Despojos de uma vida

Photo : KaDDD

Passei por este mundo como tantos
Mas amei como tão poucos
Vivi, sem pressa, sem medo, sem prantos
Fazendo dos dias enfadonhos momentos loucos

Caminhei com os pés bem assentes
Nesta terra que suavemente me acolheu
E me deixou partir livre e sem correntes
Sem me esquecer de tudo o que ela me deu

Finalmente, sou apenas espírito e recordação
E uma imensa saudade do que não vivi
Resta-me esquecer o tempo, essa prisão
Fechar os olhos e pensar em ti

Vês essa estrela, ao longe, no céu
Que brilha no firmamento?
Pequenina e insignificante, assim sou eu
E venho dizer-te que a vida é um breve momento.

Filipa Moreira da Cruz

Quem disse…?

Quem disse que a água não tem sabor?
Que o silêncio não se ouve?
E que tudo tem cheiro?
Quem disse que a relva é verde?
Que o céu é azul ou cinzento?
E que as nuvens são brancas?
Quem disse que sucesso é ter dinheiro?
Que não fazer nada é preguiça?
Que solidão é estar só?
Quem disse que o amor não dói?
Que apenas os gatos têm sete vidas?
Que a vida já está traçada?
Quem disse tudo isso e mais ainda?

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz

Sem medo

Reprise

Photo : KaDDD

Quem tem medo não ama
Quem tem medo desanda
Quem tem medo esquece
Quem tem medo esmorece
Quem tem medo congela
Quem tem medo tagarela
Quem tem medo exclui
Quem tem medo não evolui
Quem tem medo condena
Quem tem medo ordena
Quem tem medo envelhece
Quem tem medo não esquece
Quem tem medo julga
Quem tem medo vira pulga
Quem tem medo agride
Quem tem medo não progride
Quem tem medo desespera
Quem tem medo não supera
Quem tem medo resiste
Quem tem medo apenas existe
Quem tem medo devora
Quem tem medo não chora
Quem tem medo refila
Quem tem medo exila
Quem tem medo desiste
Quem tem medo joga ao despiste
Quem tem medo balança
Quem tem medo não avança
Quem tem medo recusa-se a viver
Porque está sempre a sofrer.

Filipa Moreira da Cruz

As voltas da vida

Photo : Paul Laurent Bressin

É cão, é gato, é pulga e comichão
É uma casa de loucos onde reina a confusão
É fora, é dentro, é sempre a andar
É amor, é alegria, é crescer e partilhar

Vida emocionante e repleta de aventuras
É a desta criança sempre a fazer travessuras

É calor, é sol, é praia e muitos gelados
É a chuva miudinha a deslizar no telhado
É um corropio, é o fim da picada
É o eterno romântico ao lado da sua amada

Vida apaixonante e cheia de aventuras
É a deste jovem que continua a fazer travessuras

É responsabilidade, é trabalho e dinheiro
É um lugar à sombra num mundo muito feio
É esforço, é suor, é escravidão e dedicação
É a falta de concentração para a meditação

Pseudo-vida carente de aventuras
É a deste homem que não tem tempo para fazer travessuras

É tristeza, é desespero, é recusa e solidão
É falta de gente que lhe encha o coração
É medo da doença com cheiro a morte
É deixar de viver, abandonando-se à sua sorte

Fim de vida triste e sem aventuras
É a deste homem que deixou, há muito, de fazer travessuras.

Filipa Moreira da Cruz



Beco sem saída

Reprise

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Estou num beco sem saída
Encurralada entre quatro paredes
Caminho num túnel sem luz
E a solidão é a minha única companhia

Tu crias a tua melodia
Tu voas com as tuas próprias asas
Tu pintas o teu quadro

Certas palavras são carícias para os ouvidos
Outras apenas ruído
Tu escolhes as que queres ouvir

Há gestos que curam as feridas mais profundas
Outros quase matam, de tão bruscos
Tu escolhes os que queres receber

Tu escreves o teu livro
Tu desenhas o teu esboço
Tu traças o teu caminho

Algumas imagens trazem paz
Mas tantas apenas humilham
Tu escolhes as que queres ver

Existem pessoas que iluminam
Outras que só partilham escuridão
Tu escolhes as que queres ter na tua vida

Não estás num beco sem saída
Não caminhas na sombra
Tens o coração sempre contigo.

Filipa Moreira da Cruz

…e fiquei a ouvir as ondas do mar…

Deus ao mar o perigo e o abismo deu, mas nele é que espelhou o céu.

Fernando Pessoa
Photo : Filipa Moreira da Cruz

Sentada numa rocha
Ansiando por liberdade
O cenário é mágico
E eu respiro serenidade

Oiço o bater das ondas
O zumzum das abelhas
O corropio das gaivotas
E o assobio do vento

O sol esconde-se
Entre a fina bruma
E o céu veste-se
De um azul intenso

O meu corpo não existe
Sou leve como a alma
Não choro, não sofro, não resisto
Não acordo nem adormeço

Sinto-me a navegar
Atravesso mares e continentes
Sobrevoo as montanhas
Embalada pelas ondas do mar.

Filipa Moreira da Cruz

Jardim secreto

Uma voz calada
Um grito reprimido
Uma promessa selada
Um segredo escondido
Um gesto ausente
Uma marca apagada
Um passado, um presente
Uma mão entrelaçada
Um sonho esquecido
Uma espera eterna
Um desejo oprimido
Uma carícia terna
Um amor puro
Dois seres perdidos
Uma história sem futuro
Dois corpos esquecidos.

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Paul Laurent Bressin

Quimera

Photo : Filipa Moreira da Cruz

O tempo não para
O silêncio é coisa rara
Queremos o que não temos
Desejamos o que já tivemos
Percorremos o mundo
Sem respirar um segundo
Somos escravos da multidão
Não sabemo viver com a solidão
Vamos longe e não encontramos
Tudo aquilo que buscamos
Porque não olhamos
Para o que temos debaixo do nosso nariz
Regressamos de mãos vazias
Com a alma feita em pedaços
Apanhamos os cacos
Tentamos curar os males do coração
Perdemos o chão
Vivemos na ilusão
De que um dia seremos felizes
Mas esquecemo-nos das nossas raízes
E se deixassemos de percorrer uma quimera?
E começassemos a viver os nossos sonhos
Como se todos os dias fossem uma doce Primavera?

Filipa Moreira da Cruz

Nó na garganta

Reprise

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Grito reprimido, palavras não ditas
Sufoco na garganta que asfixia o peito
Mundo virado do avesso, sem eira nem beira
Toxinas à solta que perturbam o sono
E a paz de espírito tão desejada

Corrida contra o tempo, esse senhor doutorado
Que brinca com a nossa paciência
Ilusão de que as posses fazem de nós seres felizes
Despojos de uma vida incompleta
Que nos reclama ninharias

Soltar amarras, libertar os pensamentos
Deixar fluir os sonhos
E ouvir a criança que ainda vive em nós
Esquecer doutrinas e preconceitos
Sob pena de ficarmos sós.

Filipa Moreira da Cruz

Engano d’alma

Reprise

E ao acordar, lá vem a consciência.

Sophia de Mello Breyner Andresen
Photo : Paul Laurent Bressin

Mergulhada num sonho infinito
Imagino-me imortal
Poderosa como mais ninguém
Fecho os olhos e deixo-me levar

O sol é uma bola de fogo ardente
As nuvens são macias e leves
A relva é verde e suave
O céu é um horizonte inatingível

Caminho sozinha
No meio da multidão
Ausento-me das conversas
Fúteis e vazias

Perdura para sempre
O gosto de viver
A alegria de sonhar
O espírito da aventura

Empurro a consciência
Para bem longe
Para o outro lado do mundo
Onde nunca a possa encontrar

Afinal, não passou tudo
De uma ilusão
O sonho é um engano d’alma!
E a razão sobrepõe-se à vida.

Filipa Moreira da Cruz