A magia do momento

Ali vimos a veemência do visível
O aparecer total exposto inteiro
E aquilo que nem sequer ousáramos sonhar
Era o verdadeiro.

Sophia de Mello Breyner

Difícil é saber de frente a tua morte
E não te esperar nunca mais nos espelhos da bruma.

Sophia de Mello Breyner

Photos : Filipa Moreira da Cruz

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Estado d’Alma

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Amor
Desamor
Apego
Sufoco
Liberdade
Sem troco
Realidade
Ilusão
Inverno
Verão
Voar
Estagnar
Sonhar
Desistir
Chorar
Rir
Descrença
Religião
Solidão
União
Tudo
Nada
Vida
Desgarrada
Início
Fim.


Filipa Moreira da Cruz

Depende

Reprise

Photo : KaDDD

Dizem que a água não tem sabor nem cheiro
Depende…
Dizem que os rios vão dar ao mar
Depende…
Dizem que depois da vida só há morte
Depende…
Dizem que quando o sol dorme a lua desperta
Depende…
Dizem que um dia somos crianças e, de repente, chegamos a velhos
Depende…
Dizem que depois da tempestade vem a bonança
Depende…
Dizem que ninguém morre por amor
Depende…
Dizem que dois mais dois são quatro
Depende…
Dizem que a felicidade é uma ilusão
Depende…
Dizem que os sonhos não alimentam a vida
Depende…
Dizem que a arte não mata a fome
Depende…
Dizem que não há mal que dure para sempre
Depende…
Dizem que enquanto há vida, há esperança
Depende…
Dizem tanto e fazem tão pouco
Depende…

Filipa Moreira da Cruz

Ai que saudades!

Reprise

Saudades, só portugueses conseguem senti-las bem porque têm essa palavra para dizer que as têm.

Fernando Pessoa

Tenho saudades do que em tempos fui e do que nunca serei
Tenho saudades do que tenho e do que ainda não encontrei
Tenho saudades dos que partiram
Tenho saudades dos que ainda não chegaram
Tenho saudades dos que foram e já não são
Tenho saudades dos que, um dia, serão
Tenho saudades dos fugazes encontros
Tenho saudades dos eternos desencontros
Tenho saudades das terras longínquas
Tenho saudades das conversas ambíguas
Tenho saudades daquele abraço
Tenho saudades de repousar no teu regaço
Tenho saudades da partilha e da comunhão
Tenho saudades, de um dia, conseguir dizer não
Tenho saudades da multidão
Tenho saudades da solidão
Tenho saudades da desconcertante felicidade
Tenho saudades de ter saudade.

Filipa Moreira da Cruz

Photos : Filipa Moreira da Cruz

A minha casa é uma prisão

Reprise

Photo : KaDDD

A minha casa é uma prisão
Bonita, sofisticada, ordenada
Com toalhas de linho, loiça de porcelana e copos de cristal.
Com gente elegante e educada
– As crianças? Não as ouço…
– Não se preocupe, não há alvoroço

A minha casa é uma prisão
Numas águas furtadas com uma vista deslumbrante
E um gato sempre a brincar
16 metros quadrados para dormir, cozinhar, ler, escrever e meditar…
Faço tudo para não pirar!

A minha casa é uma prisão
O meu palacete, quer você dizer!
No cimo de uma colina, na parte antiga da cidade
Tanto espaço só para mim,
A última da minha geração
De repente, sinto-me mal, que aflição!
O que me salva é o meu velho cão

A minha casa é uma prisão
Onde dormimos, comemos e brincamos no chão
Os adultos são a autoridade e têm sempre razão!

A minha casa é uma prisão
Rodeada de areia branca e fina
Adormeço ao som do mar
E acordo com ele a dizer-me:
Larga tudo e vem surfar!

A minha casa é uma prisão
Com jardim, piscina, cave e sótão
Onde todos se cruzam, mas ninguém se vê
Cada um sofre em silêncio, mas porquê?!

A minha casa é uma prisão
Feita de madeira e de pedra
Vivo no meio da floresta
Sem televisão, computador ou telefone
Hoje lamento esta decisão!

A minha casa é uma prisão
Com rodas e duas pequenas janelas
Não posso circular, mas não faz mal
Isto vai passar!

A minha casa é uma prisão
Um quarto onde durmo por empréstimo
Numa cidade fria e cinzenta
E onde a chuva não dá tréguas

A minha casa é uma prisão
E de porto em porto vivo
O meu barco está atracado
Para respeitar o que me foi pedido

A minha casa é uma prisão
Lar nunca tive, sou nómada
E os meus pertences cabem em duas malas
Sou solitário e homem de poucas falas

A minha casa é uma prisão
Sem porta nem janelas,
Sem pessoas nem animais
Todos os dias são domingos
Preguiçosos, comuns, banais.

Filipa Moreira da Cruz

Escrever certo por linhas tortas

Photo : KaDDD

Por vezes sou mal interpretada
Lêem-me os pensamentos de forma errada
Não decifram em que me aplico
Nem identificam o que comunico
Mas isso pouco importa!
Até o Todo Poderoso escreve certo por linha torta
E eu não pretendo ser Deus (obviamente!)
Mas protejo os meus
Sempre!

Filipa Moreira da Cruz

Proibido ser (in)feliz

Reprise

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Seja positivo, sorria. Mas não se esqueça de chorar de vez em quando, isso mostra que não é insensível. Liberte-se das pessoas tóxicas, mas não se afaste da família, mesmo que os mais podres sejam aqueles com quem partilha ADN. Faça o que gosta, mas enquanto não aparece o trabalho dos seus sonhos deixe-se ficar no atual porque sem dinheiro ninguém vive. Aprenda a dizer não, mas tenha um sim na ponta da língua. Pratique desporto, mas não seja escravo do seu corpo. Opte por alimentos saudáveis, mas evite ficar obcecado por tudo o que é “bio”. Mude de vida, mas sem dar nas vistas. Seja ousado, mas, acima de tudo, tenha medo. Muito medo.

Vivemos aterrorizados. O pânico controla as nossas vidas. Esta sociedade esquizofrénica e bipolar pensa ter a lição tão bem estudada que se recusa a pedir ajuda. Os problemas da mente não se resolvem no divã, escondem-se. Ou melhor, dissimulam-se nas fotografias publicadas nas redes sociais. E, às vezes, nem mesmo os mais atentos conseguem ver a mágoa por detrás do sorriso forçado. O psiquiatra só fica bem nos filmes de Hollywood. O importante é ter opinião sobre tudo, especialmente acerca do que não se sabe. Falar dos outros é a melhor desculpa para não falarmos de nós.

As mensagens não são descodificadas. Não há tempo. Hoje em dia é tudo rápido e com filtros. Fast food, fast job, fast love, fast life, fast death. Play it again? Game over. Queremos tudo aqui e agora. Somos escravos do tempo, mas esse grande senhor escapa-nos cada vez que ousamos desafiá-lo. Sentimo-nos frustrados quando as coisas não acontecem rapidamente. Ficamos desamparados perante o imprevisto porque não estamos programados para falhar.

Desde a mais tenra idade, somos formatados para o sucesso. Só os mais fortes conseguem vencer as adversidades da vida, dizem-nos. Como se a sensibilidade fosse um bicho raro que transmite um vírus mortal. Quem não encaixa no molde é posto de lado porque não há espaço para a diferença nem margem para as dúvidas. Preocupamo-nos, sobretudo, com a imagem que projetamos nos outros. O ter sobrepõe-se ao ser. Sofremos em silêncio para não incomodar.

São as adversidades da vida que nos fazem crescer. O longo rio tranquilo é demasiado brando para ensinar-nos seja o que for. O melhor capitão de um barco não nasce num mar calmo. Não importa quantas vezes caímos nem quantos erros cometemos. Só os imbecis é que nunca se enganam. Mas e se não soubermos levantar-nos? E se repetirmos os mesmos erros vezes sem conta? Continuaremos a cair e pediremos ajuda para voltarmos a ficar de pé. Trataremos das feridas deixadas pela queda e passaremos a sentir orgulho nas cicatrizes que outrora permaneciam escondidas.

A empatia, a criatividade, a resiliência, o respeito e o perdão não passam de moda, são intemporais. A felicidade é efémera, mas os momentos felizes podem colecionar-se a vida inteira. Basta estar disponível e aceitar-se como um ser extraordinário. Perfeitamente imperfeito. Deveríamos ser capazes de criar um fio invisível que nos une a todos os que valem a pena, desenhar uma bolha protetora contra aqueles que devemos evitar e apagar com uma borracha gigante tudo o que nos faz sofrer.

Mas se assim fosse, a vida não teria graça nenhuma, pois não?! Nem tudo é mau. Podemos criar mecanismos de defesa. Pôr-se a jeito no parapeito da janela e ver desfilar a pobreza de espírito é uma ótima maneira de evitar o confronto desnecessário. Sermos apenas espetadores da estupidez alheia requer treino, mas acreditem que vale a pena! Às vezes o silêncio é a única resposta possível.

Filipa Moreira da Cruz

Quebra cabeças

Photo : KaDDD

Alma na lama
Lama nos pés
Pés descalços
Descalços os sonhos
Sonhos levados pelo vento
Vento áspero e violento
Violento golpe de estado
Estado de bonança
Bonança aparente
Aparente felicidade
Felicidade que escapa
Escapa entre os dedos
Dedos mágicos
Mágicos segundos
Segundos escravos do tempo
Tempo dono e senhor da vida
Vida simplesmente… vivida!

Filipa Moreira da Cruz

Bruma matinal

Photo : Paul Laurent Bressin

Realidade destorcida
Feridas abertas
Esperança agradecida
Promessas incertas
Silêncios desfeitos
Alma ausente
Sonhos insatisfeitos
Coração doente
Nevoeiro mentiroso
Olhar esquivo
Beijo guloso
Gesto impulsivo
Bruma caprichosa
Futuro incerto
Mão carinhosa
Fim do desacerto.

Filipa Moreira da Cruz

Êxtase da vida

Reprise

Photo : Filipa Moreira da Cruz

Todos os dias acordo
Deambulando nos meus sonhos
Que partilho com o meu amigo
Arrebatador, secreto, fiel

O espírito empurra-me
Por entre as labaredas do passado
Que me perseguem e arrastam
Para essa constante saudade

As trevas da escuridão
As estrelas da noite clara
São confidentes nas horas divididas
Entre o cansaço e a insónia

Tantas vezes hesitei
Lamentei lágrimas
Escondi frustrações
Desafiei monstros

O coração é o único contentamento
O músculo que me mantém viva
Por fora sou ligeireza
Por dentro sou discernimento.

Filipa Moreira da Cruz