La solitudine

La soledad es la gran talladora del espíritu. 

Federico García Lorca

A mis soledades voy, de mis soledades vengo, porque para andar conmigo, me bastan mis pensamientos.

Félix Lope De Vega

Ama tu soledad, y soporta el sufrimiento que te cause. 

Rainer Maria Rilke

Quien no sabe poblar su soledad, tampoco sabe estar solo entre una multitud atareada. 

Charles Baudelaire

Photos : Filipa Moreira da Cruz

Felicidade

Vou contar-te um segredo
Os homens dão a volta ao mundo
Em busca de fama e poder
E num segundo o ter aniquila o ser
Enfiam uma máscara agridoce
Uns dias sai o sol e noutros chove
De repente, o universo torna-se pequeno
A loucura engole o sereno
A alienação espezinha a razão
Colecionam-se coisas e não recordações
Brisam-se corpos e corações
E esses seres insignificantes
Esquecem-se que a vida são meros instantes
A morte, essa sim, é uma certeza
E a lenda reza
Que ninguém cá ficará
Para contar como acabará
Então, não será melhor começar a viver?
Olha ao teu redor
A felicidade tem cheiro e cor!

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz

Carnaval dos animais

As araras mergulham de cabeça
O caracol avança a 100 à hora
Cheio de pressa!
Pensam que é história?
Ou conversa da treta?
O sapo come cenouras frescas
E fica à espreita
O lagarto bebe água e cospe fogo
A borboleta escolhe as suas presas
O peixe conta piadas de mau gosto
A tartaruga brinca às escondidas
O mundo está louco!
E os animais fazem birras.

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz

Verde como te quero!

Verde água
Verde azeitona
Verde tropa
Verde floresta
Verde mar
Verde garrafa
Verde natureza
Verde pomar
Verde esperança
Verde é vida
Equilíbrio e perseverança.

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz, Anne-Hortense e João

Crianças hiperativas ou pais hiper passivos?

Photo : KaDDD

Nos dias de hoje, « qualquer diferença torna-se uma patologia ». Quem o disse foi o pedopsiquiatra francês Thierry Delcourt. Segundo o mesmo, nos últimos 15 anos, o número de crianças diagnosticadas como hiperativas ou autistas aumentou consideravelmente e as políticas dos atuais governos contribuem (e muito!) para esta triste realidade.

Em certos Estados Norte Americanos, 25% das crianças, de uma mesma classe, são medicadas contra a própria vontade dos pais. Os professores são obrigados a vigiar que cada aluno toma os comprimidos antes de entrar na sala, sob pena de sanções. Os laboratórios farmacêuticos fazem a lei e os dirigentes políticos alimentam este poderoso lobby.

Durante vários séculos, as crianças eram consideradas como acessórios. Nas famílias mais pobres eram mais bocas para alimentar e mais braços para trabalhar, enquanto nos meios sociais abastados não passavam de criaturinhas barulhentas e mantidas à distância, graças às incansáveis amas.

Avançamos nos direitos dos mais novos e nos deveres dos mais velhos. Pais, educadores, tutores, professores têm responsabilidades e obrigações. Afinal, só tem filhos quem quer… Ou pelo menos, deveria ser assim. Muitas vezes, a hiperatividade infantil é vista como um flagelo e nada melhor que administrar as pastilhinhas às crianças.

Photo : KaDDD

O sistema de ensino ainda não é capaz de moldar-se aos tempos atuais. Continua rígido e intransigente. Exige que as crianças aprendam a ler e a contar ao mesmo tempo. Não valoriza as aprendizagens transversais, a criatividade nem a espontaneidade. Felizmente, há exceções como a escola da Ponte em Portugal e os sistemas Waldorf, Montessori e « Amara Berri ». Os meus filhos tiveram a sorte de integrar este último quando vivemos em San Sebastian e nas Canárias.

Surpreende-me e choca-me a quantidade de crianças francesas que frequentaram e ainda frequentam os terapeutas da fala e os ortofonistas. O meu marido ficou traumatizado com os 8 anos passados a deletrear. E tudo por ser canhoto! Uma amiga que é ortofonista explicou-me a pressão a que estão submetidos para ensinar a ler e a escrever a crianças sem qualquer problema, para aliviar os professores e os encarregados de educação. Um absurdo! Ela teve a coragem de recusar e passou a tratar pacientes que sofreram AVC ou traumas. Não entende porque razão esta profissão está sob a tutela do Ministério da Educação e não do da Saúde, como seria de esperar.

A minha mãe foi professora do ensino básico durante mais de 40 anos e uma das minhas irmãs é educadora de infância. São as duas bastante críticas em relação ao desfasamento entre a escola e as necessidades das crianças e isso já lhes valeu algumas disputas. O que me admira é que os recém licenciados são ainda mais retrógradas que as gerações anteriores. Saem das universidades formatados e convencem os pais de que os seus filhos têm um problema e precisam de ser seguidos pelo psicólogo.

A sociedade obriga, desde a mais tenra idade, a encaixar no molde porque dá menos dores de cabeça se formos todos iguais. Mas que aborrecido seria se gostássemos todos de azul e de gelado de morango! As crianças são hiperativas porque transbordam de energia e reclamam atenção. Quanto aos pais, muitas vezes, são passivos por falta de vontade e de tempo. 

Filipa Moreira da Cruz

Amor sem espinhos

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Não há bela sem senão
Não há alma sem coração
Não há rosa sem espinhos
Não há metas sem caminhos
Não há mar sem ondas
Não há praia sem conchas
Não há recompensa sem esforço
Não há festa sem alvoroço
Não há Outono sem chuva
Não há presença como a tua
Não há Verão sem calor
Não há paz sem amor
Não há queijo sem marmelada
Não há tudo sem nada
Não há doce sem abóbora
Não há dentro sem fora
Não há música sem instrumentos
Não há esperança sem sentimentos
Não há poetas sem tristeza
Não há terra sem beleza
Não há universo sem mundos alheios
Não há Humanidade sem devaneios.

Filipa Moreira da Cruz

Nostalgia do futuro

Photo : KaDDD

Ai se eu soubesse
Ser sol e lua
Céu e mar
Ai se eu soubesse
Fazer tudo sem pressa
Bem devagar
Ai se eu soubesse
Apagar as chamas do mundo
Com garra e genica
Ai se eu soubesse
Transformar o planeta azul num segundo
No doce lar que nos abriga
Ai se eu soubesse
Lidar com as saudades
Sem dor nem tristeza
Ai se eu soubesse
Dar a volta às dificuldades
Com harmonia e ligeireza
Ai se eu soubesse
O que aí vem
Num abrir e fechar de olhos
Ai se eu soubesse
Apreciar tudo o que me oferece
A Terra-Mãe
Ai se eu soubesse
Evitar a conversa fiada
Para dedicar-me à minha prece.

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz

Animais no parque

O coelho uiva ruidosamente
O lobo come erva lentamente
O papagaio nada energicamente
O cavalo voa suavemente
O galo dança alegremente
O veado cacareja distraidamante
A pantera sonha placidamente
O elefante ri descaradamente
Só falta o leão fazer cócegas à formiga
O mundo está louco
Os humanos deserteram a cidade
E os animais invadiram o parque.

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz

Êxodo urbano

Photo : KaDDD

Durante vários séculos, a população trocou o campo pela cidade em busca de melhores condições de vida. Quando a terra deixava de ser fértil, voltavam-se as costas ao verde e abraçava-se o cinzento da metrópole. A tecnologia e a indústria prometiam sucesso e prosperidade. Mas nem todos se deixaram seduzir pela vida urbana e há quem não troque a paz e o sossego do campo pelo bulício da cidade.

Sou uma citadina convicta e assumida. Gosto de cidades grandes. Sinto-me bem em Nova Iorque, Paris, Londres ou Berlim. Aprecio andar de metro, visitar museus, ler nos parques, percorrer largas avenidas. No entanto, fiquei feliz por ter passado os três confinamentos na cidade onde vivo que tem apenas 50.000 habitantes. Entendo o sufoco e a ansiedade dos que ficaram encurralados entre quatro paredes porque sei o que é viver num apartamento de 45 metros quadrados. Quando somos obrigados a partilhar, 24 horas por dia, um espaço tão exíguo, o charme da cidade desaparece, mesmo que tenhamos a sorte (como eu tive!) de viver a dois passos do Arco do Triunfo.

Desde o início da pandemia, 800.000 pessoas saíram de Paris e arredores e muitos ainda não regressaram à capital francesa. Instalaram-se em cidades mais pequenas, vilas e aldeias. Ou até mesmo em casas no meio do nada. Longe do ruído e da poluição. Situação semelhante ocorreu em Londres. No ano passado, 300.000 cidadãos abandonaram a capital inglesa e a procura de casas no campo aumentou 126%.

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Muitas profissões podem ser exercidas à distância e o número de nómadas digitais tem aumentado exponencialmente. Nunca foi tão fácil trabalhar em frente ao mar ou à sombra de uma bananeira. Basta um computador e ligação à Internet! Que o digam Bali, Malta ou as ilhas Canárias. Portugal também faz parte dos destinos mais cobiçados. As empresas foram obrigadas a adaptar-se, rapidamente, à nova realidade e as capitais dos países mais desenvolvidos perderam centenas de habitantes.

Ainda é comum, entre as grandes empresas, enviar os seus quadros superiores a países distantes. Britânicos invadem Hong Kong, franceses apoderam-se do sudeste asiático, portugueses reconquistam o Brasil ou Angola. A aproximação das antigas colónias é algo natural. Os colarinhos brancos europeus (ou americanos) recebem salários chorudos, vivem em casas faustosas e as crianças frequentam colégios privados pagos a peso de ouro.

Photo : Paul Laurent Bressin

Mas este fenómeno pode estar em vias de extinção. Os nómadas digitais estão a revolucionar a realidade laboral. Instalam-se no campo ou na praia e vivem quase como os locais. Entre relatórios e reuniões à distância ainda há tempo para um mergulho no mar, uma sesta ou uma cerveja bem fresca. Relatos contados na primeira pessoa por aqueles que conheço que trocaram o céu cinzento de Paris e de Milão por uma ilha das Canárias onde já vivi e outras duas que conheço bem.

Mas nem tudo são rosas! Os nómadas digitais trazem alguns dissabores. O poder de compra destes trabalhadores estrangeiros é, muitas vezes, superior ao da população dos países que lhes estendem a passadeira vermelha e os recebem de braços abertos. Por um lado, os preços disparam. Para os locais, alugar ou comprar casa torna-se um pesadelo. Encher o carrinho das compras sai mais caro e os restaurantes passam a piscar o olho aos estrangeiros endinheirados. Por outro lado, a tão prezada tranquilidade tem os dias contados. O êxodo urbano mata o silêncio do campo e polui a praia mais paradisíaca.

Filipa Moreira da Cruz

Pangeia

E se não existissem fronteiras
Marítimas, terrestres ou aéreas?
E se houvesse uma única bandeira
De várias cores e tamanhos?
E se navegássemos todos
No imenso mar?
E se comunicássemos
Na mesma língua?
E se fossemos apenas
Seres humanos e imperfeitos?
E se cuidássemos do nosso planeta
Como se fosse a nossa última morada?
E se deixássemos de ter
Para nos concentrarmos na essência do ser?

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Paul Laurent Bressin