Um dia…

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Certo dia, a menina perguntou ao pai:
– Quando vou ver o mar?
O pai, distraído, respondeu:
– Um dia…
A menina não desistiu. E no dia seguinte perguntou:
– Quando vamos passear juntos?
A resposta do pai foi a mesma:
– Um dia…
A menina cresceu e continuou a questionar-se quando iria andar de comboio, quando teria um bolo de aniversário, quando brincaria com o pai.
O progenitor, demasiado ocupado, adiava os momentos a dois.
Os anos voaram, o pai envelheceu e morreu. A menina foi mãe e, certo dia, o seu filho começou:
– Mãe, quando…?
A menina de outrora, sem sequer ouvir a pergunta, respondeu de imediato:
– Hoje!

Filipa Moreira da Cruz

Ai que saudades!

Reprise

Saudades, só portugueses conseguem senti-las bem porque têm essa palavra para dizer que as têm.

Fernando Pessoa

Tenho saudades do que em tempos fui e do que nunca serei
Tenho saudades do que tenho e do que ainda não encontrei
Tenho saudades dos que partiram
Tenho saudades dos que ainda não chegaram
Tenho saudades dos que foram e já não são
Tenho saudades dos que, um dia, serão
Tenho saudades dos fugazes encontros
Tenho saudades dos eternos desencontros
Tenho saudades das terras longínquas
Tenho saudades das conversas ambíguas
Tenho saudades daquele abraço
Tenho saudades de repousar no teu regaço
Tenho saudades da partilha e da comunhão
Tenho saudades, de um dia, conseguir dizer não
Tenho saudades da multidão
Tenho saudades da solidão
Tenho saudades da desconcertante felicidade
Tenho saudades de ter saudade.

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz

Abençoada família esta onde nasci!

Dia Internacional da Família

Deveria terminar um trabalho escrito, mas não tenho vontade… O meu amigo Fernando enviou-me um link para um exclente albúm e eu já estou noutra dimensão! Bem longe…!
Voltei a ter 13 ou 14 anos. Revejo-me sentada na salinha cor de rosa preparada para ficar horas a fio a ouvir música e a escrever para aliviar a alma. Só vou descansar o corpo quando o meu pai me forçar. Ele ralha-me porque forço demasiado os olhos (o olho esquerdo e os 10% do que resta ao direito).
Regressei à casa da minha infância, adolescência e início da vida adulta, em Lisboa, onde cresci e fui tão feliz! Uma família de seis é sinónimo de barulho, briga, confusão, mas acima de tudo, amor, partilha, união e força. Os meus pais nunca pensaram que os quatro filhos iriam viver em quatro países diferentes. As viagens de avião, carro e comboio foram e serão muitas. Detalhe insignificante quando queremos estar perto dos que mais contam.
Dois genros estrangeiros que receberam de braços abertos e quatro línguas faladas nas reuniões familiares. Os meus pais aceitam tudo! Férias coletivas, natais em Lisboa, Paris, Londres.
Ai tempo, volta para trás! Deixa-me abraçar ainda mais forte e durante mais tempo aqueles que me deram a vida. Peço-te coragem para dizer-lhes o quanto gosto deles e como encolhe o meu coração quando sofrem e não estou por perto.
A minha mãe, excelente contadora de histórias, mulher de armas e fonte de amor e tolerância conseguiu uma proeza: a cumplicidade entre os filhos. Parece simples, mas nem sempre acontece. A distância não consegue afastar-nos porque nós somos mais resilientes.
O meu filho disse-me, um dia, que o melhor presente que eu e o pai lhe oferecemos foi a irmã. Quando ouvi esta frase senti que parte do meu dever de mãe estava cumprido. Mas o caminho é interminável e os desafios são bastantes. Enquanto há vida, há família. E eu não trocaria a minha nem por um 1.000.000.000.000……..

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz

Jardim secreto

Uma voz calada
Um grito reprimido
Uma promessa selada
Um segredo escondido
Um gesto ausente
Uma marca apagada
Um passado, um presente
Uma mão entrelaçada
Um sonho esquecido
Uma espera eterna
Um desejo oprimido
Uma carícia terna
Um amor puro
Dois seres perdidos
Uma história sem futuro
Dois corpos esquecidos.

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Paul Laurent Bressin

Vive a vida!

Reprise

Não tente compreender a vida. Viva-a!
Não tente compreender o amor. Entre no amor.

OSHO
Photo : Filipa Moreira Da Cruz

Abre os braços e acolhe a natureza
Solta-te!
Atreve-te a alcançar os teus sonhos
Nada é impossível!
Descobre que tudo o que precisas está ao teu lado
Vive o presente!
O passado já está enterrado e o futuro é uma incógnita
Agarra as folhas do bloco e escreve a tua viagem
Deixa delizar a caneta ao som da brisa primaveril
Revolta-te!
Grita!
Chora!
Sente!
Ama!
Partilha!
Ora!
Oferece!
Aprende!
Valoriza-te e vive!

Filipa Moreira da Cruz

Saudade

Reprise

Photo : Filipa Moreira da Cruz

E, de repente, sou invadida por uma enorme saudade
Daquelas que nos matam os afetos e nos tiram a liberdade
Das que nos queimam por dentro devagarinho
Removendo tudo como um bichinho

Esta frustrante saudade invisível e pessoal
Mostra-me apenas que sou um ser banal
Desses que riem, choram, gritam e calam
Dos que tentam tudo para acalmar a alma

Palavra só nossa, sem tradução
Fado, destino ou mera ilusão
Sinto um enorme aperto no coração
Ultrapasso as fronteiras e perco a razão

Devora-me essa saudade palpitante e crescente
Do passado, do futuro e do presente
Do que fui, do que sou e do que não chegarei a ser?
Do que tive e perdi, do que tenho e do que penso vir a ter.

Filipa Moreira da Cruz

Saudades

Reprise

Photo : Paul Laurent Bressin

Saudade do Verão
Saudade do cri cri dos grilos
Saudade do reboliço e da confusão
Saudade de comer figos
Saudade do sol e do calor
Saudade de ser criança
Saudade de ignorar a dor
Saudade de não perder a esperança
Saudade de ontem, de hoje e de amanhã
Saudade dos amigos e da família
Saudade de preguiçar de manhã
Saudade de viver sem controlo nem vigília
Saudade da loucura e da imprudência
Saudade de beijos e abraços
Saudade de não pensar em vírus e doença
Saudade de reanudar os laços
Saudade de mim, de ti, de nós
Saudade de fazer a diferença
Saudade de não calar a minha voz.

Filipa Moreira da Cruz

A vida é uma festa!

Photo : KaDDD

A vida é uma festa com balões coloridos, foguetes e confetti. Somos nós os anfitriões. Uns usam máscara porque recusam-se a revelar o que lhes vai na alma. Outros preferem um colete à prova de balas, sabendo que os seus manifestos serão alvo de críticas atrozes. Ato de coragem ou estupidez?

A vida é um palco onde os atores sabem o seu papel de cor. Todos eles representam sem sentimento nem emoção. Fobias confundem-se com alegrias e o medo dança, de mãos dadas, com a esperança. Não há limite entre o lógico e o imaginário. Não existem fronteiras entre o que foi, o que virá a ser e o que nunca será.

A vida é uma floresta encantada, habitada por fadas e duendes. Os mais velhos dão-lhe ritmo através de lendas, fábulas e contos. O facilmente adquirido deixa de ter graça e corremos atrás do inatingível. Desafiamos o tempo com arrogância, embora saibamos que nunca conseguiremos recuparar o passado. E é aí que a saudade nos invade, violentamente.

A vida é uma catedral, onde os milagres acontecem, todos os dias. A vida é uma aventura na Amazónia, um desafio nom voo intrépido, uma descoberta singular.

A vida é aqui a agora. Estás pronto para esta viagem?

Filipa Moreira da Cruz

A melodia das cotovias

Reprise

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Morre de sofrimento esta família que se esconde por detrás dessa janela, igual a tantas outras.
Outrora alegre, esta casa está triste e melancólica, afogada nas memórias do passado. Não é azul, mas sim preta a cor que a rodeia. O vaso está quebrado, as flores murcharam e o olhar do gato ficou transparente, insípido. As cortinas sujas e comidas pelo sol contam histórias a quem tiver coragem para as escutar.
Passaram-se seis anos desde que essa alma partiu e a vila inteira foi invadida de rancor e sofrimento.
Longe vão os tempos em que se ouvia música e se dançava até de madrugada. Nessa altura, as flores cresciam suavamente, embaladas pela doçura do riacho. Os sonhos tinham asas e as alegrias não conheciam limites. Mas ficaram para sempre os sentimentos que deslizam ao som da melodia das cotovias.

Filipa Moreira da Cruz

Felicidade

Vou contar-te um segredo
Os homens dão a volta ao mundo
Em busca de fama e poder
E num segundo o ter aniquila o ser
Enfiam uma máscara agridoce
Uns dias sai o sol e noutros chove
De repente, o universo torna-se pequeno
A loucura engole o sereno
A alienação espezinha a razão
Colecionam-se coisas e não recordações
Brisam-se corpos e corações
E esses seres insignificantes
Esquecem-se que a vida são meros instantes
A morte, essa sim, é uma certeza
E a lenda reza
Que ninguém cá ficará
Para contar como acabará
Então, não será melhor começar a viver?
Olha ao teu redor
A felicidade tem cheiro e cor!

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz