Dor

Reprise

Photo : KaDDD

De repente, cai a máscara!
Eu já não sou eu… E ainda bem!
Esqueço os medicamentos e as dores,
Atraso o relógio porque ainda não é hora.

Dissimulo a angústia quotidiana,
Retardo os efeitos secundários,
Saboreio cada instante – porque sei
Que este momento pode ser o último.

Volto a ser criança e sou livre!
Para correr, saltar, dançar.
Fazer trinta por uma linha,
Pintar a manta de várias cores.

Ai se eu soubesse parar o tempo!
Para agarrar o que mais amo.
Desfazer-me de ninharias e futilidades
E chorar muito até limpar a alma.

Que sorte tenho de (ainda) estar viva,
De deslizar ao sabor do vento.
Sem pressa, sem medo, sem desespero,
Sou de novo eu! E ainda bem!

Filipa Moreira da Cruz

Portas e janelas

Sou apaixonada por portas e janelas
Grandes, pequenas, de ferro ou de madeira
Para mim, todas são belas
Nunca me sinto sem eira nem beira
Porque quando uma se fecha
Outra estende-me os braços
Uma porta trancada não se rejeita
E eu recebo-a num grande abraço
Janela velha e escaqueirada
Enterrada viva sem dó nem piedade
Sofre em silêncio a desgraçada
Portas de casas e prédios na cidade
Donas e senhoras de conventos e castelos
Trancam segredos a sete chaves
Mesmo os mais singelos e belos
Janelas que acolhem pássaros e flores
E cortinas testemunhas de desamores.

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz

Nostalgia do futuro

Photo : KaDDD

Ai se eu soubesse
Ser sol e lua
Céu e mar
Ai se eu soubesse
Fazer tudo sem pressa
Bem devagar
Ai se eu soubesse
Apagar as chamas do mundo
Com garra e genica
Ai se eu soubesse
Transformar o planeta azul num segundo
No doce lar que nos abriga
Ai se eu soubesse
Lidar com as saudades
Sem dor nem tristeza
Ai se eu soubesse
Dar a volta às dificuldades
Com harmonia e ligeireza
Ai se eu soubesse
O que aí vem
Num abrir e fechar de olhos
Ai se eu soubesse
Apreciar tudo o que me oferece
A Terra-Mãe
Ai se eu soubesse
Evitar a conversa fiada
Para dedicar-me à minha prece.

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz

Esperanza

Ningún mal dura para siempre
Y el sol lo llevo en mi mente
No hay tristezas eternas
¡Quitate las penas!
Todo cambia
De la noche a la mañana
En un segundo todo es posible
Y el universo vuelve a ser creíble
Basta escuchar el corazón
¡Olvidate de la razón!
La vida es una danza
Entra en el baile y pintate de color esperanza.

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz

Recuerdos

Photo : Paul Laurent Bressin

Miro a esa casa frente al mar
Y me acuerdo de nuestro hogar
Escucho el viento
Y me acuerdo de tu aliento
Veo los árboles agitandose
Y me acuerdo de tus dedos regañandome
Huelo las flores en el jardín
Y me acuerdo de tu perfume en mi
Oigo los coches que circulan
Y me acuerdo de tus caricias que ya no me cuidan
Miro al cielo gris
Y me acuerdo cuando aún éramos tres
Busco el sol en el horizonte
Y me acuerdo de nuestros paseos en el monte
Cierro la ventana
Y me acuerdo cuando te fuiste aquella mañana
Respiro el silencio
Y me pregunto si todavía voy a tiempo de borrar lo que siento.

Filipa Moreira da Cruz

Ayer…hoy

Ayer llegó sin aviso
Y terminó en un suspiro
De repente, te fuiste
Y de mi piel te despediste
Sin siquiera decir adios
Ayer fuimos dos
En un cuerpo muerto
Sin luz ni revuelto
Hoy ya está aquí
Con una sonrisa agridulce para mi
Los barcos pasan
Las estrellas brillan
El cielo es más gris
Gotas de lluvia caen sobre mi nariz
La vida sigue igual
Y yo soy un eterno sentimental.

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz

Uma casa como a minha

Casa é calma e aconchego?
Nem sempre
Há casas que são desasossego
E distraem a mente
Lar doce lar?
Algumas
Noutras é um inferno lá morar
Duvidas?
Queres entrar?
Bonita e sofisticada por fora
Quando entras, sonhas em ir-te embora
Os que lá moram choram em silêncio
Da violência fazem um convênio
Prefiro a minha casinha
Simples e pequenina
Em cada canto, respira-se magia
E todos os dias são uma alegria.

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Paul Laurent Bressin

Quebra cabeças

Photo : KaDDD

Alma na lama
Lama nos pés
Pés descalços
Descalços os sonhos
Sonhos levados pelo vento
Vento áspero e violento
Violento golpe de estado
Estado de bonança
Bonança aparente
Aparente felicidade
Felicidade que escapa
Escapa entre os dedos
Dedos mágicos
Mágicos segundos
Segundos escravos do tempo
Tempo dono e senhor da vida
Vida simplesmente… vivida!

Filipa Moreira da Cruz

Ai, o amor!

Photo : KaDDD

Duvida da luz dos astros,
De que o sol tenha calor,
Duvida até da verdade,
Mas confia no meu amor.

William Shakespeare

Não me odeies, não me censures
Tudo o que faço é por amor
Ofereço-te o que tenho
E o que não possedo invento
Para ver-te sempre feliz

A tua alma implora mais
Deseja algo fora do meu alcance
Eu apenas peço um sorriso
Como prova de gratidão

Lanço os meus braços nus
Em busca de reconforto
Cubro os olhos com as mãos
Enfeitiçadas pelos teus lábios

Sonho com esse beijo prometido
Escondo a teimosa melancolia
Saboreio as alegrias dos outros
Vivo na esperança de te rever

Não descansarei sem a certeza
De que um dia seremos dois
Abraço esse devaneio
Com a alma em pedaços

Mais não peço
E mais não posso dar
Morro de amor por ti
E por ti sobrevivo…assim.

Filipa Moreira da Cruz

As voltas da vida

Photo : Paul Laurent Bressin

É cão, é gato, é pulga e comichão
É uma casa de loucos onde reina a confusão
É fora, é dentro, é sempre a andar
É amor, é alegria, é crescer e partilhar

Vida emocionante e repleta de aventuras
É a desta criança sempre a fazer travessuras

É calor, é sol, é praia e muitos gelados
É a chuva miudinha a deslizar no telhado
É um corropio, é o fim da picada
É o eterno romântico ao lado da sua amada

Vida apaixonante e cheia de aventuras
É a deste jovem que continua a fazer travessuras

É responsabilidade, é trabalho e dinheiro
É um lugar à sombra num mundo muito feio
É esforço, é suor, é escravidão e dedicação
É a falta de concentração para a meditação

Pseudo-vida carente de aventuras
É a deste homem que não tem tempo para fazer travessuras

É tristeza, é desespero, é recusa e solidão
É falta de gente que lhe encha o coração
É medo da doença com cheiro a morte
É deixar de viver, abandonando-se à sua sorte

Fim de vida triste e sem aventuras
É a deste homem que deixou, há muito, de fazer travessuras.

Filipa Moreira da Cruz