Diz-me o que vês

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Diz-me o que vês
Não, não digas

Esses teus olhos não mentem
São puros e transparentes
Deixa-me sonhar, entrar dentro de ti
Trespassar a tua alma sem fim
Dois corpos, um único espírito

Diz-me o que vês
Não, não digas

Sozinha, caminho
Por entre as trevas do passado
Percorro trilhos perdidos
Até atingir a felicidade
Ah, grande momento este!

Diz-me o que vês
Não, não digas

Neste mundo cruel e medonho
Atrevo-me a admirar
Esses teus doces olhos
Que as histórias da vida
Hão-de contar

Diz-me o que vês
Não, não digas

Filipa Moreira da Cruz

Ser poeta

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Ser Poeta é ser mais alto, é ser maior do que os homens!

Florbela Espanca

Ser poeta é ser um todo
Pleno e infinito
Brilhante como as estrelas
E triste como a noite sem elas

O poeta sonha, sempre
E quando o desejo perturba a mente
Ousa pensar que a lua
É apenas sua

Ser poeta é ser diferente
Fazer das tripas coração
Ter a alma na palma da mão
Desejar viver para sempre

O poeta é dia e noite
Ao mesmo tempo
E o seu espírito
É em contante movimento

Ser poeta é deixar de ter
Saciar-se no papel
E no deslizar de uma caneta
Resistir para nunca morrer.

Filipa Moreira da Cruz

Estado d’Alma

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Amor
Desamor
Apego
Sufoco
Liberdade
Sem troco
Realidade
Ilusão
Inverno
Verão
Voar
Estagnar
Sonhar
Desistir
Chorar
Rir
Descrença
Religião
Solidão
União
Tudo
Nada
Vida
Desgarrada
Início
FIM


Filipa Moreira da Cruz

Quimera

Photo : Filipa Moreira da Cruz

O tempo não para
O silêncio é coisa rara
Queremos o que não temos
Desejamos o que já tivemos
Percorremos o mundo
Sem respirar um segundo
Somos escravos da multidão
Não sabemo viver com a solidão
Vamos longe e não encontramos
Tudo aquilo que buscamos
Porque não olhamos
Para o que temos debaixo do nosso nariz
Regressamos de mãos vazias
Com a alma feita em pedaços
Apanhamos os cacos
Tentamos curar os males do coração
Perdemos o chão
Vivemos na ilusão
De que um dia seremos felizes
Mas esquecemo-nos das nossas raízes
E se deixassemos de percorrer uma quimera?
E começassemos a viver os nossos sonhos
Como se todos os dias fossem uma doce Primavera?

Filipa Moreira da Cruz

A galinha da vizinha

Photo : Filipa Moreira da Cruz

D. Maria tinha uma galinha
Espevitada, traquinas
Rechonchuda e pequenina.

Joaquina, a galinha
Vaidosa e convencida
Julagava-se irresistível de tão bem parecida.

Tinha tiques e manias
Cacarejava alto e sem pudor.
Só lhe faltava falar para ser gente maior.

Certo dia, não acordou
D. Maria ficou assustada,
Mas na capoeira não encontrou nada.

Joaquina fez as malas
Decidida e aventureira
Cansou-se da sua vida prazenteira.

D. Maria viu-a ao longe e pensou
Também eu vou percorrer o mundo
A vida é breve e num suspiro já acabou.

Filipa Moreira da Cruz

De geração em geração

Photo : KaDDD

Enquanto o menino olha pela janela e sonha em ser ave, flor ou raposa a professora ordena:
– João, faz a lição!
Ele regressa ao i esguio e arrebitado, desejando estar lá fora, do outro lado.
O João cresceu e cortaram-lhe as asas. Esmoreceu.
Em família de doutores e engenheiros ser amigo de bicho está fora de questão!
Casou, teve filhos e deu por si a repetir:
– João, faz a lição!
Mas este miúdo tinha alma de poeta, ouvia uma melodia e pensava logo na letra.
– Podes fazer o que quiseres, mas escrever músicas, isso é que não!
Também ele entrou na forma e desempenhou a sua missão.
O pequeno João, decidido e aventureiro queria viajar pelo mundo inteiro.
– Explorador?! Isso não é profissão!
Mas este rapaz era um guerreiro, desarmou professores e desafiou a família.
Ia fazer o que bem entendia!
E quando o pai estavas prestes a dizer a fatídica frase que nunca saltara uma geração, o jovem exclamou:
– Já chega de fazer a lição, vou seguir o meu coração!

Filipa Moreira da Cruz

Tão longe e tão perto

Photo : KaDDD

Dedico este texto a todos os que ousaram sair da zona de conforto. Aos que voaram mais alto, mais longe. Aos que enfrentaram preconceitos, tabus e dogmas. Aos que viraram as costas ao medo e fizeram das suas fraquezas a sua força. Aos que hesitam entre as visitas à família e as férias no estrangeiro. Aos que falham natais, casamentos e batizados, mas que fazem das tripas coração para estarem presentes nos momentos mais difíceis. Aos que são poliglotas, mas continuam a sonhar na língua materna. Aos que pensam um dia regressar, mas sabem que nunca o farão.

Penso sobretudo nos que hesitam em dar o passo. Nos que ponderam os prós e os contras. Nos que já estão quase, mas ainda não estão. Aos quais falta pouco para lá chegarem. Nos que remetem para amanhã, pensando que ainda vão a tempo. E não me esqueço dos que voltam atrás (só os estúpidos é que nunca mudam de ideias). Dos que se arrependem de dar um salto maior do que as pernas (só os idiotas é que raramente se enganam). Dos que engolem o orgulho e regressam ao país que os viu nascer. Sem mágoa nem arrependimento.

Há um luso em cada canto do mundo. Portugal é o berço de exploradores, aventureiros, destemidos e curiosos. As mais variadas razões levaram-nos a procurar lá fora o que não tínhamos cá dentro. Exílio político para uns, melhores condições de vida para outros. Ambição profissional para tantos. Ou vontade de viver além fronteiras, pura e simplesmente. Faço parte destes. Todos iguais, mas todos diferentes. Expatriados. Na mala levamos determinação, vontade e sonhos. No país que nos acolhe sentimo-nos, às vezes, desajustados e com saudades de tudo o que não foi (como escreveu Pessoa). A pátria está longe e a terra onde vivemos não é a nossa. E talvez nunca venha a ser.

Dizem que somos quase três milhões, mas é impossível determinar o número exato. Todos os dias há fluxos de entradas e saídas. Já vivi em cinco países diferentes e, ao longo das inúmeras viagens, encontrei compatriotas nos locais menos prováveis. Portugal é o segundo país da Europa com maior número de emigrantes. Durante muito tempo, no velho continente, França foi o lar da maioria e Canadá e Estados Unidos desempenharam essa função no outro lado do Atlântico.

A crise de 2008 veio mudar o panorama. Nessa altura, o país desresponsabilizou-se, forçando muitos a encontrar casa no Reino Unido ou em Espanha e colocando o Luxemburgo e a Suíça de novo na lista das preferências. Itália também faz parte dos novos destinos. Por outro lado, Angola deixou de ser a galinha dos ovos de ouro. Revezes da fortuna. Ainda assim, os emigrantes lusos são os que mais dinheiro enviam ao país de origem. Uma mais-valia para a economia nacional, nem sempre paga na mesma moeda.

Durante várias décadas, os emigrantes abalavam nas pontas dos pés, sem fazer barulho. Aceitavam tudo o que lhes era imposto de ânimo leve (?). Não dominavam os números nem as letras, mas não tinham medo do desconhecido. Dormiam em qualquer lado e falavam a língua materna às escondidas. Trabalhavam de sol a sol por uma ninharia. Sentiam-se gratos pelo pouco que tinham porque já era muito mais do que alguma vez pensaram ter.

O mundo mudou e os emigrantes também. Deixamos de ter vergonha do que somos e de onde vimos. Trazemos na bagagem conhecimentos, diplomas, ideias, ousadia e sonhos. Lá fora, elogiam a nossa perseverança e dedicação. Mas deixar a pátria nunca é fácil. A vida não é um rio tranquilo. Ainda bem.

Filipa Moreira da Cruz
2020