Âme vagabonde

Reprise

La douceur de mon enfance à Lisboa
Saudades da vida boa!
La jeunesse loca à Barcelona
Et après, la suavidad à Girona
Il primo bacio à Roma
Enveloppé par un forte aroma
I ricordi volano come una colomba
My american dream came true in New York
Sans regrets ni remords
Une soeur à Atlanta
Allez, on y va?
Un certain été à Porto
Il faisait si beau!
Et que dire de Torino
Andiamo fare un giro?
Une vie parallèle à Paris
Je ferme les yeux et j’y suis
Un deuxième chez moi à London
Un inoubliable automne à Boston
Oh my God!
Trois fois à Venezia
Glamour e sottigliezza
Les nuits étoilées à Annecy
Le bonheur est servi!
Un tour de manège à Genève
Sous le froid et la neige
Un carnaval de folie à Rio
La fiesta à Ciudad de Mexico
Un festival de cinéma à Donostia
Roméo et Juliette à Verona
Une promenade en bateau à Copenhagen
Avec toi, le tandem
La Tosca à Prague
Ce n’est pas une blague!
Un hiver à Strasbourg
Je connais bien mon parcours
Twice in Stockholm
Far away from home
Uma aventura à Salvador da Bahia
Une âme perdue à Cracovia
Dans le sud, à Nice
Le soleil n’est pas un caprice
La plus belle amitié à Berlin
Une parenthèse à Dublin
Le temps d’une dernière Guinness
Oh happy…mess!
Le monde est vaste
Et je suis une incorrigible enthousiaste
Je le veux tout entier
Ses lacs, ses montagnes, ses villes, ses sentiers
Sans oublier le plus important
Les gens!
Et Saint-Malo, alors?!
Chut… j’en profite, encore!

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz



Saudade

Reprise

Photo : Filipa Moreira da Cruz

E, de repente, sou invadida por uma enorme saudade
Daquelas que nos matam os afetos e nos tiram a liberdade
Das que nos queimam por dentro devagarinho
Removendo tudo como um bichinho

Esta frustrante saudade invisível e pessoal
Mostra-me apenas que sou um ser banal
Desses que riem, choram, gritam e calam
Dos que tentam tudo para acalmar a alma

Palavra só nossa, sem tradução
Fado, destino ou mera ilusão
Sinto um enorme aperto no coração
Ultrapasso as fronteiras e perco a razão

Devora-me essa saudade palpitante e crescente
Do passado, do futuro e do presente
Do que fui, do que sou e do que não chegarei a ser?
Do que tive e perdi, do que tenho e do que penso vir a ter.

Filipa Moreira da Cruz

A vida é uma festa!

Photo : KaDDD

A vida é uma festa com balões coloridos, foguetes e confetti. Somos nós os anfitriões. Uns usam máscara porque recusam-se a revelar o que lhes vai na alma. Outros preferem um colete à prova de balas, sabendo que os seus manifestos serão alvo de críticas atrozes. Ato de coragem ou estupidez?

A vida é um palco onde os atores sabem o seu papel de cor. Todos eles representam sem sentimento nem emoção. Fobias confundem-se com alegrias e o medo dança, de mãos dadas, com a esperança. Não há limite entre o lógico e o imaginário. Não existem fronteiras entre o que foi, o que virá a ser e o que nunca será.

A vida é uma floresta encantada, habitada por fadas e duendes. Os mais velhos dão-lhe ritmo através de lendas, fábulas e contos. O facilmente adquirido deixa de ter graça e corremos atrás do inatingível. Desafiamos o tempo com arrogância, embora saibamos que nunca conseguiremos recuparar o passado. E é aí que a saudade nos invade, violentamente.

A vida é uma catedral, onde os milagres acontecem, todos os dias. A vida é uma aventura na Amazónia, um desafio nom voo intrépido, uma descoberta singular.

A vida é aqui a agora. Estás pronto para esta viagem?

Filipa Moreira da Cruz

A importância da língua materna

Photo : KaDDD

Todos os anos, a 21 de Fevereiro, celebra-se o Dia Internacional da Língua Materna. Esta data foi aprovada pela Assembleia Nacional das Nações Unidas em 2002, embora tenha sido anunciada, pela primeira vez, em 1999, em homenagem ao Paquistão. Este país foi criado em 1947 e, na altura, o governo decidiu que o urdu seria a língua oficial, sem ter em conta a extensa população que falava bengali. As manifestações foram sangrentas e juntam-se à lista de tantas outras que mancharam de sangue a história do Paquistão. Centenas de pessoas sacrificaram as suas vidas em nome da sua língua materna.

Cabe à Unesco promover e difundir o respeito por todas as línguas. Este organismo defende que a diversidade linguística e cultural não pode ser dissociada da história da nação. A língua materna faz parte da identidade de cada povo e proteger a identidade também é uma questão crucial no âmbito dos direitos humanos. De acordo com relatórios recentes, 40% da população mundial não tem acesso à educação no idioma que fala ou entende melhor.

A língua é muito mais do que um aglomerado de letras que dão origem a palavras que fazem sentido. As frases tomam forma, os relatos ganham vida, mesmo até para aqueles que não sabem ler nem escrever. A língua é viva, acompanha os tempos, ganha asas. E a materna é rica em afetos, tradições, lendas e fábulas. Passa de geração em geração graças à família, aos amigos, aos vizinhos. Tem sido assim desde a pré-história, muito antes do nascimento da escrita.

Sou fluente em cinco idiomas (e consigo expressar-me, minimamente, num sexto) por necessidade e, sobretudo, por prazer. Comunicar faz parte do meu ADN e cada vez que mudo de país adapto-me à sua língua materna. Faz parte da integração expressar-se, o melhor possível, na língua do país onde decidimos viver. Confesso que tenho facilidade em passar de um idioma para outro, mas nunca me esqueço que o português é a minha língua materna e penso que nenhuma outra soa tão bem como a nossa.

Os meus filhos nasceram em Paris e têm nacionalidade francesa, no entanto, as primeiras palavras que disseram foram portuguesas. Optei por falar com eles sempre em português. São bilingues desde que nasceram e, em Espanha, comunicavam em três línguas sem qualquer problema. Na escola aprendem inglês e, no próximo ano letivo, o meu filho vai estudar espanhol. Tem pena que não haja a opção de português.

Fazer um esforço para comunicar numa língua que não é a nossa num país estrangeiro não significa aniquilar a língua materna. Infelizmente, é isso que ainda fazem algumas nações chauvinistas. Muitos portugueses, italianos e espanhóis que emigraram para França deixaram de falar no seu idioma com medo de serem ostracizados. Ainda há pouco tempo um colega de escola da minha filha disse-me, num tom autoritário, que em França fala-se francês. A criança tem 9 anos e não sabe que, durante muito tempo, na região onde vivemos, a Bretanha, muitos comunicavam apenas no dialeto local, recusando-se mesmo a aprender a língua de Molière.

Até agora, foi em Espanha, onde senti um maior respeito pela diversidade linguística. O país adotou o castelhano como idioma oficial, mas várias regiões viram as suas línguas adquirirem o estatuto de co-oficiais, entre as quais, o catalão, o valenciano, o galego e o euskera. Vivi um ano no País Basco e aprendi o idioma local à custa de muito esforço e perseverança. O euskera é uma das línguas mais antigas do mundo e não se assemelha a nenhuma outra. Tem um caráter próprio e os bascos fazem questão de mantê-la viva. Tiro-lhes o chapéu por saberem fazê-lo com arte, maestria e humor.

Respeito todas as línguas e talvez me lance na aprendizagem de uma sétima, por gosto. No entanto, assumo, sem pudor, que em nenhuma outra encontro palavras tão bonitas como mãe e saudade.

Filipa Moreira da Cruz

Âme vagabonde

La douceur de mon enfance à Lisboa
Saudades da vida boa!
La jeunesse loca à Barcelona
Et après, la suavidad à Girona
Il primo bacio a Roma
Enveloppé par un forte aroma
I ricordi volano come una colomba
My american dream à New York
Sans regrets ni remords
Une soeur à Atlanta
Allez, on y va?
Un certain été à Porto
Il fait si beau!
Et que dire de Torino
Andiamo fare un giro?
Une vie entière à Paris
Je ferme les yeux et j’y suis
Un deuxième chez moi à London
Un inoubliable automne à Boston
Oh my God!
Trois fois à Venezia
Glamour e sottigliezza
Les nuits étoilées à Annecy
Le bonheur est servi
Un tour de manège à Genève
Sous le froid et la neige
Un carnaval de folie à Rio
La fiesta à Ciudad de Mexico
Un festival de cinéma à Donostia
Roméo et Juliette à Verona
Une promenade en bateau à Copenhagen
Avec toi, le tandem
La Tosca à Prague
Ce n’est pas une blague!
Un hiver à Strasbourg
Je connais bien mon parcours
Twice in Stockholm
Far away from home
Uma aventura à Salvador da Bahia
Une âme perdue à Cracovia
Dans le sud, à Nice
Le soleil n’est pas un caprice
La plus belle amitié à Berlin
Une parenthèse à Dublin
Le temps d’une dernière Guinness
Oh happy…mess!
Le monde est vaste
Et je suis une incorrigible enthousiaste
Je le veux tout entier
Ses lacs, ses montagnes, ses villes, ses sentiers
Sans oublier le plus important
Les gens!
Et Saint-Malo, alors?!
Chut… j’en profite, encore!

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz



A vida é uma festa!

Photo : KaDDD

A vida é uma festa com balões coloridos, foguetes e confetti. Somos nós os anfitriões. Uns usam máscara porque recusam-se a revelar o que lhes vai na alma. Outros preferem um colete à prova de balas, sabendo que os seus manifestos serão alvo de críticas atrozes. Ato de coragem ou estupidez?

A vida é um palco onde os atores sabem o seu papel de cor. Todos eles representam sem sentimento nem emoção. Fobias confundem-se com alegrias e o medo dança, de mãos dadas, com a esperança. Não há limite entre o lógico e o imaginário. Não existem fronteiras entre o que foi, o que virá a ser e o que nunca será.

A vida é uma floresta encantada, habitada por fadas e duendes. Os mais velhos dão-lhe ritmo através de lendas, fábulas e contos. O facilmente adquirido deixa de ter graça e corremos atrás do inatingível. Desafiamos o tempo com arrogância, embora saibamos que nunca conseguiremos recuparar o passado. E é aí que a saudade nos invade, violentamente.

A vida é uma catedral, onde os milagres acontecem, todos os dias. A vida é uma aventura na Amazónia, um desafio nom voo intrépido, uma descoberta singular.

A vida é aqui a agora. Estás pronto para esta viagem?

Filipa Moreira da Cruz

Saudade

Photo : Filipa Moreira da Cruz

E, de repente, sou invadida por uma enorme saudade
Daquelas que nos matam os afetos e nos tiram a liberdade
Das que nos queimam por dentro devagarinho
Removendo tudo como um bichinho.

Esta frustrante saudade invisível e pessoal
Mostra-me apenas que sou um ser banal
Desses que riem, choram, gritam e calam
Dos que tentam tudo para acalmar a alma.

Palavra só nossa, sem tradução
Fado, destino ou mera ilusão
Sinto um enorme aperto no coração
Ultrapasso as fronteiras e perco a razão.

Devora-me essa saudade palpitante e crescente
Do passado, do futuro e do presente
Do que fui, do que sou e do que não chegarei a ser?
Do que tive e perdi, do que tenho e do que penso vir a ter.

Filipa Moreira da Cruz

Tão longe e tão perto

Photo : KaDDD

Dedico este texto a todos os que ousaram sair da zona de conforto. Aos que voaram mais alto, mais longe. Aos que enfrentaram preconceitos, tabus e dogmas. Aos que viraram as costas ao medo e fizeram das suas fraquezas a sua força. Aos que hesitam entre as visitas à família e as férias no estrangeiro. Aos que falham natais, casamentos e batizados, mas que fazem das tripas coração para estarem presentes nos momentos mais difíceis. Aos que são poliglotas, mas continuam a sonhar na língua materna. Aos que pensam um dia regressar, mas sabem que nunca o farão.

Penso sobretudo nos que hesitam em dar o passo. Nos que ponderam os prós e os contras. Nos que já estão quase, mas ainda não estão. Aos quais falta pouco para lá chegarem. Nos que remetem para amanhã, pensando que ainda vão a tempo. E não me esqueço dos que voltam atrás (só os estúpidos é que nunca mudam de ideias). Dos que se arrependem de dar um salto maior do que as pernas (só os idiotas é que raramente se enganam). Dos que engolem o orgulho e regressam ao país que os viu nascer. Sem mágoa nem arrependimento.

Há um luso em cada canto do mundo. Portugal é o berço de exploradores, aventureiros, destemidos e curiosos. As mais variadas razões levaram-nos a procurar lá fora o que não tínhamos cá dentro. Exílio político para uns, melhores condições de vida para outros. Ambição profissional para tantos. Ou vontade de viver além fronteiras, pura e simplesmente. Faço parte destes. Todos iguais, mas todos diferentes. Expatriados. Na mala levamos determinação, vontade e sonhos. No país que nos acolhe sentimo-nos, às vezes, desajustados e com saudades de tudo o que não foi (como escreveu Pessoa). A pátria está longe e a terra onde vivemos não é a nossa. E talvez nunca venha a ser.

Dizem que somos quase três milhões, mas é impossível determinar o número exato. Todos os dias há fluxos de entradas e saídas. Já vivi em cinco países diferentes e, ao longo das inúmeras viagens, encontrei compatriotas nos locais menos prováveis. Portugal é o segundo país da Europa com maior número de emigrantes. Durante muito tempo, no velho continente, França foi o lar da maioria e Canadá e Estados Unidos desempenharam essa função no outro lado do Atlântico.

A crise de 2008 veio mudar o panorama. Nessa altura, o país desresponsabilizou-se, forçando muitos a encontrar casa no Reino Unido ou em Espanha e colocando o Luxemburgo e a Suíça de novo na lista das preferências. Itália também faz parte dos novos destinos. Por outro lado, Angola deixou de ser a galinha dos ovos de ouro. Revezes da fortuna. Ainda assim, os emigrantes lusos são os que mais dinheiro enviam ao país de origem. Uma mais-valia para a economia nacional, nem sempre paga na mesma moeda.

Durante várias décadas, os emigrantes abalavam nas pontas dos pés, sem fazer barulho. Aceitavam tudo o que lhes era imposto de ânimo leve (?). Não dominavam os números nem as letras, mas não tinham medo do desconhecido. Dormiam em qualquer lado e falavam a língua materna às escondidas. Trabalhavam de sol a sol por uma ninharia. Sentiam-se gratos pelo pouco que tinham porque já era muito mais do que alguma vez pensaram ter.

O mundo mudou e os emigrantes também. Deixamos de ter vergonha do que somos e de onde vimos. Trazemos na bagagem conhecimentos, diplomas, ideias, ousadia e sonhos. Lá fora, elogiam a nossa perseverança e dedicação. Mas deixar a pátria nunca é fácil. A vida não é um rio tranquilo. Ainda bem.

Filipa Moreira da Cruz
2020