Depende

Reprise

Photo : KaDDD

Dizem que a água não tem sabor nem cheiro
Depende…
Dizem que os rios vão dar ao mar
Depende…
Dizem que depois da vida só há morte
Depende…
Dizem que quando o sol dorme a lua desperta
Depende…
Dizem que um dia somos crianças e, de repente, chegamos a velhos
Depende…
Dizem que depois da tempestade vem a bonança
Depende…
Dizem que ninguém morre por amor
Depende…
Dizem que dois mais dois são quatro
Depende…
Dizem que a felicidade é uma ilusão
Depende…
Dizem que os sonhos não alimentam a vida
Depende…
Dizem que a arte não mata a fome
Depende…
Dizem que não há mal que dure para sempre
Depende…
Dizem que enquanto há vida, há esperança
Depende…
Dizem tanto e fazem tão pouco
Depende…

Filipa Moreira da Cruz

Nunca mais és mãe!

Reprise

Photo : KaDDD

A maioria das minhas amigas não tem filhos. Nem todas por opção. Mas isso não significa que não gostem de crianças, antes pelo contrário. Perguntam-lhes frequentemente se ainda pretendem ser mãe. As respostas são variadas e algumas até originais: não pensei nisso, não tenho tempo, qualquer dia destes, quando puder, falta-me encontrar a pessoa certa… Houve até quem dissesse NUNCA! E a conversa ficou arrumada para sempre.

O mais curioso é que esta questão cansativa, de tantas vezes repetida, nunca se coloca aos homens. O sexo masculino pode ser progenitor enquanto a pujança ou o Viagra o permitirem. E já quase ninguém estranha ver um pai que tem idade para ser avô! Os relógios biológicos não seguem as mesmas leis. Homens e mulheres dançam uma música a ritmos descompassados. Por outro lado, se um homem não for pai não estranhamos. Qual é o problema?

Admito que já não imagino a minha vida sem os meus filhos. O nascimento de uma criança implica mudar (quase) tudo. De repente, as prioridades são outras. O bebé é tão pequenino, mas ocupa o espaço todo. Isso não é mau, obviamente! Mas nem todas estamos preparadas para esta reviravolta e entendo, cada vez mais, as mulheres que decidem não ter filhos. Não me sentiria incompleta se não tivesse sido mãe.

E o instinto maternal? Sinceramente, creio que a maternidade tem muito pouco de instintivo até porque não somos animais. Nenhuma mulher nasce mãe. É na língua francesa que encontro a expressão com a qual me identifico: on devient mère. São os filhos que nos transformam, ensinam, motivam. Aprendemos a ser mães com eles. E temos o direito de errar porque somos perfeitamente imperfeitas. Não aspiramos ao estereótipo de super mulheres, embora a sociedade insista no contrário. Não temos que ser as melhores cozinheiras, as mais prezadas esposas e as irrepreensíveis fadas do lar. A nossa missão não é criar seres excecionais, mas sim respeitar cada um deles. Também não nos compete a nós evitar as caídas dos nossos filhos. Devemos ser guias e não chefes. Fazemos o melhor que podemos e sabemos. Sempre.

Longe vão os tempos em que cada família tinha uma tia solteirona, frustrada e azeda. As mulheres do segundo milénio têm o direito de ser solteiras, casadas, divorciadas, com seis filhos ou nenhum. Sabem que prazer não tem que rimar com procriação. Foram necessários longos séculos para que o sexo feminino se assumisse naturalmente, sem ter que pedir licença ou justificar-se. No entanto, em muitos países, o caminho ainda é árduo e com espinhos.

Defendo o direito de expressão e a liberdade de escolha. E isto não significa apenas darmos a nossa opinião. Podemos expressar-nos das mais variadas maneiras. Certos atos são mais reivindicativos que palavras. À Gabrielle Chanel bastou-lhe renunciar ao corset. Vestir uma saia ou um par de calças, usar camisa e gravata, pintar os lábios de vermelho. A mulher é a única capaz de saber o que é melhor para ela e recorre a todos os subterfúgios para tal. E se as suas escolhas não forem as mais corretas ela não deverá culpar ninguém. Errar é aprender. E aprender é viver. A vitimização é inimiga da emancipação.

Filha, irmã, amiga, prima, sobrinha, neta. Mulher, amante, companheira, confidente. Somos únicas e inteiras com ou sem descendência. Para todos os feitios e gostos. E para que o futuro se escreva de todas as cores.

Filipa Moreira da Cruz

23

Photo : Filipa Moreira da Cruz

1 Broken heart
2 Almas enamoradas
3 Mousquetaires
4 Cantos do mundo
5 Bambini felici
6 Secrets to reveal
7 Olas del mar
8 Gâteaux sur la table
9 Pássaros a levantar voo
10 Dita sulle mani
11 Friends of a lifetime
12 Mariquitas en el jardín
13 Marches à gravir
14 Velas no bolo
15 Farfalle multicolori
16 Dreams inside my head
17 Preguntas sin respuesta
18 Chansons d’amour
19 Promessas por cumprir
20 Città da visitare
21 Ice cream flavours
22 Cartas por enviar
23 Encore et encore.

Filipa Moreira da Cruz

Castelos na areia

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Fim de tarde na praia
Longo dia de Verão
O frio mantém-se à raia
Adoro esta estação!
O mar muda de cor
Seguindo caprichos misteriosos
Que não conhecem medo nem rancor
Sábios são os que abrem os olhos
A natureza obedece a leis
Que apenas ela conhece
E os humanos são reis
A quem ela finge que obedece
As crianças fazem castelos na areia
Coitados dos adultos que se esqueceram
Que a vida é feita de brincadeira.

Filipa Moreira da Cruz

Crianças hiperativas ou pais hiper passivos?

Photo : KaDDD

Nos dias de hoje, « qualquer diferença torna-se uma patologia ». Quem o disse foi o pedopsiquiatra francês Thierry Delcourt. Segundo o mesmo, nos últimos 15 anos, o número de crianças diagnosticadas como hiperativas ou autistas aumentou consideravelmente e as políticas dos atuais governos contribuem (e muito!) para esta triste realidade.

Em certos Estados Norte Americanos, 25% das crianças, de uma mesma classe, são medicadas contra a própria vontade dos pais. Os professores são obrigados a vigiar que cada aluno toma os comprimidos antes de entrar na sala, sob pena de sanções. Os laboratórios farmacêuticos fazem a lei e os dirigentes políticos alimentam este poderoso lobby.

Durante vários séculos, as crianças eram consideradas como acessórios. Nas famílias mais pobres eram mais bocas para alimentar e mais braços para trabalhar, enquanto nos meios sociais abastados não passavam de criaturinhas barulhentas e mantidas à distância, graças às incansáveis amas.

Avançamos nos direitos dos mais novos e nos deveres dos mais velhos. Pais, educadores, tutores, professores têm responsabilidades e obrigações. Afinal, só tem filhos quem quer… Ou pelo menos, deveria ser assim. Muitas vezes, a hiperatividade infantil é vista como um flagelo e nada melhor que administrar as pastilhinhas às crianças.

Photo : KaDDD

O sistema de ensino ainda não é capaz de moldar-se aos tempos atuais. Continua rígido e intransigente. Exige que as crianças aprendam a ler e a contar ao mesmo tempo. Não valoriza as aprendizagens transversais, a criatividade nem a espontaneidade. Felizmente, há exceções como a escola da Ponte em Portugal e os sistemas Waldorf, Montessori e « Amara Berri ». Os meus filhos tiveram a sorte de integrar este último quando vivemos em San Sebastian e nas Canárias.

Surpreende-me e choca-me a quantidade de crianças francesas que frequentaram e ainda frequentam os terapeutas da fala e os ortofonistas. O meu marido ficou traumatizado com os 8 anos passados a deletrear. E tudo por ser canhoto! Uma amiga que é ortofonista explicou-me a pressão a que estão submetidos para ensinar a ler e a escrever a crianças sem qualquer problema, para aliviar os professores e os encarregados de educação. Um absurdo! Ela teve a coragem de recusar e passou a tratar pacientes que sofreram AVC ou traumas. Não entende porque razão esta profissão está sob a tutela do Ministério da Educação e não do da Saúde, como seria de esperar.

A minha mãe foi professora do ensino básico durante mais de 40 anos e uma das minhas irmãs é educadora de infância. São as duas bastante críticas em relação ao desfasamento entre a escola e as necessidades das crianças e isso já lhes valeu algumas disputas. O que me admira é que os recém licenciados são ainda mais retrógradas que as gerações anteriores. Saem das universidades formatados e convencem os pais de que os seus filhos têm um problema e precisam de ser seguidos pelo psicólogo.

A sociedade obriga, desde a mais tenra idade, a encaixar no molde porque dá menos dores de cabeça se formos todos iguais. Mas que aborrecido seria se gostássemos todos de azul e de gelado de morango! As crianças são hiperativas porque transbordam de energia e reclamam atenção. Quanto aos pais, muitas vezes, são passivos por falta de vontade e de tempo. 

Filipa Moreira da Cruz

Depende

Photo : KaDDD

Dizem que a água não tem sabor nem cheiro
Depende…
Dizem que os rios vão dar ao mar
Depende…
Dizem que depois da vida só há morte
Depende…
Dizem que quando o sol dorme a lua desperta
Depende…
Dizem que um dia somos crianças e, de repente, chegamos a velhos
Depende…
Dizem que depois da tempestade vem a bonança
Depende…
Dizem que ninguém morre por amor
Depende…
Dizem que dois mais dois são quatro
Depende…
Dizem que a felicidade é uma ilusão
Depende…
Dizem que os sonhos não alimentam a vida
Depende…
Dizem que a arte não mata a fome
Depende…
Dizem que não há mal que dure para sempre
Depende…
Dizem que enquanto há vida, há esperança
Depende…
Dizem tanto e fazem tão pouco
Depende…

Filipa Moreira da Cruz

Três dias sem notícias do resto do mundo

Photo : KaDDD

Na sexta-feira de manhã o meu telefone, smart só quando quer, amuou. Simplesmente, deixou de dar sinais de vida. Tentei tudo: ligar, carregar a bateria, tirar a carta SIM e voltar a colocá-la, soprar para eliminar o pó. Nada! Decidi não dar muita importância ao assunto. Quando chegasse a casa, voltaria a empenhar-me. Estava quase certa que, após algumas horas de descanso a birra passaria. Enganei-me.

Fiquei três dias e três noites sem telemóvel. E agora? Família, amigos, trabalho, fotografias, banco, notícias… A minha vida inteira está no maldito smartphone. No início, senti-me perdida e incompleta. Mas essa sensação durou apenas alguns minutos. Não era o fim do mundo. Decidi interpretar esta morte súbita como um sinal. Na segunda-feira pensaria se valeria a pena reparar o telefone antigo ou, simplesmente, comprar um novo. Até lá, aproveitaria, da melhor forma possível, esta liberdade inesperada. E nem imaginam que bem me soube!

Terminei um livro e comecei outros dois. Pus a escrita em dia. Os meus filhos agradeceram todos os momentos partilhados sem o toque que anuncia a chegada de uma nova mensagem. Estranho! Jogamos em família, experimentamos receitas novas. Corrijo, provei pratos deliciosos. O fim-de-semana de confinamento seguiu a habitual rotina, mas com um detalhe que fez toda a diferença: a ausência do meu telefone. E este pormenor foi fundamental para obrigar-me a rever a minha relação com o aparelho que cabe no bolso ou na palma da mão.

Muitos adultos queixam-se que as crianças e os jovens são dependentes do telemóvel. Não resistem a deslizar o dedo pelo pequeno ecrã em troca de jogos viciantes, desafios perigosos, vídeos excêntricos. Comunicam em permanência com os amigos, tiram selfies. A nova realidade só veio piorar estes comportamentos. Tudo se passa à distância. E sentimo-nos menos sozinhos com um telefone inteligente nas mãos. Não escrevo (felizmente!) com conhecimento de causa. Os meus filhos ainda não fazem parte das vítimas, mas lá chegarão. Ninguém fica indiferente ao poder da caixinha mágica.

Photo : KaDDD

Mas que exemplo damos nós? « Faz o que te digo, não faças o que eu faço ». Mais importante que proibir é tentar ser o modelo a seguir. E, muitas vezes, falhamos. Porque somos humanos. Porque também somos escravos das tecnologias que comandam as nossas vidas. Porque não resistimos a ler as notícias que desfilam, em permanência, pelo ecrã. Porque o mundo não pára e não queremos ficar para trás.

As crianças do século XXI nasceram na era digital e não podemos exigir que recusem as tecnologias do dia para a noite. Devemos sim, defender o uso inteligente do computador, da tablete e do smartphone para que sejam ferramentas úteis e não donos e senhores das nossas vidas. Devemos assumir o controlo em vez de sermos controlados.

Na segunda-feira já estava a fazer planos de ir comprar um telemóvel depois do trabalho. Este gasto não vinha muito a calhar, mas não poderia estar incomunicável eternamente. Qual não foi o meu espanto quando o telefone reagiu quando, sem esperança, o voltei a ligar? Afinal, não passou de um capricho. Algo habitual nas máquinas criadas pelos humanos e para os humanos. Fizemos um pacto. Prescindirei do meu smartphone todos os domingos. Dou-lhe folga uma vez por semana. Faz-lhe bem a ele e a mim também.

Filipa Moreira da Cruz

Nunca mais és mãe!

Photo : KaDDD

A maioria das minhas amigas não tem filhos. Nem todas por opção. Mas isso não significa que não gostem de crianças, antes pelo contrário. Perguntam-lhes frequentemente se ainda pretendem ser mãe. As respostas são variadas e algumas até originais: não pensei nisso, não tenho tempo, qualquer dia destes, quando puder, falta-me encontrar a pessoa certa… Houve até quem dissesse NUNCA! E a conversa ficou arrumada para sempre.

O mais curioso é que esta questão cansativa, de tantas vezes repetida, nunca se coloca aos homens. O sexo masculino pode ser progenitor enquanto a pujança ou o Viagra o permitirem. E já quase ninguém estranha ver um pai que tem idade para ser avô! Os relógios biológicos não seguem as mesmas leis. Homens e mulheres dançam uma música a ritmos descompassados. Por outro lado, se um homem não for pai não estranhamos. Qual é o problema?

Admito que já não imagino a minha vida sem os meus filhos. O nascimento de uma criança implica mudar (quase) tudo. De repente, as prioridades são outras. O bebé é tão pequenino, mas ocupa o espaço todo. Isso não é mau, obviamente! Mas nem todas estamos preparadas para esta reviravolta e entendo, cada vez mais, as mulheres que decidem não ter filhos. Não me sentiria incompleta se não tivesse sido mãe.

E o instinto maternal? Sinceramente, creio que a maternidade tem muito pouco de instintivo até porque não somos animais. Nenhuma mulher nasce mãe. É na língua francesa que encontro a expressão com a qual me identifico: on devient mère. São os filhos que nos transformam, ensinam, motivam. Aprendemos a ser mães com eles. E temos o direito de errar porque somos perfeitamente imperfeitas. Não aspiramos ao estereótipo de super mulheres, embora a sociedade insista no contrário. Não temos que ser as melhores cozinheiras, as mais prezadas esposas e as irrepreensíveis fadas do lar. A nossa missão não é criar seres excecionais, mas sim respeitar cada um deles. Também não nos compete a nós evitar as caídas dos nossos filhos. Devemos ser guias e não chefes. Fazemos o melhor que podemos e sabemos. Sempre.

Longe vão os tempos em que cada família tinha uma tia solteirona, frustrada e azeda. As mulheres do segundo milénio têm o direito de ser solteiras, casadas, divorciadas, com seis filhos ou nenhum. Sabem que prazer não tem que rimar com procriação. Foram necessários longos séculos para que o sexo feminino se assumisse naturalmente, sem ter que pedir licença ou justificar-se. No entanto, em muitos países, o caminho ainda é árduo e com espinhos.

Defendo o direito de expressão e a liberdade de escolha. E isto não significa apenas darmos a nossa opinião. Podemos expressar-nos das mais variadas maneiras. Certos atos são mais reivindicativos que palavras. À Gabrielle Chanel bastou-lhe renunciar ao corset. Vestir uma saia ou um par de calças, usar camisa e gravata, pintar os lábios de vermelho. A mulher é a única capaz de saber o que é melhor para ela e recorre a todos os subterfúgios para tal. E se as suas escolhas não forem as mais corretas ela não deverá culpar ninguém. Errar é aprender. E aprender é viver. A vitimização é inimiga da emancipação.

Filha, irmã, amiga, prima, sobrinha, neta. Mulher, amante, companheira, confidente. Somos únicas e inteiras com ou sem descendência. Para todos os feitios e gostos. E para que o futuro se escreva de todas as cores.

Filipa Moreira da Cruz

Voltar a aprender

Photo : KaDDD

O mundo está doente, a sociedade cheira a podre e os que por aqui andamos estamos meio (ou totalmente) perdidos. Chocam-me os atentados terroristas, os atos homofóbicos, xenófobos e racistas, o vandalismo e a destruição do património. A estupidez humana não tem limites.

Mas acima de tudo, choca-me o que se faz contra o ser mais vulnerável: a criança. E refiro-me ao apedrejamento do maior hospital pediátrico da Europa que cura crianças de todo o mundo, aos que obrigam as crianças a trabalhar em vez de as enviarem à escola, aos abusos sexuais praticados, muitas vezes, no seio da própria família, aos pais que abandonam os filhos no bosque, no centro comercial ou no parque de estacionamento para que eles aprendam…. Não seremos nós, pais e educadores, os que devemos aprender a exigir menos e a dar mais? Este vírus deixou-nos órfãos de afeto e os mais pequenos nem sempre entendem a razão pela qual beijos e abraços passaram a ser proibidos.

Sou totalmente contra os quadros de honra e as avaliações meramente quantitativas, independentemente da escala utilizada. Deveríamos valorizar mais a inteligência emocional, a criatividade e a sensibilidade de cada criança, privilegiando o être e não o savoir-faire. Mas ainda não estamos preparados. Que lástima! Para que isso acontecesse, teríamos de morrer e voltar a nascer livres de tabus e preconceitos ou então começar pelo fim, como diz Woody Allen.

Estou cada vez mais desiludida com este ensino excessivamente institucionalizado e formatado onde não há espaço para a diferença. Se as escolas são desenhadas por arquitetos e engenheiros então os programas deveriam ser pensados por pedagogos, educadores e professores que amam a sua profissão, mas infelizmente não é assim. A realidade é outra em Portugal, Espanha, França, Alemanha, Itália…

Felizmente, há exceções que alimentam a esperança. Conheci uma pequena escola na Irlanda onde na cantina se come quase tudo o que crianças e adultos cultivam no jardim e onde os alunos decidem cada dia o que estudar. Por incrível que pareça, a taxa de insucesso escolar é quase inexistente. O sistema « Amara Berri », criado no País Basco e a Escola da Ponte são outros bons exemplos. Há modelos que remam contra a maré. Bem hajam!

Mas (quase) tudo mudou de um dia para o outro, literalmente. De repente, crianças de todo o mundo foram obrigadas a ficar em casa, acentuando ainda mais as diferenças entre os que têm muito, os que têm pouco e os que não têm nada. As aprendizagens ficam em suspenso porque os pais não ensinam. E não lhe podemos exigir que o façam, pois não? Ao mesmo tempo, os professores esforçam-se por transmitir os conhecimentos à distância, mas nem as novas tecnologias salvam esta missão quase impossível.

Sem alunos de que vale ensinar? Sem plateia para quem toca a orquestra? Sem palco para quem declamam os atores? Uma vez mais, os adultos vitimizam-se face à sua nova condição de vida, esquecendo-se dos mais prejudicados: as crianças. Perdemos tanto tempo e energia com o supérfluo e esquecemo-nos do essencial. Como diz a minha filha, “é tão fácil ser feliz!”.

Filipa Moreira da Cruz
2020

O vírus com várias cores

Photo : Filipa Moreira da Cruz

No país onde vivo há três assuntos tabu: a política, a religião e o dinheiro. Paradoxalmente, os nativos têm opiniões bem formadas acerca dos três e expõem-nas com facilidade nas redes sociais ou em conversas de café, mas raramente em reuniões familiares. Os franceses adoram comentar a atualidade política e criticam todos os partidos: da extrema esquerda de Mélenchon à extrema direita de Le Pen. Pouco tempo depois de ser eleito, o presidente da República é sistematicamente posto à prova, até mesmo pelos que votaram nele. Faz parte do jogo. Perverso e invasivo.

Contrariando outro dos tabus, são muitos os franceses que se julgam doutorados em Cristianismo, Islamismo e Judaísmo. Curioso, num país que se assume como laico. Ou talvez não. A França deve ser o Estado-membro da União Europeia com mais mesquitas e sinagogas. A liberdade religiosa é tão importante que existe mesmo um artigo na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789. Quanto ao dinheiro… ninguém fala! Não se diz quanto se ganha nem quanto se gasta. Até há pouco tempo, era inapropriado perguntar-se o ordenado na primeira entrevista de trabalho.

A situação que vivemos é única. A realidade superou a ficção. E tudo muda, da noite para o dia. Literalmente. O “normal” passou a ser aberrante e o impensável passou a ser “normal”. E isto também se aplica à triologia dos temas a evitar numa conversa.

Portugal tem sido apontado como um exemplo na gestão da pandemia. Isto deve-se, em parte, à união de todos os partidos políticos para combater a Covid-19, algo que contrasta com o cenário em França e, até mesmo, na vizinha Espanha. São vários os amigos estrangeiros que me dizem que os Portugueses são solidários, unidos e civilizados. Segundo eles, o Governo agiu atempadamente, evitando a catástrofe. Os políticos lusos puseram de lado as divergências para derrotarem juntos o vírus. Talvez não seja exatamente assim, mas quem sou eu para contrariar esta versão romantizada do “milagre” Português!

O Ramadão já começou (jejum praticado pelos muçulmanos que dura entre 29 a 30 dias) e será difícil controlar o isolamento social, sobretudo a partir do pôr do sol. Partilhar a refeição com a família e os amigos é o momento mais esperado do dia. Habitualmente, a última oração é realizada em grupo. Impedir que tal aconteça vai ser um desafio quotidiano. A polémica está lançada e não há consenso. Há autarquias que já avisaram que o controlo será ainda mais apertado, enquanto outras mostram-se mais tolerantes.

A economia está adormecida, mas as despesas dispararam. O rendimento familiar de muitos lares franceses tem-se mostrado elástico perante o aumento do consumo de água, gás e eletricidade. Mas até quando? As idas ao supermercado são frequentes e os preços dos alimentos aumentaram. Fruta, legumes, carne e peixe estão mais caros. As típicas promoções do género “pague 1 e leve 2” escasseiam. Basta comparar a fatura do mesmo sítio antes e depois do confinamento. De nada serve ao Governo insistir que não houve qualquer aumento. A carteira fala mais alto. São cada vez mais as pessoas que não têm condições nem para comer. Reformados, famílias monoparentais, jovens universitários, desempregados fazem fila à porta das instituições francesas que distribuem comida. De repente, falar de dinheiro deixou de ser tabu para passar a ser primordial. Fazem-se contas à vida.

Vida essa que está em suspenso para uns e enterrada para outros. Mas o tempo não para, caprichoso e provocador. As férias da Páscoa terminaram e o 3º período começou em casa, pela primeira vez! Na pequena escola em frente à praia que os meus filhos frequentam as professoras prepararam uma pasta para cada aluno com um dossier, várias fichas, um livro (a Mathilde está desejosa de ler “O rei que não queria reinar”!) e dois cadernos. Tudo oferecido. Do 1º ao 5º ano quase todo o material é fornecido pelas autarquias. Os encarregados de educação só pagam a cantina e o valor da mesma é calculado todos os anos com base na declaração dos impostos.

Desde o início do ano letivo, os meus filhos têm acesso à plataforma digital mon école que é destinada aos alunos do primeiro e do segundo ciclos. Cada um tem o seu código e pode realizar livremente as atividades propostas de acordo com o ano que frequenta. Basta um clique para terem acesso ao jornal junior, à palavra do dia, à visita virtual de um museu, à viagem por um país no mundo, à descoberta de uma obra de arte. E, obviamente, aos exercícios de francês, problemas e jogos de matemática, pesquisas históricas, experiências científicas e vídeos explicativos. A rotina manteve-se praticamente inalterada. No entanto, as professoras passaram a personalizar, na plataforma, as mensagens destinadas a cada aluno, tendo em conta o trabalho realizado por cada um deles. Ambas têm demonstrado um enorme esforço e dedicação. Para além disso, comunicam com frequência por e-mail onde apresentam as correções das fichas e dão explicações sobre as matérias mais difíceis.

O Stan sempre gostou muito das ciências exatas e a matemática é a sua paixão. A Mathilde sai a mim. Gosta muito de escrever, tem um espírito rebelde e criativo. Ou isso pensava eu! Desde que, no ano passado, começou com o “método de Singapura” passou a preferir a matemática, como o irmão. Não me admira! Com esse método até eu deixei de ter medo dessa disciplina. Ainda assim, a minha filha continua a inventar histórias e a escrever no diário que a tia Inês lhe ofereceu no Natal. A sua professora envia, todas as semanas, o “jornal da quarentena” onde partilha os trabalhos realizados pelos alunos (à distância) e as notícias da turma. A Mathilde participa assiduamente com prazer. Inventou a história do “vírus com várias cores”, fez um mini livro com origami, realizou um vídeo na cozinha a fazer madalenas… Tudo é pretexto para passar o tempo e esquecer a razão pela qual somos forçados a ficar em casa. Ou não tivesse ela dito um dia que “deveríamos morrer todos muito velhinhos, durante o sono, sem sofrer”.

Filipa Moreira da Cruz
Abril 2020