Resiliência

Reprise

Não são as pedras no caminho que me impedem de avançar, mas sim as penas que carrego na alma.

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz

Beco sem saída

Reprise

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Estou num beco sem saída
Encurralada entre quatro paredes
Caminho num túnel sem luz
E a solidão é a minha única companhia

Tu crias a tua melodia
Tu voas com as tuas próprias asas
Tu pintas o teu quadro

Certas palavras são carícias para os ouvidos
Outras apenas ruído
Tu escolhes as que queres ouvir

Há gestos que curam as feridas mais profundas
Outros quase matam, de tão bruscos
Tu escolhes os que queres receber

Tu escreves o teu livro
Tu desenhas o teu esboço
Tu traças o teu caminho

Algumas imagens trazem paz
Mas tantas apenas humilham
Tu escolhes as que queres ver

Existem pessoas que iluminam
Outras que só partilham escuridão
Tu escolhes as que queres ter na tua vida

Não estás num beco sem saída
Não caminhas na sombra
Tens o coração sempre contigo.

Filipa Moreira da Cruz

Beco sem saída

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Estou num beco sem saída
Encurralada entre quatro paredes
Caminho num túnel sem luz
E a solidão é a minha única companhia

Tu crias a tua melodia
Tu voas com as tuas próprias asas
Tu pintas o teu quadro

Certas palavras são carícias para os ouvidos
Outras apenas ruído
Tu escolhes as que queres ouvir

Há gestos que curam as feridas mais profundas
Outros quase matam, de tão bruscos
Tu escolhes os que queres receber

Tu escreves o teu livro
Tu desenhas o teu esboço
Tu traças o teu caminho

Algumas imagens trazem paz
Mas tantas apenas humilham
Tu escolhes as que queres ver

Existem pessoas que iluminam
Outras que só partilham escuridão
Tu escolhes as que queres ter na tua vida

Não estás num beco sem saída
Não caminhas na sombra
Tens o coração sempre contigo.

Filipa Moreira da Cruz

Resiliência

Não são as pedras no caminho que me impedem de avançar, mas sim as penas que carrego na alma.

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz

RISO

Photo : KaDDD

Macron decretou o prolongamento da quarentena até 11 de Maio. Anunciou que serão realizados testes à população mais exposta, assim como às pessoas que apresentem sintomas (até que enfim!). Haverá novas ajudas financeiras para as famílias mais vulneráveis e o regresso à « normalidade » será progressivo e organizado por fases; não sairemos todos de casa ao mesmo tempo. Nas grandes cidades como Paris, Marseille, Lyon ou Bordeaux alguns habitantes começam a desobedecer às regras da quarentena. O tempo é demasiado longo e o confinamento é cada vez mais difícil. Uma vontade inexplicável de fazer jogging, as constantes saídas com o cão, a imprescindível baguete, vale tudo para abandonar o lar.

Eu e a minha família contrariamos as últimas estatísticas. Após um período de incerteza e de receio passamos a aceitar esta situação com naturalidade e ficamos em casa. Para o nosso bem e o de todos os outros. O meu marido vai às compras uma vez por semana, muito contrariado.

Os meus filhos estão de férias da Páscoa entre 11 e 27 de Abril. O ano letivo em França é mais longo que em Portugal, tendo várias interrupções, as quais estão organizadas por três zonas. Nós pertencemos à zona B. Este período de repouso vem mesmo a calhar! Ainda assim, as professoras enviaram fichas, a fim de evitar que as crianças se aborreçam. A Mathilde recebeu 18 e o Stan teve direito ao jackpot: 45! Obviamente, eu fiz uma pré-seleção e imprimi apenas 5 para cada um. Os meus filhos já estudaram em Portugal, Espanha e França e a obsessão das professoras pelas ditas fichinhas tem sido uma constante. A única exceção foi o País Basco. Bendito Amara Berri! O melhor modelo que conheci até agora.

Que me desculpem as docentes (e as mães 100% cumpridoras), mas falharei. Vou privilegiar a brincadeira às propostas curriculares porque casa não é escola. E férias são férias!

Neste momento, a minha prioridade é apenas uma: a saúde, física e mental. Infelizmente, a primeira escapou-nos, mas cuidarei ao máximo da segunda para o bem de toda a família. Estivemos os quatro doentes. Uns durante sete dias e outros durante mais de três semanas. Os dois médicos consultados são da opinião que foi a Covid-19 que nos provocou febre, tosse constante, perda do paladar, cansaço e dificuldade em respirar. Nunca saberemos porque não realizamos os testes. Não eramos prioritários. A visita do coronavirus ou do seu irmão-gémeo foi longa e dolorosa, sobretudo para os asmáticos cá de casa.

Fiz o que pude para evitar o hospital. Juntos, vencemos. Como a 9 de Fevereiro de 2009 em que mãe e filho fomos reanimados quase ao mesmo tempo. O Stan foi levado para o serviço de neonatologia da maternidade onde permaneceu 21 dias e eu segui de ambulância para o hospital Georges Pompidou, ambos em Paris. A embolia amniótica empurrou-me para os cuidados intensivos e o serviço de pneumologia. Cinco dias e cinco noites. E hoje dou por mim a pensar em todos os seres humanos que dependem de um ventilador.

Felizmente, não temos televisão o que nos evita assistir à contagem em direto do número de mortes provocadas pela pandemia. Ideias para passar o tempo não nos faltam e aplicamos a terapia do RISO quase diariamente.

RIR

Não sei se rir é o melhor remédio, mas ajuda muito! Rimo-nos sobretudo de nós próprios: dos disparates da Mathilde, das histórias do Stan, do meu desenho que parece um cão com bigodes de gato e orelhas de coelho, das partidas do Sébastien, das sessões improvisadas de karaoke. Ao longo do dia, somos invadidos por gargalhadas espontâneas e incontroláveis. Fazer o aerossol ao mesmo tempo que vimos os filmes do Louis de Funès é um bálsamo para o corpo e a alma.

INVENTAR

Acredito que o mundo não será o mesmo quando regressarmos à rua. Mas isso não tem que ser necessariamente mau. Até lá, talvez devêssemos aprender com as crianças a viver agora. Como diz a Mathilde, o presente é tão rápido que já é passado e o futuro vem daqui a pouco. Resiliência, empatia, criatividade e imaginação são as ferramentas. O Sébastien pensa em receitas sem farinha porque esta já esgotou há semanas. Os filhos inventam jogos e brincadeiras e apresentam o noticiário todas as noites para a família através do WhatsApp. Eu vou escrevendo e arranjando maneira de pôr toda a gente a fazer ginástica logo pela manhã. Descobrimos dons até então impensáveis. Arriscamos, falhamos e voltamos a tentar.

SONHAR

Os adultos voltam a ser criança e, todos juntos, ousamos sonhar. Tudo é possível no universo dos sonhos. De repente, aparecem unicórnios, dragões e discos voadores. Fechamos os olhos e estamos todos juntos em Portugal, na casa da avó. Ou então a dar um mergulho na piscina das Canárias. Sonhamos, acima de tudo, com um mundo mais justo, mais unido e mais solidário. E quem disse que os sonhos não se realizam? Basta crer!

ORAR

Agradecemos todos os dias tudo o que temos: saúde, casa, família, amigos, comida, água… Damos valor a qualquer banalidade. Para muitos, a vida está presa por um fio, literalmente. Não temos o calor de Fuerteventura nem a família Portuguesa, mas estamos gratos por não estarmos fechados no pequeno apartamento de Paris. Louvamos o trabalho de todos os que estão lá fora: médicos, enfermeiros, funcionários da limpeza e dos supermercados, agricultores, camionistas e tantos outros. E reconhecemos que temos muita sorte porque nos calhou o menos difícil: ficar em casa.

Filipa Moreira da Cruz
Abril 2020