Partidas e Chegadas

Reprise

Estação de comboio ou aeroporto
Azáfama, confusão
Do meio de transporte não me ocupo
Viajo com o coração
Despedidas, abraços
Saudades e solidão
Fotografias e retratos
São fonte de inspiração
Recordar é viver
Mas a vida não é um episódio abstrato
As memórias ajudam-nos a ser
Viajantes no tempo e no espaço.

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz

Tempo é vida

Reprise

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Dizem que tempo é dinheiro, mas eu não trocaria nenhuma fortuna pelo tempo que já tive.
Tempo é vida!
Cheguei a tempo ao comboio e ao avião.
Tive tempo para ir ao hospital e de acompanhar a minha mãe no regresso a casa.
Houve tempo para rir e para chorar. Tempo para falar de futilidades e de coisas sérias.
Tempo para matar as saudades e dar de comer à solidão.
Tempo para abraços e beijos.
Gostaria de ter tido ainda mais tempo, mas deste bem precioso não devemos abusar.
Tempo não sobra nem nunca é demais. Tempo é empréstimo para a eternidade.
O que farão os ricos com tanto dinheiro e sem tempo para o gastar?

Filipa Moreira da Cruz

A morte pode esperar

Reprise

A vida não corre, voa
E matamos o tempo à toa
Conversa fiada
Gentinha abusada
Pensamentos mesquinhos
Sentimentos reprimidos
Para quê?
O coração sente, mas não vê
E pouco adianta sonhar
Se nunca vamos acreditar
Que melhor é possível
Cada dia é imprevisível
Não basta querer
Temos que fazer acontecer
Viver é aqui e agora
Para a morte não há hora.

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz

Diapasão

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Um sopro
Sem fôlego
Uma vontade
Partilhada
Um desejo
Reprimido
Uma aventura
Inacabada
Um sonho
Impossível
Um passeio
Sem rumo
Um mundo
Em guerra
Uma casa
Sem paz
Um minuto
Sem segundo
Uma vida
A minha?
A tua?
Tanto faz!

Filipa Moreira da Cruz

Quimera

Photo : Filipa Moreira da Cruz

O tempo não para
O silêncio é coisa rara
Queremos o que não temos
Desejamos o que já tivemos
Percorremos o mundo
Sem respirar um segundo
Somos escravos da multidão
Não sabemo viver com a solidão
Vamos longe e não encontramos
Tudo aquilo que buscamos
Porque não olhamos
Para o que temos debaixo do nosso nariz
Regressamos de mãos vazias
Com a alma feita em pedaços
Apanhamos os cacos
Tentamos curar os males do coração
Perdemos o chão
Vivemos na ilusão
De que um dia seremos felizes
Mas esquecemo-nos das nossas raízes
E se deixassemos de percorrer uma quimera?
E começassemos a viver os nossos sonhos
Como se todos os dias fossem uma doce Primavera?

Filipa Moreira da Cruz

A galinha da vizinha

Reprise

Photo : Filipa Moreira da Cruz

D. Maria tinha uma galinha
Espevitada, traquinas
Rechonchuda e pequenina

Joaquina, a galinha
Vaidosa e convencida
Julagava-se irresistível de tão bem parecida

Tinha tiques e manias
Cacarejava alto e sem pudor
Só lhe faltava falar para ser gente maior

Certo dia, não acordou
D. Maria ficou assustada,
Mas na capoeira não encontrou nada

Joaquina fez as malas
Decidida e aventureira
Cansou-se da sua vida prazenteira

D. Maria viu-a ao longe e pensou
Também eu vou percorrer o mundo
A vida é breve e num suspiro já acabou.

Filipa Moreira da Cruz

Pés no chão, cabeça nas nuvens

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Admiro essa tua capacidade
Para enfrentar a verdade
A qualquer preço
Com zelo e sem adereço

Quando perco o chão
Dás-me um abanão
Colocas-me de pé
Devolves-me a fé

O meu corpo habita o teu planeta
Mas os meus sonhos vivem noutro cometa
A minha razão une-se à tua
O espírito é teimoso e vive na lua

Tu és paciente
Vives o instante presente
Eu sou lunática
E nervosamente pragmática

Juntos, percorremos o mundo
Ah, grande momento de felicidade!
E o que parece uma eternidade
Não passa de um breve segundo.

Filipa Moreira da Cruz

À deriva

Perdi-me nos teus olhos
Azuis como o oceano
Intensamente límpidos
O divino toca o profano
Fui apanhado de surpresa
Pela tempestade
Que chegou com pressa
De contar toda a verdade
Engolido pelo mar
Varrido pelo vento
Sufoquei
Fiquei sem ar
Caí na armadilha do tempo.

Filipa Moreira da Cruz


Photos : Filipa Moreira da Cruz

Talvez…

Photo : Paul Laurent Bressin

Enganar o tempo
Aproveitar este momento
Amarfanhar o futuro
Disparar um tiro no escuro
Ouvir o silêncio
Gritar o que levo dentro
Despistar a sorte
Perder o sul e o norte
Escorregar no fracasso
Dar aquele abraço
Aprender com os erros
Desvendar os segredos
Vaguear pela multidão
Assumir o sim e o não
Enfrentar o medo
Deixar de lado o enredo
Amar o talvez
Uma e outra vez.

Filipa Moreira da Cruz

Bem devagar

Reprise

Photo : KaDDD

Temos pressa de nascer
De crescer e de ser gente grande
Somos todos escravos
Dessa estúpida ansiedade
De desaprender sem antes errar

De chegar bem alto
Sem nunca ter caído
De ser o primeiro sem tropeçar
De ir sempre mais longe
Sem sequer tentar

Pressa de ter e de gastar
De trabalhar e de espezinhar
E de ganhar, sim de ganhar
Pressa de viver
Será?

E quando a morte chega
De mansinho e sem avisar
Já é tarde para darmo-nos conta
Que afinal podíamos ter vivido
Simplesmente bem devagar.

Filipa Moreira da Cruz