Vida no campo

O campo, na verdade, só é agradável com família, e toda a árvore é triste se na sua sombra não brinca uma criança.

Eça de Queirós
Photo : João Janeira

O campo é onde não estamos. Ali, só ali, há sombras verdadeiras e verdadeiro arvoredo.

Como o campo é grande e o amor pequeno!

Fernando Pessoa
Photo : João Janeira

Um dos gestos mais belos e generosos do homem, andando vagarosamente pelo campo lavrado, é o de lançar na terra as sementes.

Clarice Lispector

Verde que te quiero verde. Verde viento. Verdes ramas. El barco sobre la mar y el caballo en la montaña.

Federico García Lorca
Photo : João Janeira

Antigamente o mato, tão vazio de gente, me fazia medo. Pensava, só podia viver nas pessoas, vizinho de gente. Agora, penso o contrário. Já quero voltar no lugar dos bichos. Tenho saudades de ser ninguém.

Mia Couto
Photo : João Janeira

Qualquer pessoa pode ser boa no campo.

Oscar Wilde

P.S. Agradeço ao meu amigo João que me enviou estas fotografias tiradas por ele na sua terra: o Alentejo, em Portugal.

Serenidade

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Dei rédea solta ao sentimento
Soltei todas as lágrimas
Chorei o que estava guardado
E antecepei o que virá
Lavei a alma vezes sem conta
E vesti a roupa da esperança
De que vale fazer planos?
Para quê traçar um projeto a longo prazo
Se numa questão de dias tudo muda?
O futuro está nas mãos de Deus
E não sabemos de que será feito o amanhã
Apenas o agora nos pertence
Aproveitemos cada dia…sempre!

Filipa Moreira da Cruz

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Sorri para mim

Reprise

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Sorri para mim
Mostra os teus olhos envergonhados
Colhe uma flor no jardim
Solta o sorriso desses lábios

Sorri para mim
Liberta a gargalhada contida
Dá cor às tuas doces faces
Que te enchem de vida

Sorri para mim
Junta a alma à vontade
Agarra a brisa que passa
Num dia de tempestade

Sorri para mim
Só uma vez
Sorri para mim
E diz-me quem és.

Filipa Moreira da Cruz

Um suspiro

A vida é breve, um dia estamos aqui
E no outro, de partida para outro lugar
Não te preocupes, é mesmo assim
Só nos resta desfrutar!
O agora é um momento efémero
E o depois, quem sabe o que nos reserva?
Perseguimos a quimera do eterno
A nossa mente é perversa
Hoje ainda respiro
E sou feliz por ter-te comigo
Amanhã talvez acabe num suspiro
Mas disso encarga-se o universo meu amigo.

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz

Reflexos

Reprise

Quero a delícia de poder sentir as coisas mais simples.

Manuel Bandeira

Reflexos de uma vida
Sofrida, esprimida
Turbilhão de sonhos
Movimentos enfadonhos
Serpentinas de prazer
Para satisfazer os caprichos do ser
Gestos automáticos
Olhares baços, mas francos
Despojos de uma lembrança
A tempestade já virou bonança.

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz

Viver o presente

Reprise

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Quantas vezes sofremos por antecipação
Pintamos o futuro de negro
Colocamos a carroça à frente dos bois
Perdemos a razão
E depois?
Não acontece nada do previsto
Os seres humanos não são máquinas
E a vida não segue um código escrito
Ainda bem
Tentemos não pensar muito no passado
Nem no futuro
Aproveitemos o melhor que o presente tem.

Filipa Moreira da Cruz

Sem medo

Reprise

Photo : KaDDD

Quem tem medo não ama
Quem tem medo desanda
Quem tem medo esquece
Quem tem medo esmorece
Quem tem medo congela
Quem tem medo tagarela
Quem tem medo exclui
Quem tem medo não evolui
Quem tem medo condena
Quem tem medo ordena
Quem tem medo envelhece
Quem tem medo não esquece
Quem tem medo julga
Quem tem medo vira pulga
Quem tem medo agride
Quem tem medo não progride
Quem tem medo desespera
Quem tem medo não supera
Quem tem medo resiste
Quem tem medo apenas existe
Quem tem medo devora
Quem tem medo não chora
Quem tem medo refila
Quem tem medo exila
Quem tem medo desiste
Quem tem medo joga ao despiste
Quem tem medo balança
Quem tem medo não avança
Quem tem medo recusa-se a viver
Porque está sempre a sofrer.

Filipa Moreira da Cruz

A minha casa é uma prisão

Reprise

Photo : KaDDD

A minha casa é uma prisão
Bonita, sofisticada, ordenada
Com toalhas de linho, loiça de porcelana e copos de cristal.
Com gente elegante e educada
– As crianças? Não as ouço…
– Não se preocupe, não há alvoroço

A minha casa é uma prisão
Numas águas furtadas com uma vista deslumbrante
E um gato sempre a brincar
16 metros quadrados para dormir, cozinhar, ler, escrever e meditar…
Faço tudo para não pirar!

A minha casa é uma prisão
O meu palacete, quer você dizer!
No cimo de uma colina, na parte antiga da cidade
Tanto espaço só para mim,
A última da minha geração
De repente, sinto-me mal, que aflição!
O que me salva é o meu velho cão

A minha casa é uma prisão
Onde dormimos, comemos e brincamos no chão
Os adultos são a autoridade e têm sempre razão!

A minha casa é uma prisão
Rodeada de areia branca e fina
Adormeço ao som do mar
E acordo com ele a dizer-me:
Larga tudo e vem surfar!

A minha casa é uma prisão
Com jardim, piscina, cave e sótão
Onde todos se cruzam, mas ninguém se vê
Cada um sofre em silêncio, mas porquê?!

A minha casa é uma prisão
Feita de madeira e de pedra
Vivo no meio da floresta
Sem televisão, computador ou telefone
Hoje lamento esta decisão!

A minha casa é uma prisão
Com rodas e duas pequenas janelas
Não posso circular, mas não faz mal
Isto vai passar!

A minha casa é uma prisão
Um quarto onde durmo por empréstimo
Numa cidade fria e cinzenta
E onde a chuva não dá tréguas

A minha casa é uma prisão
E de porto em porto vivo
O meu barco está atracado
Para respeitar o que me foi pedido

A minha casa é uma prisão
Lar nunca tive, sou nómada
E os meus pertences cabem em duas malas
Sou solitário e homem de poucas falas

A minha casa é uma prisão
Sem porta nem janelas,
Sem pessoas nem animais
Todos os dias são domingos
Preguiçosos, comuns, banais.

Filipa Moreira da Cruz

Quebra cabeças

Photo : KaDDD

Alma na lama
Lama nos pés
Pés descalços
Descalços os sonhos
Sonhos levados pelo vento
Vento áspero e violento
Violento golpe de estado
Estado de bonança
Bonança aparente
Aparente felicidade
Felicidade que escapa
Escapa entre os dedos
Dedos mágicos
Mágicos segundos
Segundos escravos do tempo
Tempo dono e senhor da vida
Vida simplesmente… vivida!

Filipa Moreira da Cruz

Êxtase da vida

Reprise

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Todos os dias acordo
Deambulando nos meus sonhos
Que partilho com o meu amigo
Arrebatador, secreto, fiel

O espírito empurra-me
Por entre as labaredas do passado
Que me perseguem e arrastam
Para essa constante saudade

As trevas da escuridão
As estrelas da noite clara
São confidentes nas horas divididas
Entre o cansaço e a insónia

Tantas vezes hesitei
Lamentei lágrimas
Escondi frustrações
Desafiei monstros

O coração é o único contentamento
O músculo que me mantém viva
Por fora sou ligeireza
Por dentro sou discernimento.

Filipa Moreira da Cruz