Natal em Portugal

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Decoração
Reconforto
Reunião
Natal
Celebração.

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz (Saint-Malo)


Verão em cheio!

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Uma portuguesa, uma mexicana, uma “inglesa” e um francês. Juntos, na mesma casa, durante 7 dias, com vários membros da minha família portuguesa. Parece o início daquelas anedotas que contávamos na escola, mas não é. Apesar de termos partilhado muitas gargalhadas. Uma semana de férias no paraíso. Dolce far niente em terras lusas debaixo de um sol abrasador e embalados pelo cricri dos grilos e o zumbido dos mosquitos.

A portuguesa sou eu. Há vários anos que não passava o verão em Portugal. 2020 é um ano atípico, por isso, decidi apanhar o avião. Entristeceu-me aterrar em Lisboa num aeroporto praticamente vazio onde havia mais seguranças, polícias e funcionários da ANA que passageiros. Eram apenas dois os voos a chegar ao mesmo tempo e, pela primeira vez, a espera das malas não foi um teste à paciência do mais zen dos mortais. Continuo a ficar impressionada com a resiliência dos portugueses. Fazem muito com (tão) pouco. Refiro-me aos que trabalham em troca de um ordenado mínimo escandalosamente baixo, aos que nos atendem com um sorriso, aos que não se queixam, aos que engolem sapos todos os dias, mas encontram energia para seguir em frente.

A mexicana é uma amiga que vive em Paris e que tem também nacionalidade francesa. Cada vez que visita o nosso país sente-se em casa. Enalteceu o civismo, o respeito e o altruísmo dos portugueses. Gabou a facilidade que temos em comunicar em várias línguas e a obediência no que diz respeito ao uso, quase generalizado, da máscara. Algo que não acontece noutros países. No entanto, ficou horrorizada com a quantidade de edifícios abandonados e em mau estado que viu em várias cidades. Não entende a inação das autarquias. Afinal, talvez não sejamos tão diferentes dos povos ibero-americanos, presume. Quando não há interesse económico, não se faz.

Photo : Filipa Moreira da Cruz

O francês é o meu marido. Apaixonou-se pelo nosso país logo na primeira visita e regressa sempre que pode. Até já fala melhor a língua, com a ajuda dos filhos. Aprecia a hospitalidade e a naturalidade dos locais. Parece-lhe um milagre como tantos (sobre)vivem com quase nada. Delicia-se com a gastronomia, mas não se deixa impressionar pelas aparências. A melhor refeição nem sempre está no restaurante mais vistoso.

É um duro crítico dos partidos políticos que (des)governaram o país e diz que somos demasiado disciplinados. Na sua opinião, faz-nos falta uma revolução social para voltarmos a dar valor a tudo o que temos. Só há um traço luso que o horroriza: a condução desenfreada. Sentimo-nos mais fortes e poderosos com um volante nas mãos. O meu marido diz que deveríamos canalizar esse nervosismo para outras áreas mais úteis.

O voo de regresso foi do Porto. Gosto tanto da cidade que decidi passar lá a noite. Contrariamente à capital, havia muitos estrangeiros no aeroporto, principalmente espanhóis. As ruas da cidade estavam animadas e os restaurantes com as mesas ocupadas. Uma nota positiva para o turismo, essencial no crescimento da economia.

O país não deixou nenhum dos quatro indiferente e já estamos a programar as próximas férias porque um Verão em cheio, só mesmo em Portugal!

Filipa Moreira da Cruz
Agosto 2020

Postais do meu país

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Já tive casa em cinco países diferentes, com línguas, culturas e valores muito próprios. Mas por muitas voltas que dê, o bairro onde passei a minha infância, adolescência e parte da vida adulta continua a ser especial. Como diz uma amiga, “Alvalade ao rubro!”. Sempre! Não sou particularmente bairrista, gosto do meu país por inteiro. No entanto, o que sou hoje devo-o, em parte, a todas as experiências vividas nessa zona da capital.

Vou regularmente a Portugal, mas evito, sempre que posso, o Verão. Gosto de trabalhar quando a maioria está de férias. Prefiro fazer várias escapadas de 4 ou 5 dias ao longo do ano. A última foi ao Porto, cidade que gosto quase tanto ou mais do que aquela onde nasci. Ninguém diria que estávamos em Janeiro. O sol e o céu azul constantes ajudaram-me a libertar-me do vento e das nuvens cinzentas que teimam em invadir a cidade onde vivo habitualmente. Vou ao meu país também pelo clima. Parece ridículo, mas não deixa de ser verdade. Apesar de tudo, a principal motivação são as pessoas.

Que alegria rever a M. ao fim de mais de 15 anos! Conhecemo-nos nas Canárias, onde trabalhamos juntas. Numa das ilhas espanholas, partilhamos fins de tarde na praia, churrascos e festas no chiringuito. Ela decidiu regressar às origens há uns anos e, contrariamente à minha tentativa fracassada, a vida em Portugal corre-lhe bem. Ao longo do jantar na cidade invicta parecia que o tempo não tinha passado. Voltamos a ser as miúdas de sempre e já prometemos rever-nos antes que uma de nós precise de usar andarilho. Aconteceu o mesmo com outras duas amigas num almoço em Santarém há uns anos. E também na reunião de Iscspianas num restaurante em frente à Gulbenkian e noutro no Parque das Nações.

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Lisboa, Óbidos, Batalha, Alcobaça, Tomar, Coimbra, Vila Nova de Milfontes, Porto, Faro, Castelo Branco, Guimarães… Sou nómada por natureza e viajo por gosto e por necessidade. Percorro o país de lés a lés para estar com os que mais importam. Herdei esta mania do meu pai, embora as razões não sejam as mesmas. Ele não conta os quilómetros para comer. É assim desde sempre. Quando éramos pequenos eu e os meus irmãos inventávamos jogos que nos mantinham ocupados durante o tempo passado no carro para o destino do almoço de sábado. A viagem parecia interminável até à mesa do melhor leitão da Bairrada, das bifanas de Vendas Novas, das tais migas de Mora ou dos ovos moles de Aveiro. E o pior era o regresso, de barriga cheia!

Cada vez que tenho um encontro marcado com familiares ou amigos redescubro cidades que me fascinam, vilas encantadas e gente acolhedora. Concentro-me apenas nas coisas boas porque estou de passagem. A minha vida está algures noutro sítio. Portugal deixou de ser a minha casa, mas continua a ser o meu porto seguro. A lista dos lugares que me encantam é longa, mas a cidade que me conquistou há muito tempo e continua a ser a minha preferida é Viana do Castelo. Tenho (quase) a certeza que seria a única do nosso país onde poderia viver. Até porque a vizinha Espanha está tão perto.

2020 é o ano das exceções. A nova normalidade obriga-nos a mudar de planos. Faremos o que for necessário para evitar o reconfinamento. Contrariando a regra, vou passar parte das férias do Verão a Portugal. Algo que já não acontece há tantos anos que nem me recordo da última vez. Chego a Lisboa e regresso do Porto. Dois aeroportos e um leque de possibilidades para desfrutar do melhor do país. Tudo é possível. Venham de lá esses abraços tão esperados. Com máscara, claro!

Filipa Moreira da Cruz
Janeiro 2020