Mudança

Photo : Paul Laurent Bressin

Cidade perdida no meio de um continente
Gente apressada, sol quente
Vento ofegante
Humor inconstante
País que vive contra a corrente
Esperança perdida para sempre
Mente ausente
Receio permanente
Pensamentos arbitrários
Donos do mundo autoritários
Inseguranças, devaneios
Esquemas alheios
Labirinto de questões
Múltiplas opções
Ficar não é solução
Partir é fruto da imaginação
Sonhos encurralados
Destroçados, espezinhados
Que fazer?
Basta querer!
Mudar tudo!
A vida morre num segundo.

Filipa Moreira da Cruz

Jardim secreto

Uma voz calada
Um grito reprimido
Uma promessa selada
Um segredo escondido
Um gesto ausente
Uma marca apagada
Um passado, um presente
Uma mão entrelaçada
Um sonho esquecido
Uma espera eterna
Um sufoco oprimido
Uma carícia terna
Um amor puro
Dois seres perdidos
Uma história sem futuro
Dois corpos esquecidos.

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Paul Laurent Bressin

Serenidade

Percorro as ruas desertas da cidade
Um templo de paz e de serenidade
Subo colinas, ruelas e muralhas
Liberto-me das minhas antranhas
Abrigo-me nas suas artérias
Quem me dera regressar a estas férias!
Os jardins estão imaculadamente
Limpos e ordenados
Silêncio, que se vai cantar o fado?
Sinto falta do barulho, da confusão
Não sou capaz de ouvir o meu coração
Sonho ou realidade?
Pouco importa!
Estou apixonada pela cidade.

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz

Estrela do mar

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Não canta nem assobia
Desliza como a chuva miudinha
E toca-me suavemente
Será uma estrela que caiu do céu?
Perdeu-se das suas irmãs
Chama-me desesperada
Puxa-me pelo cabelo
Procura abrigo e reconforto
Subo ao monte mais alto
Equilibro-me nas pontas dos pés
Segura-a de mansinho
E devolvo-a ao infinito
Ela brilha no firmamento
Para sempre?
Peço um desejo que se cumpre
A estrela desceu à Terra
Emprestada pela lua
Atravessou a via láctea
Pela última vez
Na noite escura é apenas mais uma
Mas para mim, é única.

Êxtase da vida

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Todos os dias acordo
Deambulando nos meus sonhos
Que partilho com o meu amigo
Arrebatador, secreto, fiel

O espírito empurra-me
Por entre as labaredas do passado
Que me perseguem e arrastam
Para essa constante saudade

As trevas da escuridão
As estrelas da noite clara
São confidentes nas horas divididas
Entre o cansaço e a insônia

Tantas vezes hesitei
Lamentei lágrimas
Escondi frustrações
Desafiei monstros

O coração é o único contentamento
O músculo que me mantém viva
Por fora sou ligeireza
Por dentro sou discernimento.

Filipa Moreira da Cruz

Quebra cabeças

Photo : KaDDD

Alma na lama
Lama nos pés
Pés descalços
Descalços os sonhos
Sonhos levados pelo vento
Vento áspero e violento
Violento golpe de estado
Estado de bonança
Bonança aparente
Aparente felicidade
Felicidade que escapa
Escapa entre os dedos
Dedos mágicos
Mágicos segundos
Segundos escravos do tempo
Tempo dono e senhor da vida
Vida simplesmente… vivida!

Filipa Moreira da Cruz

Pés no chão, cabeça nas nuvens

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Admiro essa tua capacidade
Para enfrentar a verdade
A qualquer preço
Com zelo e sem adereço

Quando perco o chão
Dás-me um abanão
Colocas-me de pé
Devolves-me a fé

O meu corpo habita o teu planeta
Mas os meus sonhos vivem noutro cometa
A minha razão une-se à tua
O espírito é teimoso e vive na lua

Tu és paciente
Vives o instante presente
Eu sou lunática
E nervosamente pragmática

Juntos, percorremos o mundo
Ah, grande momento de felicidade!
E o que parece uma eternidade
Não passa de um breve segundo.

Filipa Moreira da Cruz

Nó na garganta

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Grito reprimido, palavras não ditas
Sufoco na garganta que asfixia o peito
Mundo virado do avesso, sem eira nem beira
Toxinas à solta que perturbam o sono
E a paz de espírito tão desejada.

Corrida contra o tempo, esse senhor doutorado
Que brinca com a nossa paciência
Ilusão de que as posses fazem de nós seres felizes
Despojos de uma vida incompleta
Que nos reclama ninharias.

Soltar amarras, libertar os pensamentos
Deixar fluir os sonhos
E ouvir a criança que ainda vive em nós
Esquecer doutrinas e preconceitos
Sob pena de ficarmos sós.

Filipa Moreira da Cruz

À deriva

Perdi-me nos teus olhos
Azuis como o oceano
Intensamente límpidos
O divino toca o profano
Fui apanhado de surpresa
Pela tempestade
Que chegou com pressa
De contar toda a verdade
Engolido pelo mar
Varrido pelo vento
Sufoquei
Fiquei sem ar
Caí na armadilha do tempo.

Filipa Moreira da Cruz


Photos : Filipa Moreira da Cruz

Engano d’alma

Photo : Paul Laurent Bressin

E ao acordar, lá vem a consciência.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Mergulhada num sonho infinito
Imagino-me imortal
Poderosa como mais ninguém
Fecho os olhos e deixo-me levar

O sol é uma bola de fogo ardente
As nuvens são macias e leves
A relva é verde e suave
O céu é um horizonte inatingível

Caminho sozinha
No meio da multidão
Ausento-me das conversas
Fúteis e vazias

Perdura para sempre
O gosto de viver
A alegria de sonhar
O espírito da aventura

Empurro a consciência
Para bem longe
Para o outro lado do mundo
Onde nunca a possa encontrar

Afinal, não passou tudo
De uma ilusão
O sonho é um engano d’alma!
E a razão sobrepõe-se à vida.

Filipa Moreira da Cruz