram vítimas da covid ou de outra doença qualquer. Isto acontece, regularmente, em lares que não custam menos de 3.000 euros por mês. E todos somos cúmplices porque é mais fácil ignorar. Cada um já tem o suficiente com os seus problemas.

O contacto intergeracional é vital. Contribui para a construção de uma humanidade mais solidária e resiliente. Os que nunca conhecemos os nossos avós vivemos eternamente com saudades do que nunca foi e sofremos um certo vazio emocional. Que sorte têm aqueles com histórias para contar das tardes passadas a fazer bolos com essa avó doceira, das anedotas do avô bem disposto, das brincadeiras, dos disparates e dos afetos partilhados. Invejo os que teceram uma cumplicidade ímpar com os velhos sábios da família. E todos os outros que iam de férias para a terra dos avós.

A vida normal ficou em suspenso a partir do momento em que os médicos começaram a ter que decidir quem salvam e quem deixam morrer. Os governos atuam em nome dos velhos quando nos impõem o confinamento. Os membros da família recusam abraços e beijos aos avós para evitar o contágio. Mas todos se esqueceram de perguntar-lhes como tencionam passar os últimos anos das suas vidas. Talvez alguns prefiram uns breves instantes de liberdade aos longos meses de solidão. Mas seria eticamente inaceitável não ostracizar os velhos pelo bem da sua saúde. Que sociedade ousaria correr o risco?

Nenhuma medida governamental conseguirá travar o inevitável: os velhos morrem lentamente. Em silêncio e sem incomodar. Uns do vírus e outros de depressão. A tristeza também mata. Muitos recusam comida e água e nem as perfusões os salvam. Afortunados são os que conseguem sobreviver a uma liberdade condicionada e são ainda mestres do seu corpo e da sua mente. Peço a Deus que também eu seja abençoada e possa chegar a velha com saúde.

Filipa Moreira da Cruz

Virados do avesso

Photo : KaDDD

É cão, é gato
É periquito, é peixe encarnado
É gritaria, casa desarrumada
Ficamos de pijama. Festa assegurada!
É roupa amarfanhada, loiça por guardar
De manhã, não há escolha, temos que trabalhar
Estudar em casa é o que está a dar!
Escola fechada, parque vazio
Todos os dias são iguais, mas sem frio
Saudades dos avós, triste realidade
Eles sim gostam de nós de verdade!
Quando isto passar, vou dar beijinhos
Abraços e as mãos apertar
Mas até lá, tenhamos calma
Melhores dias estão por chegar.

Filipa Moreira da Cruz

Casa de papel

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Casa de mármore, de cimento, de cartão.
Casa de madeira, de pedra, de vidro.
Casa de palha, de tecido, de papelão.
Casa de tijolo, de ferrugem, sem brilho.

Casa debaixo da terra, no cimo da árvore.
Casa no sexto andar ou no rés-do-chão.
Casa grande, com jardim e piscina.
Casa pequenina que cabe na mão.

Casa com peixe encarnado,
Casa com gato, hamster e cão.
Casa com periquito venerado,
Casa com coelho e pavão.

Casa sem janelas nem portas.
Casa com braços, asas e rodas.
Casa fresquinha a cheirar a Verão.
Casa com flores no balcão.

Casa de todos e de ninguém.
Casa que virou aconchego quando mais nada se tem.

Filipa Moreira da Cruz

Verão em cheio!

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Uma portuguesa, uma mexicana, uma “inglesa” e um francês. Juntos, na mesma casa, durante 7 dias, com vários membros da minha família portuguesa. Parece o início daquelas anedotas que contávamos na escola, mas não é. Apesar de termos partilhado muitas gargalhadas. Uma semana de férias no paraíso. Dolce far niente em terras lusas debaixo de um sol abrasador e embalados pelo cricri dos grilos e o zumbido dos mosquitos.

A portuguesa sou eu. Há vários anos que não passava o verão em Portugal. 2020 é um ano atípico, por isso, decidi apanhar o avião. Entristeceu-me aterrar em Lisboa num aeroporto praticamente vazio onde havia mais seguranças, polícias e funcionários da ANA que passageiros. Eram apenas dois os voos a chegar ao mesmo tempo e, pela primeira vez, a espera das malas não foi um teste à paciência do mais zen dos mortais. Continuo a ficar impressionada com a resiliência dos portugueses. Fazem muito com (tão) pouco. Refiro-me aos que trabalham em troca de um ordenado mínimo escandalosamente baixo, aos que nos atendem com um sorriso, aos que não se queixam, aos que engolem sapos todos os dias, mas encontram energia para seguir em frente.

A mexicana é uma amiga que vive em Paris e que tem também nacionalidade francesa. Cada vez que visita o nosso país sente-se em casa. Enalteceu o civismo, o respeito e o altruísmo dos portugueses. Gabou a facilidade que temos em comunicar em várias línguas e a obediência no que diz respeito ao uso, quase generalizado, da máscara. Algo que não acontece noutros países. No entanto, ficou horrorizada com a quantidade de edifícios abandonados e em mau estado que viu em várias cidades. Não entende a inação das autarquias. Afinal, talvez não sejamos tão diferentes dos povos ibero-americanos, presume. Quando não há interesse económico, não se faz.

Photo : Filipa Moreira da Cruz

O francês é o meu marido. Apaixonou-se pelo nosso país logo na primeira visita e regressa sempre que pode. Até já fala melhor a língua, com a ajuda dos filhos. Aprecia a hospitalidade e a naturalidade dos locais. Parece-lhe um milagre como tantos (sobre)vivem com quase nada. Delicia-se com a gastronomia, mas não se deixa impressionar pelas aparências. A melhor refeição nem sempre está no restaurante mais vistoso.

É um duro crítico dos partidos políticos que (des)governaram o país e diz que somos demasiado disciplinados. Na sua opinião, faz-nos falta uma revolução social para voltarmos a dar valor a tudo o que temos. Só há um traço luso que o horroriza: a condução desenfreada. Sentimo-nos mais fortes e poderosos com um volante nas mãos. O meu marido diz que deveríamos canalizar esse nervosismo para outras áreas mais úteis.

O voo de regresso foi do Porto. Gosto tanto da cidade que decidi passar lá a noite. Contrariamente à capital, havia muitos estrangeiros no aeroporto, principalmente espanhóis. As ruas da cidade estavam animadas e os restaurantes com as mesas ocupadas. Uma nota positiva para o turismo, essencial no crescimento da economia.

O país não deixou nenhum dos quatro indiferente e já estamos a programar as próximas férias porque um Verão em cheio, só mesmo em Portugal!

Filipa Moreira da Cruz
Agosto 2020