Tristeza profunda

Photo : KaDDD

“Os políticos e as fraldas devem ser trocados frequentemente e pela mesma razão.”

Eça de Queiroz

“Por detrás de uma grande fortuna há um crime.”

Honoré de Balzac

« O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons. »

Martin Luther King

Soube, há uns dias, que o maior vigarista de Portugal foi absolvido de quase vinte crimes de corrupção. Roubou à descarada, sem vergonha nem pudor. Abusou da boa fé do povo. Como sempre! O juíz escolhido é seu amigo íntimo.
Nunca pensei que esta situação me afetasse tanto. Deixei Portugal há mais de vinte anos e as notícias são sempre as mesmas: corrupção, jobs for the boys, Troika, fugas ao fisco, Novo Banco, compadrios, palmadinhas nas costas… Pelo meio, lá ganhámos um campeonato de futebol e o festival da Eurovisão, mas o sol foi de pouca dura!
Ao fim de pouco tempo, regressamos à estaca zero. Está-nos no ADN, corre-nos no sangue. Talvez por isso digam que não sou muito Portuguesa. Pela primeira vez, aceito-de de bom grado e assumo-o como um elogio.
Portugal precisa de mudar quase tudo! Chamem-me exagerada, mas apenas uma revolução social pode colocar as coisas no seu devido lugar. E espero que não seja tarde demais. Somos um povo demasiado ordeiro e contemplativo, uns frouxos. Fazemos festivais para homenagear as vítimas de Pedrogão, mais para ficar bem no quadro que por solidariedade. Somos uma fraude como povo! Queremos ficar sempre bem na fotografia e não nos incomoda apartar a mão a Deus e ao Diabo.
Espero que não se zanguem, mas basta de sol, futebol, fado e Fátima.
Os que fizeram o 25 de Abril não merecem uma cambada de passivos.
Amanhã será um melhor dia. Esperemos!

Filipa Moreira da Cruz

Big brother is watching us

Photo : KaDDD

Em 1949 o escritor britânico George Orwell publicou o romance « 1984 » no qual relata a vigilância constante e a manipulação levadas a cabo por um Estado totalitário. Nesta metáfora, o Grande Irmão espia, persegue e controla. O partido imaginado por Orwell tem como lema: « Guerra é paz. Liberdade é escravidão. Ignorância é força ». Quanto mais oprimido e ignorante é o povo, mais forte é o Estado. E isto num contexto onde a paz permanente é impossível. Porque nada dura para sempre.

Anos antes, em 1932, um outro escritor britânico escrevia « Admirável Mundo Novo ». Aldous Huxley foi ainda mais longe na premonição das consequências económicas, sociais e políticas da era digital. A história passa-se em Londres, no ano de 2540. E quem diria que parte da ficção se confirmaria oito décadas mais tarde?

Em 2021 atrevemo-nos a pensar que nunca fomos tão livres. Grande ilusão! Criticamos os regimes autoritários, condenamos os atos dos governos opressores, temos opinião sobre tudo. No entanto, ignoramos que somos escravos da tecnologia e dominados por essa grande potência, mais forte do que qualquer Estado : a internet. Os três « w » mudaram o mundo e o regresso ao passado é inconcebível. Desde 1989 que o universo comunica em uníssono, para o bem e para o mal.

Obviamente que os mais céticos recusam qualquer acesso às redes sociais numa tentativa fracassada de salvaguardarem a sua privacidade. Há também os que sentem orgulho na resistência às compras online. Ou ainda os que não saem de casa sem dinheiro na carteira porque não confiam no cartão bancário. Desconheço como estes últimos tiraram a barriga de misérias durante o confinamento.

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Mesmo os mais incrédulos e recatados são obrigados a admitir que a internet é indissociável da sociedade contemporânea. E duvido que exista um indivíduo na Terra que nunca tenha navegado na rede. Excluindo talvez a maioria dos habitantes da Coreia do Norte e algumas pessoas com mais de 80 anos. E ainda assim, tenho dúvidas… A World Wide Web não é o inimigo público a abater. O perigo reside no que podemos fazer com ela. E tudo isto com a aprovação (lícita) de Sua Majestade Facebook (que detém, entre outros Instagram, WhatsApp e Giphy) e do Rei Google, dono e senhor de quase tudo o resto!

Somos 92%, em todo o mundo, a fazer pesquisas através do Google Chrome e talvez haja até quem desconheça que existem outros motores de pesquisa. O gigante de Mountain View é inteligente, perspicaz e talentoso. Antecipa comportamentos, cria necessidades, controla todos os passos e regista as inúmeras ações dos seus utilizadores. Conhece os nossos gostos e as nossas rotinas. Sabe onde vivemos e com quem partilhamos a casa. Nada do que acontece na internet é fruto do azar. Há uma relação causa-efeito. E para que não corramos o risco de tentar recuperar o nosso destino, os cookies estão lá para nos recordar as nossas pesquisas anteriores. Esses bolinhos deliciosos que podemos consumir sem moderação porque não engordam!

Utilizo a internet diariamente e não imagino a minha vida sem esta ferramenta. Comunicar com a família e os amigos que vivem longe nunca foi tão fácil. Isso não significa que não me preocupe com a utilização da informação registada. Antes pelo contrário. Considero essencial a aplicação do direito à privacidade. Mas as leis são lentas. Os algoritmos terão sempre anos de avanço. O Regulamento Geral da Proteção de Dados, elaborado pela União Europeia em 2016, já está obsoleto. E nem os americanos, que se julgam mais espertos que o resto dos mortais, têm a situação controlada. A Federal Trade Commission tenta travar o monopólio dos super poderosos, mas Google, Facebook, Amazon e companhia pagam multas exorbitantes e fica tudo bem.

Este acordo entre cavalheiros tem uma duração limitada, mas para quando o desfecho? Ninguém sabe! Até lá, o melhor é mesmo viver sem pensar muito no assunto. Por muitas voltas que dermos, big brother is (always) watching us!

Felicidade

Vou contar-te um segredo
Os homens dão a volta ao mundo
Em busca de fama e de poder
E num segundo o ter aniquila o ser
A humanidade enfia uma máscara agridoce
Uns dias sai o sol e noutros chove
De repente, o universo torna-se pequeno
A loucura engole o sereno
A alienação espezinha a razão
Colecionam-se coisas e não recordações
Brisam-se corpos e corações
E esses seres insignificantes
Esquecem-se que a vida são meros instantes
A morte, essa sim, é uma certeza
E a lenda reza
Que ninguém cá ficará
Para contar como acabará
Então, não será melhor começar a viver?
Olha ao teu redor
A felicidade tem cheiro e cor!

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz

(In)Gratidão

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Ligeira vai pela calçada
Esta moça bem humorada.

Não tem tempo a perder
Passa a vida a correr.

Nunca presta atenção
A quem lhe estende a mão.

Esmola?! Isso é que não!
Vai trabalhar, calão!

É vaidosa e caprichosa
Acha que tem sempre razão.

Julga que o poder dá tudo
E que o dinheiro comanda o mundo.

Talvez não esteja enganada
Mas a vida assim não sabe a nada.

O respeito não tem preço
É muito mais que adereço.

E quando o espírito é pobre
Ouro nenhum o encobre.

Se a calçada pudesse falar
Ai, as histórias que ela teria para contar!

Filipa Moreira da Cruz