Casa

Quem constrói a casa não é quem a ergueu mas quem nela mora.

Mia Couto

Uma casa morre, se não é habitada com amor.

Mia Couto

A janela: não é onde a casa sonha ser mundo?

Mia Couto

Photos : Filipa Moreira da Cruz

Depende

Reprise

Photo : KaDDD

Dizem que a água não tem sabor nem cheiro
Depende…
Dizem que os rios vão dar ao mar
Depende…
Dizem que depois da vida só há morte
Depende…
Dizem que quando o sol dorme a lua desperta
Depende…
Dizem que um dia somos crianças e, de repente, chegamos a velhos
Depende…
Dizem que depois da tempestade vem a bonança
Depende…
Dizem que ninguém morre por amor
Depende…
Dizem que dois mais dois são quatro
Depende…
Dizem que a felicidade é uma ilusão
Depende…
Dizem que os sonhos não alimentam a vida
Depende…
Dizem que a arte não mata a fome
Depende…
Dizem que não há mal que dure para sempre
Depende…
Dizem que enquanto há vida, há esperança
Depende…
Dizem tanto e fazem tão pouco
Depende…

Filipa Moreira da Cruz

Asas quebradas

Porque os homens são anjos nascidos sem asas, é o que há de mais bonito, nascer sem asas e fazê-las crescer.

José Saramago

O anjo voa, embora não tenha asas.
Quando a exaustão chega, adormece com a cabeça nas nuvens, ignorando as fortes brasas que lhe queimam os pés.
O seu corpo é um imenso mar azul.
A sua alma é dourada e leve como a areia da praia num dia de Verão.
Não sente calor nem frio.
Desconhece a fome e a sede.
Avista ao longe a cidade, mas prefere ausentar-se do seu bulício.
Todas as noites, visita os que nele acreditam e lhe encomendam doces sonhos.
Atira bem alto os medos alheios e devolve a esperança à Humanidade.

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz


Reflexos

Reprise

Quero a delícia de poder sentir as coisas mais simples.

Manuel Bandeira

Reflexos de uma vida
Sofrida, esprimida
Turbilhão de sonhos
Movimentos enfadonhos
Serpentinas de prazer
Para satisfazer os caprichos do ser
Gestos automáticos
Olhares baços, mas francos
Despojos de uma lembrança
A tempestade já virou bonança.

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz

Ai que saudades!

Reprise

Saudades, só portugueses conseguem senti-las bem porque têm essa palavra para dizer que as têm.

Fernando Pessoa

Tenho saudades do que em tempos fui e do que nunca serei
Tenho saudades do que tenho e do que ainda não encontrei
Tenho saudades dos que partiram
Tenho saudades dos que ainda não chegaram
Tenho saudades dos que foram e já não são
Tenho saudades dos que, um dia, serão
Tenho saudades dos fugazes encontros
Tenho saudades dos eternos desencontros
Tenho saudades das terras longínquas
Tenho saudades das conversas ambíguas
Tenho saudades daquele abraço
Tenho saudades de repousar no teu regaço
Tenho saudades da partilha e da comunhão
Tenho saudades, de um dia, conseguir dizer não
Tenho saudades da multidão
Tenho saudades da solidão
Tenho saudades da desconcertante felicidade
Tenho saudades de ter saudade.

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz

Mar adentro

O mar é o habilidoso desenhador de ausências.

Mia Couto
Photo : Filipa Moreira da Cruz

Quando a alma está doente
E a esperança mais ausente
Tranquiliza-me o azul do mar
Sinto-me livre, quase a levitar
Sempre que a saudade me apodera
Mergulho numa quimera
Sou embalada pelas ondas
E esqueço palavras hediondas
Talvez seja o verde esmeralda
Que me tem mantido acordada
Ou será o reflexo na água
Que me devolve a esperança recuperada?
Afortunada sou eu por te ter ao meu lado
Mar adentro, mar abençoado.

Filipa Moreira da Cruz

Estrela do mar

Reprise

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Não canta nem assobia
Desliza como a chuva miudinha
E toca-me suavemente
Será uma estrela que caiu do céu?
Perdeu-se das suas irmãs
Chama-me desesperada
Puxa-me pelo cabelo
Procura abrigo e reconforto
Subo ao monte mais alto
Equilibro-me nas pontas dos pés
Segura-a de mansinho
E devolvo-a ao infinito
Ela brilha no firmamento
Para sempre?
Peço um desejo que se cumpre
A estrela desceu à Terra
Emprestada pela lua
Atravessou a via láctea
Pela última vez
Na noite escura é apenas mais uma
Mas para mim, é única.

Filipa Moreira da Cruz

Quebra cabeças

Photo : KaDDD

Alma na lama
Lama nos pés
Pés descalços
Descalços os sonhos
Sonhos levados pelo vento
Vento áspero e violento
Violento golpe de estado
Estado de bonança
Bonança aparente
Aparente felicidade
Felicidade que escapa
Escapa entre os dedos
Dedos mágicos
Mágicos segundos
Segundos escravos do tempo
Tempo dono e senhor da vida
Vida simplesmente… vivida!

Filipa Moreira da Cruz

Bruma matinal

Photo : Paul Laurent Bressin

Realidade destorcida
Feridas abertas
Esperança agradecida
Promessas incertas
Silêncios desfeitos
Alma ausente
Sonhos insatisfeitos
Coração doente
Nevoeiro mentiroso
Olhar esquivo
Beijo guloso
Gesto impulsivo
Bruma caprichosa
Futuro incerto
Mão carinhosa
Fim do desacerto.

Filipa Moreira da Cruz

Êxtase da vida

Reprise

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Todos os dias acordo
Deambulando nos meus sonhos
Que partilho com o meu amigo
Arrebatador, secreto, fiel

O espírito empurra-me
Por entre as labaredas do passado
Que me perseguem e arrastam
Para essa constante saudade

As trevas da escuridão
As estrelas da noite clara
São confidentes nas horas divididas
Entre o cansaço e a insónia

Tantas vezes hesitei
Lamentei lágrimas
Escondi frustrações
Desafiei monstros

O coração é o único contentamento
O músculo que me mantém viva
Por fora sou ligeireza
Por dentro sou discernimento.

Filipa Moreira da Cruz