A porta do paraíso

Reprise

A vida é feita de escolhas
E nossas cúmplices são as folhas
Onde escrevemos a nossa história
Cada dia na Terra é uma vitória
Segue o teu caminho que eu seguirei o meu
Protegida pela natureza e o azul do céu
Quero viver em paz com a minha consciência
Ou numa constante penitência?
Prefiro a empatia e a modéstia
Ou vendo-me ao luxo e à abundância?
Abro a porta de uma prisão
Ou a janela do meu coração?

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz

Portugal – España – France

Reprise

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Nasci em Portugal. Vivi vários anos em Espanha e regressei em 2018 a França. Não me peçam para escolher um dos três países. É impossível! Adoro os três e sinto-me em casa em qualquer um deles.

Saúde

Já ouvi muitas vezes dizer que em Portugal há excelentes médicos. É verdade! No entanto, escasseiam recursos humanos, financeiros e técnicos. Não há camas suficientes e os hospitais estão degradados. Somos o único dos 3 países onde existe a taxa moderadora e aquele onde mais escasseiam médicos de família.
Espanha também dispões de vários centros de sáude e o acesso é rápido e gratuito. As ilhas Canárias têm hospitais modernos com aprelhos de última geração. Infelizmente, alguns exames não se podem realizar por falta de médicos especialistas.
França tem um sistema mais justo e liberal. Não há centros de saúde, podemos escolher o médico que quisermos e somos reembolsados a 100% (entre a segurança social e o seguro de saúde). Quando vivi em Paris tinha direito a dois pares de óculos por ano. Acumulei os modelos mais caros de Dior, Chanel e Prada.

Educação

Em França a educação é obrigatória a partir dos 3 anos e a maioria das escolas são públicas e totalmente grátis (o material é todo fornecido pelas mesmas). O dia começa às 08h30 e termina às 16h30. Em muitas cidades espanholas a escola funciona só de manhã e durante as férias as únicas atividades são privadas e dispendiosas. Ainda assim, é este país que tem o sistema de ensino que mais aprecio: o Amara Berri.
Contrariamente a Portugal, os outros dois países optam por um número reduzido de manuais, por isso, o lobby das editoras escolares é quase inexistente.

Cultura

Deve ser de todos e para todos! Em Portugal, o acesso à cultura é ainda elitista e centralizado. Continuamos a ser o país dos festivais, do futebol e das telenovelas. Mas também somos um dos únicos que se recusa a dobrar séries e filmes. Chapeau! Sou contra tudo o que não seja em VO.
No que diz respeito à cultura geral os portugueses são de longe os que têm um maior conhecimento da atualidade internacional. Poliglotas por natureza, quase todos falam, pelo menos, uma língua estrangeira. Os espanhóis (com exceção dos bascos e dos catalães) não sentem necessidade de ir além-fronteiras e os franceses são bastante seletivos nos temas de discussão.

Religião

Eis um tema delicado! França é um país laico assumido onde todos acham que sabem tudo das três principais religiões do mundo. A festa de L’ Aïd e o Shabbat são práticas comuns e há mais lojas kasher e hallal que católicos a ir à missa. Nunca discutam com um francês sobre burkka, niqab e afins porque eles têm sempre razão.
Penso que os portugueses são os mais inclusivos e tolerantes. Os espanhóis respeitam as outras religiões, mas assumem-se como bons católicos ou não fosse o seu país o berço da opus dei. No país vizinho, quase todas as crianças fazem a primeira comunhão e as crianças aprendem o catecismo nas escolas.

À table!

Mais do que comer aprecio estar à mesa rodeada dos amigos e da família e nos três países estou bem servida. Os franceses consideram a sua gastronomia a melhor do mundo, facto que é discutível. Uma coisa é certa: enquanto na península Ibérica as padarias desapareceram em França são uma instituição. Não sabem o prazer que dá comer pão quente, um croissant ou um pain au chocolat logo de manhã. Em contrapartida, coitados dos que nunca provaram um verdadeiro frango no churrasco ou umas sardinhas assadas com uma salada de pimentos! Estas iguarias que só os portugueses sabem preparar!
Os espanhóis são os reis das tapas que no país Basco são mais conhecidas como pintxos. Há para todos os gostos e a qualquer momento do dia. Sou fã! No país vizinho almoços às quatro da tarde e jantares às onze da noite são prato de cada dia.

Money, money, money…

Os portugueses queixam-se que pagam muitos impostos, mas estão muito enganados! Também aqui os franceses são os campeões do mundo e há taxas para tudo. Em Portugal, os salários são escandalosamente baixos, isso sim! Este país tem os preços mais altos na eletricidade, no gás e na gasolina. E o que dizer das portagens?!
Nasci em Lisboa, a cidade com o maior índice de especulação imobiliária do momento. A mesma que despeja sem dó nem piedade os inquilinos esquecendo-se que, um dia, a bolha explode.
Vivi um ano na terceira cidade mais cara de Espanha e quase oito anos numa das mais caras do planeta. Não exagero quando afirmo que, em Paris, uma família de quatro pessoas necessita, pelo menos, 6.000 euros para viver confortavelmente.

Dia-a-dia

França é o paraíso dos amantes do comércio local e eu faço parte deste, cada vez mais, restrito grupo. Em cada esquina há livrarias, mercados, frutarias, padarias, floristas, peixarias, talhos… Os centros comerciais são bicho raro. Bravo!
Não bebo café, mas em Espanha há para todos os gostos: cortado, largo, con leche, nube… Em contrapartida, o chá é de péssima qualidade! Em Portugal também sofro porque se não for a um salão de chá gourmet só me servem saquinhos Lipton. França cuida muito bem dos amantes desta bebida e em qualquer bistrot sabem preparar as folhas na água quase fervida.

Vida social e familiar

Os espanhóis são especialistas em divertir-se com pouco e acreditem que no país vizinho a vida é uma festa! Os franceses são râleurs por natureza e queixam-se constantemente. Não nos esqueçamos que são os reis das greves, mas também conseguiram a revolução de 1789 e o maio de 68. Em Portugal somos bipolares. Por um lado, adoramos deitar abaixo o nosso país, enaltecendo quase tudo o que vem de fora. Por outro lado, não nos imaginamos longe da nossa terrinha e raramente tentamos mudar a situação em que estamos.
É comum um jovem francês sair de casa aos 17 ou 18 anos e é ainda mais comum que só telefone à família uma vez por mês. Na península Ibérica ainda é aceitável viver em casa dos pais até quase aos 30 anos, e não apenas por razões económicas.
Os franceses são excessivamente formais e ficam quase ofendidos se o bonjour não é seguido de monsieur ou madame. Todos são tratados pelo nome de família e na escola os alunos estão sentados por ordem alfabética de acordo com o apelido. Paradoxalmente, nas relações entre amigos e familiares são mais descontraídos. Os espanhóis são descomplicados e raramente usam o Usted (equivalente ao « você »em português). Ainda me lembro quando o subdiretor de um grande hotel de 5 estrelas me disse « tratame por tú que estamos en España ». Em Portugal mantemos uma mentalidade provinciana e elitista. Somos o país dos doutores e engenheiros, das Suas Excelências e das tias.

Clima

Portugal é abençoado com o maior número de horas de sol e longos verões. Melhor que nós, só mesmos as ilhas Canárias! Ainda assim, passo mais frio em Portugal que em qualquer outra cidade porque as paredes das casas parecem de papelão e os locais públicos não estão aquecidos.

Não há países perfeitos e a minha casa é mesmo onde o meu coracao está mais tranquilo. Sou nómada por escolha e vocação e compreendo Picasso que sentiu necessidade de sair de Málaga para encontrar-se, Hemingway que viveu em Paris, mas foi realmente feliz em Espanha ou Saramago que se apaixonou por Pilar, amou Lanzarote, mas nunca deixou de ser português!

Filipa Moreira da Cruz

Partidas e Chegadas

Reprise

Estação de comboio ou aeroporto
Azáfama, confusão
Do meio de transporte não me ocupo
Viajo com o coração
Despedidas, abraços
Saudades e solidão
Fotografias e retratos
São fonte de inspiração
Recordar é viver
Mas a vida não é um episódio abstrato
As memórias ajudam-nos a ser
Viajantes no tempo e no espaço.

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz

Sin miedo

La vida no es un problema a ser resuelto, es una realidad a experimentar.

Soren Kierkegaard

El sol se duerme… despacio
Otro día que termina
Y nosostros seguimos vivos
¿Qué vendrá mañana?
¡Ni idea!
La vida es una aventura
Y yo estoy lista para abrazarla.

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz

Portas

Porta aberta
Porta fechada
Porta castanha
Porta encarnada
Porta moderna
Porta antiquada
Porta velha
Porta envernizada
Porta orgulhosa
Porta desprendida
Porta vaidosa
Porta ferida
Porta do fundo
Porta de entrada
Porta para o mundo
Porta para a vida.

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz

Jogo cromático

Reprise

Verde é a minha esperança
Num mundo mais justo
Azul são os sonhos infinitos
No céu que abraça as nuvens
Verde é a felicidade de rebolar na relva
Num dia de Primavera
Azul é o desejo de ternura
Como o mar que embala os barcos
Verde é a resiliência necessária
Para seguir em frente
Azul é a alma melancólica
Nos dias de chuva
Verde é o corpo nos dias
Em que espreita o sol.

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz

Depende

Reprise

Photo : KaDDD

Dizem que a água não tem sabor nem cheiro
Depende…
Dizem que os rios vão dar ao mar
Depende…
Dizem que depois da vida só há morte
Depende…
Dizem que quando o sol dorme a lua desperta
Depende…
Dizem que um dia somos crianças e, de repente, chegamos a velhos
Depende…
Dizem que depois da tempestade vem a bonança
Depende…
Dizem que ninguém morre por amor
Depende…
Dizem que dois mais dois são quatro
Depende…
Dizem que a felicidade é uma ilusão
Depende…
Dizem que os sonhos não alimentam a vida
Depende…
Dizem que a arte não mata a fome
Depende…
Dizem que não há mal que dure para sempre
Depende…
Dizem que enquanto há vida, há esperança
Depende…
Dizem tanto e fazem tão pouco
Depende…

Filipa Moreira da Cruz

Janela indiscreta

Photo : Paul Laurent Bressin

Da minha janela
A vista é singela
Oiço assobios de pássaros
Coleciono pedaços
Cheiro a fragrância da Primavera
Anseio pela doce espera
Da minha janela
A história é digna de uma novela
Um vaivém de gente
Todos seguem a corrente
Um rodopio, uma azáfama
Focos, luz e fama
Da minha janela
A vida é terna e bela
O mar está sempre presente
E eu sou a sua confidente
O sol ilumina os dias mais tristes
Basta-nos coisa pouca para sermos felizes.

Filipa Moreira da Cruz

¿Realidad o sueño?

Photo : KaDDD

¿Quien soy yo?
Tú eres el sol después de la tormenta
La unica estrella en el cielo
El que siempre está ahí, pase lo que pase
¿Y eso es todo?
(¡Como si fuera poco!)
Tú eres la luz en la noche oscura
La lluvia en del desierto
El que quiero a mi lado cuando me despierto
¿Y que más?
Tú eres mi guía cuando me pierdo
El que me acompaña en el silencio
Y con una mirada lo dices todo
¿Y eso te basta?
Mucho más de lo que puedas imaginar
Tal vez no seas real
Y lo que estoy viviendo es un sueño.

Filipa Moreira da Cruz

O céu (não) pode esperar

A morte parece menos terrível quando se está cansado.

Simone de Beauvoir
Photo : Filipa Moreira da Cruz

Após ter visto uma reportagem, há muito tempo, num quarto de hotel em Estocolmo escrevi:

É bem minha esta cabeça que, um dia, riu, chorou, amou, sonhou. Mas deixou de ser meu este corpo podre e sem vida. Sim, sem vida!
O espírito, já com um pezinho no outro lado, teima em pairar, segredando-me ao ouvido « já é hora ». E eu, como ainda sou pessoa, finjo que não entendo. (Pois claro!) Gostaria tanto de soltar amarras e partir sem perder a minha dignidade.

Filipa Moreira da Cruz